"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 21 de junho de 2014

"E se Obama fosse africano?"

por Mia Couto no Jornal "SAVANA" – 14/11/2008

Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África. 
  
Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos. 
  
Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo. 
  
Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: "E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto. 
  
E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana? 

1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egito, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular. 
  
 2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-lhe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-lhe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia. 
  
3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor. 
  
4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?). 
  
 5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos. 
  
6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores. 
  
Inconclusivas conclusões 
  
Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte. 
  
Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos. 
  
A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anônimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa. 
  
Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público. 
  
No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África 
continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo. 
  
Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.

O Nordeste nunca foi peso para o Brasil

Sobre a ideia de que o Nordeste seja um peso para o Brasil o Historiador pernambucano Evaldo Cabral de Mello já demonstrou como essa é uma discussão é infeliz em seu livro "O Norte Agrário e o Império". Evaldo explica como o Norte, que àquela altura representava não só o Nordeste atual, mas também os estados amazônicos, contribuía com muito mais recursos para a União com uma taxa de investimentos pelo governo central muito menor do que o Sul.

"Costa Aguiar (Deputado paraense do Império) respondia às asserções de que o Norte era pesado ao Sul, pois, enquanto o Sul, inclusive a corte, contribuía com 2/3 da receita geral, o norte concorria com o terço restante. Segundo o representante do Pará, o argumento não colhia, já que não se discutia a participação regional na formação da receita imperial. O problema essencial não era o de saber de quem gerava maiores recursos para as arcas do tesouro mas quem transferia maiores saldos. (...)enquanto o Norte transferia 21000 contos para os cofres gerais, o Sul recebia 13.000 contos dos mesmos cofres" ( O NORTE AGRÁRIO E O IMPÉRIO - EVALDO CABRAL DE MELO- PÁG:252-3).

Essa ideia do peso paira sobre nós até hoje, é estético, pensa-se que nós NORDESTINOS, enfeiamos o Brasil. Mas o que fica é o que o Nordeste é a região mais eficaz do país. Sem o Nordeste o Brasil perderia vários dos seus melhores músicos, intelectuais, atletas etc.

Quem diz coisa desse tipo tem uma ideia feita a partir de pré-juízos com imagens fechadas, que mostram uma terra arrasada e se amplia. Fica parecendo que aqui não havia uma vida rural fantástica, sim, não era só seca; havia produção agrícola, festas maravilhosas. Todas as regiões do Brasil possuem, infelizmente, pobreza extrema e ineficácia política, que era a causa da seca, sim da seca.

São Paulo hoje enfrenta problemas de abastecimento devido ao mal-planejamento hídrico da cidade. No passado o Jeca-Tatu era um camponês humilhado que lutava para não ser expulso de suas terras por latifundiários.

Portanto, não preciso ser um "patriota" do Nordeste, até porque não me dou com patriotismos, sou de todas as terras do Globo Terrestre, mas a ignorância imaginativa não pode hesitar em contaminar o Mundo.


Geração Aviões do Forró

Ao contrário do que alguns afirmam de forma agressiva ouvir e se tornar "fã" de Aviões do Forró não é mera questão de falta de "saber". Dizendo isso insiste-se na elitização da cultura através do "intelectualismo"; o sociólogo polonês, Zigmunt Bauman, em um texto intitulado "A Cultura na Era do Consumo" afirma que neste tempo atual já não existe um elitismo cultural, o que as camadas populares consomem é compartilhado pelas elites financeiras.

As "letras" de Aviões do Forró introduzem-se no cotidiano das pessoas no papel que antes era ocupado pela música genuína, o sentimento, a poesia, a arte humana, e passam a ser aceitas como  mais autêntica produção artística que ganha predomínio através de difusão midiática. E por quê isso ocorre? Modo de vida urbano, comercialização do mundo, destruição de valores sociais.

E um fator diferenciado. A festa que ao longo da história da humanidade é precedida de um Evento ou se transforma em uma tradição na cultura do "forró eletrônico, assim como do chamado "sertanejo universitário", se torna uma rotina incessante, vidas de indivíduos tem como principal referencial o ir a "festas" desse tipo.

E isso tem um peso sócio-cultural e principalmente político avantajado. Ele força o individualismo que afasta as pessoas dos interesses políticos. A pólis se torna um deixar ir para onde se queira. E esse tipo de exortação é contrário ao que representa a música, efêmero, se passa ao sabor dos ventos.

Mas entra nas consciências como "fato social", por anterioridade penetra na mente do sujeito e se torna o que é música, por isso que não é mera questão de formação escolar. A escola, pelo contrário, deixa de cumprir um papel crítico.

Desintegra-se o Estado fantoche no Iraque

O avanço dos militantes do Estado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL), a tomada de Mossul e de Tikrit e a debandada do exército iraquiano, com o seu espetáculo de uniformes e equipamentos deixados à beira da estrada, mostram o falhanço de Washington no seu afã de manter um protetorado em Bagdá. Os republicanos e os democratas já se culpam mutuamente. 

Por Alejandro Nadal

A realidade é que desde que Washington decidiu a invasão de 2003 sabia-se que a desintegração do Iraque era uma questão de tempo. Os Estados Unidos gastaram 20 bilhões de dólares para construir um exército que se tem desintegrado perante o EIIL. Não há dúvida, hoje o mapa no médio oriente está a ser redesenhado.
O EIIL nasce na guerra da Síria. Inicialmente tem um vínculo forte com a al-Qaeda mas desde 2013 rompeu com esta organização e adquiriu a sua própria identidade: o seu líder Abu Bakr al-Baghdadi pôde articular um amplo movimento de cerca de 10 mil militantes que compartilham o objetivo de estabelecer um Estado islâmico na Síria e partes do Iraque. As fronteiras desta nova entidade política nada teriam que ver com as nítidas retas dos acordos Sykes-Picot. O traço das fronteiras ignorou os critérios culturais, demográficos e orográficos, o que explica as perfeitas linhas retas que traçaram os senhores Sykes e Picot. O Iraque ficou como uma aglomeração de pouca consistência entre três comunidades instaladas em diferentes partes do seu território, curdos no norte, sunitas no centro e a maioria xiita no centro e sul. Essa mistura explosiva foi contida por diversos governos autoritários, incluindo o de Saddam Hussein. A invasão norte americana de 2003 rompeu o domínio da minoria sunita e abriu oportunidades de vingança para a maioria xiita. O atual ‘presidente’ Nouri al Maliki aqueceu os ânimos com a sua retórica anti-sunita. Em 1916, os embaixadores de Inglaterra e França, sir Mark Sykes e François Georges-Picot, respetivamente, assinaram um acordo secreto que dividia em zonas de influência e protetorados quase todo o médio oriente. A primeira guerra mundial estava em pleno vapor mas adivinhava-se o desmembramento do império otomano e essas duas potências coloniais não queriam desperdiçar a oportunidade. O acordo Sykes-Picot colocou a Síria e o Líbano (e uma faixa que chegaria até a cidade de Mossul e a fronteira com o que mais tarde seria o Irã) na zona de influência de França. Os ingleses ficariam com um enorme território que abarca as fronteiras atuais da Jordânia e Iraque.
O mais grave é a perspectiva de uma guerra sectária de grande magnitude. Face à ofensiva do EIIL, entende-se o apelo das autoridades religiosas à população xiita para que esta tome armas e se defenda. Mas isto pode desembocar numa guerra civil e em massacres bem maiores do que aqueles que se seguiram à invasão norte americana. Esse é o verdadeiro legado tóxico da invasão norte americana do Iraque em 2003. Como afetará tudo isto a economia mundial? Até agora, o impacto não tem sido muito importante. Mas tudo pode mudar se o conflito produzir um desajuste na produção petrolífera no Iraque. Nesse caso, as correias de transmissão atuariam de maneira direta e o golpe não ajudaria aos investimentos, crescimento e redução do desemprego. É ainda muito cedo para saber com certeza o que ocorrerá. Para os Estados Unidos, o colapso do Iraque não poderia vir em pior momento. Ao longo de todo o médio oriente os focos vermelhos acendem-se. No Egito continua a flutuar na atmosfera um cheiro a golpe de estado. Na Síria a guerra perdura, sempre com a ameaça de transbordar para o Líbano. Israel mantém a sua ocupação dos territórios palestinos e uma postura belicista. No Afeganistão subsiste outro estado fantoche a ponto de desmoronar-se. Atualmente, o EIIL ocupa 35 por cento do território do Iraque e controla uma boa parte dos seus campos e poços petroleiros. No entanto, muitos desses poços não estão a funcionar há muito tempo e a maior parte da produção iraquiana de petróleo encontra-se nos campos do sul do país, fora do alcance do EIIL. Resta perceber se o EIIL pode ou deseja chegar a tomar Bagdá. As suas linhas de abastecimento alongar-se-iam perigosamente. Além disso, é muito provável que o peso conjunto de unidades armadas iranianas e da população xiita seja demasiado para os militantes do EIIL. Mas para além desta fase do conflito, uma coisa é verdadeira: graças às ações do EIIL e do colapso da autoridade da al-Maliki, a fronteira entre a Síria e o Iraque nunca será o que foi. Num alarde propagandista, há alguns dias, militantes do EIIL destruíram uma parte da fronteira entre a Síria e o Iraque. A brecha aberta com um trator permitiu a passagem de uma caravana de hummers abandonados pelas forças iraquianas em plena fuga. Os líderes do EIIL sabem fazer a sua propaganda: o simbolismo indicaria que sua organização é capaz de romper com a herança do colonialismo e redesenhar o mapa no médio oriente.

Sobre o/a autor(a)

      Alejandro Nadal
      Economista, professor em El Colegio do México.

Sentenças do Supremo Tribunal dos EUA contra a Argentina incentivam investidores depredadores

Duas sentenças do Supremo Tribunal dos EUA contra a Argentina incentivarão os investidores depredadores e dificultarão a redução da dívida dos países mais desfavorecidos, afirmaram organizações que lutam contra a pobreza. Por Carey L. Biron, da IPS.

Ontem, o máximo tribunal norte-americano recusou um apelo apresentado pelo governo argentino diante da decisão de um tribunal inferior que exigia de Buenos Aires o pagamento de 1,5 bilhões de dólares aos credores dos fundos abutre, que se negaram a aceitar uma troca da dívida pública do país. Em agosto de 2013, quando se conheceu essa sentença, a Argentina declarou que não a acataria, mas depois moderou a sua postura.
Esta sentença implica um revés dramático para a Argentina, que luta há anos contra os fundos abutres norte-americanos, NML Capital e Aurelius, para concluir um importante acordo de reestruturação da sua dívida de 102 bilhões de dólares, após a suspensão de pagamentos (default) do país em 2001. Assim que a sentença foi divulgada, a presidente argentina, Cristina Fernández, afirmou que, desta forma, os magistrados norte-americanos validam “uma forma de dominação mundial com base na especulação, para pôr de joelhos os países e a sua população”. A Argentina conta neste caso com apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Mundial e do governo de Barack Obama.
O NML Capital, que liderou a ação contra a Argentina em Nova York, comprou os títulos do tesouro argentinos por 48,7 milhões de dólares e agora o Supremo Tribunal dos EUA reconhece como seu direito cobrar 832 milhões de dólares por esses papéis. “Um lucro de 1.600% em dólares em poucos anos. Creio que nem o crime organizado consegue essa taxa de retorno em tão pouco tempo”, destacou Fernández numa mensagem transmitida pela rede nacional de televisão.
Os 1,5 bilhões de dólares que a Argentina deverá pagar aos fundos abutres são apenas 10% dos títulos que não entraram na troca de 2001. Se o restante da dívida não trocada for apresentada nos tribunais, Buenos Aires enfrentará um processo de aproximadamente 15 bilhões de dólares.
Uma segunda sentença, também do Supremo Tribunal norte-americano, proferida ontem, foi esmagadoramente a favor dos fundos abutres de alto risco e permitirá aos detentores de títulos obrigar os bancos internacionais a dar-lhes toda ajuda na procura de ativos argentinos.
“Ainda estou aturdido pela notícia, é devastadora”, disse Eric LeCompte, diretor-executivo da Jubileu Estados Unidos, uma rede de organizações religiosas que luta em nível mundial contra a pobreza. “Não só apoia o comportamento dos fundos de capital de risco como os incentiva. Agora têm novos instrumentos legais para obrigar países como a Costa do Marfim e Zâmbia à submissão com bastante rapidez”, disse à IPS.As sentenças animarão os investidores depredadores e implicam uma derrota importante para os países pobres que buscam reduzir a sua dívida, afirmaram em Washington organizações não governamentais.
Em jogo está a estratégia de um pequeno número de fundos de investimento, ou fundos abutre, com sede sobretudo nos Estados Unidos, que compram dívida de países pobres com poucas esperanças de amortização, por uma fração do seu valor nominal. Depois essas empresas apresentam ações judiciais contra os governos, porque não lhes pagaram 100% do valor dos títulos do tesouro adquiridos, com a intenção de ficar com parte da renda fiscal e dos fundos de ajuda internacional quando finalmente começam a fluir.
Os fundos desse tipo mantêm as suas ações mesmo quando outros investidores concordam em reduzir a dívida – no que é conhecido como troca de dívida – e aceitam rendimentos inferiores aos esperados que, no entanto, permitem ao governo devedor começar a recuperar economicamente. Inclusive, um só fundo abutre que não aceita a troca pode anular todo o processo de reestruturação da dívida, já que legalmente o acordo não pode avançar sem a aprovação de todos os detentores de títulos.
O caso da Argentina começou em 2001, quando deixou de amortizar 102 bilhões de dólares em títulos do tesouro após anos de turbulências que afundaram a sua economia. Em 2005 e 2012, ofereceu troca de dívida aos investidores estrangeiros por títulos novos a um quarto do seu valor original.
Cerca de 93% dos credores da argentina finalmente aceitaram a troca, mas o NML Capital e o Aurelius negaram-se a aceitar e posteriormente processaram o governo argentino em tribunais nova-iorquinos. “É hora de a Argentina cumprir os seus compromissos com os credores, o que beneficiará tanto a economia argentina quanto a sua posição internacional”, disse o NML num comunicado à imprensa após a sentença contra a apelação.
Alguns analistas sugerem que o Aurelis e o NML processaram a Argentina não tanto pelo dinheiro em jogo no caso, mas pelo modelo que uma sentença favorável ajudaria a consolidar no futuro. A decisão do tribunal pode ter numerosas repercussões adversas. Agora, os fundos abutre podem atacar o rendimento fiscal de países em extrema pobreza, bem como a ajuda internacional que lhes for proporcionada.Observadores do processo temem que a decisão do Supremo Tribunal não só incentive os demais credores da Argentina como fomente as estratégias dos detentores que não aceitam a troca da dívida. “Esse comportamento já era um dos mais rentáveis do mundo, e esta sentença agora considera-o legítimo e torna-o ainda mais rentável, já que os investidores terão que gastar menos em litígios”, pontuou LeCompte.
As gestões de reestruturação da dívida que credores multilaterais realizam com o FMI ou o Clube de Paris, que facilitaram a redução da dívida de 90 países em cerca de 573 bilhões de dólares, também podem complicar-se. Os investidores legítimos provavelmente decidam não participar desse tipo de estrutura já que agora os seus investimentos podem correr risco.
Na batalha jurídica da Argentina nos últimos anos, o FMI, o Banco Mundial e o governo de Obama, bem como uma ampla variedade de investidores, apoiaram formalmente Buenos Aires. No início deste mês, um porta-voz do FMI afirmou que essa entidade “está profundamente preocupada pelas amplas implicações sistémicas que a sentença de primeira instância pode ter para o processo de reestruturação da dívida em geral”.
Existem numerosos esforços internacionais em curso que poderiam limitar a ação dos investidores predadores ou criar um sistema de arbitragem internacional que aborde o problema da dívida soberana. Nos últimos dias, o FMI analisou um documento de trabalho destinado a prevenir as crises económicas mundiais.
Segundo análise da Jubileu Estados Unidos e da New Rules for Global Finance, uma organização não governamental de Washington, procura-se “limitar ou eliminar a conduta predadora extrema que viola as políticas de alívio da dívida, a sua reestruturação e o bom funcionamento do sistema financeiro”.
Mas, seja a nível nacional ou internacional, qualquer medida deste tipo só oferecerá uma solução única no médio prazo. A Argentina agora tem até o dia 30 deste mês para fazer os pagamentos a todos os detentores de títulos do tesouro, entre eles o NML e o Aurelius, mas pagar o que poderia chegar a cerca de 15 mil milhões de dólares arriscaria outro default.
Envolverde/IPS
Washington, Estados Unidos, 18/6/2014

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Migração forçada atinge 50 milhões de pessoas pela primeira vez desde o pós II Guerra Mundial

Entre 2012 e 2013, o número de migrantes forçados aumentou seis milhões. Dos 51,2 milhões de pessoas que foram obrigadas a abandonar o país em que viviam, 25.300 são crianças menores e sem acompanhamento, segundo avança a agência da ONU para os refugiados (ACNUR).

Esquerda.net
Segundo o relatório "ACNUR, Tendências Globais 2013", divulgado no dia Mundial do Refugiado, no final do ano passado, o número de deslocados forçados atingiu 51,2 milhões. Neste total estão incluídos 16,7 milhões de refugiados, 33,3 milhões de deslocados e 1,2 milhões de pedidos de asilo pendentes.
Este é o valor mais elevado desde a era pós Segunda Guerra Mundial, e representa um aumento de seis milhões de pessoas face a 2012, ano em que se registaram 45,2 milhões de migrantes forçados, dos quais 15,4 milhões de refugiados.
Mulher refugiada na República Centro-Africana. Foto: Acnur/Sam Phelps
Conforme lembra o jornal Guardian, o Programa Alimentar Mundial (PAM) viu-se recentemente forçado a diminuir a dimensão das rações distribuídas em alguns campos de refugiados face ao acréscimo das necessidades. Os milhões de pessoas que se veem obrigadas a fugir da guerra, de perseguições várias, da fome ou da falta de água concentram-se maioritariamente - 86% - nos países em desenvolvimento. Os principais países de acolhimento de refugiados são o Paquistão (1,6 milhões), Irão (857.400), Líbano (856.500), Jordânia (641.900) e Turquia (609.900). Por outro lado, do total de refugiados no mundo, 2,56 milhões são originários do Afeganistão, 2,47 milhões da Síria e 1,12 milhões da Somália.
A guerra na Síria, que levou ao deslocamento forçado de 40% da população - 2,5 milhões de refugiados e 6,5 milhões de deslocados internos - é a principal causa do aumento exponencial dos migrantes forçados.
Os conflitos na República Centro-Africana, Ucrânia e Iraque também estão a contribuir para agudizar a situação, sendo expectável que o agravamento da instabilidade nestes países se venha a traduzir num ainda maior aumento da migração forçada.

O Grande Irmão já chegou

“O Grande Irmão está-te observando”. Esta é uma frase famosa do romance antiutópico “1984” do escritor inglês George Orwell, que descreve um regime totalitário em que o Estado vigia todas as esferas da vida da sociedade e do indivíduo.

Evguenia Kuzmina - Voz da Rússia
wikileaks, Assange, espionagem, vigilância, grande irmao
Foto: AP/Anthony Devlin, Pool
Leia mais: http://portuguese.ruvr.ru/news/2014_06_20/O-Grande-Irmao-ja-chegou-6063/
No futuro a ficção descrita nesta obra poderá, se não totalmente, pelo menos de forma parcial, se tornar numa realidade para os cidadãos de uma série de países.
Durante uma recente videoconferência no Skype, o famoso jornalista e fundador do site Wikileaks Julian Assange expressou a possibilidade de o controle permanente dos serviços secretos sobre cada cidadão poder vir a ser uma realidade no futuro mais próximo.
Assange se tornou conhecido, nomeadamente, por suas denúncias dos crimes dos militares norte-americanos no Iraque e no Afeganistão, assim como das atividades ilegais dos serviços secretos ocidentais. O jornalista, que poderá vir a ser alvo de vários processos judiciais em simultâneo por parte de governos ocidentais, obteve asilo político na embaixada do Equador em Londres, da qual está impedido de sair. No entanto, ele continua suas investigações jornalísticas com recurso à Internet.
Durante a sua videoconferência, Assange expressou sua opinião que uma série de países ocidentais já têm preparado um projeto para estabelecer um controle permanente sobre os cidadãos desde o seu nascimento. Segundo os dados do jornalista, a base para esse controle será o DNA do cidadão. Mais tarde os códigos de DNA serão associados aos documentos de identificação, às declarações de impostos e outros documentos financeiros. Ou seja, os Estados irão monitorizar tanto as deslocações da própria pessoa, como o seu uso de meios financeiros. Assange referiu que essa situação já não é uma novidade, por exemplo, na Suécia. Esse sistema já funciona nesse país há mais de uma década.
O editor principal da revista Natsionalnaya Oborona (Defesa Nacional) Igor Korotchenko explicou à Voz da Rússia a sua opinião sobre a possibilidade disso acontecer no futuro mais próximo e em que países:
“A transição para um sistema de armazenamento de todos os dados de cada indivíduo é absolutamente inevitável em todos os países industrializados. Isso permitirá identificar uma pessoa não só através de seus parâmetros exteriores, mas também por seu DNA. Isso irá, provavelmente, ser aplicado em primeiro lugar nos países europeus e da América do Norte. Desde o seu próprio nascimento cada indivíduo irá alimentar bases de dados especializadas. Quanto à Rússia, mesmo que essa novidade nos atinja, isso será bastante mais tarde.”
Entretanto, existe também a opinião que essa novidade, se for adotada na Rússia, sê-lo-á de uma forma limitada. O governo não anuncia esse tipo de ideias e a sociedade também não parece ver nisso qualquer utilidade.
O ativista político e social russo Nikolai Starikov considera que na Rússia um sistema de controle total do Estado sobre o indivíduo é impossível:
“Eu não vejo nada de positivo numa situação em todos os dados de uma pessoa são recolhidos, o DNA registrado e tudo isso descarregado para chips. Se o Ocidente quer evoluir nesse sentido, isso não significa que nós tenhamos de copiar cegamente essa experiência. Essa situação é possível quando os indivíduos não confiam no Estado e o Estado não confia nos indivíduos. Se o prestígio das autoridades é elevado, nem são necessários quaisquer métodos de vigilância adicionais.”
No entanto, é completamente possível que a curto prazo esse sistema seja introduzido na Europa e na América do Norte. A vida de cada cidadão será completamente transparente. Por um lado, depois disso a polícia e os serviços secretos terão seu trabalho facilitado e, sem dúvida, será possível prevenir um certo número de crimes com recurso ao novo sistema.
Por outro lado, ainda não há garantias contra o uso abusivo desse sistema depois da sua introdução. Afinal, se as previsões de Assange estiverem corretas, os habitantes da Europa e da América do Norte, pelo menos, irão viver numa situação de vigilância total e isso será a um nível oficial.

Leia mais: http://portuguese.ruvr.ru/news/2014_06_20/O-Grande-Irmao-ja-chegou-6063/

Educação do RN: longe da realidade e insuficiente (educação para cumprir tabela)

Além do direito à educação temos que enfrentar a questão do direito à aprendizagem e para isso isso não se pode deixar de repensar o papel do professor. O sociólogo espanhol Manuel Castells chega a dizer que a educação que repassa informação está completamente fora do contexto atual, segundo ele a informação está na rede (internet). 

O papel do professor no Brasil sofre com a desvalorização, o escanteamento da carreira. Presenciei na escola pública jovens professores que tinham sido alunos da escola privada se tornarem professores na rede pública e cumprirem um papel insuficiente. Pois é, a maior parte do professores da escola pública foram alunos de escolas privadas; apesar do maior número de alunos a escola pública forma menos do que a privada.

É uma educação, de acordo com a crítica de Paulo Freire, desconectada da realidade regional; no campo do Rio Grande do Norte a educação não passa pela necessidade de desenvolvimento de novos modos de produtividade no semi-árido, é uma educação para "fora", de forma que muitos alunos das escolas rurais ainda jovens de 20 e poucos anos migram para as cidades muitas vezes para serem mototaxistas. Aliá no campo os professores são para apenas cumprirem um papel formal, falta conteúdo.

Nas cidades o exagero da carga horária e a má formação, formação para uma educação meramente conteudista e, portanto, fora da realidade social, fazem com quê o professor não consuma cultura, novos livros; não tem disponibilidade de se voltar para sua função fora da sala de aula, no sentido de pensar educação atrelada à busca de inovações sociais a partir da escola.

No Semi-árido aqui do Rio Grande do Norte a maioria das Universidades existentes direcionam muito pouca atenção ao desenvolvimento regional. Por exemplo, o IFRN de Ipanguaçu na região do Vale do Aço vem fazendo experiências com a psicultura, que é uma atitude interessantíssima, mas no mai, as universidades servem muito mais como cursinhos para a busca de vaga em um mercado de trabalho, que não é um mercado desenvolvimentista.

22 mil espécies ameaçadas de extinção

Mais de 800 espécies foram adicionadas à Lista Vermelha da IUCN. 22.103 espécies estão ameaçadas de extinção; o mascote da Copa do Mundo, o tatu-bola, aparece como vulnerável. Por Fernanda B. Müller do Instituto CarbonoBrasil.

Tatu-bola (Tolypeutes tricinctus) – Foto de Joares Adenilson May Júnior / IUCN
Em 2014, a União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN) está a celebrar os 50 anos de existência da sua Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas de Extinção, ferramenta globalmente utilizada essencial para guiar ações de conservação e decisões políticas.
Apesar da data, na realidade, pouco temos para comemorar além de alguns poucos esforços bem sucedidos para a remoção das espécies das categorias de maior ameaça. Uma atualização da lista foi divulgada na semana que passou e incluiu mais 817 espécies. Assim, agora são 73.686 espécies avaliadas, das quais 22.103 (30%) estão ameaçadas de extinção. A lista é atualizada duas vezes por ano.
Anunciando os novos números, a IUCN deu destaque para dois grupos extremamente preocupantes. Um deles são as orquídeas conhecidas como sapatinhos (sub-familiaCypripedioideae), que têm quase 80% das espécies ameaçadas de extinção. Elas são encontradas na América do Norte, Europa e Ásia (regiões temperadas), onde a destruição do seu habitat e a coleta das espécies selvagens para alimentar o comércio local e internacional são as principais causas da ameaça.
“O surpreendente da avaliação é o grau de ameaça a essas orquídeas”, comentou Hassan Rankou, especialista da IUCN.
A IUCN também destacou que 94% dos lémures estão ameaçados de extinção. Das 101 espécies sobreviventes, 22 estão criticamente ameaçadas, 48 estão ameaçadas e 20, vulneráveis. Isso os torna um dos grupos de vertebrados mais ameaçados da Terra, e os culpados são a destruição do seu habitat e a caça para a alimentação.
“Apesar da profunda ameaça aos lémures, que tem sido exacerbada pela crise política em Madagáscar [os animais são endémicos deste país], acreditamos que ainda há esperança”, comentou Christoph Schwitzer, especialista da IUCN. Ele acredita que ações conjuntas entre os investigadores, comunidades e ONGs podem ter sucesso na proteção de espécies ameaçadas de primatas.
Brasil
Lémur Indri (Indri indri) – Foto de Nick Garbutt / IUCN
No país, a IUCN já avaliou cerca de 5.500 espécies, e, na primeira atualização de 2014 da Lista Vermelha, deu destaque para o tatu-bola-do-nordeste (Tolypeutes tricinctus), mascote da Copa da FIFA 2014, que permanece classificado como Vulnerável.
Acredita-se que a espécie declinou em mais de um terço nos últimos dez a 15 anos devido à perda de 50% de seus habitats, a Caatinga e o Cerrado.
O risco é tão grave que o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) instituiu o Plano de Ação Nacional para Conservação do tatu-bola, o PAN Tatu-bola.
A caça predatória, a destruição de seus habitats e o pouco conhecimento existente sobre a espécie têm ameaçado sua sobrevivência, aponta o ICMBio. A nível nacional, a espécie integra a Lista Oficial das Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, classificada como Em Perigo.
A IUCN nota que o status de Vulnerável do tatu-bola pode mudar com o anúncio da avaliação nacional.
Numa reportagem para a revista National Geographic, a equipe da IUCN explica que o mascote da Copa 2014 recebeu o nome de Fuleco, uma fusão das palavras futebol e ecologia.
“Porém, o quanto o uso do tatu-bola-do-nordeste como mascote da Copa do Mundo se traduzirá em conservação para ele e para as outras nove espécies de tatu do Brasil, resta ser visto”, enfatizam.
Outras espécies
Orquídea (Myrmecophila thomsoniana) – Foto de José Pestana / IUCN
A atualização da lista também teve como triste notícia a extinção na natureza de uma samambaia endémica do Arquipélago das Bermudas, aDiplazium laffanianum, também causada pela destruição do seu habitat, além da introdução de espécies exóticas.
A boa notícia, enfatizada pela IUCN, é a recuperação de uma espécie devido a esforços de conservação da Autoridade de Parques e Natureza de Israel. O peixe Acanthobrama telavivensis, mais conhecido como Yarkon bleak, encontrado apenas em Israel, saiu da categoria Extinto na natureza para Vulnerável devido a um programa de reprodução em cativeiro dos últimos 120 peixes que haviam restado na natureza. Em 2006, nove mil peixes nascidos em laboratório foram liberados no seu habitat restaurado.
“Apesar de celebrarmos alguns casos de sucesso para a conservação em cada uma das Listas Vermelhas da IUCN, há um longo caminho a percorrer entre onde estamos agora e 2020, o prazo estabelecido por quase 200 governos para estancar a perda da biodiversidade e evitar a extinção de espécies”, notou Jane Smart, diretora do Programa Global de Espécies da IUCN.
A IUCN pretende que a lista seja um Barômetro da Vida, aumentando o número de espécies avaliadas de cerca de 70 mil para pelo menos 160 mil até 2020.
A Lista Vermelha é um dos inventários mais detalhados do mundo sobre o estado de conservação mundial de várias espécies de plantas, animais, fungos e protistas, servindo de referência para a maioria dos projetos de conservação e instituições renomadas, como a BirdLife International.
“Ao longo dos últimos 50 anos, a Lista Vermelha da IUCN tem guiado o trabalho de conservação – pouquíssimas ações positivas acontecem sem a Lista Vermelha como um ponto inicial”, comentou Julia Marton-Lefèvre, diretora geral da IUCN.
“Precisamos continuar a expandir o conhecimento sobre as espécies do mundo para melhor compreender os desafios que enfrentamos, estabelecer prioridades de conservação e mobilizar ações concretas para acabar com a crise da biodiversidade”, enfatizou.
Artigo de Fernanda B. Müller do Instituto CarbonoBrasil

quinta-feira, 19 de junho de 2014

VONTADE POLÍTICA É A VERDADEIRA SECA DO NORDESTE

As áreas sedimentares que possibilitam a acumulação de água no subsolo são muito esparsas na região Nordeste

Por: João Suassuna - Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco
  

Já é mais do que sabido que as secas do Nordeste são periódicas e, enquanto fenômeno natural, não há como combatê-las. Todavia, os seus efeitos podem ser enfrentados com tecnologias apropriadas, tornando possível a convivência do homem com o meio árido.

Quando tratamos de tecnologias agrícolas para o Semi-árido - entendidas aqui como aquelas fixadoras do homem no campo - temos que ter em mente um ponto que é fundamental: a exploração, e com muita competência, da capacidade de suporte da região. Neste aspecto somos otimistas.

O Nordeste brasileiro tem 1.600.000 Km² e apenas 2% dessa área são passíveis de irrigação. Apesar de restrita, devido a problemas de qualidade de solos, bem como de quantidade e qualidade de água, a região poderá vir a ser um dos maiores pólos de fruticultura do mundo. Estima-se o potencial irrigado do Vale do Rio São Francisco em aproximadamente 1 milhão de hectares. Como termo de comparação, o Chile, país com clima temperado, produziu no ano de 1997, em aproximadamente 200 mil hectares irrigados, algo em torno de 1,5 bilhão de dólares em frutas. Temos, seguramente, nas margens do São Francisco, a capacidade de produzir cinco vezes mais do que o Chile, com uma vantagem adicional: o nosso semi-árido é o único no mundo localizado em uma região tropical, significando dizer que não temos a ocorrência de neve nos invernos. Este aspecto, aliado a intensa insolação - o semi-árido tem aproximadamente 3000 horas de sol por ano - e com técnicas avançadas de irrigação, possibilita até 3 colheitas por ano. A uva é um bom exemplo de produção nas margens do São Francisco.

Fala-se muito no extenso lençol de água no subsolo do Nordeste, e que sua exploração poderia ser a solução para resolver de vez os problemas hídricos da região. Não é bem assim. Nesse aspecto, temos que ter um pouco de cautela. Água de subsolo só existe quando a geologia assim o permite. As áreas sedimentares que possibilitam a acumulação de água no subsolo são muito esparsas na região. No Semi-árido, o Estado do Piauí é o que apresenta um maior percentual de áreas sedimentares (praticamente todo o estado) e tem demonstrado exemplos de fartura hídrica, a exemplo dos poços jorrantes no município de Cristino Castro. Quando houver possibilidade de exploração das águas destas áreas no Semi-árido, vamos assim fazê-lo. O que não se pode é extrapolar o exemplo do Piauí para o Nordeste como um todo. Nos demais estados, as áreas sedimentares são por demais esparsas não justificando aquela premissa inicial de exploração intensa das águas do subsolo. Para se ter uma idéia do problema, 70% do semi-árido encontram-se sobre um embasamento cristalino, no qual as únicas possibilidades de acesso a água ocorrem através de fraturas nas rochas cristalinas e nos aluviões próximos a rios e riachos. Em geral, essas águas são poucas e extremamente salinas.

Paralelamente à questão da água do subsolo da região fala-se muito, nos dias de hoje, na polêmica transposição das águas do Rio São Francisco como alternativa redentora para mitigar a sede dos nordestinos. Esta questão precisa ser tratada com cuidado. As prioridades iniciais do Rio São Francisco foram para gerar energia elétrica e irrigar. Isto deveria ser encarado como uma questão de segurança nacional. O rio, por ter o seu curso no Semi-árido inteiramente sobre regiões cristalinas, apresenta, como de regra, afluentes com caráter temporário. Esse aspecto traz, como conseqüência, uma redução de sua vazão no período de estiagem. Para solucionar este problema, a Companhia Hidrelétrica do São Francisco - CHESF construiu a represa de Sobradinho para manter a vazão do rio em patamares adequados à geração de energia elétrica no complexo de Paulo Afonso. Sabemos, no entanto, que Sobradinho tem operado em regimes críticos - em janeiro de 1998 apresentava apenas 13% de sua capacidade de acumulação - voltando à tona as ruínas das cidades que foram submersas com o represamento de suas águas, significando dizer que o rio praticamente havia voltado ao leito normal como antes de ser represado. Somado a esse problema da vazão, é importante esclarecer que o uso da água do São Francisco na irrigação é consuntivo, ou seja, a água não retorna ao rio após ser levada até as culturas. Nesse quadro de penúria hídrica, querer-se subtrair mais água do rio para abastecimento das populações é, na melhor das hipóteses, uma ação inconseqüente. Certamente não teremos água para atender a tudo isso (geração, irrigação e abastecimento). Ação muito mais coerente, quanto a este aspecto, seria a de se propiciar um melhor gerenciamento no uso das águas das grandes represas do Nordeste. Orós, no Estado do Ceará, por exemplo, que possui 2 bilhões de m³ de água, até hoje não justificou o porquê da sua construção. As águas estão lá evaporando e não se conhece um projeto de envergadura que justifique a sua condição de maior represa do Ceará. O Estado da Paraíba saiu na frente na campanha de um bom gerenciamento das águas de represas. Está para ser concluído o canal Redenção que irá transportar as águas dos açudes Coremas/Mãe D’água para irrigação nas várzeas de Souza. A represa Ribeiro Gonçalves, no Rio Grande do Norte, que chega a ser até um pouco maior que Orós (possui 2,2 bilhões de m³) está irrigando os municípios de Açu e Ipanguaçu e têm surgido vários pólos interessantes de fruticultura na região. O bom uso das águas das represas, ao nosso modo de entender, seria uma alternativa mais coerente na atual conjuntura em detrimento da alternativa de transposição das águas do São Francisco.

Outro aspecto importante e merecedor de atenção como alternativa produtiva no Semi-árido é o setor extrativista vegetal. Temos no Semi-árido uma riqueza enorme de plantas adaptadas ao ambiente seco que poderiam ser economicamente exploradas. Citamos alguns exemplos: como produtoras de óleos, Catolé, Faveleira, Marmeleiro e Oiticica; de látex, Pinhão, Maniçoba; de ceras, Carnaúba; de fibras, Bromeliaceas; medicinais, Babosa, Juazeiro; frutíferas, Imbuzeiro e as forrageiras de um modo geral. Temos um número de plantas enorme e praticamente não se conhece nada sobre elas. Ações de governo, nesse sentido, seriam importantíssimas.

A pecuária talvez seja a mais importante das alternativas para a região seca, principalmente por se tratar de uma região carente em proteína. Ações realizadas com sucesso no Carirí paraibano, especificamente no Município de Taperoá, têm demonstrado que o cultivo da palma e a fenação de forrageiras resistentes à seca como é o caso do capim buffel e do urocloa, aliados a criação de um gado igualmente resistente e de dupla aptidão (carne e laticínios) a exemplo do Guzerá e do Sindi oriundos dos desertos da Índia e de pequenos ruminantes melhorados geneticamente (caprinos e ovinos), têm possibilitado a sobrevivência digna do homem na região. A piscicultura é outra alternativa que poderá ser desenvolvida através da utilização do potencial de açudes já instalado. Ações governamentais que deem suporte aos produtores, sejam eles pequenos ou grandes, principalmente no setor creditício, são importantes e oportunas.

No que diz respeito à produção de grãos, entendemos que esta prática deveria ser banida dos limites do Polígono das Secas. A instabilidade climática da região é severa e torna a produção de grãos uma verdadeira loteria. Não podemos expor o homem nordestino a situações vexatórias. Estudos da EMBRAPA atestam que as colheitas seguras, nos limites do Semi-árido, ocorrem em apenas 20% dos casos. Em 10 anos agrícolas, apenas 2 apresentam colheitas com sucesso. Este percentual é muito baixo se levarmos em consideração que a fome dos animais, aí incluído o homem, ocorre em 100% dos casos. Um animal que não se alimenta hoje, inexoravelmente amanhã estará com fome. Atualmente, basta a ocorrência de uma única chuva para levar os governos estaduais a abarrotarem o Semi-árido com sementes selecionadas, e acharem que esta prática é sinônimo de boa administração. O que ocorre, na maioria das vezes, é que outras chuvas demoram a ocorrer e todo o trabalho do nordestino no preparo do solo e plantio é desperdiçado, e o que é pior, ele normalmente não dispõe de outra alternativa que lhe garanta o sustento e a vida. Muitas vezes termina por se alimentar de palma - alimento que é fornecido aos animais - como única opção de alimento disponível, como se verificou recentemente aqui em Pernambuco. Como produzir grãos numa região com problemas climáticos tão sérios, se podemos produzir, e com competência, a proteína animal em termos de carne, leite e peixes e, a partir desses produtos, adquirir os grãos necessários à alimentação, produzidos em outras localidades do país, com condições mais propícias para assim fazê-lo ? É uma questão de se adequar uma política agrícola, que efetivamente não temos, à uma realidade regional. Neste aspecto somos pessimistas.

Entendemos que os políticos, isso em regra geral, costumam fazer política com o sofrimento e a miséria do povo. As alternativas de produção existem e não são implementadas porque, na verdade, tem faltado aos administradores públicos a indispensável vontade política para definir ações estruturadoras no semi-árido. E tem faltado porque concretizá-la significa contrariar interesses, muitas vezes situados na base de apoio parlamentar do governo. É exatamente aí onde está a nossa verdadeira seca.



Texto publicado na GAZETA DO NORDESTE do dia 19 de maio de 1998

Semi-árido: os mesmos que se divertiram com a seca mandam até hoje no RN

Antes se usava os moradores do campo no Rio Grande do Norte para sustentação eleitoral de oligarcas, hoje se deixou o campo de lado, mas os mesmos oligarcas dominam o Rio Grande do Norte na base da falta de política.

O homem que se mantém no campo olha para a caatinga e a única alternativa é convertê-la em carvão, por que , apesar de ser a região semi-árida mais úmida do planeta as chuvas  são irregulares e sem um desenvolvimento racional de adaptação na região, principalmente, com técnicas de armazenamento de água e criação de animais, como os caprinos, adaptados para o clima não resta outra fonte de sobrevivência além dessa prática da queima da caatinga.

Cria-se gado bovino, mas estes são animais de grande porte e que necessitam de farta alimentação, quando se prolonga a estiagem é fatal a perda dos animais ou o endividamento dos produtores com ração comprada em armazéns. O desafio, é portanto, sabendo-se da inevitabilidade da seca, conseguir produzir em plena estiagem e dar condições de progresso do campo do sertão, uma forma de enxugar as cidades da região que acabam vendo o proliferar da violência urbana. Apesar de que, infelizmente, a "educação" rural nos estados nordestinos seja feita para que haja u êxodo, porque as únicas perspectivas para os jovens do campo é conseguirem um emprego, principalmente no setor de serviços, nas cidades.

Como disse no início descarta-se o desenvolvimento agrário-pastoril do polígono das secas e deixa-se quem ainda vive do campo praticando suas atividades inadequadas dependendo de pensões de familiares como renda fixa.

É claro que quando se fala em alternativas para nossa região não se pode simplesmente imaginar fator vistos em outras regiões áridas e passar em campanhas eleitorais sem disposição de cumpri-las, a tarefa é árdua, não é fácil para quem está acostumado com suas tarefa habituais fazer mudança de atividade econômica, mas como falei, é preciso que a educação rural seja voltada para a realidade da região e que a juventude seja uma aposta para a inovação produtiva do semi-árido.

O Rio Grande do Norte continuar a se mandado pelos mesmos oligarcas que se divertiram com a miséria do campo, com a seca tornada negócio, somente significa apostar no atraso. Cidade e campo precisam ser totalmente rediscutidos, o pensamento precisa ser renovado, o ar de esmolismo se torna insuportável. Precisamos deixar de ser tão dependentistas, deixar a estupidez de lado e encarar a realidade com efetiva disposição de praticar inovações.

De onde tirastes sua conclusão?

O pré-juízo nasce de uma visão antecipada das coisas do mundo, ou seja, o sujeito a partir de uma imagem seja real e limitada ou imaginária a partir de descrições cria uma totalidade com relação a determinado objeto. Dias atrás vi um vídeo onde um Sunita executava um Xiita no Iraque e usava deus para se vangloriar, esse é o preconceito religioso que é um dos mais acentuados.

Mas o preconceito se configura em todas as coisas, não ter nenhum preconceito talvez fuja da condição humana, no entanto, o perigo maior reside na estigmatização de grupos sociais, de regiões e de culturas. Quando pensamos em África vem-nos à mente crianças desnutridas, com rosto ossudo, cobertas de moscas e transformamos essa imaginação na África como um todo.

E a visão que se tem em outras regiões acerca do Nordeste? Muitos podem chegar a pensar que o Nordeste não possui automóveis, que as pessoas não sabem ler, que  sempre falta água em todo lugar etc. São imagens criadas sem a experiência da comprovação, de uma cena se generaliza um mundo.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A Copa do Mundo é nossa?

Não fosse neste ano de 2014 seria em outra data próxima, o Brasil sediaria o grande evento Copa do Mundo. Pela tradição do evento no país, pelo tempo já decorrido desde 1950 (inclusive pela derrota naquele mundial), pela estabilização econômica desde a década de 1990 e pelas possibilidades elevadíssimas de inversão de capital nas grandiosas obras por parte dos investidores, mas o fato, digamos diferenciado, desta realização do Mundial foi ter se deslocado o evento de uma realização de sonho a um momento de contestações sociais dos mais incisivos de nossa história.

Se tivéssemos perdido a disputa naquele dia 30 de Outubro de 2007 certamente teria-se criado o discurso de fraqueza, falta de competência para sediar evento de tal porte; em seguida houve a briga para a escolha das cidades-sede, poderiam ser oito mas a grandeza territorial e a pressão de chefes de vários estados não se conformaria com algo menor do que 12; depois veio a hora de construir as arenas, muitas e caríssimas, se não tivessem sido construídas surgiria o coro de que a copa seria feita em estádios velhos e de Terceiro Mundo.

Digo tudo isso não para justificar os gastos elevadíssimos, mas somente para tentar demonstrar que este evento seria realizado de uma forma ou de outra no país e da forma que fosse feita se gerariam “conflitos”, e o grande legado da Copa fora justamente este:da fatalidade surgiu a intensificação das exigências cívicas por zelo semelhante com serviços públicos.

A Copa no Brasil tornou-se um pouquinha estranha, a Copa no Brasil torna-se “folclórica”, agora ela vem com um peso de ter sido feito às custas de gastos excessivos e conhecemos de pertinho a FIFA, entidade multibilionária, com exigências comercialescas absurdas, onde, parece o que menos interessa é o futebol em si; claro que vai haver torcida, não sabemos se os protestos serão tão intensos como foram em 2013 na Copa das Confederações, mas o fator inegável é que sempre que se olhar para uma bela arena de Copa do Mundo alguém dirá: poderiam ter sido gastos os recursos aí investidos em saúde e educação.


Portanto, a Copa foi uma típica tragédia Grega, aconteceu por que era inevitável, mas nesse caso, o destino não nos deixara conformados.

O Feijão preto de JáJá e a Indústria da seca

Todo mundo já ouviu a expressão "Comer o pão que o diabo amassou", agora talvez nunca tenha ouvido falar do "fuscão preto de JáJá". O fuscão preto era o feijão preto que era enviado durante a emergência em virtude da seca aqui no semi-árido nordestino, na época em que o hoje senador José Agripino Maia era governador do Rio Grande do Norte. O tal feijão era tão duro que para cozinhar as pessoas tinham que quebrar em um pilão.

As chamadas "emergências" se davam quando ocorriam secas e o governo federal destinava verba para que fosse revertida em "obras",  de preferência, para aliviar os efeitos da estiagem, O que, é claro, não ocorria, o dinheiro era gasto, talvez uma parte mínima, em "frentes da trabalho" inúteis. Mas, essas frentes eram brasileiríssimas, se o "governo" não fazia o seu papel, que aliás não precisava esperar a seca para ser feito, os trabalhadores apenas iniciavam para logo abandonarem os trabalhos sem sentido e receberem apenas as cestas básicas enviadas. Até hoje não sabemos para onde iria esses recursos.

Voltemos ao "fuscão preto". Na zona rural de Caicó um poeta não perdera a chance e assim descreveu o tal feijão:

"Quem foi mordido de cobra
Tem medo até de um cordão
Quem namorou moça donzela 
Tem medo até da sombra dela
e quem comeu um fuscão preto 
Tem medo até da panela"

terça-feira, 17 de junho de 2014

O Iraque sangra ainda mais intensamente

Apenas três meses após cumprir-se o 11º aniversário do início da segunda guerra do Iraque, e quando o grosso das tropas dos EUA e dos seus aliados já se retirou depois de 'estabilizar e democratizar' o país, a guerra sectária atinge um dos seus mais altos níveis, ameaçando transpor as fronteiras nacionais. Artigo de Roberto Montoya, Viento Sur.

Soldado do Exército iraquiano em Buhriz. Foto de Staff Sgt. Stacy L. Pearsall, USAF, wikimedia commons.
A ofensiva militar iniciada há poucos dias pelo EIIL (Exército Islâmico do Iraque e Levante), está a ser arrasadora. Depois da queda de Mossul, a segunda cidade mais importante do país - dois milhões de habitantes -, após quatro dias de ferozes combates entre os jihadistas e as tropas governamentais, o EIIL continuou com grande celeridade a abrir caminho para o sul do país.
No seu percurso tomou por assalto importantes cidades como Tikrit, Baiji - onde se encontra a principal refinaria do país - Yalula, no este do país, localidades do oeste, na província de Anbar, e muitas outras, ameaçando as cidades santas de Nayaf e Kerbala e colocando-se em poucos dias muito próximo da própria Bagdá, uma cidade com 6,5 milhões de habitantes.
Mais de meio milhão de pessoas fugiram face ao avanço dos fundamentalistas. O grosso das tropas governamentais assentadas nas zonas atacadas abandonou as armas e fugiu ou entregou-se aos insurgentes.
A própria ONU reconheceu a morte de numerosos civis por causa dos ataques governamentais contra os rebeldes. Al Maliki acusou esses efetivos de fazerem parte de “uma conspiração” contra o seu Governo. A população local teme não só o terror que tradicionalmente impõem os combatentes do EIIL e a aplicação rigorosa que fazem da sharia - lei islâmica -, como também os bombardeios indiscriminados, conduzidos pelo exército, às localidades capturadas pelos rebeldes.
Apesar de não ter consolidado totalmente o seu controle sobre as cidades tomadas por assalto, a amplitude e intensidade dos seus ataques fizeram o Governo do xiita Nuri al Maliki temer pela sua própria sobrevivência. Os combates em localidades próximas à capital e os ataques suicidas sincronizados em diferentes pontos de Bagdá demonstravam que não estavam em causa simples ataques pontuais relâmpago de pequenas unidades de milicianos.
O EIIL, o mais poderoso e mais ultra grupo armado jihadista que opera no Iraque e na Síria, confrontado desde há muito tempo com a direção central da Al Qaeda, parece convencido de que desta vez pode travar um combate frontal e generalizado contra o regime de Nuri al Maliki, depois de ter conseguido várias vitórias militares nos últimos meses.
O EIIL também tem capitalizado esse mal-estar e conseguiu que muitas outras milícias locais sunitas das cidades atacadas se juntassem ao combate aberto contra as forças governamentais.O polêmico primeiro ministro, no poder desde 2006 e referendado pelas urnas em abril passado, alimentou o ódio num setor crescente da população, com a sua política ultra sectária face às minorias sunita e curda e a brutalidade com que responde aos protestos sociais e a toda a dissidência.
EUA prevê ações mas não o regresso das tropas
A atual ofensiva foi lançada de forma premeditada em momentos críticos para Al Maliki, quando este ainda mantém duras negociações para formar governo com os líderes das outras formações da coligação Estado de Direito com as quais foi às urnas.
O Governo iraquiano, pressionado pelos protestos populares contra as constantes matanças de civis provocadas pelos ataques com drones e caça-bombardeiros norte americanos, ou as ações de mercenários de companhias ao serviço do Pentágono, recusou assinar com os EUA o tratado de segurança que Obama reclamava. Os EUA pretendiam obter imunidade total para o pequeno contingente de tropas, forças especiais, espiões e mercenários que se mantiveram no país após finalizada totalmente a retirada no final do ano. E essa decisão de Al Maliki tem o seu preço; agora está a receber a fatura.
Os EUA já não têm unidades de combate no terreno e Barack Obama descarta a possibilidade de um regresso das tropas. No seu discurso transmitido na sexta feira passada o presidente fez uma clara alusão ao Não que recebeu de Al Maliki sobre o tratado de segurança: “Os Estados Unidos não se podem simplesmente envolver numa ação militar na ausência de um plano político dos iraquianos que nos dê segurança de que estão preparados para trabalhar conjuntamente connosco”.
“Não podemos repetir a situação anterior, quando nós estávamos ali e tínhamos que fechar um olho”, em alusão às divisões constantes na sociedade e governo iraquianos.
Em qualquer caso, o presidente norte americano encontra-se numa situação extremamente embaraçosa. Contava terminar o seu mandato sem novas dores de cabeça sobre o tema, mas agora não pode negar ante o mundo inteiro o falhanço e a situação dramática em que se encontra a população do Iraque. Sobretudo quando existe um risco real de o conflito transpor as fronteiras nacionais e atingir diretamente também a Síria, Turquia e Irão. Mais de 80 turcos, a maioria deles empregados do consulado em Moscovo - incluindo o próprio cônsul - e cerca de três dezenas de camionistas, são reféns dos insurgentes.Obama tenta assim responsabilizar o Governo de Al Maliki, e o resto das forças políticas, de não ter aproveitado a ajuda dos EUA e de ter aprofundado as suas divisões internas.
Os milicianos do EIIL entram e saem pelas fronteiras entre a Síria e o Iraque, reivindicando que, dessa forma, já deram o primeiro grande passo para a eliminação das fronteiras e a instauração do seu almejado califado islâmico. O Irã, por sua vez, vê como os combates do nordeste do país, próximos ao Curdistão, se travam a dezenas de quilômetros do seu território.
No seu discurso de sexta feira passada Obama disse: “Dada a natureza destes terroristas, está eventualmente também em causa uma ameaça para os interesses americanos”. “Não enviaremos tropas novamente para combater no Iraque, mas pedi à minha equipe de segurança que prepare uma série de opções”. O presidente norte americano esclareceu que levará “vários dias” para adotar uma decisão. “Queremos estar seguros de que temos dados precisos sobre a situação que existe ali. Queremos estar seguros de contar com todos as informações necessárias para que eu possa ordenar ações, há que definir os objetivos, que os ataques sejam precisos e que existam garantias de obter o efeito desejado”.
Irã em alerta máximo
O Governo do xiita Hasan Rohani prometeu ajuda ao seu aliado Al Maliki, mas sabe bem que não pode levar a cabo uma intervenção militar direta do seu poderoso exército no vizinho Iraque. Seria o detonar de uma situação que poderia envolver em chamas toda a região.
O general Gassem Suleimani, comandante da Força Quds da Guarda Revolucionária Iraniana e máximo responsável nas operações extra territoriais, visitou há dias Bagdá para conhecer em primeira mão as previsões das forças armadas iraquianas e valorizar a ajuda que possa prestar o Irã, o que dá uma ideia da gravidade da situação.As tropas iranianas estão em alerta máximo, como também o estão as tropas de outro país vizinho, a Turquia.
A ineficácia das forças armadas e de segurança iraquianas - 300 000 homens treinados e armados pelos EUA -, e as deserções nas suas fileiras, não lhe permitem garantir uma vitória militar contra as milícias jihadistas. Por isso, o Governo fez um apelo a todos os homens em idade de combater para “renovar as forças armadas”.
O principal líder xiita iraquiano, o Grande Ayatolá Ali al-Sistani, respondeu ao apelo, apelando aos xiitas na prece das sextas feiras a unirem-se à “jihad” (guerra santa) para derrotar os atacantes. Al-Sistani não só é sumamente respeitado pela comunidade xiita como inclusive por sectores sunitas. Milhares de homens de todas as idades começaram a apresentar-se como voluntários apenas uma hora após escutarem o seu apelo.
O representante de al-Sistani, o jeque Abdul Mehdi al-Karbalaie, esclareceu que os voluntários se deviam limitar por agora “a cobrir as baixas registadas nas forças de segurança” por morte ou deserção.
Al Sistani reclamou igualmente aos governos do Irã e dos EUA que prestem auxílio ao Governo iraquiano “antes de que seja tarde”.
Desconhece-se qual é a ajuda concreta que o Irão pode oferecer, e, no que respeita aos EUA, Obama aparentemente só contempla a possibilidade de enviar drones armados e caça-bombardeiros para atacar as colunas de milicianos do EILL que atualmente se deslocam sem quase resistência por amplas zonas do enorme território iraquiano.
Nas mãos dos curdos
A dependência de Al Maliki de um aliado semelhante nesta conjuntura, o único que no momento parece capaz de travar a ofensiva do EIIL, teria sem dúvida um importante custo político posterior, e previsivelmente também territorial, mas o seu governo não pode propriamente pôr condições neste momento. A sua margem de manobra é estreitíssima. Perante tal situação de emergência o Governo de Al Maliki decidiu pedir auxilio aos representantes do estável governo autônomo do Curdistão, que conta com a poderosa força dos 'peshmerga'. Milhares destes combatentes curdos veteranos, que contam com moderno armamento semi pesado e pesado, partiram já para diferentes cidades e localidades situadas na sua fronteira com o Iraque para defendê-las de qualquer ataque. Mossul encontra-se a menos de cem quilômetros de distância de Erbil, a capital do Curdistão. Os 'peshmerga' instalaram-se igualmente fora das suas fronteiras, em lugares abandonados à sua sorte pelas tropas governamentais, como a cidade de Kirkuk, rica em petróleo e que o governo curdo reclama há vários anos como parte importante do Curdistão.
Em momentos como este, em que os soldados começaram inclusive a construir trincheiras nos limites da capital - com maioria de população sunita - e a fortalecer as suas defesas ante um possível assalto dos jihadistas desde três frentes diferentes, Al Maliki nem sequer conseguiu respaldo do Parlamento para declarar o estado de emergência.
13/06/2014O falhanço económico, político, militar dos EUA no Iraque e a sua impotência para enfrentar por outras vias uma situação extrema como a atual, fazem temer uma derrota geoestratégica de ainda maior amplitude. Isto reabriu no seio da Administração Obama e no Pentágono o debate sobre a estratégia a seguir. E a via que parece começar a tomar cada vez mais corpo é promover a balcanização do Iraque, o reconhecimento internacional da fragmentação do território iraquiano em três zonas independentes controladas por xiitas, sunitas e curdos. A mesma fórmula que parece estar a ser incentivada no que respeita a outras situações igualmente incontroláveis, como a da Líbia e Síria.
* Roberto Montoya é membro do Conselho Assessor da Viento Sur. O seu último livro é “Drones, a morte por controlo remoto” (Akal, 2014, colecção A Fundo).

Tradução de Mariana Carneiro para o Esquerda.net