Metal precioso atinge patamares recordes impulsionado por compras de bancos centrais e incertezas globais, enquanto criptomoeda sofre com cenário macroeconômico
| Paulo Cunha, CEO da iHUB Investimentos Divulgação |
O mercado financeiro global vive um momento de forte contraste entre ativos tradicionais e digitais. O ouro voltou a renovar recordes históricos em 2026, chegando a superar a marca de US$ 5.600 por onça em janeiro e voltando a operar acima de US$ 5.000 nos primeiros dias de fevereiro, mesmo após sessões de alta volatilidade. O movimento é sustentado por compras contínuas de bancos centrais, enfraquecimento do dólar e aumento das tensões geopolíticas.
No sentido oposto, o Bitcoin atravessa um período de correção relevante. Após atingir o recorde histórico de cerca de US$ 126 mil no fim de 2025, a criptomoeda já recuou mais de 30%, sendo negociada recentemente entre US$ 60 mil e US$ 70 mil, em meio a um dos maiores episódios de volatilidade desde o colapso da FTX. O cenário reforça o debate sobre o papel do Bitcoin como proteção de valor.
Ouro como refúgio em tempos de incerteza
Além de investidores privados, bancos centrais seguem ampliando suas reservas em ouro. No Brasil, o Banco Central retomou as compras do metal após quatro anos sem aquisições. Entre setembro e novembro de 2025, o BC comprou 42,8 toneladas de ouro, elevando o volume total de 129,6 para 172,4 toneladas, um crescimento de 33% no estoque físico.
Em termos financeiros, o valor das reservas em ouro do Brasil praticamente dobrou no período, saltando de cerca de US$ 11,7 bilhões em janeiro para aproximadamente US$ 23,3 bilhões em novembro, passando a representar 6,5% do total das reservas internacionais, ante 3,6% no início do ano.
Paulo Cunha, CEO da iHUB Investimentos, explica que o movimento retrata um cenário estrutural. “Reflete um movimento global de proteção contra inflação, desconfiança nas moedas fiduciárias no geral e enfraquecimento do dólar. O Bitcoin nunca foi seriamente considerado uma reserva de valor como o ouro por parte de bancos centrais e tesouros nacionais”, afirma.
Ele acrescenta que o ouro se fortalece justamente por não estar sujeito à expansão monetária. “É um ativo descentralizado que nenhum governo pode imprimir para desvalorizar sua própria dívida. Em momentos de desarranjo fiscal, o ouro tende a ganhar relevância como proteção real de patrimônio”, diz Cunha.
Bitcoin: volatilidade e o mito do ‘ouro digital’
Apesar de frequentemente ser chamado de “ouro digital”, o Bitcoin tem apresentado comportamento mais próximo de ativos de risco. Em 2026, a criptomoeda já acumulou semanas de fortes oscilações, com quedas diárias superiores a 10% e correlação elevada com ações de tecnologia, que também sofrem com a perspectiva de juros mais altos por mais tempo nos Estados Unidos.
“O termo ‘ouro digital’ se refere principalmente à oferta limitada, que tanto o ouro quanto o Bitcoin possuem. Porém, o Bitcoin ainda é muito recente, foi incorporado ao sistema financeiro e hoje tem correlação forte com ações de tecnologia, que são muito influenciadas pelas taxas de juros nos Estados Unidos”, explica Paulo Cunha.
Segundo Cunha, a recente desvalorização está diretamente ligada ao cenário macroeconômico e à estrutura do mercado cripto. “Neste momento, o movimento está relacionado ao receio de juros mais altos por mais tempo. Como o Bitcoin é um ativo muito alavancado, sua volatilidade implícita é maior, o que provoca quedas mais intensas quando determinados níveis de preço são rompidos”, afirma.
Para o executivo, embora o Bitcoin ainda possa ter espaço em estratégias de diversificação, o ouro apresenta hoje uma relação mais clara entre risco e proteção. “Hoje, sem dúvida, o ouro apresenta melhor equilíbrio entre proteção e previsibilidade. Em portfólios diversificados, faz sentido ter exposição a ambos, mas com limites. É recomendado até no máximo 10% em ativos mais alternativos”, orienta.


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