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sexta-feira, 3 de abril de 2026

Cursos de IA saltam de 4 para 27 no Sisu, mas acesso gratuito segue limitado

Expansão acelerada dos cursos de inteligência artificial no Sisu 2026 contrasta com a oferta limitada de formação gratuita e reacende debate sobre acesso e desigualdade

Ana Letícia Lucca, CRO da Escola da Nuvem


A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante e passou a ocupar o centro das decisões acadêmicas e profissionais no Brasil. No Sisu 2026, o número de graduações ligadas à área saltou de 4 para 27 cursos, somando 1.496 vagas. A maioria dessas formações foi aprovada entre novembro e dezembro de 2025, em resposta direta à pressão do mercado por profissionais especializados. 

“A inteligência artificial deixou de ser uma tendência futura e virou uma competência básica para o presente. O problema é que o acesso a essa formação ainda é profundamente desigual”, afirma Ana Letícia Luca, CRO da Escola da Nuvem, organização da sociedade civil que oferece formação gratuita em computação em nuvem e IA generativa para pessoas em situação de vulnerabilidade. 

Apesar da expansão, o acesso gratuito segue limitado e regionalmente concentrado. Em São Paulo, a UFSCar tornou-se a única universidade pública do estado a criar um bacharelado específico na área. Na região Norte, apenas uma universidade oferece o curso pelo Sisu. A UFT é a única do país com um bacharelado interdisciplinar em inteligência artificial, enquanto Minas Gerais concentra a maior parte das graduações ofertadas.  

Para Ana Letícia, o desenho atual reforça desigualdades históricas. “Quando apenas uma região do país concentra a maior parte das vagas e o ensino gratuito é restrito, o risco é aprofundar assimetrias que já existem no acesso à educação e ao trabalho”. 

Nesse cenário, iniciativas fora do ensino superior tradicional ganham relevância. A Escola da Nuvem atua com programas profissionalizantes totalmente gratuitos em computação em nuvem AWS e inteligência artificial generativa, com foco na rápida inserção no mercado de trabalho. “A universidade está se movimentando, o que é positivo, mas a velocidade do mercado é muito maior do que a capacidade de expansão do ensino superior. Por isso, modelos alternativos e gratuitos de formação são essenciais”, diz a executiva. 

A expansão das graduações em IA está alinhada ao PBIA (Plano Brasileiro de Inteligência Artificial), que prevê ações de formação, capacitação e requalificação profissional em larga escala para reduzir a dependência do país de tecnologias e talentos estrangeiros. Segundo o MEC, o movimento ocorre no âmbito do programa Universidades Inovadoras e Sustentáveis, lançado em outubro de 2025, que apoia a criação de cursos, a ampliação de vagas em áreas STEM e o fortalecimento dos núcleos de inovação tecnológica. 

A alta procura reforça a mudança de mentalidade dos estudantes. Na UFG, o curso de inteligência artificial superou medicina e se tornou o mais concorrido da universidade. Para a Escola da Nuvem, o dado evidencia a urgência da discussão sobre acesso. “A formação em inteligência artificial não pode ser privilégio de quem tem tempo, renda ou acesso a determinadas universidades. Estamos falando de uma competência essencial para gerar renda agora”, afirma Ana Letícia. 

Segundo ela, o debate central já mudou. “A questão não é se o Brasil vai formar profissionais em IA, mas quem vai conseguir se formar. Se não houver ações coordenadas entre universidades, políticas públicas e organizações da sociedade civil, a IA corre o risco de se tornar mais um fator de exclusão, e não de desenvolvimento”.  


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