"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 24 de maio de 2014

Henrique Alves dando uma aula de Oligarquismo

Quando analisou o coronelismo no Brasil lá na década de 1940 o Ministro do STF, Jornalista e Doutor em Ciências sociais Victor Nunes Leal definiu como age um coronel quando lhes colocam com sem espírito público: ele faz com que tudo construído seja obra do "desvelo pelo progresso" praticado às custas de "muito esforço", aí Victor diz,  não passa de simples prestígio, caso de Henrique (ele diz que tem poder), por esse dito maldito de "Chefe Político".

“A falta de espírito público, tantas vezes irrogada ao chefe político local, é desmentida, com freqüência, por seu desvelo pelo progresso do distrito ou município. É ao seu interesse e à sua instância que se devem os principais melhoramentos do lugar. A escola, a estrada, o correio, o telégrafo, a ferrovia, a igreja, o posto de saúde, o hospital, o clube, o campo de football, a linha de tiro, a luz elétrica, a rede de esgotos, a água encanada -, tudo exige o seu esforço, às vezes um penoso esforço, esforço que chega ao heroísmo. E com essas realizações de utilidade pública, algumas das quais dependem só de seu empenho e prestígio político, enquanto outras podem requerer contribuições pessoais suas e de seus amigos, é com elas que, em grande parte, o chefe municipal constrói ou conserva sua posição de liderança" (Victor Nunes Leal).

Henrique tem poder! Foi o que disse quando ainda nem era presidente da Câmara dos Deputados se referindo ao projeto de irrigação na Chapa do Apodi que pode despejar dezenas de agricultores, essa semana ele "anunciou" uma liberação R$ 2,6 milhões para a continuidade da obra, dizendo que isso vai transformar o município de Apodi vai ser transformado, em breve, em um dos maiores centros produtores de alimentos da região Nordeste, bom para o agronegócio. No Vale do Açu a Del Monte, empresa americana sediada em um paraíso fiscal, vai produzir cocos, e os oligarcas dizem que farão de tudo para que ela não saia do RN, e vamos comer cocos... Agora no cargo Henrique quer usar desse "poder", nas suas páginas na internet um verdadeiro festival de "obras" conquistadas pelo seu desvelo são diariamente expostas; tudo eu posso pelo RN, ou para chegar ao cargo disponho de meios para o tê-lo, e meios  típicos de um oligarca.

Nas postagens de hoje está: Verba de 25 milhões para adultora em Currais Novos, Viabilização de suposto acordo para salvar Hospital em João Câmara (só percebeu agora o caos na saúde?), e outro suposto acordo para construção de aeroporto em Mossoró, por aí vai... Eles se reúnem e fazem uma inauguração, e por aí vai...


Para se faze um oligarca só basta ter poder, o que Henrique diz que tem. Henrique não é nem do Rio Grande do Norte, saiu daqui para Brasília jovem de pouco mais de 20 anos (só agora percebeu o caos do Hospital de João Câmara, Brasília é longe) e já passa dos 60, depois de exercer 11 mandatos de Deputado Federal, e tome emendas...

Índia: Neoliberalismo e sistema de castas

Narendra Modi é o novo primeiro-ministro da Índia. O seu partido, o direitista Bharatiya Janata (BJ), triunfou espetacularmente nas últimas eleições e conseguiu a maioria absoluta no parlamento. Esta vitória deve-se a um fato fundamental: nos últimos 20 anos, o BJ e Modi promoveram o fundamentalismo nacionalista hindu. Por Alejandro Nadal

O capital apresenta-se como força de progresso no terreno material e político. E até no âmbito religioso, o capital ostenta-se como fator próximo de uma visão secular da sociedade. Mas quando acha conveniente apoia-se nas forças mais reacionárias e retrógradas, inclusive no fanatismo religioso. Em dado momento tudo lhe pode ser útil, desde o fascismo até ao sistema de castas. Mas cuidado, alguns aliados não gostam que tentem domesticá-los.
Narendra Modi é o novo primeiro-ministro da Índia. O seu partido, o direitista Bharatiya Janata (BJ), triunfou espetacularmente nas últimas eleições e conseguiu a maioria absoluta no parlamento. Esta vitória deve-se a um fato fundamental: nos últimos 20 anos, o BJ e Modi promoveram o fundamentalismo nacionalista hindu. A sua visão do Estado baseia-se numa reinterpretação da história e na ideia de uma hegemonia cultural indiana. A palavra-chave é Hindutva, que se traduz como as características essenciais do hindu.
O BJ teve várias experiências no poder: a nível nacional esteve no comando entre 1998-2004, convertendo-se no primeiro partido que derrotou o partido do Congresso, marcado pela dinastia Nehru. Durante a sua gestão, o BJP impôs a viragem irreversível para o neoliberalismo. A nível estatal (especialmente em Gujarat) o BJ também aplicou uma linha dura para promover o Hindutva.
Em 2002 produziram-se choques entre muçulmanos e indianos em Gujarat com um saldo de 2 mil mortos e múltiplos atos de barbárie. O governador de Gujarat era Narendra Modi e esteve à cabeça da lista de suspeitos de ter tolerado e incitado à violência. Uma investigação especial ilibou-o de todas as acusações, em 2012, mas muitas pessoas pensam que esse inquérito suprimiu provas que o incriminavam: vários chefes da polícia distribuíram, em diversas comunidades, panfletos com nomes e moradas de muçulmanos, inflamando os ânimos para o linchamento. Muitos analistas estão convencidos de que Modi e os seus amigos foram co-responsáveis por uma tentativa de limpeza étnica.O descalabro eleitoral a nível nacional em 2004 convenceu a direção do BJ sobre a necessidade de mudar de estratégia. A postura moderada em assuntos religiosos foi culpada por essa derrota. Tinha chegado o momento de adotar uma atitude mais militante e decidiram o regresso ao Hindutva. O estado de Gujarat converteu-se em laboratório político do novo enfoque.
O neoliberalismo é o mesmo, seja na versão do partido do Congresso (com Manmohan Singh à cabeça) ou na do BJ. Ambos os partidos creem nas virtudes do livre mercado, preferem as grandes empresas (nacionais ou estrangeiras), as privatizações, o corte na despesa pública e em especial da despesa social e as suas prioridades estão submetidas ao capital financeiro. Mas o BJ propõe um novo componente para a ideologia neoliberal. Na sua visão da economia política, a afirmação do Hindutva é a chave para o crescimento do PIB e para a prosperidade. O ressurgimento do fundamentalismo hindu seria agora a chave do progresso econômico e a saída da pobreza para as massas do subcontinente.
O fundamentalismo hindu apoia-se no sistema de castas, o que foi decisivo para manter a exploração social. Todas as grandes experiências de dominação reconduziram o sistema de castas para cimentar as novas formas de espoliação. A mídia, o ressurgimento ideológico e o atraso político foram importantes para consegui-lo. Um erro trágico da esquerda institucional na Índia foi deslocar-se para a direita e abandonar a bandeira da erradicação do sistema de castas. A vitória eleitoral deste fundamentalismo pode soar a estranho, mas é explicável pelo desencanto com o desempenho neoliberal dos últimos anos. O partido do Congresso carregou com a fatura da estagnação provocada pela crise e pelas contradições do modelo neoliberal. A desigualdade crônica (hoje em agravamento) acrescentou mais um ingrediente à mistura explosiva.
Um último ponto. Durante o primeiro governo do BJ, em 1998, foram autorizadas duas séries de testes nucleares. Hoje a Índia possui entre 80 e 100 ogivas nucleares implantadas em mísseis balísticos e em aviões de combate. Tudo isso para encher de orgulho o peito nacionalista e a fé religiosa que, como dizia Gramsci, degenerou em superstição. Desde a sua origem o sistema de castas na Índia serviu para manter a opressão e facilitar a exploração. A sua ordem hierárquica baseada no patriarcado e na manutenção das clientelas é particularmente útil para conservar uma ordem propícia aos espoliadores. A desigualdade é a sua essência e a sua base é a crença em forças universais com um esquema de organização em que cada pessoa nasce no seu lugar próprio. É um excelente disfarce da exploração de classes que hoje é reconduzido para acompanhar os dogmas neoliberais da prosperidade para alguns e permitir o triunfo das forças reacionárias do Bharatiya Janata.
Artigo de Alejandro Nadal, publicado em 21 de maio de 2014 no jornal “La Jornada”. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

Sobre o/a autor(a)



Alejandro Nadal
Economista, professor em El Colegio do México.

Algumas ideias sobre o Capital de Piketty, por David Harvey

Thomas Piketty escreveu um livro chamado Capital que causou grande celeuma. Ele mostra estatisticamente (e estamos em dívida com ele e seus colegas por isso) que o capital tendeu, através da história, a produzir níveis cada vez maiores de desigualdade. Mas, a sua explicação de porque as tendências à desigualdade e à oligarquia surgem está seriamente comprometida. E ele certamente não produziu um modelo de trabalho para o capital do século 21.

Por David Harvey

Thomas Piketty escreveu um livro chamado Capital que causou grande celeuma. Ele defende a taxação progressiva e a tributação da riqueza global como único caminho para deter a tendência à criação de uma forma “patrimonial” de capitalismo, marcada pelo que chama de uma desigualdade “apavorante” de riqueza e rendimento. Também documenta com detalhes excruciantes, e difíceis de rebater, como a desigualdade social de ambos, riqueza e rendimento, evoluíram nos últimos dois séculos, com ênfase particular no papel da riqueza. Ele aniquila a visão, amplamente aceita, de que o capitalismo de livre mercado distribui riqueza e é o grande baluarte para a defesa das liberdades individuais. Piketty demonstra que o capitalismo de livre mercado, na ausência de uma grande intervenção redistributiva por parte do Estado, produz oligarquias antidemocráticas. Essa demonstração deu base à indignação liberal e levou o Wall Street Journal à apoplexia.

O livro tem sido frequentemente apresentado como substituto para o século 21 do trabalho de Marx sobre o século 19, que tem o mesmo título. Piketty nega que fosse essa a sua intenção, na verdade – o que parece certo, uma vez que seu livro não é, de modo algum, sobre o capital. Ele não nos conta por que razão ocorreu a catástrofe de 2008, e por que está a demorar tanto para tanta gente se levantar, sob o fardo do desemprego prolongado e da execução da hipoteca de milhões de casas. Ele não nos ajuda a entender por que o crescimento é tão medíocre hoje nos EUA, em oposição à China, e por que a Europa está travada sob uma política de austeridade e uma economia de estagnação.
O que Piketty mostra estatisticamente (e estamos em dívida com ele e seus colegas por isso) é que o capital tendeu, através da história, a produzir níveis cada vez maiores de desigualdade. Isso, para muitos de nós, não é novidade. Além disso, é exatamente a conclusão teórica de Marx, no primeiro volume da sua versão do Capital. Piketty fracassa em observar isso, o que não é surpresa, já que sempre clamou, diante das acusações da mídia de direita de que é um marxista disfarçado, que não leu O Capital de Marx.
Mas, por que razão ocorre essa tendência para o crescimento da desigualdade? A partir dos seus dados (temperados com ótimas alusões literárias a Jane Austen e Balzac), ele deriva uma lei matemática para explicar o que acontece: o contínuo aumento da acumulação de riqueza por parte do famoso 1% (termo popularizado graças, claro, ao movimento Occupy) é devido ao simples fato de que a taxa de retorno sobre o capital (r) sempre excede a taxa de crescimento do rendimento (g). Isso, diz Piketty, é e sempre foi “a contradição central” do capital. Piketty reúne uma grande quantidade de dados para sustentar a sua argumentação. A sua descrição das diferenças entre rendimento e riqueza é persuasiva e útil. E faz uma defesa cuidadosa da tributação sobre as heranças, do imposto progressivo e de um imposto sobre a riqueza global como possíveis (embora que certamente politicamente inviáveis) antídotos contra o avanço da concentração de riqueza e poder.
Mas esse tipo de regularidade estatística dificilmente alicerça uma explicação adequada, quanto mais uma lei. Então, que forças produzem e sustentam tal contradição? Piketty não diz. A lei é a lei e isso é tudo. Marx obviamente teria atribuído a existência de tal lei ao desequilíbrio de poder entre capital e trabalho. E essa explicação ainda é válida. A queda constante da participação do trabalho no rendimento nacional, desde os anos 1970, é decorrente do declínio do poder político e econômico, à medida que o capital mobilizava tecnologia, desemprego, deslocalização de empresas e políticas anti-laborais (como as de Margaret Thatcher e Ronald Reagan) para destruir qualquer oposição.
Como Alan Budd, um conselheiro econômico de Margaret Thatcher, confessou num momento de descuido: as políticas anti-inflação dos anos 1980 mostraram-se “uma maneira muito boa de aumentar o desemprego, e aumentar o desemprego era um modo extremamente desejável para reduzir a força das classes trabalhadoras… o que foi construído, em termos marxistas, como uma crise do capitalismo que recriava um exército de mão de obra de reserva, possibilitou que os capitalistas lucrassem mais do que nunca.” A disparidade entre a remuneração média dos trabalhadores e dos executivos-chefes era de cerca de trinta para um em 1970. Hoje está bem acima de trezentos para um e, no caso do MacDonalds, de cerca de 1200 para um.
Muitos pensavam que a falta de procura efetiva estava na base da Grande Depressão da década de 1930. Isso inspirou políticas expansionistas keynesianas depois da Segunda Guerra Mundial e resultou em alguma redução das desigualdades de rendimento (nem tanto da riqueza), no meio de uma forte procura que levou ao crescimento. Mas essa solução apoiava-se no relativo empoderamento do trabalho e na construção do “estado social” (termo de Piketty) financiado pela taxação progressiva. “Tudo dito”, escreve ele, “durante o período de 1932-1980, durante cerca de meio século, o imposto de rendimento federal mais alto, nos EUA, era em média 81%.” E isso de modo algum prejudicou o crescimento (outra parte das evidências de Piketty, que rebate os argumentos da direita). Mas no segundo volume do Capital de Marx (que Piketty também não leu, como alegremente declara) Marx apontou que a tendência do capital de rebaixar os salários iria, em algum momento, restringir a capacidade do mercado de absorver os produtos do capital. Henry Ford reconheceu esse dilema há muito tempo, quando determinou o salário de cinco dólares para o dia de oito horas dos trabalhadores – para aumentar a procura dos consumidores, disse.
Ali pelo final dos anos 1960, ficou claro para vários capitalistas que eles precisavam fazer alguma coisa a respeito do excessivo poder do trabalho. Por isso, Keynes foi excluído do panteão dos economistas respeitáveis, houve uma deslocação para o lado da oferta e para o pensamento de Milton Friedman, e teve início uma cruzada para estabilizar, se não para reduzir a tributação, desconstruir o Estado social e disciplinar as forças do trabalho. Depois de 1980, houve uma queda nas taxas mais altas de imposto e os ganhos do capital – uma grande fonte de rendimento dos ultra-ricos – passaram a ser tributados por taxas muito menores nos EUA, aumentando enormemente o fluxo de capital do 1% do topo da pirâmide.
Contudo, o impacto no crescimento era desprezível, mostra Piketty. Tal “efeito cascata” de benefícios dos ricos no restante da população (outra crença favorita da direita) não funcionou. Nada disso era ditado por leis matemáticas. Tudo era política.
Mas então a roda deu uma volta completa, e a pergunta mais importante tornou-se: e onde está a procura? Piketty ignora essa questão. Os anos 1990 encobriram essa resposta com vasta expansão do crédito, inclusive estendendo o financiamento hipotecário aos mercados subprime. Mas o resultado foi uma bolha de ativos fadada a estourar, como aconteceu em 2007-2008, levando consigo o banco de investimento Lehman Brothers, juntamente com o sistema de crédito. Entretanto, as taxas de lucro e a consequente concentração de riqueza privada recuperaram muito rapidamente depois de 2009, enquanto todos os outros continuavam muito mal. As taxas de lucro das empresas estão agora tão altas quanto sempre estiveram nos EUA. As empresas estão sentadas sobre grande quantidade de dinheiro e recusam-se a gastá-lo, porque as condições do mercado não estão robustas.
A formulação da lei matemática de Piketty camufla, mais do que revela sobre as políticas de classe que estão em jogo. Como notou Warren Buffett, “claro que há luta de classes, e é a minha classe, a dos ricos, que está a lutar, e estamos a vencer.” Uma medida-chave da sua vitória são as crescentes disparidades de riqueza e rendimento do 1% do topo em relação a todo o resto da população.
Dinheiro, terra, imóveis, fábricas e equipamentos que não estão a ser usados produtivamente não são capital. Se é alta a taxa de retorno sobre o capital que está a ser usado é porque uma parte do capital foi retirado de circulação e, de fato, está em greve. Restringir a oferta de capital para novos investimentos (fenômeno que estamos a testemunhar agora) garante uma alta taxa de retorno sobre o capital que está em circulação. A criação dessa escassez artificial não é só o que fazem as companhias de petróleo, para garantir a sua elevada taxa de lucro: é o que todo o capital faz quando tem oportunidade. É o que sustenta a tendência de a taxa de retorno sobre o capital (não importa como é definido ou medido) exceder sempre a taxa de crescimento do rendimento. Esta é a forma como o capital garante a sua própria reprodução, não importa quão desconfortáveis sejam as consequências para o resto de nós. E é assim que a classe capitalista vive. Há, contudo, uma dificuldade central no argumento de Piketty. Ele repousa sobre uma definição equivocada de capital. Capital é um processo, não uma coisa. É um processo de circulação no qual o dinheiro é usado para fazer mais dinheiro, frequentemente – mas não exclusivamente – por meio da exploração da força de trabalho. Piketty define capital como ostock de todos os ativos em mãos de particulares, empresas e governos que podem ser negociados no mercado – não importa se estão a ser usados ou não. Isso inclui terra, imóveis e direito de propriedade intelectual, assim como coleção de arte e de joias. Como determinar o valor de todas essas coisas é um problema técnico difícil, sem solução consensual. Para calcular uma taxa de retorno, r, significativa, temos de ter uma forma de avaliar o capital inicial. Não há como avaliá-lo independentemente do valor dos bens e serviços usados para produzi-lo, ou por quanto ele pode ser vendido no mercado. Todo o pensamento econômico neoclássico (base do pensamento de Piketty) está fundado numa tautologia. A taxa de retorno do capital depende essencialmente da taxa de crescimento, porque o capital se valoriza na base do que produz e não pelo que utilizou para a sua produção. O seu valor é fortemente influenciado por condições especulativas, e pode ser seriamente distorcido pela famosa “exuberância irracional” que Greenspan supôs detectar como característica dos mercados imobiliário e de ações. Se subtrairmos habitação e imóveis – para não falar do valor das coleções de arte dos hedge funders – a partir da definição de capital (e a razão para a sua inclusão é bastante débil), então a explicação de Piketty para o aumento das desigualdades de riqueza e rendimento desabaria, embora a sua descrição do estado das desigualdades passadas e presentes ainda ficassem de pé.
Há muitas outras coisas valiosas nos dados coletados por Piketty. Mas, a sua explicação de porque as tendências à desigualdade e à oligarquia surgem está seriamente comprometida. As suas propostas de solução para a desigualdade são ingênuas, se não utópicas. E ele certamente não produziu um modelo de trabalho para o capital do século 21. Para isso, ainda precisamos de Marx ou de seus equivalentes para os dias atuais.
Artigo de David Harveydisponível em davidharvey.orgTradução de Inês Castilhpara outraspalavras.net

Sobre o/a autor(a)


David Harvey
Geógrafo, professor emérito do Graduate Center da City University of New York.

Em 2014 a campanha do RN deve ser contra a "Lei de Ferro da Oligarquia"

Os candidatos ao governo do Rio Grande do Norte com alto poder financeiro não oferecem nenhuma forma pela qual evoluamos economicamente para que um real avanço social e cultural possa ser feito. Henrique Alves e Robson Faria  são dois empresários-políticos que não podem ultrapassar a linha limite entre uma realidade que lhes é favorável e o lado da transformação.

Precisamos, óbvio, modernizar a Administração, tornando-a rápida e eficiente, não assistencialista e sabendo lidar com a miséria de nossa realidade cultural; este último ponto significa, antes de tudo, por para o público que não conseguiremos um salvador que mude tudo por decreto, temos que lidar com as coisas do "jeitinho", com os que esperam dos "políticos" feiras e que comprem voto, dos que não reclamam direitos e vendem voto por exames médicos, sabendo que a maioria dos que buscam os cargos no Rio Grande do Norte se utilizam dessa miséria para serem fortes. Tem que haver uma perspectiva de transformação da sociedade, desses fatores sócio-culturais além da passibilidade de exercer um cargo, por isso a importância da formação de grupos de debates e de comunicação e mobilização. Assumir o "poder" é fundamental para revolucionar o que a sociedade mais reclama nos dias de hoje, os serviços públicos, investindo os recursos de forma "limpa" e produtiva com acompanhamento; remodelar nosso ensino com ênfase na formação criativa e superar a vergonhosa "educação pra cumprir tabela".

Para isso precisamos avançar economicamente, não há como fazer investimentos importantes sem produtividade. Modernizar a agropecuária com criação de animais adaptados  para o semi-árido propiciando a produção de queijo e outros derivados do leite, como ocorre na França, em condições de propiciar uma vida digna no campo. Acompanhar os agricultores na expansão de atividades já desenvolvidas pela ASA, como os quintais ecológicos; também focar na produção de mel etc. Tudo isso já é feito, só que de forma isolada e desorganizada; sem aprendizado suficiente a maioria dos pequenos agricultores não conseguem produção. Outro ponto, produzir alimentos aqui mesmo no RN; quase tudo que consumimos vem de outros estados. enquanto a Del Valle, multinacional sediada em paraíso fiscal vai produzir coco na área mais fértil do estado, ora não vamos comer coco.

Dar atenção máxima na questão ambiental, substituir o uso da lenha nas cerâmicas, pôr em prática um programa de despoluição de mananciais hídricos, tudo que é água no RN hoje vira esgoto.

Lidar com a violência urbana sem medo de tocar nas feridas da sociedade, se abrir para as periferias não para dar esmolar e mantê-las na miséria. Adequar as polícias para a transparência, enfim.

Bom, de tudo que fora listado nada será conquistado, se queremos ser "modernos", poderá ser iniciados pelo governo se apostarmos mais uma vez na lei de ferro da oligarquia, ou seja, Henrique e Robson são nomes colocados pelos partidos. Quem os indicou? Eles mesmos, isso significa esperar um salvador, o que é inútil. O RN tem que fazer uma grande campanha, de jovens principalmente, contra a lei de ferro da Oligarquia.

A neutralidade da Internet novamente em perigo

Os maiores fornecedores de serviços da Internet, companhias como Comcast, Time Warner Cabo, AT&T e Verizon, juntam forças para acabar com a neutralidade da rede. Milhões de cidadãos, juntamente com milhares de organizações, outras empresas, artistas e investidores tentam salvá-la.

Por Amy Goodman

Michael Powell é filho do general Colin Powell. O mais velho dos Powell conhece bem os assuntos de guerra. Como é conhecido, foi ele quem a 5 de fevereiro de 2003 expôs à Assembleia Geral das Nações Unidas os argumentos em defesa da invasão do Iraque, baseando-se em provas erradas da existência de armas de destruição massiva. Powell considera esse discurso como uma dolorosa “mancha” na sua carreira. Pelo que é particularmente surpreendente que agora o seu filho pressagie que o Governo de Obama enfrenta a ameaça de uma “Terceira Guerra Mundial”.
O que é a neutralidade da Internet? É o princípio fundamental de que qualquer pessoa na rede pode aceder a qualquer outra, que os utentes podem aceder com a mesma facilidade a um pequeno site lançado a partir de uma garagem assim como a um dos principais portais da Internet como o Google ou o Yahoo. A neutralidade na rede é a proteção da Internet contra a discriminação. Então, porque é que estes grandes fornecedores de serviços da Internet querem eliminar algo tão bom? Por ganância. Os principais fornecedores de serviços da Internet já obtêm imensos lucros. Mas se for permitido que se crie uma Internet com vários níveis, em que alguns fornecedores de conteúdos paguem mais para que as suas páginas ou as suas aplicações sejam carregadas mais rapidamente, eles poderão obter lucros extra. Recordemos que os utentes já pagam para aceder à Internet. Agora, companhias como Comcast pretendem cobrar também a quem se encontra do outro lado da conexão da Internet, com o que arrecadariam milhares de milhões de dólares provenientes tanto dos utentes como dos fornecedores de conteúdo.Michael Powell é o presidente da associação nacional de cabo e telecomunicações (NCTA, na sigla em inglês), que constitui o principal grupo de pressão da indústria da televisão por cabo. É também ex-diretor da Comissão Federal de Comunicações (FCC, na sigla em inglês), o organismo encarregado de ditar as normas de telecomunicações do país. O seu atual alvo de destruição é a neutralidade da Internet. O campo de batalha é em Washington, D.C., dentro do quartel geral da FCC. Os maiores fornecedores de serviços da Internet, companhias como Comcast, Time Warner Cabo, AT&T e Verizon, juntam forças para acabar com a neutralidade da rede. Milhões de cidadãos, juntamente com milhares de organizações, outras empresas, artistas e investidores tentam salvá-la.
Ao se eliminar a neutralidade da Internet, os principais fornecedores de conteúdos, já consolidados e com vasto capital, pagarão pelo privilégio dos seus conteúdos serem acessíveis através de uma “via rápida” na Internet. Os sites mais pequenos e as novas aplicações não terão o mesmo acesso, e ficarão presos numa “pista” de circulação mais lenta. A era das novas pequenas empresas impulsionadoras de inovação chegará abruptamente ao fim. Já não se fundarão companhias de alta tecnologia em dormitórios de residências estudantis. Levará mais tempo a carregar esses sites que os oferecidos pelas grandes companhias.
Foi durante a direção de Michael Powell que a FCC declarou a indústria da banda larga um “serviço de informação”, limitando assim o alcance da regulamentação nessa indústria. No seu recente discurso de abertura da assembleia anual da associação nacional de cabo e telecomunicações, Powell qualificou esta medida como “uma mudança para uma regulamentação mais leve”. No entanto, a elevada retórica de Powell não passa o teste do riso. O serviço de banda larga nos Estados Unidos é, em média, de uma qualidade muito inferior à de outros países, e bem mais caro.A Comissão Federal de Comunicações é uma típica agência reguladora “capturada” pelas empresas que supostamente deveria regular, e cujos funcionários costumam alternar entre a função pública e o trabalho para estas empresas. O atual diretor da FCC, nomeado pelo Presidente Barack Obama, é Tom Wheeler, que previamente foi presidente da associação nacional de cabo e telecomunicações, cargo que hoje é ocupado por Powell, e depois encabeçou o grupo de pressão da indústria das comunicações sem fio. Basicamente, Tom Wheeler e Michael Powell trocaram de posição um com o outro. Lamentavelmente, ambos desempenham o mesmo papel: representar os interesses das grandes empresas.
Os ativistas pretendem que a FCC volte a declarar a banda larga como serviço público, tal como o é o serviço telefónico. Imaginemos o que sucederia se às companhias telefónicas fosse permitido reduzir a qualidade dos nossos telefonemas porque não fazemos um pagamento extra por um serviço de primeira classe. Ou imaginemos o que sucederia se a água que sai das nossas torneiras fosse menos pura que a água do vizinho, porque ele faz um pagamento extra por água de maior qualidade. Estes serviços estão regulados. Todas as pessoas acedem ao mesmo serviço, sem discriminação.
Quase dois milhões de pessoas já se pronunciaram a favor da neutralidade na Internet e estão a apelar para a reclassificação dos serviços de Internet. Esse é o ato que segundo Michael Powell provocaria a “Terceira Guerra Mundial”. Michael Powell pode ameaçar com o início de uma guerra por causa de certas políticas, mas deveria ter cuidado com o que deseja. Como diretor da FCC, lá pelo ano 2003, liderou os esforços para permitir uma maior concentração dos média, o que provocou uma forte reação pública. Finalmente, as normas permissivas que ele propôs foram derrotadas. O Congresso aprendeu a lição após as manifestações contra as leis para a regulação da Internet conhecidas como SOPA e PIPA. O clamor contra elas foi mundial e implacável.No passado mês de janeiro, um tribunal federal anulou o regulamento da FCC para uma "Internet Aberta", argumentando que embora a FCC tenha a faculdade de regular a Internet, as suas normas não seguiam nenhuma lógica. Ao declarar apropriadamente o serviço de Internet como serviço público, a FCC pode regulá-lo, legal e sensatamente.
Artigo publicado em Democracy Now em 15de maio de 2014. Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna. Texto em inglês traduzido por Fernanda Gerpe para espanhol. Tradução para português de Carlos Santos para Esquerda.netAgora, o centro de atenção é a Comissão Federal de Comunicações. Tom Wheeler tem a oportunidade de escutar milhões de cidadãos preocupados e corrigir os erros do passado. Ou pode seguir as ordens de Michael Powell e o seu exército de lobistas. Se o fizer, na sua carreira ficará também uma mancha indelével.

Sobre o/a autor(a)

Co-fundadora da rádio Democracy Now, jornalista norte-americana e escritora.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

20 anos com transgênicos: Teorias da conspiração ou realidade planificada?

Por Henk Hobbelink (GRAIN)* | Biodiversidad 

Eu ainda me lembro perfeitamente. Foi há mais de vinte anos atrás. Estava em um debate público, onde também estava um representante da Monsanto - empresa que então apenas estava começando a espreitar o mundo de sementes e transgênicos. O tipo enumerou uma lista de promessas que a biotecnologia traria aos agricultores e à alimentação: mais produção, menos produtos químicos, mais diversidade e menos fome. E eu pergunte: por que uma empresa como a Monsanto faria sementes que exigem menos agrotóxicos se é com os agroquímicos  com o que mais ganha a empresa agora?

Eu não me lembro agora a sua resposta (o mais provável é que ele não foi muito convincente), mas eu me lembro que durante todo o tempo disse a mim mesmo: "Henk , pare aqui! Não os acuse de que no futuro eles vão produzir sementes que necessitem de mais agroquímicos! Deixe as teorias da conspiração. Não temos dados que mostrem e além do mais nenhum fazendeiro iria comprar essas sementes".

Poucos anos depois, nós fomos capazes de publicar a primeira lista de 69 projetos de pesquisa, incluindo vários da Monsanto tentando conseguir exatamente isso: produzir sementes tolerantes a herbicidas para pulverizar mais. E, em 1994, a primeira edição da revista Biodiversidade ostentou um gráfico mostrando uma vez mais a pesquisa transgênica indo nessa direção. Agora, vinte anos depois, quase não existe sementes transgênicas que não tenham incorporada uma tolerância a herbicidas. Era simplesmente uma oportunidade muito boa para a indústria  deixasse escapar. Às vezes, as teorias da conspiração são verdadeiras.

O que quero dizer com isto. Que algumas tecnologias em mãos do capital são ferramentas perfeitas para transformar o sistema alimentar em algo que a indústria controle e permita extrair mais lucros. E para aqueles que estão preocupados com o futuro do campesinato, este é o mais grave impacto dos OGM. É uma tecnologia que permite criar e controlar mega-fazendas industriais que lançam pessoas fora de suas áreas e destroem a agricultura camponesa. Metade das terras agrícolas na Argentina agora é plantada com soja industrial pulverizada por aeronaves, um desenvolvimento que a indústria não teria feito sem essa tecnologia.

Às vezes nos envolvemos em discussões "sim-não" sobre se os OGM são bons ou ruins para o alimento, se eles têm potencial para criar inovações interessantes para os agricultores de "segunda geração"; se há soja "sustentável", se é bom se Syngenta doe algumas de suas licenças exclusivas para os países pobres. Ou se nós podemos criar sistemas de imagem 'sui generis' para amenizar de alguma forma o controle rígido que fizeram as corporações com seus sistemas de patentes (que por sinal, este era um outro artigo na revista número um da Biodiversidade).

No fundo são as discussões que às vezes distrai-nos (ou nos hão distraído) do que deveria ser o nosso primeiro objetivo: parar o agronegócio e lograr que os camponeses e os agricultores possam viver dignamente da terra e alimentar o mundo.

* Henk Hobbelink é fundador da GRAIN e seu coordenador-geral

Lucro com trabalho forçado alcança 12 bilhões de dólares anuais na América Latina

Por Mateus Ramos  - Adital

Quando se fala em trabalho escravo, ou forçado a primeira imagem que muitas pessoas tem na cabeça são de africanos levados à força em navios negreiros para trabalharem nas colônias europeias. Essa foi, por muito tempo, a realidade no mundo. Hoje, mais de um século após o fim da escravidão, ainda não é possível dizer que o mundo está livre dessa prática. Milhões de pessoas continuam sendo submetidas a atividades análogas ao trabalho escravo. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), somente na América Latina e Caribe, são cerca de 1 milhão e 300 mil pessoas trabalhando em condições que ferem os direitos humanos.

Esta semana, a OIT divulgou o relatório, "Lucro e Pobreza: Aspectos econômicos do Trabalho Escravo”, que mostra os números do lucro gerado pelas práticas de trabalho forçado em todo o mundo no setor privado. "Enquanto se registram progressos na redução do trabalho escravo impostos pelo Estado, devemos direcionar nossa atenção sobre o trabalho escravo no setor privado.”, afirma Beate Andrees, diretora do Programa Especial de Ação para Combater o Trabalho Escravo da OIT.

Na América Latina, estima-se que o lucro no setor privado com trabalho escravo seja de 12 bilhões de dólares anuais. Desses, cerca de 10 bilhões são provenientes da exploração sexual, onde cerca de 400 mil pessoas trabalham de forma forçada. O setor que mais ‘emprega’ é o da agricultura e também é o que menos arrecada.

O relatório também revela a divisão por gênero nesse tipo de trabalho. Mais da metade das vítimas dos trabalhos forçados são mulheres e meninas, principalmente na exploração sexual comercial e no trabalho doméstico, enquanto que homens e meninos estão mais propensos à exploração na agricultura e na mineração.

Números no mundo
Segundo o relatório da OIT, em todo o mundo, o lucro gerado pela exploração do trabalho escravo é de 150 bilhões de dólares por ano. Desse valor, 99 bilhões são provenientes da exploração sexual e os outros 51 bilhões são oriundos da exploração econômica, a exemplo do trabalho doméstico, agricultura e outras atividades econômicas, como as indústrias e as minas.

"150 bilhões de dólares é um negócio enorme. Esse lucro é gerado por atividades criminosas que não beneficiam os governos, porque não recebem impostos, nem as vítimas, por razões óbvias, nem as demais empresas que respeitam a lei, que são colocadas em desvantagem e não podem competir com isso. No fim das contas, não é bom para ninguém.", afirma o oficial sênior da OIT, Houtan Homayounpour. Para ele, é necessário que sejam feitas pesquisas em todos os países para que uma maior quantidade de informações seja reunida, possibilitando a formação de uma série histórica e a comparação da eficácia dos programas de combate ao trabalho forçado.

Casos de exploração
Recentemente, no Brasil, seis pessoas, sendo cinco homens e uma mulher, foram resgatados da escravidão, enquanto produziam peças de roupas da marca M. Officer. Todos eram imigrantes bolivianos e estavam submetidos a condições degradantes e jornadas exaustivas. O grupo trabalhava em uma sala apertada sem ventilação, um local com fios expostos ao lado de pilhas de tecido e bastante sujeira acumulada. A fiscalização ocorreu no dia 06 de maio na Vila Santa Inês, no extremo leste de São Paulo.

Esse é o segundo caso de exploração de trabalho, em menos de um ano, na cadeia produtiva da M. Officer. No mês de novembro do ano passado, dois trabalhadores foram resgatados costurando roupas da marca no Bom Retiro, região central de São Paulo. Na época, a Justiça chegou a determinar o bloqueio de bens a pedido do Ministério Público do Trabalho para garantir o pagamento de indenizações, mas a empresa conseguiu reverter a decisão.

A M. Officer alega que a responsável pelo trabalho escravo é de uma empresa terceirizada.

Conflito aprofunda crise da água no Médio Oriente

A recente disputa entre o Egito e a Etiópia pela água do Nilo é um exemplo dos conflitos que se avizinham no Médio Oriente pelo direito a este recurso essencial. Artigo de Thomas W. Lippman, no IPS.

O conflito aparentemente sem fim do Médio Oriente desvia a atenção e os recursos de uma ameaça mais grave que se forma sobre toda a região no longo prazo, a crescente escassez de água. E a situação vai piorar antes de melhorar, se em algum momento isso ocorrer.

Anos de guerra, gestão descuidada das reservas de água, crescimento demográfico descontrolado, políticas agrícolas imprudentes e subsídios que fomentam o consumo transformaram uma zona basicamente árida do mundo numa voraz consumidora de água. A trajetória não é sustentável.

Essas foram as conclusões, sombrias embora não surpreendentes, de uma conferência de três dias sobre o tema realizada este mês em Istambul, na Turquia. No território que vai da Líbia até Iraque e Iemen, muitas pessoas e muitos animais utilizam o recurso da água além de seus limites. Alguns países onde a insurgência é maior, como Síria ou Iemen, são os menos equipados para evitar uma grave crise.

A Jordânia, sempre com escassez de água, está sufocada pela avalanche de refugiados da Síria. O Iraque, que no passado teve recursos mais do que suficientes, perdeu reservas fundamentais devido à guerra e às represas que a Turquia construiu nos rios Tigre e Eufrates. O Egito, com os seus 86 milhões de habitantes, tem uma população duas vezes maior do que há 50 anos, mas sem recursos de água adicionais.

A isolada Faixa de Gaza lida com uma crise hídrica há anos. E as escassas reservas do Iemen são absorvidas pela produção descontrolada de kat (Catha edulis), um cultivo especial da zona tropical africana e arábica que consome muita água e possui valor nutricional nulo. Mastigar a folha ligeiramente narcótica de kat é o passatempo nacional no Iemen. “Se tiverem mais água, cultivarão mais kat”, lamentou um participante da conferência.

Porém, nem todas as notícias são ruins. Países estáveis com muito dinheiro, liderados pela Arábia Saudita, exibem avanços notáveis nas suas reservas, na gestão e educação do consumidor. Noutros lugares, entretanto, o prognóstico é pouco animador. Ninguém prevê que se desencadearão “guerras pela água” ou conflitos armados pelas reservas, um fantasma que se evoca com frequência, mas que nunca se materializou.

Porém, em algum momento do futuro não muito distante, a escassez de água poderá provocar grandes migrações, penúrias, más colheitas e uma seleção de prioridades nas populações, na medida em que os governos forem obrigados a destinar as reservas de água, disseram os conferencistas, cujas identificações não são permitidas pelas normas da conferência.

Tudo isso não passou despercebido. O problema da água no Médio Oriente é objeto de notícias, análises de órgãos como a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) e de estudos feitos por centros de pesquisa e grupos humanitários durante anos.

No encontro mais recente, cientistas, analistas políticos e académicos de oito países se reuniram em uma ilha do Mar de Mármara para a conferência de Istambul intitulada Secas: Como Abordar o Desafio da Água no Médio Oriente, organizada pelo Centro Hollings e pelo Programa de Estudos Estratégicos Príncipe Muhammad Bin Fahd da Universidade de Flórida Central, nos Estados Unidos. Mas esse tipo de encontro conseguiu pouco porque a região não tem estabilidade suficiente para que uma solução integral e multilateral seja possível.

Análises do Banco Mundial, Departamento de Estado norte-americano e outros, indicam que a maioria dos países definidos como “pobres em água” (com acesso inferior a mil metros cúbicos por pessoa ao ano) estão no Médio Oriente e norte da África. O Departamento de Estado também prevê que a mudança climática agravará o problema ao provocar “níveis consistentemente mais baixos de chuvas”.

Nenhum governo nem organismo internacional pode aumentar as precipitações. Mas os congressistas de Istambul disseram que o exemplo da Arábia Saudita, o maior país do mundo sem rios, mostra que os Estados com muito dinheiro e tempo suficiente para se dedicarem a um tema podem fazer muito.

A Arábia Saudita centralizou o planejamento e a gestão da água na década de 1990. A maior parte da água do país é usada com fins pessoais e o abastecimento doméstico é feito por unidades de dessalinização cuja construção começou nos anos 1970. Mas a construção e operação dessas unidades têm um custo alto, o que as deixa fora do alcance econômico de países como o Iemen.

A Arábia Saudita lidera a região na recaptura e reutilização de águas residuais. Uma lei do ano passado, por exemplo, exige que as suas fazendas leiteiras funcionem com água reciclada adquirida da Companhia Nacional da Água e não com as águas subterrâneas como se fazia no passado.

Esse país chegou a ser quinto ou sexto exportador mundial de trigo, cuja produção exige grandes quantidades de água, mas agora esse cultivo estará proibido a partir de 2016 e o reino reorientará sua agricultura para a produção em estufas de frutas e verduras. Também foram proibidos os cultivos de forragem para gado, como a alfafa. Os produtores pecuários devem comprar forragem importada, disseram os participantes da conferência.

A Arábia Saudita perdia até 25% de sua água por vazamentos nas tubulações de distribuição. Para resolver o problema privatizou sua rede de distribuição e incentivou a participação de empresas de engenharia e de gestão estrangeiras. O reino aumentou o preço da água para empresas e instituições, mas não deixa de subsidiar a água destinada às famílias. Assim, o elemento vital é barato e há poucos incentivos para limitar seu consumo. Acabar com os subsídios seria politicamente arriscado num país onde os subsídios da água, gasolina e eletricidade são esperados pela população, que não tem voto nem outro tipo de influência sobre o governo.

O Egito, de longe o país mais povoado da região, tem um problema diferente de atitude dos consumidores. Os egípcios dão por assente a disponibilidade de água desde que foi construída a represa de Assuã, em 1970. Assim, utilizam-na com sensatez em casa e bombeiam mais para a irrigação de seus campos.

Mas a maior preocupação atual do Egito é o plano da Etiópia de construir uma grande barragem hidroelétrica na cabeceira do rio Nilo, o que reduzirá a corrente e a quantidade de água armazenada no lago Nasser, atrás da represa de Assuã. Quando recentemente perguntado ao chanceler egípcio, Nabil Fahmy, se o seu país estava em negociações sobre a distribuição da água do Nilo com os países rio acima, respondeu que “não, mas gostaria que estivesse”.

Os participantes em Istambul concordaram que não há uma solução única para a crise da água. As respostas existentes vão desde o simples e evidente, como educação dos consumidores e instalação de acessórios de banho de baixo caudal, ao desenvolvimento de unidades dessalinizadoras que funcionem com energia solar.

Como é habitual nesse tipo de evento, os organizadores prepararão um documento com suas recomendações. Mas será difícil aplicar as soluções até que cessem os tiroteios, os refugiados tenham um lar e os governos tenham uma estabilidade suficiente para colocá-las em prática. E isso não acontecerá logo. 


* Thomas W. Lippman é investigador-adjunto do Middle East Institute e autor de Saudi Arabia on the Edge (Arábia Saudita no Limite). Artigo publicado no portal do IPS

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Como o povo do semiárido detonou a indústria da seca

"O trabalho da ASA e suas 700 organizações sociais envolve além das cisternas, um grande intercâmbio de informações e de experiências entre agricultores e agricultoras, o incentivo e a organização de bancos e casas de sementes crioulas, enfim, da prática econômica, social cultural da vida do sertanejo", afirma 

Esta é uma história de como a zona rural do país, no caso específico da caatinga, onde as pessoas se organizaram e resolveram tomar o destino de suas vidas na prática, defendendo seus territórios, buscando acesso à água, protegendo suas sementes e, hoje em dia, dando lições de como é possível conviver com a aridez da natureza.

A reportagem  de Najar Tubino, publicada por Carta Maior, 20-05-2014.

Só para ilustrar vou contar um caso do agricultor Golinha, de Apodi (RN). Ele esta no encontro de agroecologia trocando e vendendo sementes, mudas e chás medicinais. As variedades crioulas de milha, contou ele, são transmitidas na sua família há quatro gerações. Neste mês de maio a semente que eles chamam de “vida longa” completou 302 anos. O pai dele morreu com 99, o avô 99 e o bisavô com 104. As outras duas variedades são “ligeiro”, um milho precoce e o “Zé moreno”, que era amigo do pai dele, já falecido, mas virou semente.

As mudanças no semiárido, na estrutura política e econômica, iniciaram há muitas décadas. Fazer cisterna era comum há mais de 70 anos. Quem relata esta história é o coordenador da ASABRASIL, Naidison Quintela Batista, de 74 anos, formado em teologia e pedagogia em Roma, baiano, e um dos responsáveis por uma rede de organizações sociais – são 700 -, que abrange nove estados do nordeste e o norte de Minas Gerais – o bioma caatinga, com suas variantes. Nos primórdios todos trabalhavam em torno do Movimento de Organizações Comunitárias (MOC), que já mantinha práticas como programas de trocas de sementes, de animais e fundos rotativos, que o agricultor pagava em produto ou em dinheiro.

Começando a interferir na política

As chamadas comissões de trabalho, que organizavam as frentes na época das secas, reunindo sertanejos que construíam açudes, estradas e outras obras de infraestrutura. A presença das organizações sociais tinha por objetivo travar a manipulação dos prefeitos, que carreavam os recursos para os ricos dos municípios do interior e para os parentes. Então, nas matrículas das frentes aparecia a mulher do prefeito, o cunhado, os tios e assim vai.

A mudança de rumo ocorreu em 1999, depois de mais uma seca. Foi criada a Articulação no Semiárido Brasileiro, a ASA, baseada numa carta de princípios, que ainda é a mesma, e onde as organizações para participar precisavam aderir ao documento. O X da questão era o seguinte: não bastavam produzir dossiês com reivindicações e propostas, era necessário executar, respeitando sempre as características de cada organização, que por sua vez, refletia as características de cada região. O foco central, cada vez mais, passou a ser a convivência com o semiárido.

Ação de impacto significativa

Os representantes das várias organizações decidiram definir uma ação de impacto significativa, que envolvesse a maioria das entidades. Assim nasceu o Programa Um Milhão de Cisternas, com a sigla P1MC. Cisternas de consumo humano, com capacidade de armazenar 16 mil litros, e suprir uma família com cinco pessoas, por nove, 10 meses. Entretanto, o fundamental estava na maneira como construir as cisternas e como escolher as famílias que participariam do programa.

Ou seja, não se trata de uma iniciativa de construção, onde uma empresa, ou um grupo de pedreiros é contratado para fazer a obra. É uma atividade de mobilização, onde as comunidades discutem o problema, elegem uma família e depois constroem a cisterna, comprando produtos locais, para movimentar a economia da localidade, da comunidade. Nada de empresas.

A ASA e seus ativistas começaram a entrar na casa das pessoas. Discutiam, além da construção da cisterna, a maneira como eles armazenavam água, como consumiam, como cultivavam a terra e muitas outras coisas. No final, definiram sete tecnologias de construção de cisternas de consumo humano. O primeiro apoio do governo federal veio na época do Ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho. Uma “experiência” para “testar” 500 cisternas.

Muito mais importante foi a definição do processo de construção, que abrange uma metodologia completa, desde os componentes usados, os custos, a mobilização das famílias e as compras locais. A partir daí, conseguiram o apoio da Agência Nacional de Águas em 2001, para construção de 12.300 cisternas, somadas as outras 500, dava um total de 12.800 cisterna. Foi o pontapé inicial.

A transição política em 2003

A grande preocupação da ASA desde o início: como fazer o controle social das cisternas. Na metodologia ficou aprovado o seguinte, válido até hoje: cada cisterna tem um número de registro, com os dados de localização geográfica. Na hora da família receber a cisterna, tiram uma foto ao lado do registro, a família assina um termo de recebimento e um material educativo. O governo federal assumiu a método, já virou uma lei federal. Significa, que ao repassar recursos aos estados e municípios, todos tem que cumprir com as exigências expostas na lei. Conclusão: se tornou uma política pública, criada pelos sertanejos e com a operacionalização e organização da ASA e sua rede de entidades.

Hoje, as negociações para construção de cisternas são formalizadas via contrato, através de licitação pública e das organizações da sociedade civil. Os coordenadores da ASA aproveitaram a posse de Lula em 2003, para colocar projetos em várias áreas. Onde houvesse uma brecha, um conhecido, eles entravam com suas propostas. Contaram com o apoio do Frei Beto e de Odew Grawej. Assim fecharam o primeiro convênio com o governo federal em julho de 2003.

Dez anos depois, o primeiro contrato com a Petrobras, que está encerrando neste mês de maio, com a construção de 20 mil tecnologias de Segunda Água, no valor de R$200 milhões. São as chamadas cisternas de produção, a água que será usada na criação de animais e para plantio. Podem armazenar desde 52 mil litros, onde a água é captada de um calçadão de cimento, com declividade, até a cisterna de enxurrada, onde a água é captada de uma encosta, uma elevação, e são colocados filtros para decantar, antes do recolhimento.

O barrreiro trincheira, onde cavam poços com mais de três metros de profundidade, capta até 300 mil litros, o tanque de pedra, que é uma formação característica em várias regiões da caatinga – eles aumentar as barreiras de pedra com cimento, formando uma bacia, quando chove a água fica represada, acumulando 700, 800 a um milhão de litros.

Por último: a barragem subterrânea construída nos leitos dos rios e riachos secos, onde eles cavam numa garganta, um estreitamento, jogam uma loca, tapam novamente com terra e quando chove a água bate na lona e fica armazenada no subsolo.

Novecentas mil cisternas e 4,5 milhões de pessoas

Contando as cisternas construídas pela rede da ASA – 537 mil -, mais os governos estaduais e consórcios municipais o número chega a 900 mil, com 4,5 milhões de pessoas beneficiadas em todo o semiárido. Além de mais 500 mil pessoas que já tem acesso à água de produção. No final de 2013, a ASA assinou outro contato com o BNDES, também de R$200 milhões, para construção de oito mil tecnologias diretamente com o banco, e outras 12 mil, por intermédio da Fundação Banco do Brasil, com recursos repassados também pelo BNDES.

O contrato acaba no final de 2014. Com o Ministério do Desenvolvimento Social o contrato com a ASA envolve outras 20 mil tecnologias e mais R$ 200 milhões – nove mil já foram entregues. O contrato se estende até maio de 2015. E mais: outro contrato com o MDS para construção de 34 mil cisternas de consumo humano. E, está em discussão, um programa para construção de cinco mil cisternas para escolas rurais. Quando tem seca, não tem água, não tem aula.

A ASA virou uma OCIP, uma organização de interesse público, para poder operacionalizar os contratos com o governo federal e seus afiliados. Ela só concorre em licitação nacional, para não concorrer com as entidades estaduais. Quando ganha a licitação, torna a realizar uma licitação para contratar as organizações sociais, que executarão as obras. São 110 organizações envolvidas com a execução do P1MC e do programa Uma Terra Duas Águas. No total o número cresce para 160, porque algumas trabalham com os dois programas. Cada equipe de técnicos tem um coordenador, um gerente financeiro, um auxiliar e quatro técnicos de campo. São 1.120 técnicos envolvidos nos programas.

O Candeeiro para alumiar o sertão

O trabalho da ASA e suas 700 organizações sociais envolve além das cisternas, um grande intercâmbio de informações e de experiências entre agricultores e agricultoras, o incentivo e a organização de bancos e casas de sementes crioulas, enfim, da prática econômica, social cultural da vida do sertanejo. Providência que gerou a criação de um veículo popular, que é o Candeeiro, chamado boletim de experiências, onde as famílias contam a sua história, e relatam a sua experiência no semiárido. Já foram elaborados dois mil exemplares – é uma página impressa, com tiragem de mil exemplares.

Para encerrar. Chega o prefeito na comunidade com o carro pipa. Manda o pessoal fazer a fila. Chega o líder da comunidade diz que ali não tem nada de fila. Dá o nome das famílias, cujas cisternas serão abastecidas. E quando acabar a água, se não chover, voltarão a procurar a prefeitura. É óbvio, que esta ainda não é a realidade de todo o semiárido, sem contar as cidades do interior, onde as populações ainda estão sujeitas ao poder político e econômico de famílias ou de grupos, que não tem o menor escrúpulo em pisotear na cabeça dos sertanejos.

Contos de fada - Luiz Fernando Veríssimo sobre Thomas Piketty

"Piketty propõe medidas contra a desigualdade difíceis de imaginar na prática, como a taxação universal de grandes fortunas herdadas e lucro desmedido. Mas seu livro está sendo considerado tão importante, sobre distribuição de renda no século XXI, quanto as teses equivocadas de Kuznets que justificavam a ganância no século XX. Resta saber se terá a mesma influência", escreve Luís Fernando Verissimo, escritor, em artigo publicado no jornal Zero Hora, 22-05-2014.

Crônica.

Na introdução ao seu livro O Capital no Século XXI, que está dando tanto o que falar, o francês Thomas Piketty faz uma espécie de retrospectiva do pensamento econômico até hoje.

A uma comparação entre Simon Kuznets (o russo naturalizado americano que ganhou o Nobel de Economia em 1971 pelo seu trabalho sobre distribuição de renda em sociedades industriais) e Karl Marx, Piketty deu o título de “Do apocalipse ao conto de fada”.

Apocalipse era o que Marx prometia, com sua previsão de que a burguesia produziria seus próprios coveiros e só o proletariado sublevado derrotaria o capital espoliador.

Conto de fada era a chamada “curva de Kuznets”, segundo a qual o capital cumulativo e monopolista eventualmente se autocorrigiria e, para citar uma imagem fluvial ainda em uso hoje, quando as águas subissem ergueriam todos os barcos ao mesmo tempo.

Entre parênteses: o economista brasileiro Paulo Gurgel Valente, num texto que circula na internet, fez um ótimo resumo, claro e didático, do trabalho de Kuznets e da crítica de Piketty.

Piketty reconhece a importância de Kuznets, um dos primeiros economistas a recorrer a estatísticas científicas com as quais Marx (e Malthus e Ricardo e outros catastrofistas dos séculos XVIII e XIX) nem sonhava. Mas as conclusões de Kuznets podem ser chamadas de canções de ninar para capitalista selvagem dormir sem remorso.

Piketty perdoa o otimismo de Kuznets porque ele é um reflexo direto do otimismo da época, o período entre o fim da II Guerra Mundial, 1945 e 1975, 30 anos que na França são chamados de “les trente glorieuses”, durante os quais todos os barcos subiram juntos e subiram muito.

Desde então, de acordo com o estudo das estatísticas a seu dispor (e ao dispor de todo o mundo) e as previsões de Piketty, os mitos do mercado autorregulado, da mãozinha invisível de Adam Smith e da eventual superação da desigualdade e da injustiça que virá um dia, é só ter paciência, sobrevivem nos contos de fada com final feliz que o neoliberalismo insiste em nos contar, e defende contra todas as evidências.

Um contrapeso teórico à sua tese, do qual Piketty não foge, é que o sonho – ou o pesadelo, dependendo de que lado você estaria quando viesse o cataclismo – previsto por Marx também não aconteceu. O apocalipse marxista também virou conto de fada, pelo menos na sua pretensão escatológica à redenção da humanidade no fim do capitalismo, do Estado e da História.

Piketty propõe medidas contra a desigualdade difíceis de imaginar na prática, como a taxação universal de grandes fortunas herdadas e lucro desmedido. Mas seu livro está sendo considerado tão importante, sobre distribuição de renda no século XXI, quanto as teses equivocadas de Kuznets que justificavam a ganância no século XX. Resta saber se terá a mesma influência.

Como conheci Edward Snowden

Por Glenn Greenwald

Este artigo é uma versão resumida e adaptada do Capítulo 1 do novo livro de Glenn Greenwald, No Place to Hide: Edward Snowden, the NSA, and the U.S. Security State (Não há onde se esconder: Edward Snowden, a ANS e o Estado de Segurança dos EUA), e está sendo publicado em conjunto com TomDispatch.com por cortesia da Metropolitan Books.
Em 1º de dezembro de 2012, recebi a primeira comunicação de Edward Snowden, embora na época eu não tivesse ideia de que era dele.
O contato veio na forma de um e-mail de alguém que se chamava de Cincinnatus, uma referência a Lucius Quinctius Cincinnatus, o agricultor romano que, no século 5º a.C., foi nomeado ditador de Roma para defender a cidade de um ataque. Ele é mais lembrado pelo que fez depois de vencer os inimigos de Roma: imediata e voluntariamente, deixou o poder político e voltou à vida agrícola. Saudado como um “modelo de virtude cívica”, Cincinnatus [em português Cincinato] tornou-se um símbolo do uso do poder político no interesse público e do valor de limitar ou mesmo ceder o poder individual pelo bem maior.
Assim começava o e-mail: “A segurança das comunicações pessoais é muito importante para mim”, e seu objetivo declarado era pedir-me que usasse criptografia PGP para que “Cincinnatus” pudesse se comunicar sobre coisas que certamente, segundo ele, me interessariam. Inventada em 1991, PGP significa “pretty good privacy”, ou “privacidade muito boa”. A tecnologia foi transformada em uma ferramenta sofisticada para proteger e-mails e outras formas de comunicações pela internet da vigilância e de invasões de hackers.
Nesse e-mail, “Cincinnatus” disse que havia procurado em toda parte por minha “chave pública” de PGP, um código único que permite que as pessoas recebam correio eletrônico criptografado, mas não a encontrou. A partir daí, ele concluiu que eu não usava o programa e me disse: “Isso põe em risco qualquer pessoa que se comunicar com você. Não estou dizendo que toda a sua comunicação deva ser criptografada, mas você deveria pelo menos dar essa opção a seus interlocutores”.
“Cincinnatus” então se referiu ao escândalo sexual do general David Petraeus, cujo caso extraconjugal com a jornalista Paula Broadwell, que pôs fim a sua carreira, foi descoberto quando investigadores encontraram e-mails do Google entre os dois. Se Petraeus tivesse criptografado suas mensagens antes de entregá-las ao Gmail ou arquivá-las em sua pasta de rascunhos, escreveu ele, os investigadores não seriam capazes de lê-los. “A criptografia é importante, e não apenas para espiões e amantes ilícitos.”
“Há gente por aí com quem você gostaria de conversar”, acrescentou ele, “mas elas nunca poderão contatá-lo sem saber que suas mensagens não podem ser lidas no percurso.” Então ele se ofereceu para me ajudar a instalar o programa. E despediu-se: “Obrigado, C.”
Usar software de criptografia é algo que eu pretendia fazer há muito tempo. Eu vinha escrevendo havia anos sobre o WikiLeaks, denunciantes, o coletivo de hackers ativistas conhecido como Anonymous, e também havia me comunicado com pessoas no meio da segurança nacional dos Estados Unidos. A maioria delas se preocupa com a segurança de suas comunicações e em evitar o monitoramento indesejado. Mas o programa é complicado, especialmente para uma pessoa que tinha muito pouca habilidade em programação e computadores, como eu. Então era uma das coisas que eu acabava não fazendo.
O e-mail de C. não me levou à ação. Como eu me tornara conhecido por cobrir histórias que o resto da mídia costuma ignorar, frequentemente as pessoas me ofereciam uma “história incrível”, que em geral não davam em nada. E em qualquer momento eu costumo estar trabalhando em mais reportagens do que sou capaz. Por isso precisava de algo concreto para me fazer deixar o que estava fazendo para seguir uma nova pista.
Três dias depois, tive notícias de C., pedindo-me para confirmar o recebimento do primeiro e-mail. Desta vez respondi rapidamente: “Recebi e vou trabalhar nesse sentido. Não tenho código PGP e não sei como fazer isso, mas tentarei encontrar alguém para me ajudar”.
C. respondeu no mesmo dia com um guia claro, passo a passo, do PGP: Criptografia para Burros, basicamente. No final das instruções, ele disse que eram apenas os “fatos básicos”. Se eu não encontrasse ninguém para me explicar o sistema, ele acrescentou, “diga-me. Posso conseguir o contato com pessoas que entendem de cripto em quase qualquer lugar do mundo”.
Este e-mail terminou com uma despedida mais explícita: “Criptograficamente seu, Cincinnatus”.
Apesar de minhas intenções, eu nada fiz, consumido como estava na época por outras matérias, e ainda não convencido de que C. tivesse alguma informação que valesse a pena.

Diante de minha inação, C. intensificou seus esforços. Produziu um vídeo de dez minutos intitulado ”PGP para jornalistas”.
Foi nessa altura que C., como ele me disse mais tarde, ficou frustrado. “Aqui estou eu”, pensou, “pronto para arriscar minha liberdade, talvez até minha vida, para entregar a esse sujeito milhares de documentos ‘top secret’ da agência mais sigilosa do país – um vazamento que produzirá dezenas ou centenas de enormes furos jornalísticos. E ele não pode sequer se incomodar de instalar um programa de criptografia.”
Foi assim que eu quase desperdicei um dos maiores e mais importantes vazamentos de segurança nacional da história dos Estados Unidos.
“Ele é real”
A próxima vez em que ouvi falar nisso foi dez semanas depois. Em 18 de abril, voei do Rio de Janeiro, onde moro, para Nova York, e ao pousar no aeroporto JFK vi que tinha um e-mail de Laura Poitras, a cineasta documentarista. “Será que você estará nos Estados Unidos na próxima semana?”, escreveu ela. “Eu adoraria lhe falar sobre uma coisa, mas é melhor pessoalmente.”
Eu levo a sério qualquer mensagem de Laura Poitras. Respondi imediatamente: “Na verdade, acabo de chegar aos EUA nesta manhã. Onde você está?” Combinamos uma reunião para o dia seguinte no lobby do meu hotel e encontramos lugares no restaurante. Por insistência de Laura, mudamos de mesa duas vezes antes de começarmos nossa conversa, para ter certeza de que ninguém poderia nos ouvir. Então Laura foi direto ao assunto. Tinha uma “questão extremamente importante e delicada” para discutir, disse, e a segurança era crítica.
Primeiro, porém, Laura pediu que eu retirasse a bateria do meu celular ou o deixasse no meu quarto. “Parece paranoia”, disse ela, mas o governo tem a capacidade de ativar celulares e laptops remotamente como equipamentos de vigilância. Eu já tinha ouvido falar nisso, por ativistas pró-transparência e hackers, mas tendia a considerar excesso de cautela. Depois de descobrir que a bateria do meu celular não podia ser retirada, levei-o para o quarto e voltei ao restaurante.
Então Laura começou a falar. Ela havia recebido uma série de e-mails anônimos de uma pessoa que parecia séria e honesta. Ele afirmava ter acesso a documentos extremamente secretos e recriminadores sobre o governo americano estar espionando seus próprios cidadãos e o resto do mundo. Ele estava decidido a vazar esses documentos para Laura e tinha pedido especificamente que ela trabalhasse comigo para divulgá-los e comentá-los.
Então Laura tirou de sua bolsa várias páginas, dos dois e-mails enviados pelo vazador anônimo, e eu as li na mesa, do início ao fim. No segundo e-mail, o vazador chegou ao ponto principal do que considerava sua missão:
O choque desse período inicial [depois das primeiras revelações] fornecerá o apoio necessário para construir uma internet mais igualitária, mas isso não funcionará em benefício das pessoas comuns a menos que a ciência supere a lei. Ao compreender os mecanismos por meio dos quais nossa privacidade é violada, poderemos vencer aqui. Poderemos garantir para todas as pessoas a mesma proteção contra vigilância irracional mediante as leis universais, mas somente se a comunidade técnica estiver disposta a enfrentar a ameaça e se comprometer a implementar soluções muito engenhosas. Afinal, devemos aplicar um princípio pelo qual a única maneira como os poderosos poderão desfrutar a privacidade é quando ela for do mesmo tipo partilhado pelos comuns: a aplicada pelas leis da natureza, mais que pelas políticas do homem.
“Ele é real”, disse eu quando terminei de ler. “Não sei explicar exatamente por quê, mas eu apenas senti intuitivamente que isto é sério, que ele é exatamente quem diz ser.”
“Eu também”, respondeu Laura. “Tenho muito poucas dúvidas.”
Eu instintivamente reconheci a paixão política do autor. Senti uma afinidade com nosso interlocutor, com sua visão de mundo e com a sensação de urgência que claramente o consumia.
Em um dos últimos trechos, o correspondente de Laura escreveu que estava concluindo os últimos passos necessários para nos fornecer os documentos. Precisava de mais quatro a seis semanas, e deveríamos esperar por notícias dele.
Três dias depois, Laura e eu nos encontramos novamente, e com outro e-mail do vazador anônimo, em que ele explicava por que estava disposto a arriscar sua liberdade, submeter-se à alta probabilidade de uma pena de prisão prolongada, para revelar esses documentos. Então fiquei ainda mais convencido: nossa fonte era real. Mas, como eu disse a meu companheiro, David Miranda, no voo de volta ao Brasil, eu estava decidido a tirar tudo aquilo da minha cabeça. “Talvez não aconteça. Ele pode mudar de ideia. Pode ser apanhado.” David é uma pessoa com poderosa intuição e estava estranhamente seguro. “É real. Ele é real. Vai acontecer”, ele declarou. “E vai ser uma coisa enorme.”
“Só tenho um medo”
Uma mensagem de Laura me avisou que precisávamos conversar com urgência, mas só por bate-papo OTR (off-the-record), um instrumento criptografado para conversar online em segurança.
A novidade era surpreendente: talvez precisássemos viajar a Hong Kong imediatamente para encontrar nossa fonte. Eu supunha que nossa fonte anônima estivesse em Maryland ou no norte da Virgínia. O que alguém com acesso a documentos altamente secretos do governo americano fazia em Hong Kong? O que Hong Kong tinha a ver com isso?
As respostas só poderiam vir da própria fonte. Ele estava aborrecido com o ritmo das coisas até então, e era crítico que conversássemos pessoalmente, para tranquilizá-lo e aplacar suas crescentes preocupações. Dentro de uma hora recebi um e-mail de Verax@******. Veraxsignifica “contador da verdade” em latim. O campo do assunto dizia: “Preciso falar”.
“Estou trabalhando em um grande projeto com uma amiga comum nossa”, começava o e-mail. “Você recentemente teve de recusar uma viagem em curto prazo para me encontrar. Você precisa ser envolvido nesta história”, escreveu ele. “Existe alguma maneira de podermos falar em curto prazo? Compreendo que você não tem uma infraestrutura muito segura, mas darei um jeito com o que você tem”. Ele sugeriu que falássemos via OTR e forneceu seu nome de usuário.
Meu computador tocou uma campainha indicando que a fonte estava conectada. Ligeiramente nervoso, cliquei sobre o nome dele e digitei “Olá”. Ele respondeu, e eu me vi falando diretamente com alguém que eu supunha, naquela altura, que tivesse revelado vários documentos secretos sobre programas de vigilância dos EUA e que queria revelar mais.
“Estou disposto a fazer o que for preciso para relatar isso”, disse eu. A fonte – cujo nome, local de emprego, idade e todos os outros atributos ainda me eram desconhecidos – perguntou se eu poderia ir até Hong Kong para encontrá-lo. Não perguntei por que ele estava lá; não quis parecer ávido por informação e supus que sua situação fosse delicada. No mínimo, eu sabia que aquela pessoa tinha resolvido praticar o que o governo dos EUA consideraria um crime muito grave.
“É claro que irei a Hong Kong”, disse eu.
Conversamos online naquele dia durante duas horas, falando extensamente sobre seu objetivo. Eu sabia pelos e-mails que Laura me havia mostrado que ele se sentia impelido a contar ao mundo sobre o enorme aparelho de espionagem que o governo dos EUA estava construindo em segredo. Mas o que ele esperava alcançar?
“Quero provocar uma discussão mundial sobre privacidade, liberdade na internet e os perigos da vigilância do Estado”, disse. “Não tenho medo do que acontecerá comigo. Aceitei que minha vida provavelmente acabará por fazer isto. Estou tranquilo nesse sentido. Sei que é a coisa certa a fazer.” Então ele disse algo assustador: “Quero me identificar como a pessoa por trás dessas revelações. Acredito que tenho uma obrigação de explicar por que estou fazendo isto e o que espero alcançar”. Ele me disse que tinha escrito um documento que queria postar na internet quando se revelasse como a fonte, um manifesto a favor da privacidade e contra a vigilância para as pessoas do mundo inteiro assinarem, mostrando que havia apoio global à proteção da privacidade.
“Eu só tenho um medo ao fazer tudo isso”, disse ele; “que as pessoas vejam esses documentos e encolham os ombros, que digam ‘Pensávamos que isso estivesse acontecendo e não nos importamos’. A única coisa que eu temo é fazer tudo isso com minha vida por nada.”
“Seriamente duvido que isso aconteça”, eu o tranquilizei, mas não estava convencido de que realmente acreditava. Sabia por meus anos escrevendo sobre os abusos da ANS [Agência Nacional de Segurança] que pode ser difícil gerar um interesse sério sobre a vigilância secreta do Estado.
Isto parecia diferente, mas antes de partir para Hong Kong eu queria ver alguns documentos para entender o tipo de revelações que a fonte estava preparada para fazer.
Passei então alguns dias online enquanto a fonte me ensinava, passo a passo, a instalar e usar os programas de que precisaria para ver os documentos.
Pedi desculpas pela falta de jeito, por ele ter de gastar horas para me ensinar os aspectos mais básicos da comunicação segura. “Não se preocupe”, disse ele, “a maior parte disso não tem muito sentido. E eu tenho muito tempo livre agora.”
Quando todos os programas foram instalados, recebi um arquivo contendo aproximadamente 25 documentos. “É só um aperitivo muito pequeno, a ponta do iceberg”, ele me explicou de modo provocativo.
Eu descompactei o arquivo, vi a lista de documentos e cliquei casualmente em um deles. No alto da página, em letras vermelhas, apareceu um código: “TOP SECRET//COMINT/NO FORN/”.
Isso queria dizer que o documento havia sido legalmente designado altamente secreto, pertencia à inteligência de comunicações (Comint) e não era para ser distribuído para estrangeiros, incluindo organizações internacionais ou parceiros de coalizão (NO FORN). Lá estava com uma clareza indiscutível: uma comunicação altamente confidencial da ANS, um dos órgãos mais sigilosos do governo mais poderoso do mundo. Nada de tal importância jamais havia vazado da ANS em seus 60 anos de história. Agora eu tinha algumas dúzias desses artigos em minha posse. E a pessoa com quem eu havia passado horas conversando nos últimos dois dias tinha muitos outros para me dar.
Quando Laura e eu chegamos ao aeroporto JFK para embarcar em um voo da Cathay Pacific para Hong Kong, Laura puxou um pendrive de sua mochila. “Adivinhe o que é isto?”, ela perguntou com um olhar de intensa seriedade.
“O quê?”
“Os documentos”, disse ela. “Todos.”
“README_FIRST”
Nas 16 horas seguintes, apesar de minha exaustão, não fiz nada além de ler, febrilmente fazendo anotações nos documentos. Um dos primeiros que li foi uma ordem do Tribunal de Vigilância de Inteligência Estrangeira (Fisc na sigla em inglês), criado pelo Congresso americano em 1978 depois que o Comitê Church descobriu décadas de vigilância abusiva do governo. A ideia por trás de sua formação era que o governo poderia continuar praticando vigilância eletrônica, mas para evitar um abuso semelhante tinha de obter autorização do tribunal Fisc antes de fazê-lo. Eu nunca tinha visto uma ordem do tribunal. Quase ninguém tinha. Ele é uma das instituições mais sigilosas do governo. Todas as suas decisões são automaticamente designadas “top secret” e só um punhado de pessoas tem autorização para acessar suas decisões.
A decisão que eu li no avião para Hong Kong era surpreendente por vários motivos. Ela ordenava que a Verizon Business entregasse à ANS “todos os registros de telefonemas” para “comunicações (i) entre os EUA e o exterior; e (ii) totalmente dentro dos EUA, incluindo telefonemas locais”. Isso significa que a NSA estava secreta e indiscriminadamente coletando os registros telefônicos de milhões de americanos, no mínimo. Virtualmente ninguém tinha ideia de que o governo Obama estivesse fazendo coisa parecida. Agora, com essa decisão, eu não apenas sabia como tinha a ordem do tribunal secreto como prova.
Só então senti que estava começando a processar a magnitude do vazamento. Eu vinha escrevendo havia anos sobre a ameaça que representava a vigilância doméstica irrestrita; meu primeiro livro, publicado em 2006, advertia sobre a ilegalidade e o radicalismo da ANS. Mas eu tinha lutado contra o grande muro do sigilo que protege a espionagem do governo: como documentar os atos de uma agência tão completamente envolta em diversas camadas de sigilo oficial? Nesse momento o muro tinha se rompido. Eu estava de posse de documentos que o governo havia desesperadamente tentado esconder. Tinha provas que mostrariam de forma indiscutível tudo o que o governo tinha feito para destruir a privacidade dos americanos e de pessoas em todo o mundo.
Em 16 horas de leitura quase ininterrupta, consegui percorrer uma pequena fração do arquivo. Mas quando o avião pousou em Hong Kong eu sabia duas coisas com certeza. Primeiro, a fonte era altamente sofisticada e politicamente astuta, evidente em seu reconhecimento da importância da maior parte dos documentos. Ele também era altamente racional. O modo como escolheu, analisou e descreveu os milhares de documentos que agora estavam em minha posse provavam isso. Segundo, seria muito difícil negar sua posição como um denunciante clássico, ao revelar provas de que autoridades do alto escalão da segurança nacional mentiram diretamente para o Congresso sobre programas de espionagem interna.
Pouco antes do pouso, li um último documento. Embora se intitulasse “README_FIRST”, eu o vi pela primeira vez no final da viagem. Essa mensagem era uma explicação da fonte de por que ele decidiu fazer aquilo e o que esperava que acontecesse em consequência – e incluía um fato que não havia nos outros: o nome da fonte.
“Compreendo que terei de sofrer em consequência de meus atos, e que o retorno dessa informação ao público marca o meu fim. Ficarei satisfeito se a federação da lei secreta, o perdão desigual e os irresistíveis poderes executivos que governam o mundo que eu amo forem revelados, mesmo que apenas por um instante. Se você deseja ajudar, entre para a comunidade da fonte aberta e lute para manter o espírito da imprensa vivo e a internet livre. Estive nos cantos mais escuros do governo, e o que eles temem é a luz.
Edward Joseph Snowden, SSN: *****
Apelido na CIA “***** “
Número de Identificação na Agência: *****
Ex-assessor sênior / Agência Nacional de Segurança dos EUA, sob disfarce corporativo
Ex-Oficial de campo / Agência Nacional de Segurança dos EUA, sob disfarce diplomático
Ex-Palestrante / Agência Nacional de Segurança dos EUA, sob disfarce corporativo”
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Glenn Greenwald é editor do The Intercept, autor de No Place to Hide; ex-advogado constitucionalista e colunista do The Guardian até outubro de 2013, ganhou diversos prêmios por seus comentários e jornalismo investigativo, incluindo recentemente o Prêmio George Polk 2013 para reportagem sobre segurança nacional. No início de 2014 ele cofundou um novo canal de mídia global, The Intercept. Este ensaio é adaptado de seu novo livro, No Place to Hide: Edward Snowden, the NSA, and the U.S. Security State (Metropolitan Books).