A crítica cultural como exercício de civilização - Blog A CRÍTICA

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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A crítica cultural como exercício de civilização




Há uma reação cada vez mais comum diante de qualquer crítica cultural: “Não gosta? Não consuma.” “Não assista.” “Não leia.” “Faça melhor.” Como se toda análise sobre música, literatura, televisão ou comportamento coletivo fosse apenas uma questão de gosto individual — uma preferência privada, restrita ao âmbito do paladar subjetivo.


Essa resposta automática revela um empobrecimento preocupante do debate público. Reduzir a crítica cultural a uma implicância pessoal é ignorar que a cultura não é apenas entretenimento: ela molda imaginários, valores, expectativas e formas de convivência. O que se consome em massa influencia o modo como pensamos, votamos, educamos nossos filhos, compreendemos o mundo e a nós mesmos.


Não se trata de afirmar que toda crítica está correta. Muitas podem ser exageradas, injustas ou mal formuladas. A crítica também erra — e deve ser criticada. O ponto central, porém, é outro: a crítica cultural é uma instituição intelectual fundamental. Ela integra o próprio processo civilizatório. Sem ela, a cultura se torna um território blindado, imune ao questionamento, entregue apenas à lógica do mercado e ao aplauso acrítico.


A cultura de massas, em particular, exerce um poder formativo enorme. Canções, séries, novelas, influenciadores, best-sellers e realities não são fenômenos neutros. Eles ajudam a definir padrões de sucesso, modelos de corpo, de masculinidade e feminilidade, de riqueza, de linguagem e de aspiração social. Questionar esses padrões não é um ato de intolerância; é um gesto de responsabilidade pública.


Há uma tendência contemporânea de subjetivar tudo: “é só sua opinião”. Como se toda avaliação fosse incomensurável e, portanto, irrelevante para o debate coletivo. No entanto, embora o gosto tenha dimensão subjetiva, seus efeitos são objetivos. A repetição sistemática de certos conteúdos produz hábitos mentais. E hábitos mentais moldam consciências.


Uma sociedade que desestimula a crítica — rotulando-a automaticamente como elitista, invejosa ou ressentida — acaba criando um ambiente hostil ao pensamento. Curiosamente, essa postura que se apresenta como tolerante pode tornar-se autoritária, pois tenta interditar o dissenso sob a máscara da virtude. Ao sugerir que o crítico “simplesmente não consuma”, desloca-se a discussão do campo público para o privado, como se a cultura não fosse um fenômeno social compartilhado.


O pensamento crítico é uma das marcas distintivas da condição humana. E uma de suas expressões mais importantes é a crítica dos gostos e costumes — a crítica da cultura. Foi assim que sociedades revisaram práticas discriminatórias, superaram estereótipos e elevaram padrões estéticos e éticos. Questionar o que se consome não é um capricho intelectual; é parte do processo pelo qual comunidades amadurecem.


Criticar não significa odiar. Ao contrário: frequentemente é um gesto de cuidado. Quem critica demonstra que leva a sério aquilo que analisa. Indiferença é silêncio. A crítica é diálogo, ainda que incômodo. É sinal de que a cultura importa o suficiente para ser debatida.


Não se trata de substituir memes por tratados, nem de transformar toda experiência estética em tese acadêmica. Trata-se de reconhecer que cultura não é apenas passatempo: é formação simbólica. E formação simbólica tem consequências.


A crítica da cultura, portanto, não é o oposto da cultura. Ela é cultura em seu estágio reflexivo. Uma geração que teme a crítica talvez não tema apenas opiniões divergentes — talvez tema o próprio exercício do pensamento. E uma sociedade que abandona o pensamento crítico corre o risco de empobrecer não apenas seus produtos culturais, mas sua própria vida democrática.


Defender a crítica cultural é, em última análise, defender a dignidade do debate e a maturidade intelectual de uma comunidade. É afirmar que somos mais do que consumidores: somos cidadãos capazes de refletir sobre aquilo que nos forma.

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