"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Marcha no México contra a privatização do petróleo e gás

Cerca de 65 mil pessoas marcharam nesta sexta-feira pelas ruas do centro da Cidade do México para protestar contra as medidas promovidas pelo presidente Enrique Peña Nieto, especialmente a privatização do setor de energia.

Miles marchan en México en protesta por reforma energética

Os organizadores da marcha exigiram a implementação de um referendo nacional para anular as mudanças constitucionais feitas para o setor de energia em dezembro, abrindo pela primeira vez a indústria de petróleo e gás para o capital privado. 

A marcha terminou no Zócalo da Cidade do México, onde ele chamou o público para manter uma campanha permanente de sensibilização sobre a reforma do setor de energia. 

Os protestantes chamarão, se necessário, a desobediência civil para derrubar a reforma, o que colocará em risco as reservas de petróleo do país.

Informações: END / Globo

Instituto Paulo Montenegro e Ação Educativa mostram evolução do alfabetismo funcional na última década

O percentual da população alfabetizada funcionalmente foi de 61% em 2001 para 73% em 2011, mas apenas um em cada 4 brasileiros domina plenamente as habilidades de leitura, escrita e matemática 

O Instituto Paulo Montenegro e a ONG Ação Educativa, parceiros na criação e implementação do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), lançam mais uma edição da pesquisa que completa uma década. Os resultados mostram que durante os últimos 10 anos houve uma redução do analfabetismo absoluto e da alfabetização rudimentar e um incremento do nível básico de habilidades de leitura, escrita e matemática. No entanto, a proporção dos que atingem um nível pleno de habilidades manteve-se praticamente inalterada, em torno de 25%.


Tabela I
Evolução do Indicador de Alfabetismo Funcional 
População de 15 a 64 anos (em %)      
 2001-2002
2002-2003 
2003-2004 
2004-2005 
2007 
2009 
 2011-2012
Analfabeto
 12
13
12
11
9
7
 6
Rudimentar
 27
26
26
26
25
21
 21
Básico
 34
36
37
38
38
47
 47
Pleno
 26
25
25
26
28
25
 26
Analfabetos funcionais  (Analfabeto e Rudimentar)
 39
39 
38 
37 
34 
27 
 27
Alfabetizados funcionalmente  (Básico e Pleno)
 61
 61
 62
 63
 66
 73
 73
 base
2002
2002
2002 
2002 
2002 
2002 
2002 

Fonte: INAF BRASIL 2001 a 2011

Obs.: Os resultados até 2005 são apresentados por meio de médias móveis de dois em dois anos de modo a possibilitar a comparabilidade com as edições realizadas nos anos seguintes.

Esses resultados evidenciam que o Brasil já avançou, principalmente nos níveis iniciais do alfabetismo, mas não conseguiu progressos visíveis no alcance do pleno domínio de habilidades que são hoje condição imprescindível para a inserção plena na sociedade letrada. Segundo Ana Lúcia Lima, diretora executiva do Instituto Paulo Montenegro boa parte destes avanços é devida à universalização do acesso à escola e do aumento do número de anos de estudo. Com efeito, de acordo com dados censitários produzidos pelo IBGE o número de brasileiros com ensino médio ou superior cresceu em quase 30 milhões na década 2000-2010, como mostra a tabela abaixo.


Tabela II
Escolaridade da população de 15 a 64 anos no Brasil / IBGE
Escolaridade
 Censo
PNAD
Sem escolaridade
10%
10.866.552
9%
11.766.782
Ensino Fundamental I
30%
32.599.656
18%
23.533.564
Ensino Fundamental II
28%
30.426.345
24%
31.378.086
Ensino Médio
24%
26.079.725
35%
45.759.708
Superior
8%
8.693.242
14%
18.303.883
TOTAL
100%
108.665.519
100%
130.742.024

Fonte: Censo Populacional IBGE 2000 e PNAD 2009

Entretanto, os dados do Inaf levantados no mesmo período indicam que estes avanços no nível de escolaridade da população não têm correspondido a ganhos equivalentes no domínio das habilidades de leitura, escrita e matemática. Somente 62% das pessoas com ensino superior e 35% das pessoas com ensino médio completo são classificadas como plenamente alfabetizadas. Em ambos os casos essa proporção é inferior ao observado no início da década. O Inaf também revela que um em cada quatro brasileiros que cursam ou cursaram até o ensino fundamental II ainda estão classificados no nível rudimentar, sem avanços durante todo o período.

Tabela III
Níveis de alfabetismo da população de 15 a 64 anos por escolaridade (em %)
Níveis
 Até Ensino
Fundamental I
Ensino Fundamental II
Ensino Médio
 Ensino Superior
2001-2002
 2011 
2001- 2002
2011
2001-2002
 2011 
2001-2002
 2011 
Bases 797536555476481701167 289 
Analfabeto
30
21
1
1
0
0
0
Rudimentar
44
44
26
25
10
8
2
4
Básico
22
32
51
59
42
57
21
34
Pleno
5
3
22
15
49
35
76
62

Alfabetizado Funcionalmente  (Analfabeto e Rudimentar)
73
65
27
26
10
8
 2
 4

Funcionalmente Alfabetizado  (Básico e Pleno)
 27
 35
 73
 74
 90
 92
 98
 96


"Apesar dos avanços, tornam-se cada vez mais agudas as dificuldades para fazer com que os brasileiros atinjam patamares superiores de alfabetismo. Este parece um dos grandes desafios brasileiros para a próxima década", avalia Ana Lúcia. "Os dados reforçam a necessidade de investimento na qualidade, uma vez que o aumento da escolarização não foi suficiente para assegurar o pleno domínio de habilidades de alfabetismo: o nível pleno permaneceu estagnado ao longo de uma década nos diferentes grupos demográficos".

Para Vera Masagão, coordenadora geral da Ação Educativa, os dados do Inaf mostram que a chegada de novos estratos sociais às etapas educacionais mais elevadas vem, muitas vezes, acompanhada da falta de condições adequadas para que estes estratos alcancem os níveis mais altos de alfabetismo, o que reforça a necessidade de uma nova qualidade para a educação escolar, em especial nos sistemas públicos de ensino. "Outro fator essencial para avançar é o investimento constante na formação inicial e continuada de professores, que precisam ser agentes da cultura letrada em um contexto de inovação pedagógica".

"Essa qualidade não envolve somente a quantidade de horas de estudo ou a ampliação da quantidade de conteúdos ensinados, mas também fatores como a adequação das escolas e dos currículos a políticas intersetoriais que favoreçam a permanência dos educandos nas escolas e a criação de novos modelos flexíveis que permitam a qualquer brasileiro ampliar seus estudos quando desejar, em diferentes momentos da vida", diz Vera.

 "Ao longo desta década consolidou-se a tendência de ampliação das oportunidades educacionais para todos os brasileiros, com avanços importantes nas regiões e grupos sociais com menor renda. Por outro lado, evidenciou-se a preocupação com os níveis insuficientes de aprendizagem revelada pelas avaliações em larga escala do desempenho escolar, como a Prova Brasil, o ENEM e outros de âmbito estadual e municipal", analisa Vera. "Nesse contexto, muitas iniciativas, em âmbito governamental e não-governamental têm sido postas em marcha para transformar o direito de acesso à escola no efetivo direito a aprender, não só na escola como ao longo de toda a vida".




Resultados por segmentos populacionais
  • As melhorias nos índices de pessoas funcionalmente alfabetizadas ocorrem em todas as faixas etárias, mas há persistências de proporções significativas de pessoas analfabetas entre os mais velhos. Em nenhuma das faixas etárias consideradas houve aumento significativo da proporção de pessoas no nível pleno.
  • Há uma correlação entre a renda familiar e o nível de alfabetismo, uma vez que a proporção de analfabetos e daqueles incluídos no nível rudimentar diminui sensivelmente à medida que aumenta a renda familiar. A evolução do Inaf nesses dez anos revela que os grupos que mais avançaram em termos de alfabetismo foram aqueles com renda de até dois salários mínimos, seguidos por aqueles com renda entre dois e cinco salários mínimos, sendo que a proporção de alfabetizados funcionalmente subiu de 44% para 60% e de 58% para 83%, respectivamente.
  • Apesar da redução da desigualdade entre brancos e não brancos em termos de escolaridade ao longo da década 2001-2011, o Inaf aponta, por exemplo, que a proporção de pessoas funcionalmente alfabetizadas atingiu 80% entre os brancos, 64% dentre os pretos/negros e 69% entre os pardos (o Inaf utiliza a mesma categoria cor/raça do IBGE, a partir da auto declaração dos sujeitos entrevistados).
  • Analisando a evolução do alfabetismo ao longo da década nas diferentes regiões do país, um dado que merece destaque é a região Nordeste que, em dez anos, conseguiu reverter a situação majoritária de analfabetismo funcional em 2001-2002 (51%), atingindo 62% de sua população entre 15 e 64 anos funcionalmente alfabetizadas em 2011.
  • Ao longo da década, observa-se, ainda, que houve melhora em relação ao alfabetismo tanto na área urbana quanto na rural. Embora o avanço da área rural tenha sido significativamente maior, persistem fortes desigualdades em favor das áreas urbanas: a proporção de analfabetos funcionais na área rural é de 44% e de 24% nas áreas urbanas.
Fonte: INAF

    

Conheça mais sobre o Inaf Brasil - 2011-2012: 
Versão integral do relatório em formato PDF para download - pode ser acessado clicando aqui

Ainda a estiagem no Sertão nordestino

Desde  o século XIX a seca no sertão nordestino se tornara um desafio para o governo federal. Todo Mundo já conhece o drama do povo sertanejo, a chamada "Indústria da seca", onde uma elite se utilizava da situação para desviar recursos.

"Chegou-se mesmo a implantar uma 'indústria da seca', facilmente simulável numa enorme área de baixa pluviosidade natural, quando para isso se associam os políticos locais, que dessa forma, encontram modos de servir sua clientela, os negociantes e empreiteiros de obras que passam a viver e a enriquecer da aplicação de fundos públicos de socorro..." (Darcy Ribeiro)

Hoje a realidade mudou, a urbanização engoliu a sociedade rural, ressalte-se que ainda há um problema no campo onde a falta d`água é mais grave, e o problema da seca, o período de chuva se concentra nos seis meses iniciais do ano, foi relativamente controlado com a construção de grandes barragens, porém, atualmente com quase 3 anos de estiagem já chega a ser afetado o fornecimento de água em muitos municípios da região. O problema fica cada vez mais preocupante devido à baixa rápida no volume dos grandes reservatórios o que pode levar a uma catástrofe de abastecimento caso não chova este ano.

Entre as soluções definitivas divergem aqueles que são favoráveis à construção da transposição do Rio São Francisco e os que, como o pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e um dos maiores especialistas no tema João Suassuna, que acredita ser possível resolver o problema sem esta obra. O Fato é que a sociedade aqui erguida tem que condições e obrigatoriamente precisa resolver este dilema, que já não é tão distante assim.

Sobre o dizer "falta lei no Brasil"

Quem nunca ouviu a expressão: "O Brasil não tem lei"?  Essa expressão pode ser creditada por alguns a uma falta de conhecimento jurídico, já que o Brasil é um dos países que mais produzem leis positivadas no Mundo. Pode-se falar, então, da impunidade, uma mentira, já que para as classes pobres sempre ficaram massacres e agora mais de 500 mil encarcerados.

Essa frase, bem explicada por Darcy Ribeiro, embora indiretamente, é uma herança do passado colonial. Na verdade a existência de lei é que leva à sua "falta", Processo legal, Hebeas corpus, medidas alternativas, aguardar julgamento em liberdade, por exemplo, são situações que não fazem parte da justiça do coronel. A falta de lei a que se referem é o fato de a polícia não poder, pelo menos abertamente, matar e espancar, como era do agrado da "justiça" da exclusão.

A Cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar a cabana, e vinha,
Não sabem governar sua cozinha, 
E querem governar o mundo inteiro

(Matos Guerra)

Madrid: Dezenas de milhares de pessoas protestaram contra nova lei do aborto

Manifestantes exigiram retirada da lei medieval que atenta contra a liberdade das mulheres e a sua dignidade, bem como a demissão de Alberto Ruiz Gallardón. Mulheres espanholas contaram com ampla solidariedade internacional.
Foto Chema Moya, EPA/lusa.
Dezenas de milhares de pessoas manifestaram-se este sábado em Madrid contra a nova Lei do Aborto aprovada em Conselho de Ministros em dezembro, que, para além de voltar a proibir a interrupção voluntária da gravidez nas primeiras 14 semanas de gravidez, não permite ainda o aborto quando o feto apresente alguma malformação.
A iniciativa, que partiu de dois grupos feministas das Astúrias - a Tertúlia Feminista Les Comadres e Mujeres por la Igualdad -, foi engrossada por inúmeros “Comboios da Liberdade”, oriundos de diversas comunidades autónomas do Estado Espanhol.
Na manifestação, com origem na estação de Atocha e término na Praça Neptuno, participaram mulheres de todas as idades, homens, e, inclusive, famílias acompanhadas dos seus filhos.
Os manifestantes, que reivindicaram o direito da mulher a decidir sobre o seu próprio corpo, entoaram palavras de ordem como “Gallardón, demissão!” e empunharam cartazes nos quais se lia, por exemplo, “Aborto legal para não morrer”, “Nós parimos, nós decidimos”.
Pelas 13h30, uma delegação das organizações que convocaram o protesto entregou no Parlamento espanhol um documento sobre o direito da mulher a decidir sobre a sua maternidade, dirigido ao presidente do governo, aos ministros da Justiça e da Saúde, e aos grupos parlamentares responsáveis pela apresentação da proposta legislativa.
Organizações civis, partidos políticos e sindicatos juntaram-se ao protesto
Elena Valenciano, do PSOE, afirmou que “esta não é uma lei contra o aborto, mas sim contra as mulheres e contra a sua dignidade e a sua liberdade e, por isso, vamos dizer que não”.
Já Gaspar Llamazares, representante da Izquierda Plural (IU-ICV-CHA), recusou a “lei medieval que procede do dogma religioso” e instou a que o anteprojeto de lei não passe a tramitação parlamentar.
“Esta não é uma batalha legal, senão uma batalha moral que querem impor”, referiu Inés Sabanés, do Equo Madrid, que reiterou o compromisso do seu partido na luta contra a retirada da lei e a demissão de Gallardón.
Um representante das CC OO condenou o "ataque sem precedentes". Almudena Fontecha, da UGT, dirigiu-se às mulheres do PP: "Não queremos uma sociedade de hipócritas. As mulheres de direita também abortam".
Vários representantes do setor da cultura também participaram na manifestação. A atriz Pilar Barden sublinhou que “não podemos regressar às cavernas, não podemos permitir que as ricas vão a Londres e que as pobres morram num quarto abortando clandestinamente”.
Solidariedade internacional com mulheres espanholas
Várias associações feministas francesas participaram na manifestação em Madrid, integradas na Plataforma Feminismo em Movimento. Foram também convocadas concentrações em frente às embaixadas espanholas em Paris, Roma, Florença e Londres e realizaram-se protestos em Quito (Ecuador), Buenos Aires (Argentina), Santiago de Chile, cidade do México e Rabat.
Em Portugal, realizou-se uma manifestação de solidariedade com as mulheres espanholas que integrou a manifestação da CGTP, tendo-se dirigido posteriormente para o consulado de Espanha.
A iniciativa partiu de um conjunto de cidadãos e cidadãs, e também de um conjunto de associações e coletivos: APF - Associação para o Planeamento Familiar, Associação ComuniDária, Associação Clube Safo, Associação ILGA Portugal, ALCC - Associação Lusofonia Cultura e Cidadania, APMJ - Associação Portuguesa de Mulheres Juristas, Casa do Brasil de Lisboa, MMM - Marcha Mundial de Mulheres Portugal, Panteras Rosa, PpDM - Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres, UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta, Rede 8 de Março, Rede Portuguesa de Jovens para a Igualdade de Oportunidades entre Mulheres e Homens, SOS Racismo.

O que tem a ver com isso?

Acredito que haverá um dia em que o povo brasileiro se libertará da televisão, daquela que "informa" desinformando, daquela que fabrica o consenso como escreve Noan Chomsky.

Difícil explicar o interesse e o entusiasmo pelo programas policiais, com suas chamadas ao vivo, seus apresentadores berrando meia dúzia de hipocrisias, tentando serem um poder judiciário de exceção, tentando ser os pensadores do Direito Penal e o povo tendo nesses seus ídolos "que mostram a realidade" e lutam pela "justiça".

Esse é um ponto chamativo, se criticar o tipo mencionado de programa é por que defende "bandidos", mas não é o poder judiciário ou, para os que não são favoráveis à existência do Direito penal, a intervenção estatal,  responsável por isso? Por que a TV? Bom para elas são os lucros, principalmente a grande mídia ,instrumento antidemocrático. Manipular é liberdade de expressão, Lei de Meios argentina nunca discutida em seus artigos diretamente é censura. Há ainda o proveito político, já que boa parte da mídia brasileira é da posse direta de "políticos", como Collor, Agripino ou Sarney e tantos outros que não caberia neste artigo. Muitas vezes os que idolatrizam os "justiceiros" da TV ou do Rádio apoiam sem saber o tráfico de drogas ou o tráfico sexual, já que ele vem de dentro das entranhas do poder.

E de tanto lixo repetido as pessoas começam a se sentirem "inteligentes" no assunto, nada mais, nenhum argumento vale, nada de ler Capitães da Areia de Jorge Amado ou O Povo Brasileiro de Darcy Ribeiro, tem que ser instituído um Direito Penal assassino.

"Defensores de bandidos" não reparam na dor da mãe que perdera o filho assassinado, ou da jovem estuprada, do idoso espancado. "Bandido bom é bandido morto", nem são "gente". E o assunto vira o do momento, "especialistas" a toda esquina e uma pauta conservadora sendo alimentada.

Vicenç Navarro: a economia política da felicidade

Neste artículo Navarro analisa um  livro (Sem publicação no Brasil como sempre) que tem causado interesse nos círculos acadêmicos do mundo anglo-saxão, com considerável  impacto n a cultura política e mediática daqueles países que vivem nessa cultura.

Publicado por Vicenç Navarro na revista SISTEMA da Espanha


Um dos livros que está  causando mais interesse em muitos círculos anglo-saxões é o escrito pelo professor de Ciência Política na Universidade de Notre Dame, dos EUA, Benjamin Radcliff, intitulado A Economia Política da felicidade humana. Eu aconselho o leitor a lê-lo. Ele irá fornecer dados que podem ser usados ​​para desmantelar o aparelho ideológico da sensibilidade  neoliberal, que surpreendentemente, ainda domina a maioria dos sites econômicos de grandes meios de comunicação e persuasão do nosso país. Digo surpreendente porque seria de esperar, considerando a enorme falha que têm as políticas promovidas pelo pensamento neoliberal, este dogma e doutrina deveria ter perdido visibilidade na mídia como resultado de sua falta de credibilidade científica. Mas não é assim. Dia após dia, esta mensagem neoliberal continua a ser promovida. E um dos elementos desta mensagem é que o menor  gasto público ou a intervenção estatal menor, maior é a eficiência economia e maior é o bem-estar e a felicidade da população.

O que o Professor Radcliff faz é analisar os tipos de intervenção, rompendo as diferentes dimensões do setor público e as diversas regulamentações governamentais que afetam o bem-estar da população, e em particular o mundo do trabalho. Esta análise  detalhada do Estado e de suas intervenções é muito necessária  para poder analisar em detalhe e rigor as diversas formas de intervenção pública. E com este estudo, que se concentra em países da OCDE, o grupo de países mais ricos do mundo, vários fatos são mostrados:

1. Que aqueles países que têm serviços públicos universais (ou seja, que serve toda a população), tais como saúde, educação e serviços sociais, são mais felizes (têm uma maior percentagem da população que está satisfeita e feliz com a sua vida) do que os países sem esses serviços, sendo substituído por bem-estar ou serviços de caridade, cujo acesso depende do poder de compra da população.

2. Que aqueles países que gastam mais per capita em cada um desses serviços têm maior felicidade do que aqueles que gastam menos.

3. Que os países governados durante mais tempo desde os anos 1940 por partidos mais favoráveis ​​à intervenção redistributiva em favor das rendas do trabalho (ou seja, partidos de centro-esquerda ou esquerda) são mais felizes do que aqueles que favorecem o rendimento de capital (partidos de direita ou de centro-direita).

4. As políticas neoliberais  afetam negativamente os níveis de felicidade da população.

Estou ciente de que alguns leitores deste artigo acreditam que este livro é um documento político a serviço de uma ideologia política. Mas eles estão errados. Os dados estão lá, com uma metodologia de trabalho rigoroso, tentando analisar o que outras variáveis ​​podem estar envolvidos na apresentação dos resultados. E, um por um, exclui outras explicações que foram dadas para explicar estes fatos, que mostra que eles são insustentáveis com base nos dados.

Esta última observação é importante, pois existe o costume nos meios de comunicação de tentar fingir objetividade, apresentando o que eles chamam os dois lados da mesma moeda. Quer dizer, que tentam apresentar um balanço, mostrando os países conservadores e os países liberais e países com tradição social-democrata (mantendo essa tradição) como países com alta felicidade, concluindo que a felicidade não tem partidos políticos. O fracasso dessas descobertas é que os dados não mostram isso. Essas sociedades mais coesas e que tem menos desigualdade permitir e facilita o desenvolvimento de mais felicidade do que aqueles que não o são. Tão claro.


Vicenç Navarro

Catedrático de Políticas Públicas. Universidad Pompeu Fabra

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Paradoxo no Brasil: como as prisões fortalecem as gangues

Por Benjamin Lessing

Em  4 de Janeiro, a capital do Maranhão sofreu uma onda de ataques a ônibus e polícia, sob as ordens de uma gangue da prisão local. A morte de uma menina de 6 anos de idade e as péssimas condições nas prisões no Maranhão, incluindo vídeos de prisioneiros decapitados e supostas violações dos prisioneiros que visitam parentes, colocam a atenção do mundo sobre a crise da prisão no Brasil.

Mas o mais preocupante é a familiaridade: isso não é novidade .

Um caso paradigmático foi em 2006, quando o Primeiro Comando do Capital (PCC) paralisaram São Paulo durante dias com centenas de ataques em locais estratégicos. Mas na verdade, o PCC tinha aprendido as táticas aperfeiçoados do Comando Vermelho do Rio de Janeiro, uma quadrilha muito mais antiga. Nascida nas masmorras da ditadura militar brasileira nos anos 70, as técnicas do CV adaptadas para aproveitar o sistema prisional e, eventualmente, expandir-se na década de 80 para controlar as favelas da cidade  - e seu lucrativo tráfico de drogas.

Os telefones celulares têm acelerado a expansão, mas como demonstrado pelo CV, os ingredientes básicos são um conhecimento compartilhado, uma tecnologia que pode ser replicada e ensinada. A gangue cuida de membros em prisões, com um sistema de justiça crua que pune aqueles que desobedecem. Isto dá-lhes poder sobre as pessoas na rua que antecipa uma possível prisão."O que você faz aqui fora", disse um ex- traficante no Rio, "você vai ter que responder por isso lá dentro."

Então resulta preocupante, mas não surpreendente que as redes criminosas com base nas prisões continuem a se expandir. Em 2013, mais de 100 ônibus foram incendiados e atacaram postos policiais em Santa Catarina, normalmente um estado próspero e pacífico no sul do Brasil. Os ataques foram obra do Primeiro Comando de Santa Catarina, até então uma organização baseada nas prisões pouco conhecida. Primeiro Comando de Santa Catarina foi edificado sete anos antes por detentos que passaram tempo em prisões em outros estados controlados pelo Primeiro Comando  da Capital.

Uma das duas gangues que lutam pela hegemonia nas prisões do Maranhão no início de 2014 é outro tronco do PCC, conhecido como Primeiro Comando do Maranhão. De fato, um relatório de 2011 concluiu que o PCC está presente em pelo menos 16 estados brasileiros, seja através de parcerias com grupos locais ou através de suas próprias franquias.

Pesquisas recentes sobre as gangues nas prisões demonstram como gangues transformam a lógica do encarceramento.

Primeiro, o grupo obtêm energia através da imposição de uma certa ordem nas prisões, com proteção e regimes de bem-estar para os presos internados em um sistema brutal e caótico. Isso vai continuar mesmo após o fim da luta atual para o controle das prisões do Maranhão, onde uma gangue é imposta sobre a outra, e a violência dentro das prisões diminui (como em São Paulo) e o problema desaparece das manchetes.

Em segundo lugar, as gangues de sabem  como projetar seu poder para as ruas, garantindo a fidelidade dos prisioneiros libertados e aqueles que não foram presos ainda, mas antecipando que, no futuro, poderia cair sob as garras dos líderes presos. Este poder é freqüentemente usado para organizar a atividade criminosa local, normalmente relacionada com o tráfico de drogas, embora os marascentroamericanas tenham aprendido a organizar redes de chantagem nas prisões. Eles também permite ordenar gangues terroristas como pressionar as autoridades políticas, ou, por outro lado, impor medidas para diminuir ataques violentos, como a trégua das gangues em El Salvador ou "código de conduta criminosa" (Lei do crime) no Brasil. Ambas as medidas das gangues significa reduções significativas nas taxas de homicídio. Isso aumentou o poder de barganha das gangues de prisão contra o Estado.

Políticas que prendem um grande número de quadrilheiros resultam em taxas mais elevadas e pior superlotação das prisões, e aumenta o poder das gangues de rua nas prisões, ao invés de diminuí-la.

O que fazer? Um ponto de partida é a implementação de políticas mais inteligentes, incluindo enfocar nos verdadeiros criminosos de prisões em massa contra todos os membros da gangue. Outras medidas eficazes são penalidades mais curtas mas mais determinadas para infrações menores, e as prisões menores mas com mais  monitoramento. Isto pode desencorajar ao invés de incentivar a obediência aos líderes de gangues que estão atrás das grades.

No entanto, o progresso real pode exigir uma redução nas taxas de encarceramento que não têm precedente histórico. A situação no Maranhão nos lembra que, em muitos aspectos, os problemas apenas começam, e não tem fim, quando os transgressores são presos.

Lessing é um professor assistente em ciência política na Universidade de Chicago

Declaração final da Celac enfatiza independência em assuntos internos

A declaração final da 2ª Cúpula da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) enfatizou a busca da convivência pacífica e a não ingerência em assuntos internos dos membros do bloco. O texto assinado na quarta-feira (29) pelos chefes de estado e de governo dos 33 países destaca o compromisso “com a solução pacífica de controvérsias e o respeito aos diferentes modelos econômicos e políticos existentes”.

“Decretamos que a Celac é uma zona de paz e que não vamos interferir em assuntos internos de nenhum país, em cumprimento ao principio da soberania”, aponta o documento. Também foi acordado o respeito ao direito “inalienável” de cada Estado para escolher seu sistema econômico, político, social e cultural como condição essencial para assegurar a convivência pacífica entre as nações.

Atualmente na região há diferentes modelos econômicos com governos liberais, conservadores, de centro-esquerda e esquerda. Um exemplo é a existência conjunta dos blocos da Aliança Bolivariana para a América (Alba), do qual fazem parte, entre outros, Bolívia, Cuba, Equador e Venezuela, com viés socialista, e a Aliança do Pacífico, grupo formado pelo Chile, Peru, Colômbia e México, atualmente com governos liberais de centro ou direita.

Apesar das diferenças, o documento afirma que a Celac decidiu fomentar as relações da amizade entre si e com outras nações. A declaração foi lida pelo presidente cubano, Raúl Castro. Ele disse que a comunidade fará esforços para praticar a tolerância e viver em paz. “Também concordamos em continuar a promoção do desarmamento nuclear”, leu Castro.

Também participou da cúpula em Havana, o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon. Ele esteve com Raul Castro e com Fidel Castro. Nos encontros, ele pediu ao o governo cubano que ratifique pactos internacionais de direitos humanos.

Outra participação importante foi a do secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza. Ele participou do evento como visitante. É a primeira vez que um representante do organismo multilateral visita a ilha desde 1962, ano em que Cuba foi suspensa do bloco. No final do encontro a Costa Rica assumiu a presidência pro-tempore do bloco.

De Bogotá, da Agência Brasil, Leandra Felipe.

Terra Indígena Tupinambá militarizada na Bahia

Polícia Federal e a Força Nacional estão na área indígena Tupinambá  na Serra do Padeiro, sul da Bahia. Apesar da Constituição Federal assegurar, de modo claro e assertivo, os direitos dos povos indígenas às suas terras tradicionais. Durante as duas últimas madrugadas (29 e 30 de janeiro), os Tupinambá, que permanecem no mato após a reintegração de posse das fazendas Sempre Viva e Conjunto São José, foram alvos não só de armas de fogo, mas também de granadas, segundo eles mesmos relataram.

A reportagem é publicada pelo Cimi.

O processo de identificação da Terra Indígena Tupinambá teve início em 2004. Cinco anos depois, em abril de 2009, a Fundação Nacional do Índio (Funai) aprovou o relatório circunstanciado, no qual reconhece que “a área na qual se situa o imóvel litigioso é terra indígena tradicionalmente ocupada, cuja posse e usufruto são exclusivos da Comunidade Tupinambá”. O encaminhamento do relatório foi feito ao Ministério da Justiça, que tinha um prazo de 30 dias, de acordo com o decreto 1775/96, para a expedição da portaria declaratória. O Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, insiste em desrespeitar a legislação brasileira, de modo especial a Constituição Federal. É inaceitável que, em vez de dar seguimento ao devido procedimento administrativo, o governo instale uma base policial em uma terra reconhecidamente indígena.

Segundo a diretora da escola indígena, Magnólia Tupinambá, na madrugada de (30/01), mais viaturas policiais chegaram na área. “O tiroteio foi ainda maior que na noite anterior. Parecia que iam derrubar as casas de tanto tiro. Foi muito tiro mesmo, e granada também. Mesmo a 6 km de distância você assustava com tanto tiro. E a gente se pergunta: por que o governo tá atirando nos indígenas? Por que tá agindo do mesmo jeito que na época da ditadura? Por que toda esta violência contra nós? Só queremos o que é nosso de direito”, questiona ela.

Além do episódio em que a Polícia Federal foi acusada de torturar cinco indígenas Tupinambá em 2009, em uma área retomada (Ação Civil Pública nº 001825-23.2010.4.01.3311 – JF/Itabuna), a diretora Magnólia refere-se à brutal perseguição do cacique Marcellino, que vitimou toda a comunidade Tupinambá na época da intensificação da agricultura cacaueira. Na década de 1930, ao tentar frear a penetração dos não índios,  contratados pelos coronéis, no território Tupinambá, o cacique resistiu a sucessivos confrontos com a polícia. No entanto, em 1937, Marcellino desapareceu. Os índios afirmam que ele foi levado para o Rio de Janeiro. O certo é que nunca mais retornou.

Este trecho de um artigo publicado, em outubro de 2013, na revista Carta Capital dá a dimensão da violência a que se referem os Tupinambá: “Quando procuravam Marcellino, certa noite, os policiais invadiram um sítio habitado por três indígenas – os irmãos Flaviano, Lourenço e Rufino – e suas famílias. Para que informassem o paradeiro do 'bando', os irmãos foram amarrados, açoitados com varas e interrogados. Os filhos menores de Rufino foram poupados, mas os dois mais velhos, Estelina Maria Santana e seu irmão Pedro, levaram uma surra de bainha de facão. Estelina morreu em 1987. A história quem conta é um de seus filhos, que vive em uma área retomada. Em sua perspectiva, o imperativo de recuperar o território tem a ver, junto às questões materiais, com uma obrigação moral, em memória de Estelina. Também participa do processo de retomada a filha de outro indígena torturado na perseguição a Marcellino, Manoel Liberato de Jesus, o Duca, que teve unhas arrancadas a saibro e a orelha esquerda pregada na parede. Ao fazê-lo, os policiais avisaram: se ainda estivesse ali quando voltassem, morreria. 'Meu pai fez força, rasgou a orelha e saiu'. O lóbulo acabou permanentemente mutilado, como se pode ver no retrato em sua carteira de filiação ao Sindicato Rural de Ilhéus, guardada pela filha”.

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) entende que a militarização do território Tupinambá somente agrava a situação vivida pelos Tupinambá e ocupantes não índios.  A solução do caso depende, necessariamente, da imediata publicação da portaria declaratória da Terra Indígena Tupinambá, bem como, o pagamento das indenizações devidas aos ocupantes não indígenas e o reassentamento daqueles que têm perfil para a reforma agrária.

É inteira responsabilidade do governo Dilma evitar ou causar uma tragédia na Serra do Padeiro, terra do povo Tupinambá.

Influência humana é clara no aquecimento "inequívoco" do planeta, diz IPCC

Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas divulga primeira parte de estudo sobre aumento da temperatura no globo e afirma que últimas três décadas foram sucessivamente mais quentes que qualquer outra desde 1850.

A reportagem é de Renate Krieger e publicada pelo sítio Deutsche Welle, 30-01-2014.

O aquecimento do planeta é "inequívoco", a influência humana no aumento da temperatura global é "clara", e limitar os efeitos das mudanças climáticas vai requerer reduções "substanciais e sustentadas" das emissões de gases de efeito estufa. A conclusão é do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), que divulgou nesta quinta-feira (30/01), em Genebra, a primeira parte do quinto relatório sobre o tema.

Os cientistas do IPCC – que já foram premiados com o Nobel da Paz em 2007 – fizeram um apelo enfático para a redução de gases poluentes. "A continuidade das emissões vai continuar causando mudanças e aquecimento em todos os componentes do sistema climático", afirmou Thomas Stocker, coordenador e principal autor da Parte 1 do quinto Relatório sobre Mudanças Climáticas, cuja versão preliminar já foi apresentada em setembro de 2013.

O documento serviu de base durante a Conferência das Partes (COP) das Nações Unidas sobre o Clima em Varsóvia, na Polônia, no final do ano passado. Em 1500 páginas, cientistas de todo o mundo se debruçaram sobre as bases físicas das mudanças climáticas, apoiados em mais de 9 mil publicações científicas.

"O relatório apresenta informações sobre o que muda no clima, os motivos para as mudanças e como ele vai mudar no futuro", disse Stocker.

Correções

A versão final divulgada nesta quinta é um texto revisado e editado e não tem muitas mudanças em relação ao documento apresentado em setembro do ano passado, que elevou o alerta pelo aquecimento global e destacou a influência da no processo.

"A influência humana no clima é clara", afirma o texto. "Ela foi detectada no aquecimento da atmosfera e dos oceanos, nas mudanças nos ciclos globais de precipitação, e nas mudanças de alguns extremos no clima."

Segundo o IPCC, desde a década de 1950, muitas das mudanças observadas no clima não tiveram precedentes nas décadas de milênios anteriores. "A atmosfera e os oceanos estão mais quentes, o volume de neve e de gelo diminuíram, os níveis dos oceanos subiram e a concentração de gases poluentes aumentou", diz um resumo do documento.

"Cada uma das últimas três décadas foi sucessivamente mais quente na superfície terrestre que qualquer década desde 1850. No hemisfério norte, o período entre 1983 e 2012 provavelmente foi o intervalo de 30 anos mais quente dos últimos 800 anos", prossegue.

Aquecimento dos oceanos

O grupo de cientistas também lembra que o aquecimento dos oceanos domina o aumento de energia acumulada no sistema climático, e que os mares são responsáveis por mais de 90% da energia acumulada entre 1971 e 2010.

"É praticamente certo que o oceano superior (até 700m de profundidade) aqueceu neste período, enquanto é apenas provável que tenha acontecido o mesmo entre 1870 e 1970", diz o relatório.

O nível dos mares também aumentou mais desde meados do século 20 que durante os dois milênios anteriores, segundo estima o IPCC. Entre 1901 e 2010, o nível médio dos oceanos teria aumentado cerca de 20 centímetros, diz o documento.

As concentrações atmosféricas de dióxido de carbono, metano e protóxido de nitrogênio (conhecido como gás hilariante) aumentaram, principalmente por causa da ação humana. Tais aumentos se devem especialmente às emissões oriundas de combustíveis fósseis. Os oceanos, por exemplo, sofrem acidificação por absorver uma parte do CO2 emitido.

Futuro sombrio

A temperatura global deverá ultrapassar 1,5ºC até o final deste século em comparação com níveis estimados entre 1850 e 1900. O aquecimento global também deverá continuar além de 2100, mas não será uniforme, dizem os cientistas do clima. As mudanças nos ciclos da água no mundo também não serão homogêneos neste século, e o contraste entre regiões secas e úmidas e regiões de seca e de chuvas deverá aumentar.

O resumo do texto ainda constata que a acumulação de emissões de CO2 deverá ser determinante para o aquecimento global no final do século 21 e adiante. "A maioria dos efeitos das mudanças climáticas deverão perdurar por vários séculos, mesmo com o fim das emissões."

Até outubro, o IPCC ainda vai publicar mais duas partes do relatório e também um documento final. A segunda parte será divulgada em março, no Japão, e detalhará os impactos, a adaptação e a vulnerabilidade a mudanças climáticas. Em abril, Berlim será palco das conclusões do IPCC sobre mitigação.

Área com transgênicos no país deve crescer 25,8% nos próximos dez anos

O cultivo de transgênicos deve continuar ganhando espaço no Brasil. Essa é a conclusão de estudo da consultoria Céleres - antecipado pelo Valor PRO, serviço em tempo real do Valor - que indica que a área semeada com soja, milho e algodão geneticamente modificados deverá crescer 25,8% na próxima década, de 40,7 milhões na atual safra 2013/14 para 51,2 milhões de hectares em 2022/23. Esse avanço tende a ser mais acelerado que o aumento previsto para a área total (inclui convencional) coberta por esses grãos no país, estimado em 21,6%, de 46,3 milhões para 56,3 milhões de hectares.

A reportagem é de Mariana Caetano, publicada no jornal Valor, 30-01-2014.

Conforme Anderson Galvão, CEO da Céleres, a soja continuará na dianteira no intervalo analisado, entre as safras 2013/14 e 2022/23. "Hoje, 92% da área com a oleaginosa no país é transgênica, número que passará a 95% em dez anos", projeta. A perspectiva é de aumento de 25% na área total destinada à soja no período, a 36,9 milhões de hectares.


Foto: Jornal Valor
Para o milho, a perspectiva da Céleres é de um avanço mais discreto no plantio total - cerca de 14%, para 17,5 milhões de hectares. Dessa área, 85% serão de transgênicos, ante 81% na atual safra 2013/14. "O crescimento do milho se dará mais pelo aumento de produtividade do que pela expansão de área. Em dez anos, a produção total avançará 26%, para 104 milhões de toneladas, dos quais 88,4 milhões serão transgênicos", previu.

Já o cultivo de algodão geneticamente modificado deve passar de 624 mil hectares para 1,03 milhão de hectares, o equivalente a 62% do total cultivado com a fibra na próxima década. O número está bem à frente dos atuais 47%.

A principal praga do algodão no Brasil é o bicudo, contra o qual ainda não existe tecnologia transgênica, por isso a difusão é bem inferior à verificada em soja e milho, segundo Galvão.

Mesmo que não tenhamos essa ferramenta disponível nos próximos dez anos, o aumento de custos e a escassez de mão de obra estimularão o produtor a adotar a biotecnologia para o manejo de plantas daninhas, que ainda demanda muito trabalho braçal", acredita ele.

Os benefícios econômicos com o plantio de transgênicos também tendem a crescer, afirma a Céleres, que tem entre seus clientes empresas do segmento de biotecnologia. Serão US$ 90,8 bilhões no acumulado da próxima década, substancialmente acima dos US$ 24,8 bilhões obtidos desde a temporada 1996/97, que marcou o início desse cultivo no país (a princípio, ilegal, com sementes de soja contrabandeadas da Argentina), até 2012/13.

A elevação de produtividade, grande responsável por esses ganhos econômicos, deve aumentar sua participação no montante na próxima década, de 52% para 56%, a US$ 50,85 bilhões. A redução nos custos de produção, por sua vez, tende a exercer papel menos importante, contribuindo com 21% (US$ 19,06 bilhões), e não mais 28% do total. Os 23% restantes, ou US$ 20,88 bilhões, seriam os ganhos da indústria (com royalties, por exemplo).

Para Galvão, diferentemente da redução de custos, que gera benefícios diretos ao produtor, o aumento de produtividade proporciona benefícios aos demais elos do setor. "O agricultor tem uma colheita maior, mas essa produção a mais é escoada ao longo da cadeia de valor, para a ração, a carne e o leite. Assim, indiretamente, o consumidor final também acaba favorecido", argumenta.

Ainda de acordo com o CEO da Céleres, a soja deve ser a principal responsável pelos benefícios econômicos com o plantio de transgênicos na próxima década. A projeção é que a soja responda por 56% dos US$ 90,8 bilhões previstos, e o milho, por 38%. "A importância da soja aumenta por ter a maior área entre as culturas e pela entrada de tecnologias com eventos combinados, como resistência a insetos e tolerância a herbicidas", disse.

Davos debate as desigualdades, porém convida os sonegadores de impostos

Larry Elliott 

Quem os ver de fora poderia imaginar que os líderes empresariais que se reúnem todos os anos em Davos para dar a língua só os preocupa enriquecer. Seus críticos poderiam chegar a imaginar que os chefões das empresas, que chegam voando ao  Fórum Econômico Mundial, a 1.600 m de altitude nos Alpes suíços em seus helicópteros, com suas senhoras de boa aparência forradas de arminho, desconhecem a situação dos pobres. Mas seria errado.

Enquanto os ricos e poderosos fazem seus preparativos de última hora para a sua semana no Magic Mountain, é o seu desejo  enviar uma mensagem de que eles entendem o que está acontecendo com a desigualdade. Sofrem por esse sofrimento. De verdade.

A prova da linha de base no "Davos entender" vem do relatório de risco anual compilado pelo Fórum Econômico Mundial. Pergunta a 700 de seus membros o que eles acham que vai ser as ameaças mais prementes para a economia global na próxima década. A desigualdade é considerada a ameaça mais provável.

Klaus Schwab, que criou a reunião de Davos, em 1970, está satisfeito com este achado. Como um bom e velho social-democrata, quer que os seus membros  obtenham uma lição de história e percebam que o capitalismo não pode sobreviver se a renda e a riqueza está concentrada nas mãos de poucos. Durante a maior parte do século, os líderes de negócios mais perspicazes perceberam que precisavam de seus trabalhadores com salários dignos para que eles pudessem comprar os bens e serviços que produzem. Eles aproveitaram a ideia de que um sistema de mercado em sua forma mais crua era incompatível com a democracia e, portanto, deram o seu consentimento, enquanto as arestas mais ásperas limavan através da tributação progressiva, estado de bem-estar e freios ao capital. Interiormente, temiam que a Revolução Russa serviria como um modelo para os trabalhadores descontentes do Ocidente.

As atitudes mudaram nos últimos 30 anos. A chamada Grande Compressão viu rendas entre 1930 e 1970 reverteu seu curso, enquanto o top 1% foi feito com os frutos do crescimento. Ricos recorreram ao seu dinheiro e influência para garantir que os governos fizessem a sua vontade. Após a queda do Muro de Berlim,não havia modelo rival e sim menos necessidade de mostrar contenção. Com o advento de um mundo unipolar, virou-se para uma forma mais agressiva da economia de mercado, uma vez que não via desde os primórdios da industrialização.

Schwab disse na semana passada que nenhum crescimento inclusivo é insustentável, e com razão. Um documento divulgado hoje pela Oxfam chega à mesma conclusão, observando que as 85 pessoas mais ricas do mundo possuem uma fortuna equivalente à riqueza total de - 1, 7 bilhões de dólares - de metade  da população da Terra. É um número bastante impressionante. Você poderia colocar essas 85 pessoas em um ônibus de Londres  (não que eu nunca ande em ônibus) e seriam tão ricos quanto  3.5 bilhões de pessoas.

O contra-argumento é que há muito menos pobreza do que havia há 15 ou 20 anos atrás, e isso - em grande parte graças a três décadas de crescimento explosivo da China - é verdade. Aqueles que argumentam que a maré alta levanta todos os barcos estão se perguntando o que todo esse alarde .

O alvoroço está relacionado a três dos temas a serem incluídos na agenda de Davos deste ano: a recuperação econômica, a mudança climática duradoura e o fosso entre ricos e pobres. No período que antecedeu a crise 2007-2009, a desigualdade crescente era consistente com a expansão só graças a aumento dos níveis de dívida pessoal. Desde o início da crise, o galpão continuou se movendo através de um estímulo sem precedentes de bancos centrais. No curto prazo, a preocupação é o que vai acontecer nos mercados emergentes mais frágeis como a Reserva Federal vai restringir o seu programa de compras de ativos economias. O processo de impressão de dólares levou o dinheiro quente em uma corrida dos EUA para as moedas dos mercados emergentes para retornos mais elevados, para esvaziar o programa pode ver um novo turbilhão.

Uma preocupação a longo prazo é que apertar de maneira prolongada os salários reais - intensificação da tendência do último quarto de século - vem a supor que as pessoas peçam mais emprestado para financiar seus hábitos de consumo, justo quando a eliminação progressiva do estímulo encarece os empréstimos.

A segunda questão importante, o que não tem sido usado desde o início da crise, é se o atual modelo de crescimento global é coerente com impedir que o planeta  termine fritura. Uma recessão sempre relega as questões ambientais na ordem da agenda e esta tem sido uma recessão particularmente profunda e dolorosa. A falta de coordenação global e a (equivocada) crença de que a fratura hidráulica (fracking ) é a resposta às necessidades globais de energia não tem ajudado a melhorar as coisas.

Finalmente, está a inclusão. A recessão tem sido particularmente brutal com os jovens, muitos dos quais estão desempregados ou realizando um trabalho para o qual eles estão sobre-qualificadas. Em muitos mercados emergentes, a população deve-se ao lado do menor de 25 anos, o grupo com maior probabilidade de migrar ou causar agitação social no país. A Mídia moderna torna muito óbvio a distribuição desigual de riqueza, poder e oportunidades.

No que respeita ao relatório da Oxfam : "Quando a riqueza aproveita a concepção de medidas de política, as regras são distorcidas para favorecer os ricos, muitas vezes em detrimento de todas as outras conseqüências incluem a erosão da governança são contados. ruptura democrática de coesão e o desaparecimento de oportunidades iguais para todos. A menos que implementar soluções políticas ousadas para conter a influência da riqueza sobre a política, os governos irão agir no interesse da os ricos."

Certamente a linha sobre a desigualdade Schwab esta semana recebe um grande apoio em público. Haverá assomvro e nervos para algumas das descobertas mais surpreendentes do relatório Oxfam, como que nos EUA o 1% mais rico conquistou 95 % de crescimento após a crise financeira, enquanto 90% da base tornou-se mais pobre.

Mas não espere muito apoio para qualquer um dos remédios sugeridos pela Oxfam: que as grandes empresas já não utilizam refúgios fiscais para pagar impostos, os líderes empresariais apoiam tributação progressiva, a cobertura universal de saúde e educação e faixa salarial para viver em todas as empresas que eles controlam. Os gerentes podem apresentar em Davos que estão preocupados com o impacto da desigualdade, mas não estão tão preocupados e não têm metade da preocupado com o que deveriam ser.

Schwab poderia tornar a vida mais desconfortável para seus convidados pondo nome aos sonegadores e fiscais agressivas, em vez de convidá-los para a sua festa de negociações. Isso, no entanto, haveria muitas vagas em Davos.

Por outro lado, empresas como a Google (Faturamento em 2012 no Reino Unido: £ 3 bilhões de; benefícios no Reino Unido: £ 900 milhões; imposto sobre as sociedades: £ 11.6 milhões) pode representar como bons cidadãos globais. Este ano, os jornalistas são convidados para um "bate-papo lareira", com Eric Schmidt, para mostrar que o presidente do Google não é um magnata, mas uma reencarnação l de Franklin Roosevelt. [ 1 ]

Nota para uso pessoal -  coisas para levar a Davos: botas, chapéu de lã, luvas, saco para vomitar.


Nota del t.:

[1] Eles são conhecidos como bate-papos ao pé da lareira (palestras junto à lareira), que os trinta discursos de rádio sobre os temas mais atuais Roosevelt dirigiu o povo americano entre 1933 e 1944, em um tom familiar e humor de pedagogia política e construir altamente eficaz imagem pública e espalhar suas medidas governamentais.

Larry Elliott dirige a seção de economia do jornal britânico The Guardian e é co-autora 

Vicenç Navarro: Mentiras do pensamento econômico dominante

Artigoo publicado por Vicenç Navarro na coluna “Dominio Público” no diário PÚBLICO da Espanha
Neste artigo o professor demonstra a mentira dos argumentos utilizados pela Intelligentsia convencional nos fóruns políticos e econômicos dominantes para justificar os enormes recortes do  Estado de  Bem-estar na Espanha, que serve para o Mundo.
Permita-me, Sr. leitor, falarei-lhe como se estivéssemos tomando café, explicando algumas das maiores mentiras que são apresentadas diariamente na imprensa financeira. Você deve estar ciente de que muitos dos argumentos apresentados nos principais meios de comunicação e persuasão econômico do país (Espanha) para justificar políticas públicas que estão sendo realizadas são claramente posições ideológicas que não são suportadas pela base científica existente. Vou citar alguns dos mais importantes, mostrando que os dados contradizem o que eles dizem. E eu tento explicar por que eles continuam a repetir essas falsidades, embora a evidência científica em questão, e com que propósito lhe são apresentados diariamente para você e para o público.

Vamos começar com uma das mentiras mais importantes, que é a alegação de que os cortes de gastos públicos nos serviços públicos do Estado de bem-estar, tais como saúde, educação, serviços domésticos,  habitação social, e outros (que estão prejudicando muito o bem-estar social e qualidade de vida das massas), são necessários para evitar o aumento do déficit. E você pergunta: "e por que é tão ruim o crescimento do déficit?". E os reprodutores do sabedoria convencional responderão-lhe  que a causa de que tenha de reduzir o déficit é porque o crescimento desse déficit determina o crescimento da dívida pública, que é o que o Estado tem de pagar (predominantemente à banca, tendo mais de metade da dívida pública na Espanha) por ter emprestado dinheiro do banco para cobrir o buraco criado pelo déficit. Isto sublinha que a dívida pública (que é considerado um fardo para as gerações futuras, que terão de pagá-la) não pode continuar a crescer, sendo necessário reduzir recortando o déficit público, o que significa para eles cortar, cortar e cortar o estado de bem-estar a ponto de acabar com ele, que é o que está acontecendo na Espanha.

Os argumentos utilizados para justificar cortes não são credíveis .

O problema com esta abordagem é que os dados (que a sabedoria convencional esconde ou ignora) mostram o contrário. Os cortes são enormes (nunca se tinha visto tão grandes durante a era democrática), e em vez disso, a dívida pública continua e continua a crescer. Olhe o que está acontecendo na Espanha, por exemplo, com a saúde pública, um dos serviços públicos mais importantes e mais valorizados pelas pessoas. A despesa com a saúde pública em percentagem do PIB diminuiu cerca de 3,5% no período 2009-2011 (quando deveria ter crescido 7,7% sobre o mesmo período para atingir o gasto médio dos países de desenvolvimento econômico semelhante ao espanhol) , e o déficit foi reduzido de 11,1% do PIB em 2009 para 10,6% em 2012 e diferentemente as taxas da dívida pública não caíram, mas continuou a aumentar, de 36% do PIB em 2007 para 86% em 2012. Na verdade, a causa da dívida pública está a aumentar é em parte devido a cortes nos gastos públicos .

Como pode ser isso?  Você pode perguntar. A resposta é fácil de ver. O declínio nos gastos públicos significa demanda pública em declínio e, consequentemente, o crescimento e a atividade econômica, com  o qual o Estado recebe menos receita por meio de impostos. E ao receber menos impostos, o Estado deve endividar-se mais, com o que a dívida pública continua a crescer. Escusado será dizer que o impacto mais ou menos estimulante do gasto público depende do tipo de despesa. Mas se está cortando serviços públicos do Estado de bem-estar, que são a criação de mais postos de trabalho e que estão entre aqueles que estimulam a economia. Deixe-me repetir essa explicação por causa de sua grande importância.

Quando o Estado (tanto a nível central e regional ou local) aumenta os gastos públicos, aumenta a demanda por produtos e serviços, e, com eles, o estímulo econômico. Quando baixa, a demanda diminui e diminui o crescimento econômico, que o Estado recebe menos financiamento. É o que a terminologia macroeconômica conhece como o efeito multiplicador dos gastos do governo. Investimentos e gastos públicos facilitam a atividade econômica, o que é negado pelos economistas neoliberais (promovidos na grande maioria dos meios de comunicação para mais informações e persuasão), e isso apesar da evidência maciça publicados na literatura científica(ver meu livro O Neoliberalismo e o Estado de Bem Estar).

Outra farsa: nós gastamos mais do que temos

A mesma sabedoria convencional, também está dizendo que a crise é porque  gastamos muito, muito além de nossas possibilidades. Daí a necessidade de apertar o cinto  (o que significa cortar, cortar e cortar gastos públicos). Geralmente, essa posição é acompanhada com o dito de que o Estado tem de agir como as famílias, ou seja, "em nenhum momento você pode gastar mais do que aquilo que ingressa." Os Presidentes Rajoy e Merkel têm repetido essa frase mil vezes.

Esta frase tem um elemento de hipocrisia e falsidade. Deixe-me explicar o motivo de cada um. Eu não sei como você, leitor,  comprou seu carro. Mas eu, como a grande maioria dos espanhóis, comprou o carro em prestações, ou seja, a crédito. Todas as famílias têm se endividado, e assim funciona o seu orçamento familiar. Nós pagamos nossas dívidas assim como vai entrando os recursos, para a maioria dos espanhóis, a partir do trabalho. E daí deriva o problema atual. Não que as pessoas tenham de gastar além de suas possibilidades, mas seus rendimentos e as condições de trabalho vêm se deteriorando cada vez mais, sem ser a população o responsável. Na verdade, os responsáveis ​​para que isso aconteça são as mesmas que estão dizendo que tem que cortar serviços públicos do Estado de bem-estar e baixar os salários. E agora eles têm a audácia (para colocá-lo em uma maneira amável) para dizer que a culta tem eu e você, porque temos  gastado mais e mais. Eu não sei quanto a você, mas eu garanto que a maioria das famílias não têm comprado bens como loucos. Muito pelo contrário.

A mesma hipocrisia existe no argumento de que o Estado tem gastado muito. Veja você, leitor, que o governo espanhol  tem gastado, não muito mais, mas muito menos do que o que outros países com nível de desenvolvimento semelhante gastaram. Antes da crise, os gastos públicos foram responsáveis ​​por apenas 39% do PIB, a média da UE-15 foi de 46% do PIB. Já então, o Estado deveria ter gastado pelo menos 66 bilhões de euros em gastos sociais para corresponder com seu nível de riqueza. É verdade que nem as famílias, nem o Estado ter gastado mais do que deveriam. E, apesar disso, eles continuam a dizer que a culpa é da maioria da população que gastou muito e agora tem que apertar os cintos.

Você também ter ouviu que esses sacrifícios (cortes) deve-se fazer " para salvar o euro".

Mais uma vez, este mantra de que "estes cortes são necessários para salvar o euro" é constantemente reproduzido. No entanto, ao contrário do que é anunciado constantemente, o euro nunca foi comprometido. Também não há a menor possibilidade de que alguns países periféricos (Os PIGS, que inclui a Espanha) da Zona Euro serão expulsos do euro. De fato, um dos muitos problemas que esses países têm é que o euro é muito forte e saudável. Sua cotação tem sido sempre acima do dólar e sua alta potência dificulta a economia dos países periféricos da Zona Euro. E outro problema é que o capital financeiro alemão forneceu-lhes benefícios extensivos, de 700 bilhões e agora quer de volta os países periféricos. Se algum deles deixar o euro, os bancos alemães pode entrar em colapso. Esta banca (cuja influência é enorme) não quer ouvir sobre esses países devedores deixar o euro. Garanto-vos que é a última coisa que eles querem.

Esta observação, que é óbvia, não é um argumento, é claro, em favor de permanecer no euro. Na verdade, eu acho que os países PIGS devem ameaçar se retirar do euro. Mas é absurdo o argumento usado de que a Espanha tem de fazer em tempo reduzido nova visita ao médico para salvar o euro (que é o código para dizer: "salvar os bancos alemães e devolver o dinheiro" do que ser pago enorme benefícios).

Estas são as mentiras que estão constantemente expostas. Mas garanto-lhe que eu não tenho nenhuma evidência de que não há endosso. Tão claro.

A causa dos cortes

E você se pergunta por que esses cortes são feitos então? E a resposta é fácil de ver, mas raramente visto nos meios de comunicação e persuasão. É o que costumava ser chamado de " luta de classes", mas agora esses meios não usam essa expressão, considerando "antiquada", "ideológica", "demagógico" ou qualquer epíteto usado para mostrar a rejeição e o desejo de marginalizar aqueles que vêem realidade de acordo com critérios diferentes, e mesmo oposto ao da sabedoria convencional de que definir o país .

Mas, por mais que eles queiram esconder, existe essa luta. É a luta (o que meu amigo Noam Chomsky mesmo chama guerra de classes, conforme descreve em sua introdução ao livro Há alternativas. Propostas para a criação de postos de trabalho e bem-estar social em Espanha, Juan Torres, Alberto Garzón e I) de uma minoria (os proprietários e gestores do capital, ou seja, a propriedade que gera renda) contra a maioria da população (que obtêm o seu rendimento de seu trabalho). Escusado será dizer que esta luta de classe tem variado de acordo com o período em que se vive. Era diferente nos dias de nossos pais e avós, do que está acontecendo agora. Na verdade, agora é ainda maior, pois não é apenas as minorias que controlam e administram o capital contra a classe operária (que ainda existe), mas também inclui grandes seções da classe média, formando o que se chama classes, em conjunto com a classe trabalhadora. Essa minoria é extremamente poderosa e controla a maior parte dos meios de comunicação e persuasão, e também tem uma grande influência sobre a classe política. E este grupo minoritário quer salários mais baixos, a classe trabalhadora está com medo (daí o papel do desemprego) e que perda os direitos laborais e sociais. E que está cortando serviços públicos como parte desta estratégia para enfraquecer esses direitos. Ele também é um fator importante no processo de privatização dos serviços públicos, o que é um resultado dos cortes, e permite a entrada do grande capital (e particularmente os de capital e companhias de seguros financeiros - bancários) nestes setores, aumentando  seus lucros. Você leu como em Espanha, as companhias de seguros de saúde privados estão se expandindo como nunca antes alcançado. E muitas das empresas financeiras de de alto risco (ou seja, altamente especulativo) estão agora controlando grandes instituições de saúde no país, graças à privatização e  políticas de cortes que os governos estão a implementar, que justificam toda a farsa (e creio que não há outra maneira de dizer) de que têm que fazer para reduzir o déficit público e a dívida pública.


Vicenç Navarro

Catedrático de Políticas Públicas. Universidad Pompeu Fabra