A escritora Lídia Jorge apelou hoje à vigilância crítica sobre a Inteligência Artificial (IA), sublinhando a necessidade de proteger o “pensamento autónomo e singular”, durante a cerimónia de entrega do Prêmio Pessoa 2025, realizada em Lisboa.
Na sua intervenção, a autora alertou para o impacto da IA generativa num mundo que descreveu como “decomposto, à beira do estado de alucinação”, defendendo que a linguagem, a Poética e o pensamento humano são hoje mais determinantes do que nunca.
“A IA imita, mas não sente”
A escritora alertou para aquilo que considerou ser um “corte epistemológico entre o criador e a criatura”, evocando a importância de Fernando Pessoa e da sua obra como exemplo máximo da complexidade do pensamento humano.
“Em nome do futuro, convém ficar vigilante”, sublinhou.
Benefícios tecnológicos e risco de aniquilação do pensamento
Apesar de reconhecer os benefícios potenciais da IA, Lídia Jorge advertiu para o risco de o pensamento humano ser esmagado pela abundância de soluções tecnológicas.
“Provavelmente estaremos à beira de obter benefícios fantásticos para as nossas vidas, mas convém perceber se o nosso pensamento autónomo e singular não será aniquilado no meio dessa inundação”, afirmou.
A autora defendeu que a linguagem, entendida como fundamento da condição humana, deve continuar a ser dominada pelas pessoas: “A nossa esperança é que a linguagem não tenha fim enquanto formos donos dela”.
Experiência pessoal com IA generativa
Durante o discurso, a escritora relatou uma experiência concreta com plataformas de IA generativa, como os ‘chats’ GPT e Gemini, que lhe apresentaram soluções aparentemente completas, mas falsas, para fragmentos da “Ode à Noite”, de Álvaro de Campos.
“Imitaram o tipo de linguagem. O resto é falsidade. E não é fácil desmontá-la”, alertou.
Para Lídia Jorge, a poesia representa “o último paredão” contra a intervenção algorítmica na construção do discurso, por ser a forma mais sofisticada da linguagem humana.
O peso simbólico do Prêmio Pessoa
A escritora confessou ter recebido com surpresa e alguma intimidação a distinção, comunicada em dezembro passado. Um prémio que, pela sua natureza e pelo nome do seu patrono, considerou particularmente exigente.
Referindo-se a Fernando Pessoa, afirmou tratar-se de “mais do que um rei, o imperador da poesia do século XX”, destacando a força, as contradições e a dimensão invisível da sua obra, citando o biógrafo Richard Zenith.
Democracia, memória e intervenção cívica
Assumindo-se como uma narradora surgida com a Democracia, Lídia Jorge refletiu sobre o Portugal pós-25 de Abril, marcado pela descolonização, pela transição democrática e por feridas sociais ainda por sarar.
No início da intervenção, agradeceu a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a quem reconheceu o papel pedagógico na explicação da Democracia aos portugueses.
Cerimônia e distinção
A cerimônia decorreu na sede da Caixa Geral de Depósitos, em Lisboa, com a presença da ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes.
O júri do Prêmio Pessoa destacou a “escrita criativa e diversificada” da autora de Misericórdia, bem como a sua intervenção cívica e contributo para o debate democrático em Portugal.
Percurso literário
Nascida em 1946, em Boliqueime, no Algarve, Lídia Jorge estreou-se no romance em 1980 com O Dia dos Prodígios. Ao longo da carreira, recebeu vários prémios nacionais e internacionais, incluindo o Prémio Médicis de Melhor Romance Estrangeiro, em França, e o Prémio FIL de Literatura em Línguas Românicas.
O Prêmio Pessoa, um dos mais prestigiados do país, tem um valor monetário associado de 70 mil euros.



Nenhum comentário:
Postar um comentário