"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 11 de janeiro de 2014

País Basco: Cem mil pessoas manifestam-se “pela paz e o acordo” em Bilbau

A sociedade basca deu neste sábado uma impressionante imagem de luta em defesa da Paz, com a participação de mais de cem mil pessoas, segundo a polícia. A manifestação foi silenciosa e decorreu sob o lema “Giza Eskubideak Konponbidea, Bakea” (“Direitos Humanos, Acordo e Paz”) e foi convocada pelos partidos PNV, Sortu, Aralar, EA, Alternatiba, pelas centrais sindicais ELA e LAB e teve a adesão do partido navarro Geora Bai.
A manifestação de Bilbau pela Paz no País Basco teve a participação de cem mil a cento e dez mil pessoas, segundo a polícia da cidade
A manifestação tinha sido convocada inicialmente pela iniciativa Tantaz tanta (Gota a gota)
para protestar contra a dispersão dos presos da ETA. Partido Popular, PSOE e a associação das vítimas da ETA opuseram-se, argumentando que se tratava de uma ação ligada à ETA. O juiz Eloy Velasco da Audiencia Nacional proibiu a sua realização. Porém, O PNV (partido nacionalista basco) e a coligação Sortu convocaram a manifestação deste sábado – a Audiencia Nacional autorizou, PP e PSOE criticaram o PNV por “estar a dar cobertura à “esquerda abertzale”.
A primeira fila da manifestação foi composta por 2 membros de cada um dos movimentos que a convocaram, seguida pelos seus principais dirigentes e deputados. Também participaram na manifestação a presidenta do Parlamento basco, o presidente da câmara de San Sebastián e a senadora Esther Capella, da ERC da Catalunha.

O protesto foi silencioso, por decisão conjunta, mas a manifestação percorreu as ruas no meio de aplausos lentos. E, desde o princípio, grupos de pessoas gritaram "presoak kalera, amnistia osoa" (presos para a rua, amnistia geral) ou "presoak etxera" (presos para casa).
O porta-voz do PNV no parlamento basco, Joseba Egibar, declarou à comunicação social, no início da manifestação, que o seu partido trabalha para “consolidar definitivamente um cenário de paz e de convivência em Euskadi”.
Na parte final da manifestação seguia um grande cartaz com a palavra "Askatasuna" (Liberdade).

De um outro lado

Um aprendiz perguntou a seu mestre se poderia mudar ao Mundo mesmo perdoando àqueles que serviam de empecilho às mudanças necessárias. Perguntou porque não queria odiar, mas também queria que o domínio da oligarquia acabasse. E ele era um revolucionário.

O sábio mestre respondeu: - O ódio que exclui o outro é outra coisa, se pode sim lutar pela mudança sem se fachar num ciclo de ódios, cegadores da autoanálise. Quando construímos nossas verdades muitas vezes nos autocegamos com elas, aprenda a fazer a mudança, ser contrário e ao mesmo tempo não se feche. Poderia me perguntar, ah, mas em uma 'luta" política isso é muito perigoso, um lado quer a todo custo vencer o outro, vai ficar com o "adversário" na cabeça e não vai saber se autocriticar. Pois é aí que está o epicentro do problema, se não dá pra conviver, dá pra compreender.

Noam Chomsky: a política dos EUA tornou-se "selvageria pura"

"A recusa em fornecer o nível mais básico de vida para as pessoas que se prendem com esta monstruosidade é apenas pura selvageria", disse Chomsky em entrevista ao 'The Huffington Post'. "Não há outra palavra para descrevê-lo", disse o pensador político progressista.

Chomsky disse que os problemas econômicos recentes, no entanto, não são fenômenos isolados, mas sim o produto de décadas de políticas econômicas implementadas pelas elites americanas. Algumas das principais mudanças incluem a assinatura da Organização Mundial do Comércio, o Acordo de Livre Comércio da América do Norte e da desregulamentação de grandes indústrias, disse o intelectual.
"O problema amplo e muito grave da economia que está nos olhando na cara não tem nada a ver com as maçãs podres no Congresso", disse Chomsky." Estes são problemas estruturais profundos e têm a ver, de fato, com o assalto neoliberal sobre a população, e não apenas os EUA, mas o mundo, o que levou a cabo a última geração. Existem áreas que escaparam, mas é muito amplo", disse o ativista.

Além disso, Chomsky disse ao jornal que os interesses corporativos dominam a agenda política do Partido Democrata e  citou a observação do erudito conservador Norm Ornstein do Partido Republicano "movido fora do espectro" e não funciona mais como uma instituição parlamentar séria.

"Anos atrás, dizia-se que os EUA é a única nação do partido  único - o partido econômico- com duas facções: os democratas e republicanos",disse Chomsky . "Isso não é mais verdade. Permanece sendo a nação do partido único, mas agora tem apenas uma facção. E não é a Democrata , é a dos republicanos moderados. Se chama Novos Democratas, que são a força dominante no Partido Democrata, são mais ou menos o que costumava ser republicanos moderados um par de décadas atrás. E o resto do Partido Republicano se há afastado fora do espectro", concluiu o analista.

O Partido Republicano dos EUA bloqueou um acordo para prorrogar o subsídio de desemprego durante as negociações do orçamento em Dezembro. Na terça-feira, alguns republicanos juntaram a uns democratas do Senado para avançar um benefício de contas, mas o negócio enfrenta uma difícil batalha na Câmara dos Representantes, controlada pelos republicanos.

Actualmente nos EUA há cerca de três pessoas à procura de um emprego para cada trabalho .

Pelo professor de Macau derrubemos o governo

Aquilo que ficou conhecido como Primavera árabe começou quando um tunisiano cansado de ter que pagar propinas e contra um regime ditatorial como um todo ateou fogo ao próprio corpo, esse ato faz com que milhares fossem às ruas e derrubassem um regime há mais de 20 anos governando o país,o presidente Zine el-Abdine Ben Ali estava no poder desde novembro de 1987. Hoje a Tunísia está finalizando uma nova Constituição.
No Rio Grande do Norte um professor da Cidade de Macau, Fernando Emanoel Vasques Leonez, 54 anos,  cometeu suicídio deixando uma carta onde dizia: "Ato de protesto contra o governo do estado, falta de pagamento".

Mas, ao contrário da Tunísia, e levador a crermos que temos uma Democracia e não precisamos de indignação, apesar de tudo que ocorrera nas ruas em 2003, até o momento nem a categoria dos professores se indignara. Essa é uma questão específica antiga, educação no RN é um desastre, o estado é peça de manipulação de alguns oligarcas.

Eu só quero saber se vamos ficar todos parados, vendo o tempo passar? Derrubem essa oligarquias, retirem a Governadora do Poder da melhor maneira, faça isso pela educação do Estado. Esse estado nunca teve cidadania, já está na hora.


Mais de 75% dos grandes carnívoros estão a desaparecer

Leões, focas, ursos e outras espécies de grandes predadores estão a desaparecer dos seus habitats, acabando com o equilíbrio de diversos ecossistemas no mundo. Por Fernanda B. Müller do Instituto CarbonoBrasil
Menos de 250 leões adultos sobrevivem atualmente no oeste da África - Foto wikimedia
Um estudo publicado nesta sexta-feira (10) no periódico Science mostra pela primeira vez como ameaças – perda de habitat, perseguição por humanos e eliminação de presas – estão a somar-se e a criar hotspots globais de declínio de carnívoros.
Mais de 75% das 31 espécies dos maiores carnívoros do planeta estão em declínio, e 17 delas agora ocupam menos de metade da sua área original, alertam os autores.
O sudeste da Ásia, sul e leste da África e a Amazónia estão entre os locais onde várias espécies de carnívoros estão a desaparecer. No mundo desenvolvido, com algumas exceções, esses animais já foram na sua maioria exterminados.
“Globalmente, estamos a perder os nossos grandes carnívoros”, comentou William Ripple, principal autor do estudo e professor do Departamento de Ecossistemas Florestais e Sociedade da Universidade Estadual do Oregon.
“Muitas das espécies de grandes predadores estão ameaçadas. A sua abrangência está em colapso. Muitas correm risco de extinção, local ou globalmente. E, ironicamente, estão a desaparecer exatamente enquanto aprendemos os seus efeitos ecológicos importantes.”
Interconetividade
Dingo (canídeo selvagem australiano) - Foto wikimedia

Os investigadores reviram relatórios científicos publicados recentemente e selecionaram sete espécies que têm sido estudadas pelos seus efeitos ecológicos generalizados, incluindo leões, leopardos, o lince-euroasiático, o puma, lobos cinzentos, a lontra-marinha e dingos (uma sub-espécie de lobo).
Ripple e o seu colega na Universidade Estadual do Oregon, Robert Beschta, documentaram os impactos do puma e lobos sobre a regeneração de florestas e da mata ciliar em Yellowstone (Estados Unidos) e outros parques nacionais da América do Norte. Eles concluíram que menos predadores significa um aumento na deteção de veados e alces, que, ao se alimentarem de folhas e galhos, impactam a vegetação, as aves e pequenos mamíferos, mudando também outras partes do ecossistema num efeito em cascata.
Estudos com linces, dingos, leões e lontras-marinhas apresentaram efeitos similares, relatam os autores. Em algumas partes da África, a redução no número de leões e leopardos coincide, por exemplo, com um aumento drástico dos babuínos-oliva, que ameaçam cultivos e rebanhos.
Os autores pedem que haja uma melhor compreensão do impacto dos grandes carnívoros nos ecossistemas e explicam que o conceito clássico de que predadores são daninhos e acabam com a vida selvagem é ultrapassado. Investigações, por exemplo, em recifes de coral no sudeste asiático, hotspot mundial da vida marinha, mostram que os ecossistemas mais saudáveis são os que têm a maior população de tubarões.
Ripple e os seus colegas dos Estados Unidos, Austrália, Itália e Suécia sugerem que seja formada uma ação internacional para conservação desses animais em coexistência com as pessoas, a exemplo da Iniciativa para Grandes Carnívoros da Europa, um grupo sem fins lucrativos afiliado à União Internacional de Conservação da Natureza (IUCN).
“Promover a tolerância e a coexistência com grandes carnívoros é um desafio crucial à sociedade que, no fim, determinará o destino destes animais”, concluem os cientistas.
Cientistas e gestores de áreas com vida selvagem precisam reconhecer que há evidências cada vez maiores sobre os papéis complexos dos carnívoros nos ecossistemas, e também os seus benefícios sociais e económicos, colocam os autores. Eles ressaltam que este conceito já era defendido pelo Ecólogo Aldo Leopold na primeira metade do século passado, porém foi amplamente ignorado por décadas.
“Dizemos que estes animais têm o direito intrínseco de sobreviver, mas eles também estão a fornecer serviços económicos e ecológicos que as pessoas valorizam”, disse Ripple. Entre esses serviços estão o sequestro de carbono, a restauração de mata ciliar, biodiversidade e controle de doenças.
Ripple ressalta que, onde as populações de grandes carnívoros foram restauradas, como no caso dos lobos de Yellowstone e dos linces na Finlândia, os ecossistemas responderam rapidamente.
“A natureza está altamente interligada”, nota. “O trabalho em Yellowstone e noutros locais mostra como uma espécie afeta a outra e a outra de diferentes formas.”
Predadores humanos
Leopardo - Foto wikimedia

Por mais bárbaro e absurdo que pareça, grandes carnívoros ainda continuam a ser presas frequentes dos humanos. Tanto a caça ilegal como as pressões que a expansão humana impõe sobre os habitats desses animais, que precisam de áreas extensas e ricas para sobreviver, estão a colocá-los à beira da extinção.
Nesta semana, um artigopublicado no PLoS ONE alerta que menos de 250 leões adultos sobrevivem atualmente no oeste da África, uma notícia aterradora. Já se sabia que os animais corriam risco, porém, não se esperava que a situação fosse tão crítica. Avaliando 21 parques, cientistas constataram a presença de leões em apenas quatro, sendo que somente uma população tinha mais do que 50 indivíduos.
E isso não é privilégio dos humanos modernos. Muitos investigadores renomados, como Jared Diamond, defendem a teoria de que a extinção da megafauna começou há milhares de anos, acompanhando o ritmo da chegada do homem aos novos continentes.
Ainda que muitas brechas e dúvidas permaneçam no nosso conhecimento sobre e evolução e interações dos animais, em especial da megafauna em contraposição ao desenvolvimento humano, há subsídios suficientes para que essa tendência histórica seja finalmente revertida.
Referências: W.J. Ripple, R.L. Beschta, M.P. Nelson, et al. Status and Ecological Effects of the World's Largest Carnivores. Science (2014) Vol 334.
Artigo de Fernanda B. Müllerdo Instituto CarbonoBrasil

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Vicenç Navarro: As farsas do Fundo Monetário Internacional

Artgo publicado por Vicenç Navarro na revista digital SISTEMA, 10 de enero de 2014
Neste artigo o economista espanhol critica a falta de rigor de muitos relatórios do Fundo Monetário Internacional, que analisam e propõem a desvalorização interna ou queda dos salários como a medida mais conveniente para sair das crises.

No maiores fóruns de reflexão financeira e econômica na Espanha há uma atitude quase reverente para com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Os seus relatórios são lidos com grande detalhe e suas recomendações são levadas muito a sério. O FMI é, se olhe como se olhe, uma das instituições financeiras internacionais que têm maior influência sobre os meios de comunicação e círculos políticos na Espanha, onde a sabedoria convencional é produzida, interpretada e promovida.

Conheço bem  o FMI. A Universidade Johns Hopkins tem vários campi, em Washington, onde a sede do FMI está localizada, e eu sei que muitos de seus profissionais, com os quais encontro-me em conferências, seminários e reuniões profissionais. E sempre me espantou o grande respeito que origina o FMI na mídia e círculos políticos espanhóis. E a minha surpresa decorre do que o padrão técnico de seus trabalhos é geralmente, e com notáveis ​​exceções, de muito má qualidade (uma exceção para o nível de mediocridade é o departamento de pesquisa econômica, infelizmente, tem pouco impacto sobre políticas de desenvolvimento do FMI). Além disso, entre aqueles que se dizem "especialistas", há uma abundância de indivíduos treinados em locais bem conhecidos por sua sensibilidade neoliberal impermeável aos dados que mostram o contrário do que querem promover centros acadêmicos nos EUA ou na Europa. Um dos seus princípios é a ênfase habitual na redução dos salários (chamadas nacionais de desvalorização) como o mais eficaz para tirar de crises financeiras e econômicas. O FMI publica um relatório (em média, a cada quatro meses ) que se repete uma e outra vez que a queda dos salários é necessária para aumentar a competitividade e aumentar as exportações, bem como, o que irá aumentar para estimular a economia e permitir que países periféricos da zona do euro (que inclui a Espanha) saia da crise .

Conhecendo o FMI, eu garanto que em dois ou três anos ele vai mudar de posição, e sem desculpas, promover outro dogma igualmente errôneo. Se você não acredita em mim, espere um par de anos. Recordarão vocês que faz dois anos o FMI era um dos maiores promotores de outro dogma neoliberal: O de que a austeridade (corte de gastos) era necessária para a recuperação econômica. O FMI ( juntamente com a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu) esmagou milhares de vezes que ele teve que cortar cortar e cortar gastos públicos para reduzir o déficit  e a dívida, e, assim, recuperar a famosa confiança dos mercados financeiros. Menos de um ano atrás, no entanto, o FMI mudou de ideia e disse que não se fizessem muitos de cortes, pois os cortes de gastos públicos reduziria a demanda doméstica e, assim, a atividade econômica e o crescimento econômico seria reduzido. Tinham finalmente visto a luz! Mas, aparentemente, ainda não perceberam que a redução de salários (20% em média na Grécia no início de 2012!) também cria um grande problema de falta de demanda. Eu garanto que dentro de alguns anos vão descobrir. Eu duvido que façam antes porque eles são um pouco lento. Enquanto isso, as suas políticas estão a fazer enormes danos.

Falácias de sair da crise através da redução dos salários

Mas a situação é ainda pior, porque não só a sua recomendação para reduzir salários é empiricamente insustentável, mas todas as evidências, que você, leitor, não vai ver muito na mídia  - assinala que é uma das causas da crise,  uma vez que não só torna dificultado o fim da crise, mas muito pior, porque ao reduzir os salários, supostamente para ser mais competitivo, a demanda é reduzida em todos os países (competindo para ver quem tem os mais baixos salários para ser mais competitivo), que estão em crise. E esta é a causa da crise na zona do euro, mais marcada em suas nações periféricas.

Mas o que é ainda mais escandaloso é que os dados mostram bastante consistente que em nenhum desses países as exportações têm muito a ver com o nível salarial. A demanda exterior de produtos (fonte de exportações) permaneceu estagnada por toda a zona do euro durante o período de 2008-2011. Houve variações dentro de cada país. Mas, em média, houve na prática estagnação, dentro da zona euro, do comércio entre os seus países membros, apesar do declínio dos salários ocorreu em todos eles. Na verdade, o crescimento das exportações dos países da zona do euro foram para países fora da zona euro, os países emergentes , onde os salários certamente aumentaram. E este crescimento não tem nada a ver com o declínio nos salários dos países exportadores, mas com o crescimento dos salários nos países importadores (que estão fora da zona euro) e a desvalorização do euro em relação às moedas dos países. Esta é a evidência de que existe, facilmente testável. Mas eu garanto que o FMI (bem como a Comissão Europeia e do BCE) vão continuar batendo que é para baixar os salários. Na verdade, os salários dos especialistas do FMI (junto com outra instituição ultra-liberal como a OCDE), os mais altos de todo o pessoal internacional , mostrando mais uma vez que não existe uma relação estatística entre produtividade e salários. Ou, dito de outra forma, a taxa de salário é uma variável em vez de política econômica. A incoerência entre o que o FMI impõe e o que faz em sua própria casa , é enorme .

Vicenç Navarro: A ideologia que reproduzem as “ciências econômicas”

Artigo publicado por Vicenç Navarro* no Diário Público da Espanha.
Não há plena consciência de que a linguagem utilizada hoje em economia (onde o pensamento neoliberal é dominante), e no discurso hegemônico nos meios de comunicação mais amplamente reproduz valores que estão escondidos na narrativa desta área de conhecimento. Por exemplo, é comum escrever em fóruns políticos e econômicos que a direita (forças conservadoras e liberais) priorizam os mercados e os determinantes do comportamento econômico e financeiro, enquanto a esquerda enfatiza intervenções mais públicas do Estado para a configuração das prioridades nos espaços econômicos e financeiros. Nesta dicotomia é escondido ou ignorado vários fatos importantes.

Uma delas é que a palavra "mercado" significa, na verdade, os proprietários e gestores do capital, ou seja, as grandes empresas que dominam diversas áreas da atividade econômica, dentro das quais as financeiras ganharam proeminência. Ao enfatizar que os direitos têm que ser os mercados que definem as prioridades sociais estão realmente dizendo que eles são os proprietários e gerentes de grandes empresas, que têm de ter a primeira e a última palavra nas decisões que afetam a governança do país. Esta versão aparece nitidamente na famosa expressão de que "o que é bom para o Citibank (em Espanha, o Banco de Santander e Repsol) também é melhor para o país."

Essa visão, no entanto, ocorre geralmente em uma terminologia menos direta e mais sutil. Se diz que é aos "mercados" (sem usar o termo capitalistas) aos que se deve obedecer. Os ataques brutais contra o estado de bem-estar em países periféricos da Zona do Euro (que têm gasto público social por habitante inferior à da UE-15 ), com a redução da despesa pública, são apresentadas como necessárias para manter a disciplina fiscal ditada pela "mercados". E os salários caindo (que estão entre os mais baixos da UE-15) é apresentada como necessária para responder aos "mercados", fazendo com que a Espanha se torne mais competitiva. Se você , leitor, documenta o governo espanhol, a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Banco de Espanha , você verá essas expressões usadas ​​constantemente. A mensagem é que você tem que responder aos mercados. Na verdade, o que eles querem dizer (mas não se atrevem a falar ) é fazer o que os proprietários e gestores de grandes empresas e digamos mais especialmente, das financeiras, digam o que tem que fazer.

Algumas vozes, porém, escapa-lhes o que eles pensam e dizem isso abertamente. Assim, um dos arquitetos das políticas desenvolvidas pelo governo Thatcher, em uma entrevista em 1991 (“Former Thatcher adviser Alan Budd spills the beans on the use of unemployment to weaken the working class – sound familiar?” entrevista de Adam Curtis, junio de 1991), indicou que era necessário utilizar este tipo de terminologia para esconder os verdadeiros objetivos. Ele disse que esse personagem, Alan Budd , que é muito, muito necessário, o desemprego crescente, porque este é  muito desejado, a fim de enfraquecer a classe trabalhadora e assim  favorecer aos proprietários de capital. "O que fizemos, usando a terminologia marxista, foi criar uma crise do capitalismo, recriando um grande exército de reserva de desempregados, o que permite um zoom de grandes lucros a partir daí." Garanto-vos que os economistas neoliberais do atual governo, bem como um grande número de gurus econômicos e financeiros de alta visibilidade na mídia, sem ou com coletes impressionantes, pensam da mesma forma, mas eles dizem  de uma forma mais elaborada e mais sutilmente. É definida como requisitos de mercado.

Educação econômica em nosso país (Espanha)

Esta narrativa na cultura econômica é dominante (com exceções notáveis) na cultura acadêmica espanhola. Na verdade, grande parte do ensino econômico é baseado neste entendimento. A ênfase está no mercado, dando destaque à necessidade de determinar se estas são as prioridades da sociedade. Esta prioridade é dada para reproduzir a distribuição do poder, com base na propriedade e gestão de capital. Como bem disse Paul Krugman  hoje, na maioria dos departamentos de economia das universidades nos EUA , a economia que é ensinada é "o que o top 1% dos países de rendimento quer que seja feito." Situação idêntica ocorre na Espanha (mais uma vez, com algumas excepções).

Esta situação é ainda mais acentuada nos últimos 30 anos, período em que a influência do capital, e mais especialmente do capital financeiro no desenvolvimento da "economia" foi muito marcante. Da mesma forma que a indústria farmacêutica tem uma enorme influência sobre a cultura acadêmica das ciências médicas, por meio do patrocínio de conferências, revistas científicas, centros de pesquisa de financiamento, cátedras universitárias, pagamentos e doações a médicos, vemos que os bancos e as empresas têm uma enorme influência sobre os centros acadêmicos de economia, através de processos idênticos.

Mais recentemente esta intervenção é ainda mais direta, como no caso de Fedea, ou o caso de suas cátedras, financiadas por grandes empresas financeiras e industriais. Em todas elas se  promove a doutrina neoliberal, sem disfarces, desfrutando de grandes caixas de som oferecidas pelos meios de comunicação, altamente dependentes de bancos para a sua própria sobrevivência. Escusado será dizer que os meios de comunicação, muito ocasionalmente, permitem que os críticos  apresentem-se como aberta e pluralista. Mas sua maior missão, que se reuniu com sucesso, é difundir a doutrina econômica de 1 %, que é o neoliberalismo.

De fato, gurus neoliberais de grande visibilidade na mídia desfrutam de uma imunidade que não tem outra profissão. Exemplos são muitos. Suponha-se que um famoso professor de medicina torne-se famoso com base na promoção de um produto farmacêutico e que, depois de ser amplamente promovido, descobriu-se que os relatórios científicos que o médico tinha apresentado era falso, cheio de erros e manipulações. Garanto-vos que o mais provável é que o médico, além de perder sua credibilidade, continuam  expulsando-o dos comitês científicos, e poderia até mesmo perder sua cátedra.

Bem, isso aconteceu recentemente com alguns economistas famosos de centros acadêmicos de prestígio (Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff). Sua famosa "descoberta" era que um país, no caso de ter sido indisciplinado em suas contas públicas e alcançara uma dívida pública de mais de 90% do PIB, entraria em um declínio muito acentuado. Esta "descoberta" foi amplamente utilizada por todas as instituições, altamente influenciadas pelos bancos junto do BCE à Comissão Europeia também como o Banco de Espanha e do governo espanhol para impor políticas de austeridade para as massas. Bem, um Departamento (marginalizado por sua heterodoxia na academia dos EUA) de Economia da Universidade de Massachusetts mostrou que havia muitos erros e/ou manipulações no trabalho que ele tinha produzido este achado. Bem, os dois autores continuam a ter a mesma exposição na mídia, tanto nos EUA e na Espanha, enquanto os economistas mostraram que essas falhas não são esperados nem são em qualquer um dos fóruns ou mídia em que a sabedoria convencional é jogada.


Consequências do domínio do chamado mercado

Outro erro que ocorre nesta dicotomia mercado versus  Estado é assumir que as direitas favorecem os mercados  desfavorecem o o Estado, enquanto a esquerda favorece o estado em detrimento dos mercados. Tenho escrito criticamente sobre essa falsa dicotomia em um artigo recente ("O contexto político da crescente desigualdade"), mas a importância do erro me obriga a enfatizar-lo novamente.

A evidência empírica de que as direitas são tão favoráveis às intervenções públicas, ou inclusive mais, do que a esquerda, é esmagadora. E os dados falam por si. Os "mercados", ou seja, os proprietários e gestores do capital são os maiores beneficiários das atividades do Estado. Andy Haldane, diretor executivo de Estabilidade Financeira do Banco de Inglaterra, calculou que o subsídio público (pago com fundos do Estado) para os principais bancos do mundo foi equivalente a 700 bilhões de dólares em média, a cada ano (para o período 2002 -2007) multiplicado várias vezes desde 2007, início da crise (citado em “How High Inequality Plus Neoliberal Governance Weakens Democracy”, por Robert Wade en Challenge, Nov-Dic 2013). E na Espanha, o apoio público pago pelo Estado aos bancos e outras instituições financeiras chegaram a enorme quantidade de 220 ​​ bilhões de euros desde 2007. Nenhuma outra instituição tem sido tão subsidiada como a banca, cujo comportamento especulativo foram em grande parte responsáveis ​​pela crise atual, que foram resgatados, mais uma vez, a partir de fundos públicos, sem que sua salvação tenha resolvido o problema da falta de crédito que as pequenas e médias empresas estão sofrendo. Bancos públicos Na verdade, e como afirma Joseph Stiglitz, com os fundos que foram gastos pelos Estados para salvar os proprietários e gestores de capital financeiro, poderiam ter criados Bancos Públicos que haviam garantido o acesso ao crédito. O fato de que isso não aconteceu por causa da enorme exploração dos Estados pelos bancos, que atingiu níveis hiperbólicos no atual governo da Espanha, um dos quais tem imposto mais políticas de austeridade para as massas no EU15.


As desigualdades, tema desconhecido em teorias econômicas

Conseqüência do que foi dito na seção anterior é o fato de que os estados, explorados pelo capital, têm sido responsáveis ​​por vastas desigualdades que vêm ocorrendo desde a década de oitenta,o crescimento que apenas aparece na literatura da "ciência econômica". De fato, alguns não só os ignora, mas deliberadamente ocultam pelos por considerá-las perniciosa. Então, Robert Lucas, professor de Economia da Universidade de Chicago, conhecido como um dos fundadores do neoliberalismo econômico e Prêmio Nobel de Economia em 1995, disse que "uma das tendências nocivas e prejudiciais em conhecimento econômico.... realmente venenoso para tal conhecimento, é o estudo de questões de distribuição... " (Robert Lucas, "A Revolução Industrial. Passado e Futuro "Relatório Anual 2003 do Federal Reserve Bank of Minneapolis, Maio de 2004). O estudo da desigualdade de renda e propriedade não é um comum ou bem conhecido nas análises que incidem sobre a eficiência e a eficácia do chamado "mercado". E este é o resultado dos proprietários e gestores de capital, maiores beneficiários desse conhecimento, eles não querem que as causas e as conseqüências de sua riqueza sejam conhecidas. Durante o período de 2009-2012, o período de maior crise nos EUA, a renda do 1% mais rico dos EUA respondiam por 95% do crescimento da renda total e renda dos proprietários e gerentes das 500 maiores empresas dos EUA passou a representar 324 vezes o salário médio.

No máximo que o conhecimento econômico chega  a esta análise da pobreza, concentrando-se mais sobre os pobres do que sobre as causas da pobreza. É comum ouvir ou ver a expressão de que "eu não me importo com as desigualdades ou as pessoas a ser tão rico quanto possível. A única coisa que me interessa é a pobreza." O problema com isto dito, muito comum entre os economistas liberais é que a desigualdade e a pobreza estão intimamente relacionados. A enorme concentração de renda é à custa da renda de outros setores da população. A distribuição de renda de um país não atende causas econômicas, mas políticas. Nestes anos de crise, enquanto a renda dos 1% da população tem crescido enormemente, a renda média das famílias americanas diminuiu em 4%. Este, como resultado de políticas públicas implementadas pelo Estado. Houve o que se chama um impacto Robin Hood, "Robin Hood", para trás, ou seja, uma redistribuição de renda da maioria à minoria, por causa da enorme influência da minoria sobre o Estado, e traduz ambas as políticas fiscais e outros tipos de intervenções públicas (tais como subsídios para os bancos) que favorecem sistematicamente os setores mais ricos da população.

O fator mais importante para explicar o nível de desigualdades existentes em um país é o grau de influência que os instrumentos de capital tem no estado (tanto a nível central e regional ou local). Em países como os EUA e Espanha, onde esta influência é muito acentuada, as desigualdades e a pobreza são mais elevadas do que em países como no norte da Europa, onde tal influência tem sido menor (onde, até recentemente, o mundo da trabalho teve maior influência na Europa). Não é por acaso que os países mais desiguais são também os países com menor qualidade democrática (como os EUA e Espanha), onde o grau de insatisfação da maioria da população para as chamadas instituições representativas é maior. A concentração de renda e riqueza aumenta a influência política da mídia dos grupos mais abastados da sociedade, por causa da deterioração das instituições democráticas. EUA e Espanha são um exemplo claro. É precisamente a manipulação dos estados para o capital que está gerando os levantes pró democracia existentes no mundo de hoje (ver meu artigo "A revolução democrática global").


Vicenç Navarro

Catedrático de Políticas Públicas pela Universidade Pompeu Fabra y Professor de Public Policy en The Johns Hopkins University

As perspectivas da economia mundial para 2014

O portal Carta Maior conversou com John Bowler, diretor de Análise de Países da Unidade de Inteligência da The Economist, que apontou um panorama complicado em 2014.
A incerteza sobre a zona euro, a desaceleração do crescimento chinês e das economias emergentes irão marcar 2014, diz o analista da Economist. Foto Brad Montgomery/Flickr
Como todo o ano que começa, este início de 2014 é rico em previsões para a economia mundial.  A maioria fala de um crescimento global de 3,6%, cerca de 0,7% mais que no ano passado. As análises económicas caracterizam-se por não acertar no alvo nesta arte quase impossível das previsões, mas para além das porcentagens manuseadas está claro que o mundo continua sem se recuperar da crise de 2008. Em 2013, a zona do euro ficou estagnada e os Estados Unidos cresceram um pouco com altos e baixos. A China desacelerou o seu crescimento e até as chamadas economias emergentes, que tinham sustentado o crescimento em 2012, tiveram um desempenho modesto. A Carta Maior conversou com John Bowler, diretor de Análise de Países da Unidade de Inteligência da revista The Economist, que apontou um panorama complicado para este 2014.
A cinco anos da queda do Lehman Brothers e do estouro financeiro mundial, a economia global continua a patinar. Há algum sinal de que 2014 será diferente?
 
O crescimento global foi anémico em 2013. Nos Estados Unidos houve ajuste fiscal e problemas políticos no Congresso em torno do orçamento. Estimamos que o crescimento estadunidense de 2013 será de 1,6%. Na zona do euro, o grande mérito foi que a intervenção do presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, quando disse que faria tudo o que fosse necessário para salvaguardar a moeda única europeia, acalmou os mercados financeiros que deixaram de especular com a queda do euro, mas em termos de recuperação económica, ainda que a zona em conjunto tenha saído da recessão, seu crescimento é inexistente.

A China também melhorou na segunda metade, mas está envolvida numa mudança de modelo tal que não veremos mais gigantescas taxas de crescimento. Se agregarmos a isso o facto de que os mercados emergentes, entre eles Brasil, Índia e Rússia, tiveram muitos problemas, vemos que o panorama deixado por 2013 não é muito positivo. Calculamos que 2014 será um pouco melhor para as economias desenvolvidas, mas há muitas incertezas no caminho.
Em dezembro, o presidente que estava deixando a Reserva Federal, Bem Bernanke, anunciou uma redução de 10 mil milhões de dólares mensais nos estímulos financeiros. Que impacto essa decisão terá nos Estados Unidos e no resto do mundo?
Essa é uma das questões fundamentais este ano. Inevitavelmente haverá certa volatilidade. Não esqueçamos que este foi a maior experiência de injeção monetária da história. A Reserva Federal adquiriu títulos no valor de 80 bilhões mensais desde 2012 e uma boa parte desse dinheiro terminou em investimentos especulativos e mercados emergentes. Creio que a sucessora de Bernanke no cargo, Janet Yellen, continuará cum uma retirada muito gradual dos estímulos monetários, acompanhada de uma política de antecipar as taxas de juros futuras para que essa retirada não seja traumática. Mas será um ajuste monetário. Não há como evitá-lo. E isso costuma ter consequências. Teve em 1994-1995 com a crise da tequila que teve um forte impacto em países como a Argentina e ocorreu depois de um ciclo de ajuste monetário da Reserva Federal. A diferença é que, desta vez, a política será mais gradual do que ocorreu naquela época.
Outra questão chave está ligada à zona do euro. Os mercados financeiros acalmaram em 2013, mas se a economia não crescer pode haver turbulência não só financeira, mas também política. Na Grécia, por exemplo, o líder do Syriza advertiu que se o governo perder as eleições europeias de março, vai cair e ele procurará renegociar os resgates com a troika, posição que para muitos aceleraria a saída da Grécia do euro e com isso um possível efeito de contágio.
O grande mérito em 2013 foi a sobrevivência do euro. O perigo é que os políticos acreditem que podem seguir fazendo o mesmo até que passe a tormenta. A realidade é que o mal estar social pode explodir a qualquer momento. Em maio a legitimidade de muitos governos pode ficar seriamente questionada. O caso da Grécia é o mais óbvio. Se a isso se somam economias que não crescem e tem um altíssimo nível de desemprego, o mínimo que se pode antecipar da votação em maio é um voto de protesto. O que não se vê no momento são passos concretos para alavancar a união monetária e econômica.
A zona do euro necessita de uma união bancária e de uma mutualização das dívidas, que a Alemanha não quer contemplar. Se as coisas ficarem assim não se pode descartar uma desintegração da eurozona que comece com defaults de países altamente endividados com um forte impacto para o sistema bancário. Não acreditamos que seja o cenário mais provável, mas ele não pode ser descartado, algo que pode ter um impacto global muito desestabilizador.
Estas deficiências das economias desenvolvidas foram compensadas desde 2008 pela China e, em menor medida, pelos BRICS e outras economias emergentes. No caso da China está claro que ela não seguirá com um crescimento de dois dígitos.
Há uma desaceleração do crescimento que prosseguirá daqui em diante. Em 2013, o crescimento foi de 7,7%. Em 2014, calculamos que será de 7,5% e no médio prazo, digamos, 2018, estimamos que será em torno de 6%. Isso terá um impacto porque a economia mundial andou bem quando a China estava crescendo dois dígitos, mas este crescimento baseava-se em altíssimos níveis de investimento e exportações, algo que criava desequilíbrios globais. A preocupação com a China é o setor financeiro e o crescimento de sua dívida no setor bancário na sombra. Neste sentido, a China representa um risco potencial.
Como estes problemas nos Estados Unidos, na União Europeia e na China afetarão a América Latina?
A América Latina não está desligada das oscilações globais. A procura europeia tem sido muito pobre nos últimos anos, algo que começa a ter um efeito acumulado na região. Nos Estados Unidos não houve um crescimento da importação porque o seu crescimento se baseou mais em um modelo fabril doméstico. E a procura chinesa diminuiu, algo que está a provocar a baixa dos preços das matérias primas, ainda que elas se mantenham ainda em níveis historicamente altos. A estes fenómenos devem ser acrescentadas as oscilações da política monetária dos Estados Unidos que tem causado muita volatilidade financeira com uma depreciação das moedas desde maio do ano passado e pressões inflacionárias na região.
Os países da região reagiram de maneira diferente. México, Chile e Peru cortaram as taxas de juros enquanto o Brasil as elevou para combater a inflação. No caso do Brasil, estimamos que cresceu 2,5% em 2013 e que haverá um efeito positivo na economia por causa da Copa do Mundo, ainda que moderado pois falta mais investimento, de maneira que o crescimento que prevemos para 2014, muda pouco, 2,6%. Quanto à região no seu conjunto, acreditamos que tem uma maior solidez financeira que no passado e que o crescimento será maior este ano do que foi em 2013, desde que as economias desenvolvidas também melhorem o seu desempenho e não se atolem em alguns dos problemas que assinalei antes.
 


Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Parlamento Europeu prepara-se para ouvir Edward Snowden

Ainda sem data marcada, a audição do ex-espião norte-americano pelos eurodeputados deverá ser feita por videoconferência.
Foto Steve Rhodes/Flickr
A Comissão de Liberdades Civis, Justiça e Assuntos Internos do Parlamento Europeu (LIBE) aprovou a decisão de ouvir por videoconferência o ex-técnico da NSA Edward Snowden devido às notícias sobre espionagem norte-americana contra pessoas, entidades e governos europeus. A decisão terá de ser confirmada em plenário.
A audição por videoconferência interactiva representa o método preferido pela direita europeia (PPE); socialistas, verdes, liberais e Esquerda Unitária (GUE/NGL) tinham proposto que, por razões de segurança, a audição fosse efectuada através de vídeo pré gravado.
Não existe ainda data para o contacto com o ex-técnico da agência norte-americana de espionagem responsável pela montagem de uma rede mundial de recolha ilícita de dados privados denunciada por Edward Snowden. O ex-técnico da NSA, que se encontra em Moscovo, também ainda não revelou se está disponível para a realização da sessão por videoconferência interactiva uma vez que, também por razões de segurança, prefere o vídeo pré gravado.
Os conservadores britânicos, como habitualmente alinhados pelas posições de Washington, estão contra a realização da sessão por considerarem que a informação em poder de Snowden “foi obtida ilicitamente”.
A iniciativa da comissão parlamentar tem como objectivo obter de viva voz informações que ajudem a fazer luz sobre a espionagem executada pelos Estados Unidos contra cidadãos, entidades e governos da União Europeia.
No passado dia 17 de Dezembro, uma delegação de congressistas dos Estados Unidos chefiada pelo presidente da comissão de espionagem da Câmara dos Representantes, Michael Rogers, ameaçou o Parlamento Europeu de que o facto de ouvir Edward Snowden “não ajudará” os dois lados do Atlântico a resolver as suas dificuldades.
Um projecto de relatório do Parlamento Europeu sobre espionagem, da responsabilidade do eurodeputado socialista Claude Moraes, reconhece que existem “provas convincentes da existência de sistemas tecnologicamente avançados de grande alcance criados pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos e alguns Estados membros para obter, armazenar e analisar comunicações e dados de todos os cidadãos em todo o mundo numa escala sem precedentes e de maneira indiscriminada”.
O documento põe em dúvida que a motivação da espionagem seja apenas o terrorismo e cita a espionagem política e económica como outras actividades praticadas.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O Homem e a barbárie

O que é a violência? Ou melhor por que a violência, sempre presente na história da humanidade na sua forma mais cruel, a Barbárie?

"Se a essência do poder é a efetividade do domínio, não existe então nenhum poder maior do que aquele que provém do cano de uma arma(...)" (Hannah Arendt). A agressividade é necessária para que o homem viva, principalmente, quando se encontra em condições chamadas primitivas, o homem caçador e guerreiro; a civilização é uma etapa onde se tenta disciplinar o convívio, inclusive, controlar a agressividade capaz de atingir a pessoa do outro, mas, na civilização o conflito e a barbárie sempre estiveram presentes.

Na psicologia diz-se que a perversidade é a "vontade" de agredir ao outro sem "necessidade", levando-se em consideração os casos chamados de agredir para defender-se de agressão prévia; perversidade ou a ostentação da capacidade assassina choca a civilização mas até hoje nunca a largara, foi o que presenciamos esta semana com o vídeo de degolamentos divulgados na internet dentro de uma penitenciária do Maranhão.

Para Edgar Morin na obra "Breve História da Barbárie no Ocidente,  "o Homo Sapiens pode ser ao mesmo tempo  Homo Demens, capaz de delírio, de demência. O Homo Faber, que sabe fabricar e utilizar utensílios, também capaz de produzir desde a origem da humanidade os mitos. O Homo Economicus, que se determina em função de seus interesses. é também o Homo Ludens, o homem do gasto, do jogo (...)".

Morin prossegue refletindo se o Homo Demens era o capaz de sentir ódio, se imaginava que a razão do Homo Sapiens, seria antídoto para a barbárie. Mas na racionalização, segundo Morin, pode residir a paixão, na racionalidade fechada em si mesmo. Quando se constrói um raciocínio é possível que mintamos para nós mesmos, eliminando pontos que nos seriam desfavoráveis.

Com isso se ver que tanto na falta de racionalização quanto na presença dela pode residir a barbárie ou o estímulo a ela. 

No caso do presídio do Maranhão diz que uma disputa entre gangues, portanto, poder envolvido, membros de um grupo executa e corta a cabeça dos de outro grupo, e ainda gostam da filmagem do ato, ou seja, sentem que o que fazem pode ser usado como forma de dominar poder. A  violência, como diz Hannah, é a última ratio, da vontade de evitar contrários. Já assassinar por "nenhum motivo", como em um assalto, fica marcado a falta de visualizar na vida tirada qualquer tipo de significado e uma total falta de ressentimento em executar. Quando chegamos a este grau da barbárie a civilização se ressente.

Humanização dos partos

Por Kalianny Bezerra - Agecom UFRN
Gabriella Vinhas é natural de Brasília, formada em fonoaudiologia, estudante e ativista. Mas, antes de tudo isso, é mãe de Cauã, que nasceu há um ano e quatro meses por meio de um parto violento. Essa jovem mãe, assim como uma em quatro mulheres brasileiras, foi vítima de violência obstétrica.

“Se gritar, seu filho vai nascer surdo”, “na hora de fazer não chorou, porque está fazendo isso agora?”, “fica quieta, senão vou te furar todinha”. Além dessas frases, pressionar a barriga para o bebê sair e realizar procedimentos dolorosos sem consentimento, como cortar a vagina da grávida, são relatos frequentes em vários lugares do Brasil, de mulheres que deram à luz e não receberam a assistência desejada.

A professora do Departamento de Tocoginecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e médica obstetra, Maria do Carmo Lopes de Melo, explica que violência obstétrica consiste em toda conduta, ação ou omissão, realizada por profissionais da saúde que, de maneira direta ou indireta, desrespeite a autonomia da mulher grávida, sua integridade física ou mental, ou seus sentimentos.

Um tipo de violência relatada e que muitas vezes passa despercebida é o parto cesariano sem uma indicação consistente, ou seja, sem um esclarecimento dos riscos e complicações inerentes ao procedimento. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil é campeão mundial de cesarianas, sendo a média nacional desse tipo de intervenção cirúrgica no país de 52,2%, enquanto o recomendado pela entidade é 15%.

“Não podemos condenar a cesárea, mas ela só pode acontecer quando alguma intercorrência faz com que a indicação do parto mude, por exemplo, se a mãe possui uma patologia como a hipertensão. Mas é importante entender que o corpo da mulher foi feito para dar à luz naturalmente”, declara Maria do Carmo.

Anastácia Vaz

Gabriella Vinhas é mãe de Cauã, que nasceu há um ano e quatro meses por meio de um parto violento
Seja na água, na maternidade ou num centro cirúrgico, o ato deve ser da forma que a grávida desejar – e a saúde permitir. Esse é o conceito básico de humanização, em que as decisões da mulher são levadas em conta. “A humanização é o respeito que os profissionais e as pessoas envolvidas na assistência ao nascimento do bebê dão”, destaca a professora e obstetra.

O caso de Gabriella foi o inverso. Começou quando os profissionais tomaram a iniciativa de fazer uma cesárea. E o “terrorismo psicológico” não parou por aí. Ela conta que a equipe de saúde foi rude com o seu acompanhante e que quando seu filho nasceu não a deixaram segurá-lo ou amamentá-lo. “Fui me recuperando aos poucos desse trauma. Hoje já estou bem. Mas agora luto para que casos como o meu não se repitam mais”, afirma a jovem.

Movimento e Parceria

Para combater esse tipo de conduta, a fonoaudióloga criou o Movimento pela Humanização do Parto e Nascimento em Natal. Com pouco mais de um ano, esse projeto já conta com a participação ativa de mais de 30 mulheres. São promovidas reuniões, encontros com grupos de gestantes e representantes de saúde do Estado, nos quais são desenvolvidas as ações de uma biblioteca itinerante que dispõe de livros sobre maternidade e apontam uma visão mais humanizada do nascimento.

Além disso, o movimento busca parcerias para ampliar a discussão dentro de ambientes acadêmicos. Na UFRN, a jovem ativista vê a possibilidade de conversar e entrar no contexto dos profissionais da saúde que estão em formação. Para tanto, a primeira iniciativa tomada foi durante o V Seminário de Direitos Humanos da UFRN, realizado pelo Centro de Referência de Direitos Humanos (CRDH) e pela Pró-Reitoria de Extensão (PROEX), em dezembro de 2013.

“Entrei em contato com a organização do evento e apresentei a proposta de elaborarmos alguma ação relacionada ao tema da violência obstétrica e da humanização”, declara. Foi então que ela teve a ideia de fazer a exposição fotográfica “1:4 Retratos da Violência Obstétrica”, idealizada pelas fotógrafas Carla Raiter e Caroline Ferreira, na cidade de São Paulo.

A antropóloga do CDRH e estudante da Pós-Graduação em Antropologia Social, Andressa Morais Lima, explica que a proposta de Gabriella se encaixava na ideia de trabalhar o visual para “chocar” as pessoas. Assim, durante três dias, na Escola de Enfermagem da UFRN, estiveram expostas fotos de mulheres que tiveram marcadas em seu corpo a violência sofrida durante o parto. “Usamos o visual para impactar e criar uma conscientização para esse tema que é pouco abordado em nosso país”, diz Andressa.

Humanização

Acolhimento é a palavra chave no vocabulário de uma equipe de saúde humanizada. Nesse tipo de assistência é necessário que os profissionais envolvidos no nascimento da criança passem segurança e conforto à gestante. É preciso entender, no entanto, que a assistência humanizada começa no pré-natal.

“É essencial saber se a saúde da mulher e a do bebê está bem, só assim é possível ela parir sem intervenções. É importante também procurar um obstetra de confiança para fazer todo o acompanhamento da gestação e já tenha definido o hospital que ela vai dar à luz”, ressalta Maria do Carmo.

Wallacy Medeiros

Antropóloga do Centro de Referência de Direitos Humanos (CRDH), Andressa Morais Lima, defende a humanização do parto
Segundo a docente, a gravidez se constitui num evento social. “Só de comunicar que está esperando um filho, para a mulher já é uma grande felicidade”, diz. Assim, de acordo com a médica, é importante que a família também esteja presente durante esse processo de mudança na vida de uma pessoa.
Outro cuidado a ser tomado para que tudo saia da maneira mais adequada para a gestante é a alimentação. Fazer uma dieta balanceada, não ingerir bebidas alcoólicas, não fumar ou se drogar, são alguns pontos elencados por Maria do Carmo. “Uma mulher grávida deve seguir uma vida normal, trabalhar e estudar. Os exercícios físicos também devem ser lembrados, mas nada muito pesado”, esclarece.
Rede Cegonha

Em junho de 2011, o Ministério da Saúde instituiu, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), a Rede Cegonha, que consiste numa rede de cuidados para assegurar às mulheres o direito ao planejamento reprodutivo e à atenção humanizada à gravidez, ao parto e ao pós-parto e, também, ao recém-nascido.

O programa tem a finalidade de estruturar e organizar a atenção à saúde materno-infantil no país, sendo implantado, gradativamente, em todo território nacional. Ele propõe maior disponibilidade de atendimento no pré-natal, garantia de realização de todos os exames necessários, encaminhamento para atendimento, se houver alguma complicação durante a gravidez, e vinculação da gestante à maternidade onde ela vai ter o bebê.

“No Rio Grande do Norte, só a cidade de Baía Formosa não foi cadastrada até o momento na rede”, expõe Gabriella Vinhas, mãe e criadora do Movimento pela Humanização do Parto e Nascimento de Natal. “Esse é um programa organizado que funciona, mas é preciso que seja mais divulgado”, acrescenta.

Dentro da UFRN, a Maternidade Escola Januário Cicco se comprometeu com o fortalecimento da rede desde sua criação. Mas esse engajamento vem desde 1999, quando a professora Maria do Carmo foi diretora da Maternidade. “O Ministério da Saúde está revitalizando a assistência ao parto e nós estamos juntos nessa luta”, afirma a obstetra.


‘Vivemos hoje no que eu chamaria de democracias totalitárias’. Entrevista com David Harvey

Um dos mais influentes pensadores marxistas da atualidade, o geógrafo britânico David Harvey esteve no Brasil em novembro para divulgar o lançamento de seu livro ‘Os limites do capital’. Escrito há mais de 30 anos, a obra ganha sua primeira versão em português, mas, segundo Harvey, isso não significa que tenha ficado ultrapassada, pelo contrário. Pioneiro em sua análise geográfica da dinâmica de acumulação capitalista descrita por Marx, o livro, assim como grande parte da obra de Harvey, tornou-se mais relevante para entender os efeitos da exploração econômica dos espaços urbanos e suas consequências para os trabalhadores, ainda mais numa conjuntura marcada pela eclosão de protestos contra as condições de vida nas cidades, não só no Brasil, mas também na Europa, América do Norte e África. Nesta entrevista, Harvey faz uma análise dos levantes urbanos que ocorrem em todo mundo, aponta que não será possível atender às reivindicações por meio de uma reforma do capitalismo, e defende: é preciso começar a pensar em uma sociedade pós-capitalista.

Entrevista  publicada pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV)


"Os limites do capital’ foi escrito há mais de 30 anos. Desde então o capitalismo sofreu mudanças profundas. Qual é a atualidade dessa obra para entender o modelo de acumulação capitalista hoje?

O livro explora a teoria de Marx sobre acumulação de capital para entender as práticas de urbanização ao redor do mundo em vários lugares e momentos históricos diferentes. Minha investigação sobre as ideias de Marx se estenderam para uma análise de coisas como a renda fundiária, preços de propriedades, sistemas de crédito. Uma coisa curiosa aconteceu: a análise de Marx era sobre o capitalismo praticado no século 19. Na época em que comecei a escrever ‘Os limites do capital’, havia muitos aspectos do mundo ao meu redor que não se encaixavam com a descrição de Marx: tínhamos um Estado de Bem-estar Social, os Estados estavam envolvidos na economia de diferentes formas, havia arranjos de seguridade social e movimentos sindicais fortes em muitos países. Mas aí veio a chamada contrarrevolução neoliberal depois dos anos 1970, com Margareth Thatcher, Ronald Reagan, as ditaduras na América Latina, e o capitalismo regrediu para sua forma do século 19. Por exemplo, houve o desmantelamento de muito da rede de seguridade social em boa parte da Europa e América do Norte; o capital se tornou muito mais feroz em sua relação com movimentos trabalhistas; as proteções que vinham de Estados que eram em algum grau influenciados por movimentos políticos de esquerda foram desmanteladas em boa parte do mundo. O que vimos desde os anos 1970 é um aumento da desigualdade social, que é precisamente o que Marx disse que aconteceria caso adotássemos um sistema de livre mercado. Adam Smith postulava que se tivéssemos um livre mercado seria melhor para todos. O que Marx mostra no ‘O Capital’ é que quanto mais perto de um livre mercado mais provável é que os ricos fiquem cada vez mais ricos e os pobres mais pobres. E essa tem sido a tendência por grande parte do mundo desde os anos 1970 por conta do neoliberalismo. De uma maneira curiosa, por essa razão, Marx se tornou mais relevante para entender o mundo hoje do que era na época em que escrevi o livro. Ao mesmo tempo, muitas das lutas que vemos ao nosso redor agora são lutas urbanas em vez de lutas baseadas em unidades fabris, de modo que ligar a dinâmica do que Marx descrevia com a dinâmica da urbanização se tornou mais relevante.

E o papel dos centros urbanos na dinâmica de acumulação capitalista, como mudou ao longo desse período?

O capital produz constantemente excedentes, e uma das coisas que aconteceu é que a cidade se tornou um local para a absorção de capital excedente. Muito desse dinheiro foi para construção de estruturas, em alguns casos para a construção de megaprojetos. O capital adora esses megaprojetos, como os envolvidos em Copas do Mundo e Olimpíadas, porque são uma ótima oportunidade para gastar muito dinheiro na construção de novas infraestruturas, o que levanta uma questão interessante: essas novas infraestruturas acrescentam algo à produtividade do país? Se você for para a Grécia, vai ver um país essencialmente falido, com esses estádios vazios ao redor, que foram construídos para um evento que durou algumas semanas. A maioria dos lugares que sediam esses eventos tem problemas financeiros sérios depois mas, no processo, as empreiteiras, construtoras e financiadoras ganham muito dinheiro. Ao longo dos últimos 40 anos, o capital excedente foi cada vez mais canalizado para mercados de ativos, como os direitos de propriedade intelectual, em que você investe no controle de patentes e vive da renda, sem fazer nada. E, da mesma forma, as cidades, as propriedades urbanas, se tornaram ativos muito lucrativos. O que vemos hoje nos mercados imobiliários é que é quase impossível para a maioria da população encontrar um lugar para viver que não absorva mais da metade de sua renda. Esse é um processo mundial: tivemos uma crise na habitação nos Estados Unidos, na qual o mercado de propriedade entrou em colapso. Em Nova York, Los Angeles e São Francisco os preços estão subindo, e vemos o mesmo fenômeno na Europa: tente achar um lugar para morar em Londres, em Paris. Mais e mais dinheiro está sendo extraído das pessoas na forma de aluguel. Isso é interessante, porque há um deslocamento da exploração do trabalho e da produção para explorar as pessoas em termos de extração de aluguel de seu local de moradia. O capital consegue inclusive fazer concessões aos trabalhadores e recapturar esse dinheiro que o trabalhador ganha aumentando o valor do aluguel.

Você trabalha atualmente em um livro que lista 17 contradições do capital: pode falar um pouco sobre elas a partir da crise de 2008?

A forma como as contradições funcionam é que elas estão interconectadas. O que houve em 2008 foi uma serie de contradições: entre valor de uso e de troca, entre a forma do dinheiro e o valor que ele deveria representar e entre aspectos da propriedade privada e o poder do Estado. Todas essas contradições se juntaram para criar um ambiente propício ao acontecimento da crise na habitação. Por exemplo: você olha uma casa, e há uma contradição entre encará-la em termos de valor de uso e valor de troca. Em algum ponto a casa se torna uma forma dupla de valor de troca, porque as pessoas que compram a casa a veem como uma forma de poupança. E mais tarde eles compram uma casa como uma forma de investimento, uma forma de ganhar dinheiro. Em vez de comprar uma casa para morar, as pessoas compram casas para reformá-las e vendê-las, para ganhar dinheiro em cima disso. Então se o mercado imobiliário está em alta, é possível ganhar muito dinheiro muito rápido com esse processo, e o resultado disso é que as vizinhanças se tornaram instáveis, porque ninguém mora e cuida do local, só usam a casa para ganhar dinheiro. E ao mesmo tempo, há muita especulação para tentar elevar o valor da casa por meio de ajustes superficiais, o que não é um problema em si, até que o mercado imobiliário despenque, porque as coisas não podem subir para sempre. Se começa a cair, todo mundo vende rapidamente e você tem o crash que vimos nos Estados Unidos em 2007-2008, e também na Espanha, Irlanda e em muitas partes do mundo.

Essa tensão entre valor de troca e de uso é importante, mas é importante olharmos também para a forma como tudo é monetarizado. Há uma forma interessante com que o dinheiro começa a gerar mais dinheiro, esse aspecto especulativo do dinheiro. Eu poderia ter uma casa em Nova York sem a menor ideia de quem é o proprietário porque as hipotecas são divididas em pedacinhos e uma parte dela está na Alemanha, outra em Hong Kong e ninguém consegue descobrir de quem é a dívida. Isso é uma ficção que aconteceu por causa da maneira como o sistema monetário evoluiu. A outra contradição é entre o Estado e a propriedade privada. O que vemos é que, em países como os Estados Unidos, o Estado vem incentivando a compra de casa própria nos últimos 40 anos, criando novas instituições financeiras para apoiar a aquisição da casa própria, dando isenções de impostos se você é proprietário, a um ponto que todo mundo tem que se tornar um proprietário, quando isso não é economicamente racional em mercados especulativos desse tipo. Entre quatro e seis milhões de pessoas foram despossuídas de suas casas nos Estados Unidos através dessa crise de execução de hipotecas. Quando perguntaram para as pessoas por que elas achavam que isso tinha acontecido, quem elas culparam? Elas mesmas. É exatamente o que os neoliberais dizem que você deve fazer.

Vivemos num mundo em que o modo de pensar neoliberal se tornou profundamente arraigado: essa ideia de que nós como indivíduos somos responsáveis por sermos pobres. Como dizer para as pessoas que não é culpa delas, que é um problema sistêmico? É como o capital funciona, especialmente na sua forma de livre mercado, e se você é pobre você é um produto deste sistema. A única maneira de solucionar isso é mudando o sistema, o que quer dizer que é preciso tornar-se anticapitalista.

Na sua avaliação, as manifestações que acontecem no Brasil apontam uma insatisfação da população brasileira aos efeitos concretos dessas contradições?

Eu acho que em vários lugares do mundo atualmente você vai encontrar um sentimento de profunda insatisfação. Há um grande descontentamento, mas acho que em nenhum desses lugares emergiu um movimento consolidado em termos de um entendimento de para onde esse descontentamento deve ser canalizado e o que deve ser feito para mudar esse quadro. Como resultado, o que você vê são essas erupções contínuas ao redor do mundo. Eu vejo que há um sentimento de descontentamento mundial que não está sintetizado, mas é interessante notar como ele entra em erupção e ninguém espera.

Ninguém esperava o que aconteceu no Brasil, foi uma surpresa. Ninguém esperava o que aconteceu na Praça Taksim, em Istambul, em Estocolmo, em Londres. O que se vê é um padrão global de expressões de descontentamento, que não localizaram o problema central, mas que são indicações de um descontentamento profundo com a maneira como o mundo caminha. Para mim, a melhor forma de se analisar isso é olhar quão bem o capital está indo. A maneira mais simples de ilustrar isso é olhando para a desigualdade de renda.

Dados de vários países ao redor do mundo mostram que os 2% de maior renda entre a população saíram da crise muito bem e na verdade ganharam muito dinheiro com ela, enquanto o padrão de vida do resto encolheu. Isso varia de um país para outro, mas dados da Oxfam apontam que os 100 maiores bilionários do mundo aumentaram sua riqueza em US$ 240 bilhões só em 2012. O número de bilionários aumentou dramaticamente nos últimos cinco anos, não só nos Estados Unidos: esse número dobrou na Índia nos últimos três anos, há muitos bilionários no Brasil, o mais rico do mundo é Carlos Slim, do México, há bilionários surgindo na Rússia, na China. Os dados mostram que o capital está indo extremamente bem.

É possível atender às reivindicações das ruas com uma reforma no capitalismo?

As opiniões variam na questão de o quanto podemos extrair das dificuldades atuais e ainda termos um capitalismo dinâmico. Minha análise é que será muito difícil desta vez. Certamente é possível acabar com alguns dos excessos do capitalismo neoliberal e certamente podemos ter um tipo de capitalismo mais socialmente justo, com redistribuição modesta de riqueza das classes abastadas para as classes médias e baixas. Há possibilidades de reforma do sistema e eu obviamente as apoiaria. Mas não acho que elas vão resolver o problema. Acho que a quantidade de riqueza que pode ser redistribuída é relativamente limitada. Em segundo lugar, falta poder político para fazê-lo. Temos uma situação agora em que essencialmente o poder político, a mídia, estão completamente capturados pelo grande capital, e a barreira política para fazer algo além de medidas pontuais é imensa.

Temos uma oligarquia global que controla essencialmente toda a riqueza mundial, a mídia, os partidos políticos, o processo político. Vivemos hoje no que eu chamaria de democracias totalitárias, e acho que é muito difícil quebrar isso porque a oligarquia não está interessada em abrir mão desse poder. Então há uma barreira política e há também uma barreira econômica, porque se você realmente começa a redistribuir riqueza no modo que precisaríamos para resolver esses problemas e ter educação, saúde e transporte público decente para todos, se realmente fôssemos fazer isso, teríamos que tirar muito do dinheiro que hoje vai para os projetos que interessam ao grande capital.

Por que você acha que vai ser difícil sair da crise atual?

O capital tem que crescer, e crescer a uma taxa composta, que tem uma curva de crescimento exponencial. Isso significa que cada vez mais somos empurrados a encontrar oportunidades de investimento lucrativas, mais e mais. Meu cálculo, de maneira grosseira, é que nos anos 1970, globalmente, era preciso achar oportunidades de investimento lucrativas para algo em torno de US$ 600 bilhões. Hoje é preciso encontrar canais lucrativos para investimentos na ordem de US$ 3 trilhões. Em 20 anos, falaremos em canais lucrativos de investimento para US$ 6 trilhões e assim por diante. Acho que manter o capital ativo tornou-se um sério problema, e se houver um crescimento zero, há uma crise. O crescimento composto se torna cada vez mais problemático. Temos tido esse problema desde os anos 1970 e é por isso que mais e mais capitalistas estão vivendo de renda ao invés de procurar oportunidades de investimento lucrativas produzindo coisas materiais, que já não é tão lucrativo. E se todo mundo investe no rentismo, ninguém produz nada, o que também é um problema.

Você fala da importância de uma imaginação pós-capitalista. Fale sobre a sua visão do que seria uma sociedade pós-capitalista.

É preciso haver uma revolução nas percepções, nas práticas, nas instituições. E essas revoluções levam muito tempo para se concretizarem. Quando você pensa na história do neoliberalismo, vê que foi uma transformação revolucionária que aconteceu num período de 30, 40 anos. Se foi possível mudar daquilo para isso, por que não podemos mudar do que vemos hoje para outra coisa? Mas temos que pensar não simplesmente em termos de fazermos barricadas, mudarmos governos. Temos que pensar nisso como um processo de 40 anos de mudança de mentalidades, concepções. Por exemplo, como as pessoas pensam a solidariedade social com seus vizinhos. Nos anos 1970 havia muito mais solidariedade social, e hoje o mundo se tornou muito mais individualista. Uma revolução é um processo, não um evento, estamos falando de transformações de longo prazo, e isso requer que as pessoas comecem a formular ideias sobre como mudar o mundo. Há muitos elementos que estão sendo praticados atualmente, o problema é que a maioria em pequena escala. Por exemplo, economias solidárias sendo praticadas ao redor do mundo, no Brasil, nos Estados Unidos. Há grupos tentando desenvolver modos de vida alternativos, ambientalistas, por exemplo, o movimento de recuperação de fábricas por trabalhadores na Argentina, há muitos movimentos desse tipo acontecendo, alguns em meio à crise. Na Grécia vemos o desenvolvimento de sistemas monetários alternativos e por aí vai. Há muitas coisas acontecendo atualmente que podem ser consideradas experimentos-piloto. Acho importante olhá-las e analisar quais são os elementos para se pensar um tipo diferente de sociedade no futuro.

Bauman: "O capitalismo é essencialmente um sistema parasitário"

Tal como o recente "tsunami financeiro" provou a milhões de pessoas que acreditavam nos mercados capitalistas e na banca capitalista como métodos evidentes para a resolução bem-sucedida de problemas,  o capitalismo se especializa em criar problemas, não em resolução.
"Nos han impuesto que eres más feliz cuanto más consumes y más compites"  Zygmunt Bauman
Como os sistemas dos números naturais do famoso teorema de Kurt Gödel, o capitalismo não pode ser ao mesmo tempo consistente e completo. Se você for consistente com os seus próprios princípios, não pode resolver os problemas que surgem, e se você tentar resolvê-los, você não pode fazer sem cair na inconsistência com as suas próprias instalações. Muito antes de Gödel escrever seu teorema, Rosa Luxemburgo publicou seu estudo sobre a "acumulação capitalista", em que ele sugeriu que o capitalismo não pode sobreviver sem economias "não- capitalistas"; pode proceder de acordo com seus princípios sempre quando haja "território virgem" aberto a expansão e operação, embora quando conquista com fins de exploração, o capitalismo os priva de sua virgindade pré-capitalista e, portanto, esgota as reservas que o alimenta. Em grande parte como uma serpente que devora sua própria cauda: em primeiro lugar a comida é abundante, mas logo se torna cada vez mais difícil de engolir, e logo depois não há mais nada para comer nem tampouco que coma...
O capitalismo é essencialmente um sistema parasitário. Como todos os parasitas, pode prosperar uma vez um tempo uma vez que  encontra o corpo  inexplorado, do que pode alimentar-se mas não pode fazê-lo sem prejudicar o hospedeiro e, eventualmente, sem destruir as condições de sua prosperidade ou mesmo a sua própria sobrevivência.

Rosa Luxemburgo, que escreveu em uma era de imperialismo desenfreado e de conquista territorial, não podia prever que terras pré-modernas de continentes exóticos não eram os únicos potenciais "anfitriões" do quem o capitalismo poderia ser alimentado para prolongar a sua vida e começar sucessivos ciclos de prosperidade. O capitalismo revelou desde estão o seu incrível talento para pesquisar e encontrar novas espécies de anfitriões  cada vez que a espécie explorada com anterioridade se debilitava. Uma vez que anexou  todas as terras virgens "pré-capitalistas" o capitalismo inventou a "virgindade secundária". Milhões de homens e mulheres que foram dedicados a salvar em vez de viver a crédito foram transformados com astúcia em um desses territórios virgens por explorar.
A introdução de cartões de crédito foi um indício do que se avizinhava. Cartões de crédito fizeram a entrada no mercado com um slogan eloqüente e sedutor "elimine a  espera para realizar o desejo." Será que você quer alguma coisa, mas não salva o suficiente para pagar por isso? Bem, nos velhos tempos, o que, felizmente, estão por trás, teríamos que adiar as satisfações (esse adiamento, segundo segundo Max Weber, um dos pais da sociologia moderna, foi o primeiro que possibilitou o advento do capitalismo moderno) ajustar o cinto, recusando-se outros prazeres, gastar de maneira prudente  e frugal e economizar o dinheiro que poderia ser posta de lado, na esperança de que, com o devido cuidado e paciência se reuniria o suficiente para realizar sonhos.

Graças a Deus e à benevolência dos bancos, já não é assim. Com um cartão de crédito, essa ordem pode ser invertida: desfrute agora, pague depois! O cartão de crédito nos dá a liberdade para gerir a sua própria satisfação, para fazer as coisas quando queremos, não quando nós ganhamos e podemos comprá-los.
Para efeitos de evitar para reduzir o efeito dos cartões de crédito e do crédito fácil para apenas um ganho extraordinário para quem empresta, a dívida tinha (e fê-lo muito rapidamente!) que se tornar um ativo permanente de geração de lucro. Você não pode pagar a sua dívida? Não se preocupe: em contraste com o velhos credores, ansiosos para recuperar o que tinha sido pago no prazo fixado antecipadamente, nós, os credores modernos e amigáveis, não pedimos para devolver nosso dinheiro, mas oferecemos-lhes para dar ainda mais crédito para retornar a dívida anterior e manter o dinheiro adicional (ou seja, dívida) para pagar por novos prazeres. Nós somos os bancos que gostam de dizer 'Sim'. Bancos amigáveis. Bancos, sorrindo, como afirmou um dos comerciais mais criativos.

A armadilha do crédito

O que nenhum dos comerciais declarou abertamente foi que os bancos não queriam que seus devedores reembolsassem os empréstimos. Se os devedores pagarem em tempo hábil o empréstimo, já não estariam em dívida. E sua dívida (juros mensais que são pagos sobre ele)  o que os amigáveis credores modernos (e de uma notável sagacidade) decidiram e conseguiram reformular como a principal fonte de seu lucro ininterrupto. Os clientes que retornam rapidamente o dinheiro que eles pediram são a perdição dos credores. As pessoas que se recusam a gastar dinheiro que não ganharam e que se abstém de perguntar o que emprestou não são úteis para os credores, bem como as pessoas (motivadas por precaução ou com um desatualizado senso de honra) correm para pagar suas dívidas a tempo. Para seu benefício e de seus acionistas, bancos e provedores de cartão de crédito agora dependem de ininterrupto "serviço" da dívida e não rápido reembolso do mesmo. Até onde eles estão em causa, um ideal de "devedor" é que ele nunca reembolsa o crédito completamente. As multas são pagass se quiser pagar um empréstimo de hipoteca, antes do prazo acordado todas... Até a recente "crise de crédito", os bancos e administradoras de cartões de crédito estavam mais do que dispostos a oferecer novos empréstimos a tomadores insolventes para cobrir os interesses não remunerados de créditos anteriores. Uma das principais empresas de cartões de crédito da Grã-Bretanha recusou-se recentemente a renovar os cartões dos clientes que pagaram toda sua dívida a cada mês e, portanto, não efetuadas em qualquer interesse punitivo.

Para resumir, a "crise do crédito" não era um resultado da falha dos bancos. Em vez disso, foi um resultado completamente esperado, se bem inesperadamente, o fruto do seu notável sucesso: sucesso no que se refere a transformar a grande maioria dos homens e mulheres, velhos e jovens, em um exército de devedores. Eles têm o que eles queriam alcançar: um exército de devedores eternos, a auto perpetuação da situação de "empréstimo", enquanto eles procuram mais dívida como o corpo apenas realista de poupança da dívida já constituída.

Entrar para esta situação se fez  mais fácil do que nunca na história da humanidade, enquanto deixar o mesmo nunca foi tão difícil. Já seduzido, seduzido e em dívida para com todos aqueles que poderiam tornar-se devedores, bem como milhões de outros que não poderiam ou deveriam encorajar empréstimos.

Como em todas as mutações anteriores do capitalismo, desta vez o Estado assistiu a criação do novo terreno fértil para a exploração capitalista: foi por iniciativa do Presidente Clinton que foram introduzidos nos Estados Unidos as hipotecas subprime patrocinadas pelo governo para fornecer crédito para a compra de casas para pessoas que não tinham nenhum para reembolsar os credores, assim, transformaram em devedores setores da população que, até agora, tinham sido inacessíveis à exploração através do crédito...

No entanto, assim como o desaparecimento de pessoas descalças significa problemas para a indústria de calçado, o desaparecimento de pessoas endividadas não anuncia um desastre para o setor de crédito. A predição de Rosa Luxemburgo   foi cumprida mais uma vez: o  capitalismo estava perigosamente perto do suicídio, a esgotar a reserva de novas terras  desertas para exploração...

Até agora, a reação à "crise do crédito", mais impressionante e revolucionário que pode parecer uma vez processadas nas manchetes e declarações de políticos, foi mais do mesmo, na esperança vã de que possibilidades revigorantes para o lucro e o consumo deste período ainda não tornem-se esgotadas por completo: uma tentativa de recapitalizar os emprestadores de dinheiro e fazer que se tornem novamente seus devedores  credíveis, de modo tal que o negócio de emprestar e tomar emprestado, endividar-se e permanecer assim,  possa voltar ao "normal".

O estado de bem-estar social para os ricos (que, ao contrário de seu xará para os pobres, nunca viu questionada sua racionalidade e muito menos interrompidas suas operações) retornou para as salas de exposições, após deixar as unidades de serviço que  tinha sido relegado seus escritórios e temporariamente para evitar comparações invejosas.

O que os bancos não podiam obter - através de suas táticas usuais de tentação e sedução, o estado através da aplicação de capacidade coercitiva, fez, forçando a população coletivamente, a incorrer em dívidas de proporções  sem precedentes: tributação / hipotecar o nível de vida das gerações que ainda não nasceram...
Os músculos do estado, que há muito tempo  não era usado para essa finalidade,  voltaram a flexionarem-se em público, desta vez por causa da continuação do jogo cujos participantes que fazem que essa flexão se considere ultrajante, mas inevitável; um jogo que, curiosamente, não pode suportar que o estado exercite seus músculos, mas não pode sobreviver sem eles.

Agora, centenas de anos depois de Rosa Luxemburgo deu a conhecer o seu pensamento, sabemos que a força do capitalismo reside na sua assombrosa criatividade para pesquisar e encontrar novas espécies de hospedeiros cada vez que as espécies que se apossou antes se tornaram muito fracas ou morreram, bem como expedição virulenta e velocidade com que adapta para as idiossincrasias de seus novos pastos. Na edição de novembro de 2008, do The New York Review of Books (no artigo "a crise e o que fazer sobre"), o analista inteligente e um mestre da arte de George Soros de marketing apresentaram o itinerário das empresas capitalistas como uma sucessão de "bolhas" de dimensões que excedendo sua capacidade e explodiu rapidamente uma vez que você atingiu o limite de sua resistência.

A "crise do crédito" não marca o fim do capitalismo; Só o esgotamento de um dos seus pastos sucessivos... A busca por um novo prado vai começar em breve, como no passado, incentivado pelo Estado capitalista com a compulsiva mobilização de recursos públicos (através de impostos, e não através de uma sedução do mercado que está temporariamente fora de operações). Novas "Terras virgens" serão pesquisadas e  caberá à direita ou esquerda, abrir-lhes a exploração até que suas possibilidades de aumentarem os lucros dos acionistas e  bonificações de diretores fique esgotada, por sua vez.

Como sempre (como também aprendi no século XX, através de uma longa série de descobertas matemáticas de Henri Poincaré até Edward Lorenz) um mínimo passo ao precipício pode levar a um penhasco e à extremidade de uma catástrofe. Mesmo pequenos avanços podem desencadear inundações e extremidade acima na inundação...

Os anúncios de outro descobrimento de uma  ilha desconhecida atraem hordas de aventureiros que excedem as dimensões do território virgem, multidões que muito em um piscar de um olho teria que ir correndo para seus barcos para fugir do desastre iminente, esperando contra toda a esperança que os navios ainda estejam lá, intactos, protegidos...

A grande questão é em que ponto se esgotará a lista de terras disponíveis para uma secundária "virginização", e as explorações, por mais frenéticas e inteligentes que sejam, deixarão de gerar suspiros temporários. Os mercados, que são dominados pela "mentalidade caçadora que substituiu a atitude de guarda-bosques pré-moderna de jardineiro, seguramente não se vão incomodar em levantar esta questão, dado que vivem de uma alegre  escapada de una caça á outra como mais uma oportunidade de prosperar, não importa o quão brevemente ou a que preço o tempo quando a verdade for detectada.

Ainda não começamos a pensar seriamente sobre a sustentabilidade da nossa sociedade impulsionada à crédito e consumo. "O retorno à normalidade" prevê um retorno às estradas ruins e sempre perigosas. A intenção é alarmante: indica que nem as pessoas que dirigem as instituições financeiras, nem os nossos governos, atingirão o fundo do problema com seus diagnósticos e muito menos com seus atos.

Parafraseando Héctor Sants, o diretor da autoridade de serviços financeiros, que recentemente confessou a existência de "empresas de modelos mal equipado para sobreviver ao stress (...), algo que lamentamos", Simon Jenkins, analista do The Guardian de extraordinária nitidez, observou que "foi como se um piloto protestasse porque seu avião voa bem com exceção de motores".


Autor: Zygmunt Bauman