Por Matheus Martins, sócio do Barcelos Martins Advogados e especialista em Direito Empresarial*
A liquidação do Banco Master e do Will Bank pelo Banco Central, no rastro da Operação Compliance Zero, não foi apenas mais um episódio de instabilidade financeira. Para além das investigações de fraudes apuradas pela Polícia Federal e dos bilhões mobilizados pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), o caso expôs uma fragilidade pouco discutida no Brasil: a baixa capacidade da população de compreender riscos financeiros e, consequentemente, de confiar de forma informada no próprio sistema.
Embora o Banco Master já estivesse no radar de autoridades e analistas, o impacto social mais visível ocorreu com o Will Bank, seu braço digital. Um grande contingente de correntistas foram diretamente afetados por uma crise que, para muitos, parecia distante da sua realidade cotidiana. Trata-se de um público digitalizado, mas não necessariamente financeiramente educado, o que amplia a sensação de insegurança quando crises desse tipo ocorrem.
Crises financeiras sempre abalam a confiança. Em países com maior letramento financeiro, esse abalo tende a ser mais racional e temporário. No Brasil, frequentemente se transforma em medo difuso, desinformação e descrédito generalizado.
Levantamentos da Febraban indicam que mais da metade dos brasileiros declara entender pouco ou nada sobre educação financeira, embora reconheça sua importância. O Banco Central, que mede o letramento financeiro da população em uma escala de 0 a 100, aponta uma média nacional em torno de 60 pontos. O problema vai além da falta de conhecimento técnico, pois envolve a dificuldade de interpretar produtos financeiros, avaliar riscos e compreender limites de proteção institucional.
O episódio envolvendo o Banco Master e o Will Bank tornou isso evidente. Muitos clientes só passaram a entender, durante a crise, como funcionam o teto de cobertura do FGC, os prazos de ressarcimento, quais produtos são efetivamente garantidos e quais riscos não estão cobertos. Em paralelo, proliferaram informações falsas, golpes oportunistas e pânico digital, sintomas típicos de um ambiente marcado por forte assimetria de informação.
O próprio FGC foi colocado à prova. Estimativas de mercado indicam que os episódios de liquidação em 2025 levaram o Fundo Garantidor de Créditos a enfrentar um dos maiores volumes de ressarcimento de sua história, na casa de dezenas de bilhões de reais. Embora o mecanismo tenha funcionado, o volume e a visibilidade do caso testaram a confiança do público na principal rede de proteção do sistema financeiro.
É importante destacar que educação financeira não substitui fiscalização, governança ou atuação rigorosa das autoridades. Casos como o do Banco Master decorrem de falhas graves que precisam ser apuradas e responsabilizadas. Mas educação financeira atua como um amortecedor social, ajudando a reduzir reações emocionais e o descrédito generalizado em momentos de crise.
Sem esse amortecedor, cada episódio específico tende a se transformar em crise sistêmica de confiança. O impacto se espalha: retração do investimento, aumento da aversão ao risco, concentração excessiva em poucos produtos considerados “seguros” e afastamento do cidadão comum do sistema financeiro formal. As consequências também atingem empresas, especialmente pequenas e médias, em um ambiente em que o crédito encarece e decisões são adiadas.
O debate que o caso Banco Master, e o impacto sobre o Will Bank, deveria provocar vai além da responsabilização jurídica, que é necessária, e da reparação financeira, que é obrigatória. Ele precisa abrir espaço para uma discussão mais profunda sobre educação financeira como política estrutural, não como resposta emergencial após cada crise. Educação financeira não impede falhas institucionais, mas reduz seus danos sociais. Em um país onde a confiança já é um ativo escasso, isso talvez seja o mínimo indispensável para evitar que cada novo episódio se transforme em trauma coletivo.
*Matheus Martins é sócio do Barcelos Martins Advogados, especializado em assessoria jurídica para startups e empresas de pequeno e médio porte. Com forte atuação em direito empresarial e contratos estratégicos, é defensor de modelos inovadores de prestação de serviços jurídicos que aliam eficiência, previsibilidade e entrega de valor constante aos clientes.


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