"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 2 de maio de 2015

Violências - Manuel Castells

Artigo de Manuel Castels no jornal La Vanguardia

Ele estava vindo. Após uma série de mortes injustificadas de cidadãos negros nas mãos da polícia em muitas partes dos Estados Unidos era apenas uma questão de tempo antes que as demonstrações, furiosas mas pacíficas, tornassem-se violentas. Como a que faz exatamente 23 anos incendiou Los Angeles após a absolvição dos policiais que espancaram Rodney King. Ou, como as explosões de indignação que varreram o país e, particularmente, Baltimore, após o assassinato de Martin Luther King. Quando a indignação não encontra resposta além de comissões de inquérito que diluem a responsabilidade no tempo ou juízos que terminam na absolvição do acusado, o sangue ferve (especialmente o sangue jovem). Clamam por um "expurgo", o título de um filme sobre uma sociedade na qual um dia por ano as leis estão suspensas por 12 horas. "Expurgo" foi a hashtag dos protestos em Baltimore após o funeral de Freddy Gray, jovem de 25 anos de idade que a polícia que o prendeu quebrou sua coluna em circunstâncias ocultas. Seu crime? Correr com a visão da polícia. Será seu erro? Como disse seu advogado, não correr rápido o suficiente. Os jovens negros percebem um mundo sem lei para eles. Portanto suprimir a validade de qualquer lei para purgar a sociedade. E então eles queimam o que não queima e enfrentam a polícia odiada. Mas se não são violentos não existem.

A impunidade da polícia continua, as vidas negras são inúteis. E muitos brancos variam de indiferença ou o "algo será feito". Por mais de meio século após a publicação em 1948 do famoso livro de Gunnar Myrdal Um dilema americano, o dilema continua por resolver. A sociedade que se orgulha de ter inventado a democracia representativa (antes da França) na prática excluiu alguns de seus membros mais velhos, que trouxe como escravos e estavam sempre como cidadãos de segunda classe quando se tornaram cidadãos. Com a agravante de que a eleição de um presidente negro não mudou substancialmente a violação dos direitos civis de seus irmãos por autoridades estaduais e locais. Houve, sim, o progresso na luta contra a iniquidade legalizada em 1970, precisamente como uma resposta aos movimentos pacíficos de Martin Luther King e das organizações cívicas multirraciais e violentas explosões de raiva que queimaram o país.

Formou-se assim uma classe média negra, sobretudo no setor público e por razões políticas, mas, mais de um terço da população negra (e quase a metade de seus filhos) continua a viver em pobreza abjeta, álcool e entregues ao tráfico de drogas como uma forma de vida para os jovens, com as escolas terríveis, sem seguro de saúde e pouca oportunidade de ter um trabalho regular e decente. Em Baltimore, uma cidade com dois terços de negros, há áreas inteiras da cidade, abandonadas pela classe média branca, com prédios vazios, não há lojas, nenhum equipamento. O mundo conhece de Baltimore a grande John Hopkins University (a melhor em medicina) e da renovação urbana do porto, que foi o modelo seguido por Maragall para o porto de Barcelona, ​​depois dessa universidade convidar do Professor Vicenç Navarro. Mas poucos quarteirões de distância, tudo é desolação. Nos bairros de Sandtown-Winchester e Harlem Park, hotspots dos protestos, um terço dos edifícios estão abandonados, quebrados e janelas interiores em ruínas, metade dos habitantes estão desempregados, um quarto vive da assistência social, metade dos estudantes do ensino médio não frequentam a escola, e 60% das pessoas não completaram o ensino médio. Essa área de West Baltimore tem a maior taxa de encarceramento de Maryland e a maior taxa de viciados em heroína no país. Nada mudou para eles desde a Baltimore dos anos sessenta, o que levou à explosão em 2015, o que está levando a uma nova explosão. Como afirmou um congressista negro de Maryland, a administração Obama fez planos para tudo, para a energia, ao meio ambiente, para as universidades, mas absolutamente nada para áreas urbanas pobres onde o desespero está concentrado. Que, segundo alguns, é a violência institucional, além da brutalidade racista policial. Violência de Obama, depois de suscitar uma enorme expectativa entre os negros que sua provação chegava ao fim e, em seguida, encontrar uma prática política (além da retórica) muito atrás das tímidas reformas sociais dos antecessores brancos na presidência.

Porque tanto a alcade de Baltimore como Obama tem focado suas observações sobre criminalizar o protesto, e sua ação, militarizar Baltimore. O que, então se pode pensar em uma situação onde a destruição diária de vidas negras, especialmente homens jovens, continua por séculos; onde a polícia (em grande parte branca) atua como um exército de ocupação nestes bairros; onde a impunidade para a violência policial é generalizada; onde estão alocados os recursos escassos para servir o poder e o dinheiro de políticos locais corruptos;onde qualquer protesto é inédito e encaminhado para as eleições a cada quatro anos e os tribunais comuns; e em que quando as eleições vêm, os eleitos, inclusive negros, com Obama no leme, negam suas origens e priorizam suas tarefas estadistas?

E se as cidades estão queimando se usa o exército e estigmatiza os indignados. Não há só uma violência. Há violências. E as piores vêm aqueles que abusam do poder delegado a eles.

Taiwan: o tigre com falta de água

País enfrenta a maior seca da década e está em vigor um racionamento que afeta cerca de 800 mil famílias e negócios. Seca atinge também de uma forma grave, as Filipinas e São Paulo, no Brasil. 

Por Tomi Mori

As alterações climáticas estão a afetar o clima em muitas partes do mundo. http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/65/CSIRO_ScienceImage_429_Drought_Effected_Landscape.jpg
As alterações climáticas estão a afetar o clima em muitas partes do mundo. http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/65/CSIRO_ScienceImage_429_Drought_Effected_Landscape.jpg
A seca que afeta Taiwan está a obrigar as autoridades a declarar uma medida extremamente impopular: o racionamento de água. Desde abril, o racionamento tem atingido partes da ilha, como as cidades de Taoyuan, Hsinchu e Nova Taipei. Este racionamento afeta cerca de 800 mil famílias e negócios.
É a maior seca na última década, provocada pelo mais baixo índice de chuvas nos últimos 70 anos. O racionamento, rotativo, deixará a população sem água durante dois dias, na semana, por tempo indeterminado. Numa ampla área da Ásia, a estação das chuvas só começa em junho e, agora, vive-se um momento de grande calor.
O racionamento de água não ocorre desde 2001, mas deixa claro que as mudanças climáticas, que estão provocando essas secas, podem ser muito mais graves do que desejamos acreditar. A Califórnia, nos EUA, encontra-se em racionamento, também Cebu, nas Filipinas, segue pelo mesmo caminho.
A partir do dia 4 de maio, começará o racionamento de água em Kaohsiung, a segunda cidade desse tigre asiático. Será cortado o abastecimento por dois dias durante a semana. Kaohsiung tem uma população de 2,77 milhões de habitantes e é a primeira vez na sua historia que passará por essa situação. Desde março já foram tomadas iniciativas de fechar 12 piscinas publicas. Também foi reduzido o fornecimento para a industria e comércio.
Seca afeta grande parte do arquipélago filipino, Zamboanga em estado de calamidade pública
A imprensa local tem noticiado que grande parte das províncias desse arquipélago tem sofrido o problema da seca este ano.
Manila já apresentou uma temperatura de 36,2 graus centígrados este ano e o alto verão apenas está a começar. Em Batangas, na ilha de Luzon, principal do arquipélago, onde também se encontra Manila, criadores de gado afirmam que a seca tem afetado não só a agricultura como também a pecuária. A seca causou grande dificuldade para o crescimento do capim, necessário para a alimentação do gado. Apesar de não existirem números gerais, a imprensa tem veiculado que, em várias localidades o gado morreu devido ao calor.
Na província de Cebu, onde se encontra a cidade de Cebu, segunda das Filipinas, a seca já tem levado ao racionamento de água nos últimos dias, particularmente em Talisay e também em partes da capital. Devido à seca, as autoridades têm desaconselhado os agricultores a plantarem as suas sementes e mudarem para culturas mais rápidos como a beringela, por exemplo. Essa situação não só afeta agora a população local, mas já parece agravar o futuro imediato se os agricultores deixarem de plantar ou diminuirem o plantio.
Em Mindanao, segunda ilha do arquipélago, a situação parece mais grave. Em Zamboanga, as autoridades decretaram estado de calamidade pública devido à seca, que tem provocado um grande impacto na agricultura, afetando a colheita do milho, mandioca, arroz, vegetais, banana, borracha, coco e também a piscicultura, já que os lagos estão a secar. Segundo autoridades de Zamboanga, das 25 barragens, 9 estão secas, 6 em condições criticas e 10 abaixo do nível normal. A seca já afetou a plantação em 8.500 hectares, mas esse número será maior ainda já que maio é o mês mais quente do ano.
Na província de Davao del Sur, também na ilha de Mindanao, a Liga dos Prefeitos aprovou uma declaração para que se adote o estado de calamidade pública devido à seca. Em Matanao, nessa província, a seca já afetou a produção em 500 hectares, agravando mais ainda a já grave situação. dos pequenos camponeses.
Camponeses suicidam-se na Índia
Os efeitos das mudanças climáticas, que provocam seca e também chuvas fora da estação, têm afetado de maneira insuportável milhares de camponeses na Índia. A miséria já vivida, o endividamento com os bancos e a perda das colheitas, tem levado um grande número de camponeses da Índia ao suicídio.
Autoridades locais tentam negar esse facto, mas, na última quarta-feira, o suicídio de Sanwar Mal Jat, de 35 anos, deitou por terra esse argumento. Sanwar enforcou-se no teto da sua casa, deixando mulher e três filhos. A perda da colheita desse ano levou Sanwar a essa atitude extrema. Apesar dos argumentos oficiais, no Rajasthan, entre fevereiro e marco deste ano cerca de 50 camponeses optaram pelo suicídio como único remédio frente a uma situação humanamente insuportável.
Em São Paulo, comando militar prepara-se para enfrentar falta de água
Segundo divulgou o site Opera Mundi, foi realizado, no dia 28 de abril, uma reunião no quartel-general do Exército, na cidade de São Paulo, cuja agenda foi discutir a falta de água na cidade de São Paulo, que já afeta a população. São 20 milhões de habitantes que serão afetados caso não haja chuva suficiente no próximo período, coisa pouco provável já que a cidade se encontra no período do ano em que as chuvas são poucas. Segundo o site da Sabesp, a empresa responsável pelo abastecimento de água, um dos principais reservatórios de água da cidade, o sistema Cantareira, tem o seu volume em 20%. Esse é um número que deveria ser de simples compreensão, mas os malabarismos estatísticos não permitem à população compreendê-la realmente. Sabemos que, desse total, a maior parte só pode ser utilizada através de bombeamento, já que o número é extremamente baixo. Sabemos também que o total de água existente não pode ser utilizável pela insuficiência de bombas. Então, quanto resta de água utilizável? Esse parece ser um número secreto, para que não se crie uma situação de crítica ao governo e também de pânico. Mas é certo, pela própria informação da Sabesp, que estamos a falar de menos de 20%.
O auge da situação pode ser no mês de julho
De acordo com Paulo Massato, presidente da Sabesp: "Vai ser o terror. Não vai ter alimentação, não vai ter energia elétrica. Será um cenário de fim do mundo. São milhares de pessoas e o caos social pode se deflagrar. Não será só um problema de desabastecimento de água. Vai ser bem mais sério que isso..."
A explicação de Paulo Massato, ao restrito auditório, deixa bem clara a dimensão da crise da água que afetará São Paulo nos próximos meses. É essa situação dramática que obriga os militares a se prepararem para enfrentar grandes protestos que podem ocorrer.
Como vemos, neste período do ano, as mudanças climáticas estão a afetar uma ampla área do planeta.

Crise de valores motiva alistamento de jovens ao Estado Islâmico

Cristina Fontenele - Adital


A exemplo do que vem ocorrendo na Europa, investigações indicam que o Estado Islâmico (EI) estaria ampliando a cooptação de integrantes na América do Sul. Os brasileiros também estariam na lista dos chamados "lobos solitários”. O relatório "Estado Islâmico: reflexões para o Brasil” teria sido entregue ao Palácio do Planalto pelos órgãos de inteligência, informando que há um fator de risco para o país. Estudiosos analisam o que está motivando jovens a se alistarem ao EI.

bomtempofm
Segundo investigações, Estado Islâmico estaria expandindo a cooptação de jovens para a América do Sul.

Em virtude dos preparativos das Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro, o governo brasileiro vem trocando informações com a Casa Civil sobre a questão do terrorismo. Afirma que o assunto está na pauta de discussão, mas nega relatórios de inteligência a respeito. Policiais europeus estiveram em Brasília, em fevereiro deste ano, para trocar informações com o governo brasileiro.

Os "lobos solitários” são extremistas que não integram a lista internacional de terroristas, portanto, têm mais mobilidade e podem executar atentados isolados e imprevisíveis em todo o mundo.

O número de dissidentes ocidentais que se juntam ao EI aumentou bastante nos últimos anos: em torno de 3.400, de acordo com autoridades do Exército estadunidense (em balanço de fevereiro de 2015) e aproximadamente 550 mulheres, segundo levantamento da consultoria de segurança The Soufan Group, com sede nos Estados Unidos e no Reino Unido.

Um recente documentário de uma jornalista francesa, que se alistou disfarçada no EI, mostra a rotina dos combatentes treinando numa praça de Paris e como o grupo terrorista recruta jovens europeus.

Uma campanha de contrapropaganda do Departamento de Estado dos Estados Unidos lançou um vídeo para dissuadir o alistamento de jovens ao grupo terrorista. São imagens extraídas de gravações que o EI usa para recrutar militantes através das redes sociais. Com o título "Bem-vindo à Terra do Estado Islâmico”, o vídeo, que mostra cenas fortes de assassinatos, foi exibido em canais, como CNN, no Facebook, Twitter, Tumblr e Youtube. Mensagens como "Think again, turn away" ("Pense de novo, vire as costas") pretendem combater a fantasia heróica promovida pelo EI.

Em entrevista à Adital, a professora do curso de Ciência da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Lidice Meyer, aponta que estamos vivendo uma crise de valores mundiais, com a juventude buscando valores morais mais rígidos. Essa crise tem afetado o imaginário juvenil, incluindo o brasileiro, deixando o jovem vulnerável às promessas do EI.

"É como se os valores dos pais não servissem mais para a geração atual. Então, o jovem busca dentro do Islã regras fortes. O jovem questiona os valores dos pais, mas se deixa seduzir pelo que vem de fora. Na verdade, a busca é por segurança e apoio.”, observa. 

ucho-info
Segundo a antropóloga Lidice Meyer, crise de valores estaria motivando jovens a buscar regras mais fortes como as do Estado Islâmico.

De acordo com a professora, os jovens veem no Islã a promessa de aventura, a possibilidade de estarem contribuindo para resolver os problemas sociais. Assim, eles "dão um sentido à própria vida”. O EI facilita a ida do jovem ao Oriente Médio, fornece apoio emocional e financeiro. Então, aquele jovem que tem uma família desestruturada acaba seduzido pelo ideal do grupo extremista. Ele vê nessa jornada uma forma de "lutar contra o capitalismo que subjuga o mundo”.

Lidice lembra que, à época da explosão das Torres Gêmeas, em Nova York, em 2001, a sobrecarga de imagens com cenas do atentado e das pessoas morrendo acabou despertando o interesse pelo Islamismo.

Mulheres

Existe também a cooptação voltada, especificamente, para as mulheres. Lidice comenta que, nas redes sociais, são postadas fotos de jovens em casas bonitas, comidas saborosas, animais de estimação. "Tudo construindo a ideia de vida normal e até melhor do que a jovem teria, hoje, em seu país de origem.”, ressalta.

O EI realiza ainda uma "romanceada” imagem da mulher, como se ela participasse da luta armada e política em "pé de igualdade” com o homem. A jovem acaba pensando que "está fazendo bem ao mundo”. É comum a postagem de fotos com mulheres empunhando armas.

Outro fator de sedução, de acordo com a professora, é o sonho do parceiro único, "maduro”, que aguarda uma moça com os mesmos ideais sociopolíticos que ele. A mulher ainda tem em seu imaginário o casamento com o "herói”, com o "príncipe encantado”, explica.
A mídia
Lidice destaca que o maior papel da imprensa deve ser primeiro diferenciar o Islã do Estado Islâmico (EI). Islã é uma instituição religiosa, EI é uma instituição política, um grupo terrorista que utiliza o Alcorão de forma fundamentalista. Como em toda religião, pode haver interpretações fundamentalistas e relações de violência, a exemplo de que já houve na Igreja Católica e até no Budismo. O EI não representa o Islã, embora tenha fundamentos religiosos.

A mídia favorece a propagação, repetidas vezes, de imagens violentas e acaba não aprofundando a questão. Esse jovem, que já é acostumado com jogos violentos, nos quais a morte é uma constante, acaba naturalizado com imagens chocantes, como a de vídeos do EI degolando pessoas. As redes sociais também têm contribuído bastante para a construção da imagem do EI.

Para a estudiosa, no Brasil, estamos ficando acostumados com imagens violentas. Segundo ela, é comum, no Rio de Janeiro, por exemplo, cidade onde já morou, ter um cadáver na rua e as pessoas passarem normalmente por perto como algo banal. 

dw-de
Imagens de mulheres no combate são divulgadas pelo Estado Islâmico para atrair jovens para a causa.

Diálogo

De acordo com a professora, ainda no Brasil, vertentes como os sunitas e xiitas não consideram o EI como representante do Islã e se negam a apoiarem essa facção. Todos os sheiks que atuam no país pregam a paz, a convivência e a tolerância.

Nessa perspectiva, não há possibilidade de diálogo entre grupos extremistas e a religião islâmica. "Uma vez que se consideram os detentores da razão e do que é certo, o EI não receberia nem o Papa Francisco, se fosse o caso.”, conclui Lidice.

De um modo geral, o extremismo do EI tem gerado uma onda de intolerância entre as pessoas que terminam confundindo religião com terrorismo.

*Lidice Meyer é professora do curso de Ciência da Religião do Mackenzie Possui Pós-Doutorado em Antropologia e História pela Universidade de São Paulo (2014) e doutorado em Ciências Sociais (Antropologia Social) pela Universidade de São Paulo (2005). Tem experiência nas áreas: antropologia cultural, antropologia da religião, antropologia bíblica, antropologia para a psicologia, antropologia da nutrição, ética e cidadania, ciências da religião, magia e religião.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

O mito da mãe virgem e Sócrates: cristianismo?

A antropologia nos revela como as sociedades humanas, por mais que se julguem impecáveis, se baseiam em mitos formadores (finas películas místico-fantásticas) que lhes serve de suporte. Nos mostra também a elevada necessidade do contemplativo e do espiritual para a vida dos sujeitos e das sociedades.


O cristianismo, sob o qual se ergue a cultura ocidental, parece-nos ser a junção da filosofia grega com mitos que a antropologia revela na sociedade tribal (mito da virgem que dá a luz). O evangelho de Barnabé prega que Jesus não tinha a liderança tradicionalmente relatada e que Judas fora o crucificado, este evangelho é tido como de inspiração não divina, o que é praxe em religião: seu texto é escrito pelo próprio Deus e o de outras doutrinas é invenção humana. Mas Judas é o grande paradoxo do Cristianismo, aquele que vendeu a captura de Cristo e que é tido como possuído pelo demônio; na verdade seria, mesmo na versão convencional, o grande fundador, sem ele não haveria a entrega, consequentemente a crucificação e com isso a redenção, ou seja, não existe cristianismo sem judas.

Nenhum historiador da época correspondente relata a vida de Jesus, o que seria difícil mediante o embate com o Império romano; poderia ser um difundidor da obra de Platão, tendo desagradado ao Império. Todo o cristianismo está contido em Platão, ou Sócrates: O ideal de vida justa, recompensa após morte, imortalidade da alma etc. O tempo histórico seria capaz de fundir o mito com a filosofia. Todo símbolo cultural se perde no tempo: não temos a certeza da vida de Homero, de Sócrates ou de Jesus.


O cristianismo poderia ser a junção-negação da filosofia socrática com o mito tribal. Sócrates fora condenado e emblematicamente repelira a opinião das massas, da mesma forma que, segundo a versão "oficial", Cristo fora condenado por dita opinião. Admitir Sócrates como o Cristo seria a negação do sagrado, fundo-lo ao mito seria a forma de dar contornos místicos  à teoria da verdade.




Referências:

Luís da Câmara Cascudo. Civilização e Cultura.
Slavoj Zizek. O Títere e o Enano.
Platão: Fédon, A República, Críton.

Jurista diz a CPI que Brasil poderia repatriar US$ 60 bi

O professor de direito financeiro da Universidade de São Paulo (USP) Heleno Torres afirmou na quinta-feira à CPI do HSBC que o Brasil poderia repatriar cerca de US$ 60 bilhões se mudasse a legislação relacionada à evasão de divisas. Para ele, o país deveria adotar a estratégia dos Estados Unidos, que cobram alíquota de 30% e extinguem a punibilidade fiscal para a evasão se o cidadão americano decide recolocar no país o dinheiro que havia sido ilegalmente enviado ao exterior. 

O jurista manifestou apoio ao PLS 126/2015, de Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), vice- -presidente da CPI, que muda a legislação de combate à evasão de divisas. 

Segundo estimativas, brasileiros têm cerca de U$S 500 bilhões de dólares em contas no exterior, continuou o professor. Legislação semelhante à adotada pelos EUA poderia render cerca de U$ 60 bilhões ao governo brasileiro. — Três vezes o ajuste fiscal do Levy [ministro da Fazenda], e não precisaria cortar os direitos dos trabalhadores —afirmou Randolfe. 

Torres avalia que o Brasil não está atrasado no combate a crimes de evasão fiscal e lavagem de dinheiro. Muitos países, disse, só adotaram regulações mais rígidas a essas práticas após a crise financeira global de 2008. Ele lembra que o governo brasileiro assinou três tratados internacionais sobre trocas de informações bancárias que municiarão o Estado no combate à sonegação e outros delitos. Um deles, o Fatca, envolve a troca de dados bancários com autoridades norte-americanas e passará a valer já a partir de setembro. 

O país também assinou dois tratados multilaterais com o Fórum Global da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), que possibilitará a reciprocidade no acesso à troca de informações bancárias com autoridades de 125 nações. O acordo, se aprovado pelo Congresso, valerá a partir de 2018. — Serão informações disponibilizadas on-line, inclusive sem necessidade de pedido formal — lembrou o professor. O outro participante da reunião, Wilson Rodrigues, responsável pela investigação de crimes financeiros na Polícia Federal, lembrou que também aguarda acesso à lista completa de brasileiros com contas no HSBC de Genebra para aprofundar as investigações. Ele garantiu que, havendo autorização judicial, poderá compartilhar as informações com a CPI do HSBC, que é presidida por Paulo Rocha (PT-PA) e tem como relator Ricardo Ferraço (PMDB-ES).

Jornal do Senado

As negociações e os seus inimigos

Comentário de Immanuel Wallerstein

Talvez o título correto deveria ser "negociadores e seus inimigos". Estes dias, as negociações estão muito no noticiário. Os Estados Unidos estão a negociar com Cuba, com o Irã e, mais recentemente, ao que parece, com a Venezuela. O governo da Colômbia está negociando por um longo tempo com o movimento anti-governo, as FARC.

Então, existem as pré-negociações que podem não chegar à fase de negociação: a Rússia e a União Europeia (e dentro disso, o governo de Kiev da Ucrânia e os governos "autonomistas" em Donetsk e Lutsk, a China e os Estados Unidos; o governo do Afeganistão e os talibãs.

E, finalmente, no espírito do mistério de Sherlock Holmes sobre "o cão que não latiu," existem as negociações que NÃO estão ocorrendo: Israel e os palestinos; Irã e Arábia Saudita; China e Japão.

O que faz um foco em tais negociações, incluindo aquelas que não estão a ter lugar, nos diz sobre o estado do mundo? A primeira é que, quanto mais próximo estão as negociações reais, mais feroz oposição a um acordo acaba por ser. Aqueles a favor são um pouco hesitantes e inseguros sempre que eles podem levar seus próprios partidários ao longo de qualquer acordo sobre o qual existe um acordo público com o outro lado. Mas aqueles que se opõem não são de todo hesitantes. Eles são ferozes e muito irritados e usam o que eles têm alavancagem para bloquear ou sabotar as negociações.

São as negociações uma coisa boa? Isso é exatamente do que o argumento trata. A maior vantagem sobre as negociações que acabe em algum tipo de acordo de compromisso é que reduzem - reduzir, e não eliminar - o sofrimento que o conflito contínuo impõe quase a todos. A segunda vantagem é que aqueles que favorecem a continuação do conflito constantemente argumentam que a maneira de ganhar é aumentar a pressão - uma ação militar maior, mais bloqueios, mais tortura. Como resultado, há um aumento da violência rastejando ao longo do tempo, uma coisa que um acordo para, mais ou menos.

Mas há também um aspecto negativo. O outro lado sobrevive, e às vezes até prospera. O acordo legitima-os. E se eles são atacados politicamente, eles podem argumentar - eles argumentam - que seus acusadores estão tentando reviver o conflito e minar o acordo. Paz, se isso é o que chamamos, tende a ser o preço de não contestar as injustiças subjacentes que provocaram o conflito em primeiro lugar. Vemos isso no papel pós-acordo dos revolucionários de outrora em países como El Salvador e Guatemala.

Quando não há essas negociações, tais acordos, ocorrem? Um elemento crucial é a exaustão política interna combinado com impasse militar. Mas isso geralmente não é suficiente. O segundo elemento crucial é fora da pressão geopolítica. Os países não envolvidos diretamente no conflito, mas de alguma forma ligados a um ou outro dos dois lados em uma negociação, encontram em seu interesse de um país terceiro que o conflito deve ser encerrado. Eles adquiriram uma participação no conflito, seu interesse exigindo o cessar de conflitos. Se os Estados Unidos e Cuba estão a negociar hoje, a explicação reside na combinação de pressões internas, no caso de Cuba e pressões externas, no caso dos Estados Unidos.

Se olharmos para as duas ausências mais gritantes de negociações - Arábia Saudita e Irã, Japão e China - porque a retórica cada vez mais irritada, por que tanta hostilidade? Um antropólogo vindo de Marte pode achar que é difícil de acreditar. Arábia Saudita e Irã compartilham um profundo compromisso com uma cultura islâmica e um forte endosso da sharia. Japão e China compartilham um longo compromisso mútuo de um conjunto entrelaçado de valores culturais e até mesmo estruturas e símbolos linguísticos.

E ainda assim eles estão denunciando uns aos outros, e estão perseguindo o objetivo geopolítico de enfraquecer o outro em termos de poder e influência geopolítica. Hoje em dia, eles estão deliberadamente invocando as partes de suas heranças culturais que os diferenciam do outro, em vez de as partes que, de fato, trazê-los juntos.

Por que, por que, por quê? Uma resposta é que a liderança em cada um desses países encontra-lo em seus interesses internos para manter a imagem do outro como um inimigo. Confrontado com cismas internos profundos que poderiam rasgar estes países à parte, eles apelam para a coesão nacional em face de uma ameaça externa presumida. A segunda razão é que forças externas exortam sobre o conflito, porque é do interesse desses países terceiros que as hostilidades existam e são definidas em determinadas maneiras.

As negociações entre a Arábia Saudita e o Irã prejudicaria o interesse dos Estados Unidos, Turquia, Paquistão, Israel, e muitos outros. As negociações entre a China e o Japão iria perturbar não só os Estados Unidos mas a Índia e, talvez, a Rússia também. Assim, estas duas negociações putativas encontram condições que são exatamente o oposto dos casos em que as negociações estão agora em curso. Nas negociações em curso, há uma pressão interna positiva e pressão externa positiva. Nos lugares onde não existem sinais de negociações sérias, temos pressões internas negativas e pressões externas negativas. 

Onde, então, vamos? Devemos sempre lembrar que a geopolítica é um jogo fluido e, mais particularmente neste tempo de crise estrutural do sistema-mundo moderno com suas oscilações caóticas e rápidas em todas as arenas, não menos importante em alinhamentos geopolíticos. O ambiente pode mudar, e inesperadamente. Lembre-se que pré-negociações tendem a ser secretas - o mais segredo o mais bem sucedido. Pelo que sabemos, se estão levando a cabo nesses momentos. Pode ser que apenas quando os vazamentos secretos e saibamos que as negociações começaram em que os inimigos vão mobilizar e tentar sabotá-los. E, claro, muitas vezes os inimigos de negociações vencem. Eles estão trabalhando muito duro agora para fazer o potencial acordo EUA-Irã falhar. No caso de esse potencial acordo, espero que seja alcançado um acordo, uma vez que seus pontos positivos superam seus negativos.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Estados Unidos cresce anêmicos 0,2% e culpa o frio


Por Marco Antonio Moreno
US PIB Q12015
Longe do 1 por cento que previa o mercado e a principal mídia especializada, a economia dos EUA cresceu apenas a 0,2 por cento no primeiro trimestre de 2015. A anêmica cifra foi bem abaixo da tendência observada no ano passado e se culpa isso ao declínio acentuado nas exportações (queda no comércio mundial), o investimento fixo, os gastos do governo.... e o frio dado que o inverno foi um dos mais frios na história. Os efeitos das alterações climáticas que se recusaram a ver os Estados Unidos, começa a tornar-se visível: terremotos, furacões, temperaturas extremas têm derrubado o antigo normal. E isso afeta, naturalmente, afeta a economia. Entre janeiro e março o produto interno bruto da maior economia do mundo cresceu na sua taxa mais baixa desde o quarto trimestre de 2012

Economistas, empresários e políticos enfrentam agora o desafio de determinar se a desaceleração é temporária - principalmente a partir de um inverno excepcionalmente nevado no Nordeste - ou um sinal de problemas mais amplos. Para muitos, a economia dos EUA vai seguir o padrão do ano passado e começar a recuperar forças neste verão para terminar com um segundo semestre mais dinâmico. O mercado de trabalho permanece estável, a confiança dos consumidores é elevada e pensa-se que o tempo virá logo quando isso será notado no consumo. Tem-se que lembrar que, durante o primeiro trimestre, o país sofreu uma greve nos portos da costa oeste que causaram interrupções da cadeia de abastecimento em todo o país.


Sem embargo, o débil valor do PIB  confirma que a economia global está passando por um período de grande fraqueza, e que a estagnação secular começa a ser apresentada no tamanho efetivo. Além disso, os problemas da economia dos Estados Unidos são mais profundos. A queda no investimento, as exportações e os gastos, não são áreas que podem melhorar rapidamente e é quase contraditório que com taxas de juro de zero por cento o investimento esteja fraco. Além disso, pouco tem servido o declínio dos preços do petróleo, porque as pessoas não tê convertido o "efeito riqueza" em consumo imediato, mas prefere poupar esse dinheiro extra obtido pelo consumo de combustível, talvez para tempos mais precários. O petróleo barato não disparou as cifras de consumo.
Em vez disso, o petróleo barato tornou-se uma dolência, uma vez que começou a pesar sobre a economia. A queda de preços reduziu o número de plataformas em mais da metade, ameaçando um aumento grave do desemprego. Depois de sete anos de rápida expansão, perfuradores de petróleo norte-americanos reduziram o investimento em mais de 25 bilhões de dólares no primeiro trimestre. O preço baixo  forçou o fechamento de muitas plataformas de petróleo para pressionar e inverter a tendência dos últimos seis meses e elevar o preço. Nos últimos dias, os preços do petróleo recuperou-se acentuadamente. Isto pode começar a ruptura no equilíbrio precário inflação-deflação que os bancos centrais têm manejado para manter a crise sob controle.

Entrevista com Bresser Pereira

Aos 80 anos, o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira dedica seu tempo a três paixões: a mulher, Vera, companheira de “uma vida inteira mais seis meses”, o cinema e o trabalho intelectual. Recentemente, seu esforço para entender o país resultou no lançamento do livro “A Construção Política do Brasil”, obra na qual explica as razões da estagnação econômica por meio do embate entre liberalismo e desenvolvimentismo e de coalizões de classes ao longo das décadas. Bresser almeja manter viva a tradição dos grandes intérpretes brasileiros e afirma que o país perdeu a ideia de nação. E não seleciona os alvos: aponta erros em todos os últimos governos. Curiosamente, trabalhou para dois deles. Foi ministro da Fazenda de José Sarney e comandou duas pastas na gestão de Fernando Henrique Cardoso (Ciência e Tecnologia; e Administração Federal e Reforma do Estado). Ex-executivo do Grupo Pão de Açúcar, é também professor emérito da Fundação Getulio Vargas.

A entrevista é de Leandro Fontoura, publicada pedo jornal Zero Hora, 25-04-2015.



Por que o Brasil perdeu a ideia de nação?

Divido a história do Brasil independente em três ciclos. O primeiro se relaciona ao Império e corresponde à formação do Estado e à integração territorial. O segundo, de 1930 até 1980, é o período de formação da nação, de afirmação do Brasil, e de um crescimento extraordinário. Foi o país que mais se desenvolveu no mundo e fez sua revolução capitalista. Em 1980, ocorre uma grande crise financeira, provocada pela dívida externa e pela inflação. É nessa época que começa o terceiro ciclo, um grande acordo em torno da democracia e da justiça social. Há consenso de que se deve combater a desigualdade com aumento do gasto público social. No final dos anos 1980, o fracasso do Plano Cruzado abre uma grande crise política. Diante disso, o neoliberalismo, que já havia se tornado dominante no mundo, chega ao Brasil com o governo Fernando Collor (1990-1992). E o neoliberalismo é negação da ideia de nação para nós. Bancos, multinacionais e governos vêm ao Brasil só para nos “ajudar”. O que é ridículo. Eles têm um imenso interesse de ocupar o mercado brasileiro com seus capitais, financiamentos e multinacionais. Além de fazer a troca desigual: nós exportamos produtos primários, e eles exportam manufaturados para a gente.

A ideia de nação é o desenvolvimento econômico?

A nação é a sociedade politicamente organizada que tem uma história comum e sente-se com um destino comum. A nação tem três objetivos: a segurança interna e externa, a autonomia nacional e o desenvolvimento econômico. Outra forma de sociedade organizada é a sociedade civil, que busca a liberdade, a justiça social e a proteção ambiental. Nossa sociedade civil ficou forte, mas nossa nação se enfraqueceu fortemente quando se submeteu ao império. Uma nação forte evita a ocupação do mercado pelo imperialismo, como faz a Índia ou a China, ou como o Brasil dos anos 1970 ou dos 1950.

O que o senhor quer dizer com ocupação?

Muito jovem, aprendi com meu tio Alexandre Barbosa Lima Sobrinho (advogado, jornalista e ex-governador de Pernambuco) a crítica nacionalista contra a remessa de lucros. Mas era incompleta. O que descobri, ao desenvolver a ideia do novo desenvolvimentismo, é que, se um país quer se desenvolver, tem de ter superávit em conta corrente (resultado positivo de todas as operações – entrada e saída – em moeda estrangeira de um país) em vez de ter déficit. E, portanto, não precisa de capitais externos, porque o superávit significa que todo ano tem uma sobra. E por que isso? Porque, para crescer, um país tem de ter uma taxa de câmbio competitiva, um equilíbrio industrial. O país precisa que a taxa de câmbio torne competitivas as empresas industriais nacionais que usam tecnologia no estado da arte mundial. Mas, no Brasil e em muitos países em desenvolvimento, isso não acontece, principalmente por causa da doença holandesa (mal de países com forte exportação de matérias-primas, tendem a ter valorização da taxa de câmbio, prejudicando a competitividade das empresas nacionais).

Sem esse superávit, o que ocorre?

Não há nada melhor para o imperialismo, nossos ricos amigos do norte, do que um belo déficit em conta corrente. Quando você tem um déficit em conta corrente, tem de se endividar, tem de receber as multinacionais e os empréstimos deles. Alguém vai dizer que multinacionais são ótimas porque aumentam o investimento, mas não é assim. Com déficit em conta corrente e câmbio apreciado, as multinacionais vêm, e os investimentos das empresas nacionais diminuem, porque torna-se pouco lucrativo investir. No final, o país ficou amplamente endividado no Exterior, aumentou seu consumo e investiu muito pouco. Esse é o problema fundamental do Brasil, uma nação fraca que vai se desindustrializando. É o que estamos vendo. Isso é uma tragédia.

Esse neoliberalismo continua até hoje?

Os governos do PT tentaram mudar isso. Lula tentou fazer uma coalizão desenvolvimentista, reunindo empresários industriais, trabalhadores, classe média e a burocracia pública, e, com isso, fazer o que Getúlio Vargas havia feito. Mas houve um “pequeno problema”. Os governos Lula e Dilma quiseram um acordo com empresários sem dar lucro para eles. Aumento para os trabalhadores, sim, mas lucro para os empresários, não. Ora, isso é ridículo. Quando chegou em 2013, com a situação muito ruim, os empresários abandonaram o barco. O que houve nos governos Lula e Dilma foi um pseudodesenvolvimentismo. O desenvolvimentismo implica coalizão de classes, compromissos e concessões mútuas para que os empresários tenham lucro satisfatório, e os trabalhadores tenham os salários aumentando com a produtividade. E não foi isso que aconteceu. Com o câmbio apreciado, as empresas industriais vão morrendo. Estão morrendo.

Essa autodefinição como desenvolvimentista tem impacto na sua vida cotidiana? O senhor compra produtos chineses ou vinho chileno?

Faço uma força grande para consumir produtos nacionais. É algo consciente, mas sei que não é assim que vamos resolver. Até porque, em termos de bens de consumo, o Brasil está escandalosamente ocupado por estrangeiros. Você vai comprar qualquer coisa no supermercado, e é tudo estrangeiro. E que tecnologia trouxeram para a gente? Nenhuma. Você sabe que ajudei a desenvolver o Pão de Açúcar, da loja 2 até a loja 400, 500. Era uma empresa nacional e agora pertence aos franceses.

O senhor rompeu com o PSDB em 2011 e hoje defende o governo Dilma em alguns momentos. Como traduz sua posição política?

Não me sinto parte de nenhuma força partidária. Quando saí do PSDB, já tinha quase 80 anos e já era um intelectual de tempo integral. Desde que saí do governo FHC, passei a ter uma vida intelectual muito ativa, dando aulas, participando de seminários e escrevendo. Então, decidi que não iria mais participar de partido. Passei a ter o privilégio de ser uma pessoa que discute, crítica e sugere para todos os partidos. Se quiser saber se minha posição é mais próxima do PT ou do PSDB, é mais próxima do PT. Sou petista? De jeito nenhum. Tenho críticas aos governos Lula e Dilma. Ela cometeu muitos erros nos últimos dois anos. Ela se perdeu, foi uma grande perda. Dilma começou corajosa, tentando resolver a taxa de câmbio, depreciar a moeda, mas não deu, não foi suficiente. E ela baixou a taxa de juros, mas não conseguiu sustentar. A inflação subiu, os empresários não investiram, e ela foi derrotada.

O que mudou no PSDB?

O PSDB nasceu quando líderes do PMDB de São Paulo que tinham participado do governo Montoro – Mario Covas, Fernando Henrique e próprio Montoro – viram o partido dominado pelo Orestes Quércia (ex-governador). A meu ver, foi essa a motivação fundamental para a criação de um novo partido. Naturalmente, entrei no PSDB porque eram os meus amigos, éramos todos de esquerda, social-democratas. Quando chegou na véspera da criação do partido, lá em Brasília, em 1988, houve uma discussão porque Montoro não queria que se chamasse social-democrata. Mas nós ganhamos. Quando estava assinando a ata de fundação, pensava comigo mesmo: “Muito bom, maravilha, ganhamos, esse partido é social-democrata, mas o risco é que ocorra o que ocorreu em todos os países da Europa: o partido socialista, no nosso caso o PT, caminha para o centro, chega ao poder, e nos empurra para a direita”. Foi exatamente isso que aconteceu.

Mas onde a direita está representada no PSDB? Quem são os líderes?

A direita está representada no PSDB porque o neoliberalismo econômico se tornou dominante no partido. Não vou dar nomes, não tem sentido. Mas há outra questão: no governo FHC, a guinada do PSDB foi mais para a dependência (externa) do que para a direita. Quando mudamos a Constituição e permitimos a privatização de monopólios naturais, como as empresas elétricas, por exemplo, foi um absurdo. De repente, vimos nossas empresas serem compradas por empresas espanholas com subsídio do Estado espanhol. É claro que o Estado iria subsidiar a compra. Eles tinham a ideia de nação e nós a tínhamos perdido.

Quando o senhor percebeu o caráter não nacionalista do PSDB?

Em 2003. Eu estava dando uma entrevista sobre meu trabalho intelectual ao Afrânio Garcia (antropólogo brasileiro com atuação na França) e ao Hélgio Trindade (cientista político, ex-reitor da UFRGS) e eles me perguntam algo e eu disse: “Não sou da escola de Sociologia de São Paulo (linha acadêmica de FHC), sou da escola do Iseb (Instituto Superior de Estudos Brasileiros, que reuniu os desenvolvimentistas nos anos 1950)”. Foi aos 20 anos, lendo Helio Jaguaribe, Ignácio Rangel e Guerreiro Ramos, que entendi o Brasil. Depois da entrevista, resolvi estudar a teoria da dependência associada (as nações ricas são vistas como aliadas ao desenvolvimento econômico dos países subdesenvolvidos). Eu pensava: “FHC é um homem correto e, no entanto, está com essas posições pouco nacionalistas”. Aí, fui ver, e estava tudo lá. Ele acredita no crescimento com poupança externa (financiamento externo). No governo, não obteve o aumento do investimento esperado.

No livro, o senhor fala que o governo FHC teve elevado padrão ético. E os governos do PT?

A corrupção sempre existiu no Brasil. A novidade que temos hoje é um Estado forte, competente. Tem muita gente que fala mal do Estado, mas a Polícia Federal é muito boa, é a única polícia boa e era péssima antigamente. Temos um Ministério Público muito competente, e nosso Judiciário melhorou. E temos um Tribunal de Contas da União muito respeitável. Ora, se descobrem muito mais coisas.

Mas o livro não elogia o padrão ético do PT.

O padrão ético do governo FHC foi maior, sim. O PT deixou-se envolver. O número de petistas que enriqueceram na política foi quase zero, mas o PT colocou na cabeça que, para financiar o partido, precisava de dinheiro e que poderia utilizar a corrupção. E também tem essa ideia meio socialista de que todo mundo é corrupto e eu também posso ser, fica tudo igual. É uma bobagem. Isso eles faziam com acertos nas prefeituras. Precisavam de dinheiro e não tinham nenhum. Quando chegaram à Presidência da República, não podiam fazer isso. E fizeram. Fizeram com o mensalão e agora com o petrolão. Para mim, foi um grupinho mínimo que fez isso, mas desmoralizou o partido. É uma tristeza o que acontece com o PT. É um partido de centro-esquerda muito necessário para o Brasil.

Qual a leitura que o senhor faz das manifestações contra Dilma?

É a manifestação de uma nova direita que surge e que está aguerrida, pois encontra campo fértil. Afinal, houve um grande fracasso econômico nos 12 anos do PT. Houve aparência de um grande sucesso. Mas houve fracasso econômico semelhante ao do governo FHC. Lula havia conseguido o dobro da taxa de crescimento de FHC e pensou que seria glorioso. Dilma queria dar sequência. Loucura dela. Com taxa de câmbio de R$ 2 por US$ 1, era impossível dar continuidade ao governo Lula. Quando chegou a 2013, o desenvolvimento não veio. Aí, eles inventaram que mudaram a matriz econômica e que faltava apenas fazer política industrial. Gastaram rios de dinheiro em desonerações da folha de pagamento e do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), e as finanças do Estado desmoronaram. O resultado: Dilma foi reeleita no meio de uma crise e se vê sem apoio popular. Eles fracassaram economicamente. A taxa de crescimento de todo o período do PT não foi maior do que a do governo FHC. A gente só entende a economia brasileira se entender que o país está quase estagnado desde 1980.

Esse movimento de direita é representativo?

É algo mais de classe média e alta, mas temos de admitir que o governo perdeu apoio em todas as classes. Isso é preocupante. Estou confiante de que Dilma vai governar o país nos próximos quatro anos, mas ela vai governar com muita dificuldade. A liderança do Congresso nas mãos de políticos irresponsáveis é algo muito preocupante.

Há preconceito contra o PT?

Não é preconceito. Os ricos nunca gostaram e temem a democracia. A democracia sempre foi uma conquista popular, que a burguesia aceita porque percebeu que, chegando ao governo partidos socialistas ou social-democratas, não implantam o socialismo no dia seguinte. Esse foi um processo que levou cem anos, no século 19, para que, no começo do século 20, os países ricos, um atrás do outro, aceitassem o sufrágio universal, portanto, aceitassem a democracia. No Brasil, o problema é o mesmo. Os ricos temem a democracia e, portanto, temem o PT. Esses 12 anos de governo tiveram um grande êxito, que foi a distribuição de renda. Isso era necessário, e eles conseguiram avançar um pouco nesta direção.

Mas o PT perdeu o apoio da classe média.

A classe média deu uma guinada muito grande. No começo dos anos 1980, era toda progressista. O que aconteceu? Houve um grande esforço de combate às desigualdades sociais neste período. O gasto social, que era de 11% do orçamento em 1985, hoje é de 22%. Ora, quem se beneficiou desse gasto, financiado pelos impostos, foram os pobres. Temos um SUS que é extraordinário para o nível de renda per capita que temos no país, e a educação passou a receber mais investimentos e está melhorando. A classe média não viu isso, e esse é motivo da insatisfação. Esse investimento social não retorna (para a classe média), e o Brasil continua crescendo a taxas inferiores a 1%. A classe média está nervosa e virou para a direita.

Esse nervosismo tem a ver com a estagnação?

Sim, foi isso que aconteceu. Quando se distribui renda, se reduz a diferença entre as classes. De repente, a classe média viu os aeroportos invadidos por pobres. E a herança escravista das elites brasileiras é muito violenta. O preconceito é muito grande. É claro que somos sempre uma democracia social, sempre muito amáveis, protetores. Mas esse problema aparece também no serviço doméstico. Só recentemente foram reconhecidos direitos a esse pessoal que trabalha para a classe média. A classe média virou muito conservadora, infelizmente.

Raymundo Faoro, na década de 1950, falou que o Brasil está condenado a conviver com o patrimonialismo. Como o senhor analisa isso?

Ele está errado. No último capítulo de Os Donos do Poder, diz que o Brasil desde sempre foi patrimonialista e continuava patrimonialista, mesmo quando da publicação da segunda edição, em 1978. Isso é nonsense. Claro que há elementos patrimonialistas no Estado, mas o Brasil é um país capitalista e democrático que mudou completamente.

Falo da cultura patrimonialista. Uma pesquisa Ibope mostrou que, se tivessem poder, as pessoas indicariam parentes para cargos públicos.

O fato é que hoje é muito mais difícil se fazer isso. A cultura patrimonialista passou a ser fortemente criticada na sociedade. Volta e meia os jornais criticam os 24 mil cargos de confiança que existem em Brasília. É uma bobagem. Daqueles quatro anos que fiquei lá, sei muito bem quem preenche esses cargos. Diria que de 80% a 90% são profissionais que estão lá porque o Estado precisa deles. Onde ainda há clientelismo é nos cargos federais nos Estados. Se estou certo nisso, a ideia do patrimonialismo dominando o Brasil é uma tentativa de desmoralizar o Estado. Eu disse que a classe capitalista teme a democracia e precisa controlá-la. E como faz isso? Desmoralizando o Estado e o político e comprando o político. E é isso que a classe capitalista faz com essa coisa escandalosa que é o financiamento de campanha por empresas.

Prefere o financiamento público?

Sou favorável ao financiamento público e do pessoal, individual. O atual modelo é um esquema puro e simples para corromper o político, defendido ferozmente por nossa classe capitalista. Porque a corrupção é inerente ao capitalismo. A lógica do capitalismo é a lógica do lucro, e o critério de êxito é a riqueza. Portanto, o elemento corrupto está ali, mas você pode controlá-lo. Veja o capitalismo suíço, é bem melhor. Já o americano não é assim.

O senhor condena algumas privatizações, mas esse processo estava desenhado no projeto teórico do senhor para a reforma do Estado. Que privatizações são defensáveis e quais não?

Você deve privatizar setores competitivos, como produção de aço. Para setores não competitivos não há uma boa razão para privatizar, porque a coordenação pelo mercado não vai funcionar, vai precisar de agência reguladora, e as agências são facilmente capturáveis pelas empresas. A empresa que substituiu a Eletropaulo aqui em São Paulo é uma vergonha. É uma empresa americana que está transferindo lucros para o Exterior e prestando um péssimo serviço. Vivo com apagões nesta casa.

Como se resolve o problema da Petrobras?

Felizmente, o Estado está processando esse absurdo escândalo. Espero que vá muita gente para a cadeia e que cuidem das empreiteiras, porque não devemos transformá-las em culpadas e levá-las à quebra. Os acordos de leniência precisam caminhar. Essas empresas são patrimônio nacional. E a Petrobras já foi um clássico caso de insulamento burocrático (isolamento da influência política) que foi minado. Isso não pode ocorrer. Os diretores têm de ser técnicos. Claro que o presidente da Petrobras tem de ter a confiança do presidente da República, mas a diretoria não pode ter representante de partido. Há certos setores estratégicos que há muito se sabe que devem ser isolados.

O senhor faz comentários de filmes nas redes sociais. É saudade do tempo de jornalista?

Quando tinha 16 anos, soube de um curso de cinema no Museu de Arte, com duração de um ano. Nessa época, comecei a trabalhar no jornal O Tempo, que foi do meu pai. Comecei como revisor e repórter. Aos 18 anos, tinha completado o curso e me tornei crítico de cinema. Fui crítico por três anos, até que o jornal acabou. Foi à falência, e por 15 anos meu pai pagou dívidas. Aos 20 anos, decidi ser sociólogo ou economista do desenvolvimento, mas continuo cinéfilo. Minha mulher, com quem sou casado a vida inteira mais seis meses, me acompanha. No meu site, há mais de 10 anos tenho uma seção para comentar cinema. Recentemente, comecei a usar o Facebook, mas só para ter uma página, não tenho amigos.

O Facebook é mais para comentários políticos, e o Twitter, para o cinema?

O Twitter é para comentários políticos e cinema também. O site é para ter a minha obra, os bons artigos que li e os bons filmes aos quais assisti. Tenho mais de 1,3 mil filmes vistos. E, para cada um, tenho os nomes de diretor, roteirista, atores e avaliação por meio de estrelas, que vão de duas a cinco. Uma estrela é reservada para alguma coisa muito esquisita, como algumas obras do (Jean-Luc) Godard, que são inclassificáveis. A maioria é de quatro estrelas porque seleciono muito bem. Vou muito ao cinema. Esses dias, uma aluna fez uma conta pelo site e disse: “Professor, o senhor vai muito ao cinema”. Eu disse: “Vou uma vez por semana, talvez duas”.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

O dever moral da República brasileira diante da pena de morte

A República brasileira deve fazer todos os negativos acenos diplomáticos em relação à postura da Indonésia em virtude desta mais recente execução de um criminoso de nossa nacionalidade. Falo a república e não o atual governo, assinamos todos os tratados possíveis que rechaçam a pena de morte e nosso Estado (Um da ONU e outro da OEA, mas o Brasil aboliu pena de morte com a Carta de 1891), que costuma assinar tratados e não cumpri-los, tem o dever moral de o fazê-lo.

Todos sabemos que existem aqueles para os quais a pena de morte é a solução para o problema da trágica realidade de violência urbana em que vivemos e apregoam a Indonésia como sendo exemplo de modelo penal; emfim, não diria que a Indonésia seja um país selvagem e tal, trata-se apenas que do nosso ponto de vista, da sociedade que buscamos erguer no Ocidente, principalmente, a partir da Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948, mas sendo um ideal iluminista (Cesare Beccaria), não é justo esse tipo de pena.

Na execução anterior se disse no besteirol das redes que a Indonésia é um país soberano e que o Brasil não deve fazer outra coisa senão reconhecer esse fato, ora isso não se justifica, não reconhecer a soberania da Indonésia significaria declarar-lhe guerra e não fazer o contraponto entre justiças penais distintas e, repito, a república e não o governo atual devem fazê-lo.

No ideais nossos, construídos desde Beccaria, mas vale a pena de prisão do que o castigo cruel, mas isso (a execução) continua a instigar alguns como sendo causa de expiação necessária. O executado era capaz de destruir famílias e fora morto por portar seis quilos da droga, portanto não pode viver, e isso só é visto como válido para quem se sente incapaz de errar.

E, além disso, quem executa a pena é o Estado, logo ele que para a maioria dos mesmos que defendem pena de morte não deve sequer atuar positivamente na sociedade (educação e saúde pública, por exemplo).

POR QUE OS JUROS SÃO TÃO ELEVADOS NO BRASIL

Por Maria Lucia Fattorelli [1]
O Brasil é o país que mais gasta com juros. Tanto os juros incidentes sobre os títulos da chamada “dívida pública”, como os juros pagos pela sociedade em geral nas operações de crédito (empréstimos, cheque especial, cartão de crédito etc.) são disparadamente os mais elevados do mundo!
Não existe justificativa técnica, econômica, política ou moral para a cobrança de taxas tão elevadas, que prejudicam toda a sociedade e o próprio país. Os juros extorsivos esterilizam grande quantidade de recursos que deveriam estar circulando na economia produtiva, pagando melhores salários e viabilizando serviços sociais que garantiriam vida digna para as pessoas.
O único beneficiário dessa generosa aberração é o setor financeiro privado nacional e internacional. E o maior responsável: o Banco Central do Brasil.
É simples.
No caso da dívida pública, é o Banco Central que convoca e realiza as reuniões com investidores que irão influenciar a decisão sobre a taxa Selic – taxa básica de juros – pelo COPOM [2]. Para essas reuniões convida, quase que exclusivamente, representantes do próprio mercado financeiro que detém a imensa maioria dos títulos da dívida. O que acham que os interessados em continuar recebendo as elevadas remunerações dos juros irão recomendar? É evidente o conflito de interesses. A recomendação desses especialistas é adotada pelo COPOM, sem qualquer crivo ou sequer debate por parte do Congresso Nacional. A taxa passa a vigorar como “lei” e ponto final. Das eleições realizadas em outubro do ano passado até agora, a Selic já subiu 16% e está em 12,75% a.a. Já está convocada nova reunião do COPOM para o dia 29/04/2015, que poderá aumentar ainda mais essa taxa, como já vem sendo anunciado pela grande mídia.
Também é o Banco Central que realiza os leilões para a venda dos títulos da dívida interna emitidos pelo Tesouro Nacional. Na prática, os títulos têm sido vendidos a taxas bem superiores à Selic, pois as poucas instituições financeiras que detêm o privilégio de participar desses leilões – os chamados dealers – só compram os títulos quando as taxas alcançam o patamar que desejam. Generosamente, o Banco Central atende a desejo dos bancos e lhes oferece elevadas taxas de juros.
No caso dos juros cobrados da sociedade em geral pelas instituições financeiras, o Banco Central impede que os bancos privados abaixem as taxas de juros cobradas da população e empresas. Como assim? O Banco Central absorve todo o excesso de moeda que os bancos têm em caixa, entregando-lhes, em troca, títulos da dívida interna que rendem os maiores juros do mundo. Essa operação recebe o nome de “operação compromissada” [3] ou “operação de mercado aberto”, e pode durar de um ou alguns dias a meses. Atualmente, cerca de R$ 1 trilhão em títulos da dívida estão sendo utilizados nessas operações. O que significa isso? Significa que R$ 1 trilhão poderiam estar no caixa dos bancos e, certamente, esses não iriam querer deixar esse dinheiro parado, sem render. O destino óbvio seria destinar esses recursos para empréstimos à sociedade, aumentando a oferta, o que sem sombra de dúvida provocaria uma forte queda nas taxas de juros. Os bancos entrariam em competição para oferecer taxas menores às pessoas e empresas, o que levaria a uma redução ainda maior nas escorchantes taxas cobradas pelo setor financeiro no Brasil. Pois bem; a atuação do Banco Central impede que isso aconteça e garante aos bancos a generosa remuneração dos títulos da dívida, sem risco algum. A justificativa que tem sido dada para essa atuação é o “combate à inflação”, o que não se aplica, pois o tipo de inflação que temos no Brasil decorre do abusivo aumento do preço de tarifas [4] e de alguns alimentos [5],
Vivemos uma verdadeira ciranda financeira no Brasil. Um dos países mais ricos do mundo, onde faltam recursos para áreas essenciais como educação, saúde, saneamento básico e para infraestrutura, não faltam recursos para os abundantes juros que tornam o país como o local mais lucrativo do mundo para os bancos.
Nada de discussão se existem recursos orçamentários para pagar os elevados juros incidentes sobre os títulos da dívida pública; ou sequer preocupação de onde virão os recursos. As limitações da Lei de Responsabilidade Fiscal não se aplicam à “política monetária”. Ou seja, se os recursos orçamentários existentes no orçamento federal não são suficientes para pagar juros, são emitidos novos títulos da dívida e esses são utilizados para pagar juros. Isso mesmo. Estamos emitindo títulos para pagar grande parte dos juros nominais incidentes sobre a dívida pública, o que fere a Constituição Federal, art. 167, que proíbe a contratação de dívida para pagar despesas correntes. E juros são despesas correntes, como salários, despesas de manutenção e demais despesas de custeio que se consomem durante o ano e não se caracterizam como investimentos. É por isso que denunciamos o Sistema da Dívida e exigimos a realização da auditoria. Esse poderoso esquema está provocando enorme lesão aos cofres públicos e à sociedade, além de aumentar de forma exponencial a própria dívida, comprometendo o nosso futuro.
Por isso são tão importantes os protestos que estão sendo organizados em todo o país, contra o aumento das taxas de juros e pela auditoria da dívida. Estamos pagando caro por uma conta que não é nossa. Vamos participar!
[1] Coordenadora Nacional da Auditoria Cidadã da Dívidawww.auditoriacidada.org.br e https://www.facebook.com/auditoriacidada.pagina. Membro da Comissão de Auditoria Oficial da dívida Equatoriana, nomeada pelo Presidente Rafael Correa (2007/2008). Assessora da CPI da Dívida Pública na Câmara dos Deputados (2009/2010). Convidada pela Presidente do parlamento Helênico, deputada Zoe Konstantopoulos para integrar a Comissão de Auditoria da Dívida da Grécia a partir de abril/2015.
[3] Compromissada por que o Banco Central tem o compromisso de receber os títulos de volta e devolver o dinheiro de volta para os bancos quando estes desejarem, pagando, evidentemente, os juros correspondentes ao período de duração da operação.
[4] Tarifas de preços administrados: energia, telefonia, combustível, transporte público etc.
[5] Devido à sazonalidade e aos históricos equívocos da política agrícola no país que privilegia investimento no agronegócio voltado à exportação de commodities e não na produção de alimentos.

Brasil está perto de erradicar pobreza extrema, mas riqueza segue concentrada

O recente relatório "Prosperidade compartilhada e erradicação da pobreza na América Latina e Caribe”, publicado pelo Banco Mundial, revela que, nos últimos 20 anos, cerca de 60% dos brasileiros subiram de classe econômica. Segundo o estudo, o Brasil está próximo de erradicar a pobreza extrema. O desempenho positivo seria resultado do crescimento econômico a partir de 2001, das políticas públicas com foco na erradicação da pobreza (como o Bolsa Família e Brasil sem Miséria), do aumento das taxas de emprego e do percentual de empregos formais (60% em 2012), além da evolução do salário mínimo, que fortaleceu o poder de compra dos/as brasileiros/as. 

bolsafamiliadogoverno
Nos últimos 20 anos, 25 milhões de brasileiros saíram da pobreza extrema ou moderada. Programas como o Bolsa Família contribuíram para o combate à pobreza.

De acordo com o estudo, de 1990 a 2009, 25 milhões de brasileiros saíram da pobreza extrema ou moderada. Isso representa uma em cada duas pessoas saídas da pobreza na América Latina e no Caribe, nesse período. O percentual de brasileiros/as vivendo na extrema pobreza caiu de 10%, em 2001, para 4%, em 2013.

A melhoria nas condições de vida na América Latina e Caribe modificou, visivelmente, a composição socioeconômica da população. Em 2012, houve uma redução de 24,1% para 12,1% das pessoas em situação de extrema pobreza e um aumento de 21,2% para 34,4% da classe média.

banco-mundial

Apesar dos avanços, o relatório aponta que ainda existem, na América Latina e Caribe, 75 milhões de pessoas em extrema pobreza, sendo a metade delas no Brasil e no México. Na Guatemala, a situação afeta mais de 40% da população e quase 60% no Haiti. No Brasil, 18 milhões de brasileiros ainda vivem na pobreza e um terço da população não conseguiu ingressar na classe média, permanecendo em condição de vulnerabilidade econômica.

A desigualdade no Brasil está acima da registrada na América Latina e Caribe. 1% da classe mais rica recebe 13% da renda total do país. Mais da metade dos 7,3 milhões de brasileiros que ainda vivem na extrema pobreza (renda inferior a R$ 70 por mês) estão na região Nordeste (56,7%), seguida da região Sudeste (22,7%) e da Norte (11%).

banco-mundial


Cristina Fontenele
Adital