A frase, assim posta, pode parecer despropositada, quando não absurda. Todavia, não é mais estranha do que muitas verdades humanas, que se dizem sem conexão aparente e, ainda assim, se sustentam pela força do costume ou da imaginação. Quem a ouviu pela primeira vez, no entanto, não a tomou por metáfora, mas por consequência lógica: se choveu em Caicó, algo extraordinário devia ter ocorrido no mundo.
Luís da Câmara Cascudo, no seu livro de memórias O Tempo e Eu, narra uma antiga rivalidade entre dois jornais de Natal, no começo do século XX. Um deles, moderno e presunçoso, dispunha do telégrafo e circulava pela manhã; o outro, mais modesto e sem os favores da técnica, chegava às ruas apenas no fim da tarde. Apesar disso — e aqui começa o mistério — o vespertino conseguia publicar notícias fresquíssimas, muitas delas preparadas pelo rival para o dia seguinte. Suspeitava-se, como é natural em tais casos, da existência de um espião: um homem discreto, talvez invisível, que atravessava redações levando, no bolso ou na memória, as novidades ainda quentes.
Sucedeu que, certa feita, chegou à redação do jornal matutino uma mensagem telegráfica singela e seca como o sertão: “Choveu em Caicó”. O redator que a recebeu, homem afeito às hipérboles da vida nordestina, não conteve o espanto e, em voz alta, comentou com os colegas: “Morreu o Papa”. Não porque houvesse relação entre os dois fatos, mas porque chover em Caicó é acontecimento tão raro quanto o falecimento de um pontífice romano.
O que era apenas expressão de assombro ganhou corpo de notícia. Naquela mesma tarde, o jornal que não possuía telégrafo estampava, com a solenidade de praxe, a morte do Papa reinante. O espanto foi geral, e a zombaria maior ainda na manhã seguinte, quando se soube que o Papa estava vivíssimo e que o único milagre ocorrido fora mesmo a chuva em Caicó.
Concluiu-se, entre risos, que o Papa não morrera; quem morrera fora a lógica. Ou, talvez, apenas se confirmara uma velha verdade sertaneja: não é todo dia que morre um Papa — e muito menos que chove em Caicó.



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