"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 19 de novembro de 2016

O Trilema Do Século XXI

Artigo De José Eustáquio Diniz Alves

“Cada sociedade só se coloca os problemas que pode resolver”
Karl Marx

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Karl Marx dizia que “Cada sociedade só se coloca os problemas que pode resolver”. Na concepção do materialismo histórico, o desenvolvimento das forças produtivas avançava até um ponto em que entrava em contradição com as relações de produção e, nesse momento, abria-se um período revolucionário, que, se resolvido adequadamente, viabilizava a continuidade do progresso civilizacional. Na sociedade capitalista, o grande problema a ser solucionado seria o conflito capital versus trabalho. Esta é a ideia básica apresentada no Manifesto Comunista, de 1848. O espectro do comunismo assustava a Europa e o mundo no século XIX e constituía o problema máximo a ser resolvido nos primórdios da modernidade.
Porém, na “modernidade tardia” (termo de Ulrich Beck) do século XXI, não existe só um problema a ser resolvido. A sociedade atual está diante de três problemas simultâneos: 1) estagnação do crescimento econômico; 2) aumento das desigualdades sociais; e 3) grande crise ambiental.
A solução simultânea dessas três dimensões do crescimento é praticamente impossível na lógica que norteia o sistema de acumulação de capital e no padrão hegemônico de produção e consumo. Dado o fluxo metabólico entrópico, nenhum sistema produtivo é capaz de ampliar as atividades antrópicas (via dominação da natureza), muito menos ir além da capacidade de carga e ser ecologicamente neutro e amigo do meio ambiente. Esta constatação é ainda mais válida para o capitalismo da “hipermodernidade” (termo de Gilles Lipovetsky). Portanto, em vez de estar diante de um tripé da sustentabilidade o mundo atual está diante de um trilema (Martine, Alves, 2015).
Trilema é uma situação criada por um triplo desafio originado de uma proposição formada por três lemas contraditórios ou que reúnem uma solução improvável (ou muito difícil) entre três metas conflitantes. O trilema do século XXI decorre das crises econômica, social e ecológica que se aprofundam de maneira sincrônica. Assim, o desenvolvimento contemporâneo teria que fazer mágica para ser, ao mesmo tempo, economicamente inclusivo (garantir um padrão de vida decente para os 7,5 bilhões de habitantes do globo), socialmente justo (reduzir as desigualdades regionais, de renda, gênero, raça, etc.) e ambientalmente sustentável (evitando a degradação dos ecossistemas, a perda de biodiversidade, a dissipação de energia, o aquecimento global, etc.).
A dificuldade em se alcançar um desenvolvimento economicamente inclusivo decorre do fato de que o avanço do progresso técnico ser cada vez mais poupador de mão de obra e a acumulação de capital ter um forte componente financeiro que não depende da extração direta da mais-valia. É cada vez mais difundida a imagem de um mundo de robôs substituindo a força física do trabalhador e um mundo de inteligência artificial substituindo a massa cinzenta do cérebro humano. Este cenário é agravado pela propriedade privada dos meios de produção e pela dificuldade de os indivíduos conseguirem um emprego numa estrutura produtiva flexível e em constante mutação. Mas a baixa produtividade dos fatores de produção e o alto endividamento das famílias e dos governos torna árdua a implantação de propostas de inclusão social, quer seja o pleno emprego com trabalho decente ou a Renda Básica de Cidadania (como veremos em outro artigo).
A dificuldade em se alcançar um desenvolvimento socialmente justo decorre do fato de que a concentração da riqueza estar se aprofundando nas últimas décadas. O relatório sobre a riqueza global, em 2015, do banco Credit Suisse (Global Wealth Report 2015) atualiza um quadro bastante amplo e esclarecedor da má distribuição da riqueza (patrimônio) das pessoas adultas do mundo. A riqueza global foi estimada em USD$ 223 trilhões em 2012 (meados do ano), passando para USD$ 250 trilhões em 2015.

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Na base da pirâmide da desigualdade, em 2015, estavam 3,4 bilhões de pessoas com a riqueza abaixo de 10 mil dólares (são 71% do total). O montante da “riqueza” deste enorme contingente foi de USD$ 7,4 trilhões, o que representava somente 3% da riqueza global. No grupo de riqueza entre USD$ 10.000,00 e USD$ 100.000,00 havia 1 bilhão de adultos, o que representava 21% do total de pessoas na maioridade no mundo. No grupo de riqueza entre USD$ 100.000,00 (cem mil dólares) e USD$ 1.000.000,00 (um milhão de dólares) havia 349 milhões de adultos, o que representava 7,4% do total. Acima de USD$ 1 milhão estavam 34 milhões de adultos, o que representava 0,7% do total.
O grau de concentração da riqueza fica claro quando somamos os dois grupos superiores da pirâmide, aqueles com riqueza acima de 100 mil dólares, pois havia um total de 483 milhões de adutos (8,1%), com patrimônio total de USD$ 211,4 trilhões, representando 84,5% da riqueza global em 2015. Na parte de baixo da pirâmide, havia 4,4 bilhões de pessoas, representando 92% do total, detinham somente 15,5% da riqueza mundial em 2014.
Já a dificuldade em se alcançar um desenvolvimento ambientalmente sustentável decorre do fato de que, nos últimos 250 anos, o progresso humano ter ocorrido em função do regresso ambiental. A Pegada Ecológica da humanidade já supera em 64% a biocapacidade da Terra. O crescimento demoeconômico já provocou muitos danos no ambiente, como o desmatamento, o represamento dos rios, a poluição, a escravidão animal e a perda de biodiversidade. Quatro das nove Fronteiras Planetárias já foram ultrapassadas na metodologia do Stockholm Resilience Centre. O rompimento de uma das nove fronteiras planetárias pode comprometer todo o equilíbrio do sistema Terra, pois uma corrente é tão forte quanto o seu elo mais fraco. O maior dano vem do combustível do progresso. A energia fóssil aumentou o bem-estar humano, mas elevou a concentração de CO2 na atmosfera, provocou a acidificação da terra e da água e acelerou o aquecimento global, que eleva o nível dos oceanos e é a maior ameaça à civilização e à vida na Terra.
Karl Marx imaginou que “o fim da dominação e da exploração do homem pelo homem” abriria um novo período da história em que a utopia do comunismo (sem classes sociais) viabilizaria uma sociedade em que prevalecesse o lema: “De cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades”. Para o pensador alemão, o grande problema da sociedade moderna seria resolver o conflito entre capital e trabalho, para se alcançar uma época de abundância e de liberdade.
Porém, Marx subestimou a expectativas individuais de riqueza (o anseio ilimitado de afirmação do egoísmo humano) e não levou devidamente em consideração os problemas decorrentes da dominação e da exploração da civilização sobre a natureza e sobre as espécies não-humanas. As experiências concretas do “socialismo real” mostraram que o controle estatal dos meios de produção não atendeu aos anseios de consumo e liberdade dos indivíduos, além de ter sido um desastre para o meio ambiente.
Como mostrou Ulrich Beck: “Com a generalização dos riscos da modernização, é desencadeada uma dinâmica social que não mais pode ser abarcada e concebida em termos de classe” (p. 47). Ainda: “A natureza não pode mais ser concebida sem a sociedade, a sociedade não mais sem a natureza” (p. 98).
Portanto, o mundo vive um trilema e nem as forças de direita ou de esquerda têm respostas para a solução deste quebra-cabeça. Cada sociedade só se coloca os problemas que pode resolver, porém, nenhuma sociedade até agora conseguiu resolver um trilema que a dinâmica da complexidade das contradições internas gerou ao longo dos últimos 250 anos.
Esta situação já foi estuda por Joseph Tainter que mostrou no livro “O colapso das sociedades complexas” que uma comunidade entra em declínio quando os retornos da complexidade são decrescentes e quando as externalidades são crescentes. Ele mostra que o mundo moderno globalizado está sujeito às mesmas tensões que levaram sociedades mais antigas à ruína. Ou seja, quando o triângulo vira trilema (ou multilema), a capacidade social de atender os interesses conflitantes diminui.
Na falta de uma clara opção para redirecionar o caminho que leva rumo ao precipício e na resistência coletiva em reduzir o tamanho da dimensão do estrago humano sobre o meio ambiente, a continuidade do desenvolvimento insustentável pode levar as conquistas civilizatórias ao colapso.
Referências:
Credit Suisse Global Wealth Report 2015. Zurich, Switzerland. 2015
BECK, Ulrich. Sociedade de Risco. Rumo a uma Outra Modernidade. São Paulo: Editora 34, 2010.
Jonathan M. Harris. Ecological Macroeconomics: Consumption, Investment, and Climate Change, WORKING PAPER NO. 08-02, July 2008

MARTINE, G. ALVES, JED. Economia, sociedade e meio ambiente no século 21: tripé ou trilema da sustentabilidade? R. bras. Est. Pop. Rebep, n. 32, v. 3, Rio de Janeiro, 2015 (português e inglês)
http://www.scielo.br/pdf/rbepop/v32n3/0102-3098-rbepop-S0102-3098201500000027P.pdf

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 18/11/2016

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Por uma outra globalização

por Thomas Piketty


Digamos logo de cara: a vitória de Trump se deve, antes de qualquer outra razão, à explosão da desigualdade econômica e regionais nos Estados Unidos por várias décadas e à incapacidade dos sucessivos governos para lidar com isso.

Os governos de Clinton e Obama não fizeram mais do que acompanhar a liberalização do mercado lançada na gestão Reagan e seguida nas presidências de Bush pai e filho. Às vezes, Clinton e Obama superaram os republicanos, como na desregulamentação financeira e comercial realizada sob Clinton, por exemplo. A suspeita de que os democratas estavam muito próximos de Wall Street e a incapacidade da elite político-midiática democrata de aprender as lições com os votos dados a Sanders, fizeram o resto do serviço.

Hillary ganhou o voto popular por um fio de bigode (60,1 milhões de votos contra 59,8 milhões para Trump, de uma população adulta total de 240 milhões), mas a participação dos mais jovens e dos grupos de menor renda foi muito baixa para permitir a vitória nos principais Estados.

A  tragédia é que o programa de Trump só irá fortalecer a tendência de desigualdade. Ele pretende abolir o seguro de saúde concedido, com muito esforço, aos trabalhadores de baixa renda no mandato de Obama. Trump pretende, ainda, estabelecer no país um apressado dumping fiscal [nota do tradutor: dumping fiscal é proporcionar uma queda nos impostos das empresas supostamente para aumentar a atratividade para investimentos no país], com uma redução de 35% para 15% na taxa de imposto federal sobre os lucros das corporações, embora os Estados Unidos tenham, até o momento, resistido a esta tendência, já verificada na Europa.

Além disso, o papel crescente da etnicidade na política americana não é um bom presságio para o futuro se não forem encontrados novos compromissos. Nos Estados Unidos, 60% da maioria branca vota por um partido, enquanto mais de 70% das minorias votam pelo outro. A maioria branca está prestes a perder sua vantagem numérica (70% dos votos emitidos em 2016, contra 80% em 2000 e 50% em 2040).

A principal lição para a Europa e para o mundo é clara: como uma questão de urgência: a globalização deve ser fundamentalmente reorientada. Os principais desafios de nossos tempos são o aumento da desigualdade e do aquecimento global. Devemos, portanto, implementar tratados internacionais que nos permitam responder a esses desafios e promover um modelo de desenvolvimento justo e sustentável.

Os acordos de um novo tipo podem, se necessário, incluir medidas destinadas a facilitar esses intercâmbios. Mas a questão da liberalização do comércio não deve mais ser o foco principal. O comércio deve voltar a ser um meio ao serviço de fins mais elevados. Nunca deveria ter se tornado nada além disso.

Não deve haver mais assinaturas de acordos internacionais que reduzam direitos aduaneiros e outras barreiras comerciais sem incluir medidas quantificadas e obrigatórias para combater o dumping fiscal e climático nesses mesmos tratados. Por exemplo, poderiam existir taxas mínimas comuns de imposto sobre as empresas e objetivos para as emissões de carbono que possam ser verificadas e sancionadas. Já não é possível negociar tratados de comércio livre com nada em troca.

Deste ponto de vista, o acordo de livre comércio entre União Europeia e Canadá (CETA, na sigla em inglês) deve ser rejeitado. É um tratado que pertence a outra era. Este tratado estritamente comercial não contém absolutamente nenhuma medida restritiva em matéria fiscal ou climática. Todavia, contém uma referência considerável à “proteção dos investidores”. Isso permite que as multinacionais processem os estados sob tribunais de arbitragem privados, ignorando os tribunais públicos disponíveis para todos.

O controle jurídico proposto é claramente insuficiente, particularmente no que se refere à questão-chave da remuneração dos árbitros e conduzirá a todo o tipo de abusos. No mesmo momento em que o imperialismo jurídico americano está ganhando força e impondo suas regras e obrigações às nossas empresas, esse declínio na justiça pública é uma aberração. A prioridade, pelo contrário, deveria ser a construção de autoridades públicas fortes, com a criação de um procurador, incluindo um promotor público europeu, capaz de fazer cumprir as suas decisões.

Os Acordos de Paris tinham um objetivo puramente teórico de limitar o aquecimento global a 1,5 graus. Isto exigiria, por exemplo, que o petróleo encontrado nas areias betuminosas de Alberta, Canadá, fosse deixado no solo. Mas, o Canadá acaba de começar a mineração lá novamente. Então, que sentido há na assinatura deste acordo e, logo em seguida, apenas alguns meses depois, assinar um tratado comercial altamente restritivo sem uma única menção desta questão?

Um tratado equilibrado entre o Canadá e a Europa, destinado a promover uma parceria para um desenvolvimento justo e sustentável, deve começar especificando os objetivos de emissões de cada signatário e os compromissos práticos para alcançá-los.

Em matéria de dumping fiscal e taxas mínimas de tributação sobre os lucros das empresas, este significaria, obviamente, uma mudança completa de paradigma para a Europa construída como uma área de livre comércio sem uma política fiscal comum. Esta mudança é essencial, no entanto. Que sentido há em concordar com uma política fiscal  comum (que é a única área em que a Europa atingiu um pouco de progresso para o momento) se cada país puder fixar uma taxa próxima de zero e atrair todas as sedes das principais empresas? 

É hora de mudar o discurso político sobre a globalização: o comércio é uma coisa boa, mas o desenvolvimento justo e sustentável também exige serviços públicos, infraestrutura, saúde e sistemas educacionais que, por sua vez, exigem sistemas de tributação justos. Se falharmos em entregá-los à população, o Trumpismo prevalecerá.

Nota:

Artigo publicado em The Guardian, em 16/11/2016, com o título original We must rethink globalization, or Trumpism will prevail, por Thomas Piketty, em https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/nov/16/globalization-trump-inequality-thomas-piketty

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

A eleição dos Estados Unidos: Terminou, por fim, ou não?

por Immanuel Wallerstein

Quase todo mundo está surpreso com a vitória de Trump. Diz-se que mesmo Trump foi surpreendido. E, claro, agora todo mundo está explicando como isso aconteceu, embora as explicações sejam diferentes. E todo mundo está falando sobre as profundas clivagens que a eleição criou (ou refletiu?) No corpo político norte-americano.

Eu não estou indo para adicionar mais uma tal análise à longa lista. Eu já estou cansado de lê-las. Apenas quero concentrar-me em duas questões: Quais são as consequências desta vitória da Trump (1) para os Estados Unidos, e (2) para o poder dos EUA no resto do mundo.

Internamente, os resultados, não importa como se mede-os, move os Estados Unidos de forma significativa para a direita. Não importa que Trump realmente perdeu no voto popular nacional. E não importa que, se um mero 70.000 votos em três estados (algo sob 0,09% do elenco total de votos) havia faltado a Trump, Hillary Clinton teria vencido.

O que importa é que os republicanos ganharam o que é chamado o trio - o controle da Presidência, ambas as casas do Congresso e o Supremo Tribunal. E, embora os democratas possam reconquistar o Senado e até mesmo a Presidência em quatro ou oito anos, os republicanos vão segurar a maioria da Suprema Corte por muito mais tempo.

Para ter certeza, os republicanos estão divididos sobre algumas questões importantes. Isto é evidente apenas uma semana depois das eleições. Trump já começou a mostrar o seu lado pragmático e, portanto, as suas prioridades: mais empregos, redução de impostos (mas certos tipos) e salvar partes do Affordable Care Act (Obamacare), que são muito populares. O establishment republicano (um Estabelecimento muito mais à direita) tem outras prioridades: destruir o Medicaid e Medicare, inclusive, diferentes tipos de reforma tributária, e rolar para trás o liberalismo social (como o direito ao aborto e casamento gay).

Continua a ser visto se Trump pode ganhar contra Paul Ryan (que é a figura chave na direita baseado no Congresso), ou Paul Ryan pode empurrar para trás Trump. A figura-chave nessa luta parece ser o Vice-Presidente Mike Pence, que posicionou-se notavelmente como o verdadeiro número dois no escritório presidencial (como tinha Dick Cheney).

Pence conhece o Congresso bem, é ideologicamente próximo de Paul Ryan, mas politicamente leal a Trump. Foi ele que escolheu Reince Priebus como Chefe de Gabinete para Trump, preferindo-o a Steve Bannon. Priebus significa unir os republicanos, enquanto Bannon está para atacar os republicanos que estão a menos de 100% leais a uma mensagem de ultra-direita. Enquanto Bannon tem um prêmio de consolação como um conselheiro dentro, é duvidoso que ele vai ter qualquer poder real.

No entanto, esta luta intra-Republicana parece, ele ainda é o caso de que a política dos EUA são agora significativamente mais para a direita. Talvez o Partido Democrata vai reorganizar como um movimento mais de esquerda, mais populista, e ser capaz de contestar os republicanos em eleições futuras. Que continua a ser demasiado para ser visto. Mas a vitória eleitoral de Trump é uma realidade e uma conquista.

Passemos agora da arena interna em que Trump ganhou e tem poder real para a arena externa (o resto do mundo) em que ele não tem praticamente nenhum. Ele usou o slogan da campanha "Fazer a América grande de novo." O que ele disse e outra vez foi que, se fosse presidente, ele iria garantir que outros países respeitassem (isto é, obedecer) os Estados Unidos. Com efeito, ele aludiu a um passado em que os Estados Unidos era "grande" e disse que iria recuperar desse passado.

O problema é muito simples. Nem ele nem qualquer outro presidente - seja Hillary Clinton ou Barack Obama ou para essa matéria Ronald Reagan - pode fazer muito sobre o declínio avançado do poder hegemônico de outrora. Sim, os Estados Unidos, uma vez governou o galinheiro, mais ou menos entre 1945 e por volta de 1970. Mas, desde então, tem vindo a diminuir na sua capacidade de obter outros países a seguir seu exemplo e fazer o que os Estados Unidos queriam.

O declínio é estrutural e não algo dentro do poder de um presidente americano. É claro, os Estados Unidos continua a ser uma força militar incrivelmente poderosa. Se ele abusa desse poder militar, ele pode fazer muito dano ao mundo. Obama foi muito sensível a esse dano potencial, que é responsável por todas as suas hesitações. E Trump foi acusado durante a campanha eleitoral de não entender isso e, portanto, ser um portador perigoso de poder militar dos EUA.

Mas ao fazer dano é bem possível, fazendo o que o governo dos EUA pode definir tão bom parece quase além do poder dos Estados Unidos. Ninguém, e eu quero dizer ninguém, seguirá hoje a liderança dos Estados Unidos se ele acha que seus interesses estão sendo ignorados. Isto é verdade não só da China, Rússia, Irã, e, claro, a Coreia do Norte. É verdade também do Japão e Coreia do Sul, Índia e Paquistão, Arábia Saudita e Turquia, França e Alemanha, a Polônia e os Estados Bálticos, e os nossos aliados especiais antigos como Israel, Grã-Bretanha e Canadá.

Estou bastante certo de que Trump ainda não percebeu isso. Ele contará sobre as vitórias fáceis, como acabar com pactos comerciais. Ele vai usar isso para provar a sabedoria de sua postura agressiva. Mas deixá-lo tentar fazer algo sobre a Síria - qualquer coisa - e ele logo estará desiludido de seu poder. Ele é muito improvável a recuar na nova relação com Cuba. E ele pode vir a perceber que ele não deveria desfazer o acordo com o Irã. Quanto à China, os chineses parecem pensar que eles podem fazer melhores arranjos com Trump do que teria sido capaz de fazer com Clinton.

Assim, a mais de direita dos Estados Unidos em um sistema-mundo mais caótico, com o protecionismo o tema principal da maioria dos países e um aperto econômico sobre a maioria da população do mundo. E é sobre isso? De maneira nenhuma, nem nos Estados Unidos nem no sistema-mundo. É uma luta contínua sobre a direção em que o futuro do sistema-mundo (ou sistemas) deve e vai ser a posição.

A enorme dívida privada da China, como eles chegaram lá?

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Um dos principais problemas que o mundo terá de enfrentar nos próximos anos é a enorme dívida que arrasta a China devido à bolha imobiliária que tem ocorrido nos últimos anos. Hoje, a dívida da China atingiu 25 bilhões de dólares, o que representa 254% do PIB.
Embora, os Estados Unidos, por exemplo, tenha níveis semelhantes aos da dívida chinesa, o que é verdadeiramente alarmante é que a dívida da China tem pressionado o acelerador nos últimos anos, quadruplicando-se entre 2007 e 2014.
Este aumento da dívida tem uma elevada vinculação com o setor imobiliário... Para entender a loucura imobiliária que sofre a China durante o período de 2011 a 2013, a China utilizou mais cimento, em efetivo, 6,6 gigatoneladas, do que os Estados Unidos ao longo do século XX (4,5 gigatoneladas).
A irracionalidade no mercado imobiliário é tal que inclusive têm vendido nove andares de apenas 12 metros quadrados a um preço de 880.000 yuan, o equivalente a 117.000 euros na cidade chinesa de Shenzhen.

Como chegaram a esses níveis?

Não é por acaso que nos últimos anos a dívida privada da China subiu para as quotas atuais. E é que, entre 1999 e 2006, a China centrou a sua economia através de um modelo de exportação, de modo que, durante este período, as exportações foram aumentadas em 95%.
No entanto, o modelo de exportação deteriorou-se significativamente devido à crise que protagonizou os Estados Unidos, o principal parceiro comercial da China, de modo que os líderes da China, de repente reinventaram a sua economia, tentando a sua sorte através do incentivo da procura interna
Em novembro de 2008, a China lançou um programa de estímulo econômico de quatro trilhões de yuans orientado principalmente em infra-estruturas públicas, habitação, desenvolvimento rural na reconstrução das áreas afetadas pelo terremoto de Sichuan em 2008.
Ele não parou por aí... o Banco Popular da China começou a baixar as taxas de juros a fim de estimular o consumo e o investimento. A combinação foi perigosa, alta inflação, taxas de juros reais negativas e com opções de investimento limitadas incentivou muitos chineses a comprar imóveis para proteger suas economias dos estragos da inflação, que foi o primeiro passo para entrar na bolha imobiliária .
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Os preços da habitação subiram 140% em todo o país no período 2007-2011, incluindo a habitação de Beijing até 800% desde 2003. É evidente que aprendemos alguma coisa na bolha imobiliária vivida em Estados Unidos, Irlanda e Espanha.

De 2005 até o presente, como evoluiu a dívida da China?

Durante a última década a dívida total da China cresceu 465%. Em 2015, a dívida total era de 247% do PIB, enquanto em 2005, a dívida total era de 160%. A dívida total é dividida em quatro componentes básicos: a dívida bancária, a dívida corporativa, a dívida pública e a dívida das famílias.
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No lado da dívida bancária, nos últimos 10 anos tem havido redução em relação ao tamanho da economia e só tem um peso de 19% de PIB. No entanto, o problema não se encontra na dívida corporativa que aumentou em 165% a assumir atualmente 105% do PIB .
No que respeita à dívida corporativa, devemos especialmente mencionar as empresas de materiais básicos. Podemos então ver no gráfico a relação entre os custos dos juros da dívida e o EBIT (lucro antes de juros e impostos), de modo que uma empresa que está acima de 100% dos resultados do negócio é absorvida através da manutenção dos juros da dívida.
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A comparação poria de pé os cabelos de qualquer um ... E em 2014 metade das empresas estão acima do limite de 100%, e até mesmo alguns níveis de alcance de 200%. Nestes anos, temos visto um aumento de mais de 300% na dívida corporativa das 111 principais empresas de referência no país, enquanto os lucros dessas empresas não aumentaram ao mesmo ritmo.
Grande parte dessa dívida está nas mãos de estatais chinesas, o que não é um fator de confiança dos investidores. Com a China em meio a desaceleração do crescimento econômico, o atraso no pagamento, bruto, têm aumentado de forma constante desde 2012 a partir de pouco mais de 0% a mais de 2%.
Embora a dívida pública tenha aumentado nos últimos anos, representa apenas 22% do PIB. No entanto isso deve-se notar que, como aconteceu na Espanha, bolhas de habitação são um bom catalisador de receitas públicas, de modo que na etapa de bolha, a dívida pública não tende a ser significativa.

O risco subjacente...

No passado já vimos que acumular níveis semelhantes de dívida privada leva a crise profunda. Vivemos na bolha japonesa imobiliária dos anos 1980 ou as bolhas de habitação mais recentes que viveram Estados Unidos e Espanha.
The Economist
Em todos os casos, o déficit público é o protagonista dos anos seguintes à conclusão da bolha, que é um efeito de crescimento para a dívida pública a déficits orçamentais sucessivos, enquanto o setor privado desaba.
Hoje os Estados Unidos tem uma dívida pública em relação ao PIB de 105%, Espanha 100% e Japão vive em uma realidade paralela com uma dívida pública de 247% e com um objetivo de intervir em seu bônus de dez anos  para manter uma TIR 0% para acalmar o pagamento de juros.
Em 2014, o crescimento dos lucros do setor imobiliário e de construção se reduziram 5,6%, dados que contrastam com a média de crescimento de 45,8% durante o período entre 2007 e 2009.
Devido ao grande peso econômico da China no comércio internacional e do investimento, qualquer problema em grande escala para as empresas chinesas têm implicações para a Ásia e para os mercados desenvolvidos.
Um crescimento chinês menor implicaria diretamente uma menor demanda por exportações de matérias-primas afetando assim as pressões deflacionistas para outros mercados desenvolvidosPortanto, o sobre-endividamento da China, voltado para o sector imobiliário é um problema que outros países não devem ignorar.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Uma pequena defesa da pornografia

Aluízio Couto
Em memória de Sylvia Kristel (1952-2012)
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Se você é homem e tem acesso à internet, é certo que já consumiu conteúdo pornográfico ao menos uma vez na vida. É o que afirma um estudo da Universidade de Montreal, no Canadá.1Além disso, pensa provavelmente que a pornografia é um assunto privado. Portanto, ninguém tem nada a ver com o que você assiste, vê ou escuta e nem com quem produz esse material. E, de mais a mais, não parece existir qualquer problema em acomodar-se na poltrona e acessar um bom site pornográfico após um duro dia de trabalho. Será que as coisas são tão óbvias assim?
Algumas pessoas pensam que não. Dentre elas, especialmente algumas feministas. O que pretendo neste pequeno ensaio é avaliar alguns argumentos feministas contra a pornografia. De acordo com tais argumentos, a pornografia não deveria ser permitida e o fato de o ser é sinal de que as mulheres não são tratadas do modo adequado. São argumentos morais cujas consequências práticas são legais. Tais feministas acreditam que uma vez que a pornografia representa qualquer coisa de inadequado no tratamento dado às mulheres (problema moral), o poder público deveria intervir por meio da imposição de leis restritivas.
Penso que os argumentos aqui tratados não são persuasivos. Assim, pelo menos no que diz respeito a eles, o consumidor de pornografia pode, com boa consciência e mãos limpas, acessar boa parte do oceano de pornografia que recursos como a internet, revistas, televisão e telefone oferecem. É claro que existem argumentos distintos dos que discuto, mas deixo-os para outro ensaio.

O que querem as feministas?

De modo geral, as feministas pretendem corrigir certos arranjos sociais que, de acordo com elas, colocam injustificadamente as mulheres em posição de subordinação ou desvantagem em relação aos homens. A sua preocupação primordial é com questões relativas às mulheres, estando as outras causas fora de seu escopo. Uma reivindicação comum das feministas é a igualdade de tratamento dado a homens e mulheres quando o sexo é um fator irrelevante (às vezes o sexo é um fator relevante e, sendo assim, não levanta problemas morais: um exemplo é o caso em que um cineasta procura uma pessoa para fazer o papel de uma aeromoça; é óbvio que homens estão excluídos da busca). Outro exemplo de reivindicação é a de que os homens não devem ter o poder de obrigar suas esposas a serem donas de casa. Quando colocadas em situação de desvantagem ou subordinação, as mulheres são discriminadas. Portanto, o plano feminista é acabar com a discriminação.
Pode haver, no entanto, outra forma de feminismo. Essa forma de feminismo é um machismo invertido e consiste na defesa de privilégios em favor das mulheres (e consequente discriminação em desfavor dos homens) simplesmente pelo fato de as mulheres serem mulheres. O problema é que quem quer que defenda algo desse gênero terá de negar a ideia segundo a qual as pessoas, salvo em situações especiais, não devem ser discriminadas com base no sexo. Vou aceitar que a posição descrita no parágrafo anterior representa o que as feministas realmente defendem, e não a posição que acabei de descrever – que, aliás, sequer deve ser levada a sério.
Como vimos, algumas feministas argumentam que o fato de a pornografia ser permitida é sinal de que as mulheres não são tratadas de modo adequado. E isso porque a pornografia é algo que coloca as mulheres em posição de subordinação ou desvantagem em relação aos homens. Logo, a pornografia discrimina as mulheres.

Mas o que é pornografia, afinal?

Pornografia é qualquer coisa que se ache no pornhub.com; pornografia é qualquer coisa que a atriz Mônica Mattos tenha filmado, tais como as obras “Violadas ao Extremo” e “Mulheres que Traem” e pornografia é qualquer foto em que a musa teen Tawnee Stone aparece a partir dos 18 anos de idade (Stone tem 18 anos desde 2001). No entanto, muitas coisas diferentes podem ser classificadas como pornografia, de modo que uma definição mais geral poderá ser útil. Opto pela oferecida pelo filósofo Nigel Warburton, presente no livro Liberdade de Expressão: Uma Breve Introdução (2009).
Segundo Warburton, a pornografia é, na maior parte das vezes, produção de imagens cujo objetivo é excitar sexualmente o espectador por meio da representação de um ato sexual explícito. No entanto, como ele reconhece, nem toda a pornografia envolve imagens: há pornografia escrita (contos, por exemplo) e áudio-pornografia (como os serviços de tele-sexo). A definição de Warburton pode, assim, ser resumida da seguinte forma: a pornografia é todo o tipo de material que estimula os sentidos e cujo objetivo de quem o produz é excitar sexualmente quem o consome.
Há, no entanto, alguns problemas. Um deles: o que dizer de certos vídeos caseiros de sexo? Consideremos o seguinte exemplo: um marido desconfiado contrata um detetive para seguir a sua esposa. Em um dado momento, o detetive consegue, sabe-se lá como, seguir a mulher e o amante até um quarto de motel. De dentro do armário (deixemos de lado o fato de, tipicamente, os motéis não terem este tipo de mobília) o investigador grava um portentoso vídeo de sexo de vinte minutos de duração como prova da infidelidade da mulher.
Mais tarde, transfere o arquivo de vídeo de seu computador para uma pen drive a fim de dar ao marido traído a prova de que sua esposa não é exatamente fiel. Infelizmente, no entanto, um hacker invade o computador do detetive, rouba o vídeo e o envia para o pornhub.com, que por sua vez o posta na rede, na seção de vídeos amadores, com o título “hot wife gets fucked by horny black fella”. Cinco minutos depois, centenas de adolescentes de 17 anos já estão se entretendo com o vídeo. É ou não um caso de pornografia? Devemos lembrar que o vídeo não foi feito com o objetivo de excitar as pessoas sexualmente, muito menos adolescentes de 17 anos: o objetivo do vídeo era ser prova de algo. Se é assim, não poderia ser classificado como pornografia.
Uma tentativa de resolver o problema (se admitirmos ser um problema um vídeo de sexo no pornhub.com não ser um exemplo de pornografia) poderia ser a seguinte: ampliar a definição dada por Warburton de modo a acomodar casos em que embora o material não tenha sido produzido primariamente com o objetivo de excitar alguém sexualmente, em certos contextos (como o uso ou reprodução em meios pornográficos) o material se torna um exemplo de pornografia.
Penso que a definição de Warburton ampliada com minha sugestão é bastante razoável. Outra vantagem da proposta de Warburton é o fato de ser moralmente neutra: não implica que a pornografia é moralmente aceitável ou moralmente condenável. Para sabermos algo dessa natureza, teremos de elaborar argumentos morais. Nisso não há nada de novo: a melhor forma de resolver problemas morais é raciocinando moralmente. Penso que agora podemos avaliar os argumentos feministas contra a pornografia.

Primeiro argumento

O primeiro argumento é o de que a produção e consumo de pornografia desempenham papel central no aprofundamento da exploração e opressão das mulheres. Dessa forma, uma vez que é papel do poder público intervir diretamente no que contribui para a exploração e opressão das mulheres, é papel do poder público intervir de alguma forma na produção e consumo de pornografia. Feministas como Andrea Dworkin e Catharine MacKinnon ofereceram esse argumento publicamente quando, em 1984, elaboraram um decreto que, caso aprovado, tornaria a publicação, produção e venda de pornografia ilegais na cidade americana de Indianápolis.
Há uma sutileza nesse argumento: Dworkin e MacKinnon oferecem uma definição não neutra de pornografia (até o fim desta seção, o termo “pornografia” terá o significado proposto por ambas). Para elas, a pornografia é todo o material que apresenta as mulheres como indivíduos desumanizados; como objetos sexuais; como mercadorias; reduzidas às partes do corpo; tendo prazer em serem humilhadas e feridas; exibidas em situações degradantes; etc. (MacKinnon, 1987). Portanto, o mero fato de um vídeo ter cenas de sexo não é suficiente para barrá-lo, pois pode não ter as propriedades listadas e não ser, assim, pornografia. É bom mencionar que elas admitem que, tal como as mulheres, os homens podem ser vítimas da pornografia.
Podemos entender o argumento de duas formas: a primeira é supor que a mera circulação das ideias sugeridas pela pornografia já é, por si, uma forma de exploração e opressão. Portanto, se quisermos viver em uma sociedade que não discrimina as mulheres, há ideias que não podem circular. Penso que a aplicação de dois argumentos de John Stuart Mill, presentes em Sobre a Liberdade (1859), são suficientes para rejeitar o argumento assim encarado. Eis a aplicação: é bom para todos que as ideias inaceitáveis sobre as mulheres circulem. A razão é a seguinte: quando permitimos que as pessoas digam disparates, temos a oportunidade de refutar esses disparates e eventualmente iluminar as pessoas que pensavam tal e qual os atarantados. Além disso, a causa do direito das mulheres será mais forte se pudermos defender as ideias que a sustentam de forma robusta. E uma das melhores formas de defender uma ideia de forma robusta é lidar com as objeções dos opositores, objeções muitas vezes duras e de péssimo gosto.
Pode-se ponderar que só ideias apresentadas de forma polida deveriam entrar no rol de discussão. Minha resposta é dizer que quando permitimos intervenções grosseiras, ganhamos por aprender, com a experiência, a lidar com tais intervenções. Logo, a permissão tanto de ideias apresentadas de forma polida quanto de forma grosseira acaba por nos dar mais recursos para refutar as variadas formas de ideias disparatadas a respeito das mulheres. Penso, portanto, que não devemos restringir a pornografia mesmo que aceitemos que expressa ideias inaceitáveis expostas de forma grosseira.
Em todo o caso, há uma grande diferença entre explorar e oprimir as mulheres de forma direta e inequívoca (por meio de costumes sociais que excluem as mulheres de direitos cívicos como o voto, por exemplo) e produzir material cujas ideias são ofensivas às mulheres. No primeiro caso, a legitimidade da intervenção do poder público parece óbvia; no segundo, não é tão óbvia assim. Embora possamos admitir que a propagação de mensagens discriminatórias contra as mulheres por meio da pornografia seja uma atitude lamentável, temos razões para rejeitar a censura, pois o argumento de que a mera circulação de certas ideias constitui opressão e exploração soa como um exagero retórico. Em países como os EUA, as mulheres têm uma vida razoavelmente rica e dotada de perspectivas. Mesmo assim, é um dos grandes bastiões da produção pornográfica mundial. Aparentemente, a boa vida das americanas (e especialmente das californianas) não é significativamente afetada pelas ideias propagadas especificamente pela pornografia. Ficamos, assim, na bizarra situação em que afirmamos haver opressão e exploração sem conseguir apontar para os explorados e oprimidos.
A segunda forma é atribuir ao argumento um caráter consequencialista. Encarado desse modo, o argumento nos diz que a permissão da pornografia tende a tornar mais numerosos os casos de opressão e exploração real das mulheres do que a proibição. Sendo assim, devemos proibi-la. Em primeiro lugar, não é claro que a pornografia funcione como um incentivo realmente efetivo cujo resultado seja tratar as mulheres de modo inadequado. É plausível supor que o tratamento que a esmagadora maioria dos homens que consome pornografia dispensa às mulheres é independente da pornografia com que têm contato. Há, é claro, o problema de saber qual o efeito que a pornografia tem sobre homens que já têm tendência a serem violentos com mulheres. Trata-se de um problema parecido com o de saber o efeito que os filmes violentos têm sobre pessoas agressivas. De qualquer maneira, um princípio razoável em discussões morais é que o ônus da prova cabe aos defensores da proibição. Cabe às feministas a apresentação de provas empíricas de que a formulação consequencialista do argumento é convincente.
Embora não pretenda citar o fato como um argumento decisivo, sabe-se que os EUA são os maiores produtores e consumidores de pornografia do mundo (e boa parte do que se produz nos EUA é precisamente aquilo que Dworkin e MacKinnon reprovam). Mesmo assim, o país não faz parte do rol de locais com problemas especialmente graves de violência e outras formas de destrato contra as mulheres. Outro bom exemplo é a Suécia. Este país escandinavo tem há décadas uma legislação liberal a respeito do consumo de pornografia e ao mesmo tempo ostenta o honroso título de ser um dos países com mais igualdade de gênero. Menciono estes fatos apenas para tornar minha posição mais plausível, pois as feministas ainda poderiam objetar que o baixo grau de violência contra as mulheres nesses lugares se deve a características sociais benéficas independentes, e que é justamente a pornografia a responsável por parte da pouca, porém existente, violência contra as mulheres. Por fim, há o problema empírico de separar casos isolados de tendências gerais. Embora em certos casos possamos dizer que um filme pornográfico influenciou uma atitude reprovável qualquer, essa facilidade desaparece quando tentamos estabelecer alterações estatísticas gerais.

Segundo argumento

O argumento agora tratado é oferecido como uma objeção àqueles que defendem a pornografia com base na ideia de que censurá-la é uma forma de tolher a liberdade de expressão de ideias. Segundo o argumento, a pornografia não é um caso de expressão e portanto não deve ser protegida como tal. Bom, se a pornografia não é um caso de expressão, não faria sentido condená-la pelo que ela expressa. E se não expressa coisa alguma, não se pode supor que as ideias presentes nesse tipo de material têm potencial para prejudicar a generalidade das mulheres. Assim, o passo seguinte é afirmar que as mulheres, ao fazerem pornografia, são submetidas a um tratamento humilhante. Dessa forma, é papel do poder público intervir na produção de pornografia. Uma resposta ao argumento pode ser formulada da seguinte maneira: podemos coibir eventuais humilhações sofridas por, digamos, atrizes pornô, sem arranhar a produção e o consumo de pornografia porque é simplesmente falso que as mulheres sempre serão humilhadas na produção de material pornográfico. Muitos produtores são extremamente profissionais e oferecem aos atores um bom ambiente de trabalho.
Podemos coibir os abusos da mesma forma que estabelecemos punições a crimes como assédio moral e sexual em escritórios, lojas e fábricas. Pode-se, no entanto, reabilitar a tese de que há ideias em materiais pornográficos e ponderar que as formas de sexo ali representadas (como transar com três homens ao mesmo tempo ou levar tapas) retratam as mulheres no papel de humilhadas. No entanto, há uma diferença significativa entre retratar uma situação em que a mulher é humilhada e ela o ser de fato, tal como há uma diferença entre retratar uma situação em que um homem apanha na rua e uma em que ele de fato apanha. Temos, como vimos, recursos para coibir a humilhação real em sets pornográficos. Por isso, não parece uma boa ideia patrulhar cenas pornográficas desempenhadas em comum acordo entre as partes devido à maneira como as mulheres são retratadas. Quem não gostar de uma maneira particular de retratar as mulheres não precisa de assistir à obra.
De mais a mais, nem sempre é fácil estabelecer quais tipos de práticas sexuais retratariam uma forma humilhante de tratamento. Desconfio que muito do que se considera humilhante reflete a falta de imaginação sexual de quem ajuíza. Basta visitar uma casa de swing para perceber que a imaginação humana no que diz respeito ao sexo parece ser ilimitada. E sim, isso inclui tapas, chicotes, puxões de cabelo, bukkake, anal giratório, dupla penetração (no caso das mulheres mais experientes, tripla) e outras saudáveis formas de socialização.

Terceiro argumento

Por fim, há o seguinte argumento: devemos acabar com a pornografia porque um dos principais fatores que fazem as mulheres se dedicarem a essa atividade é a falta de perspectiva econômica. Como fazer isso? Dando às mulheres hipóteses de ascensão social. Trata-se, portanto, de uma ação indireta contra a pornografia. Penso que embora seja uma boa ideia possibilitar a ascensão social das mulheres, o argumento inclui uma ideia de fundo que é falsa. A ideia é que uma das razões pelas quais devemos dar às mulheres melhores condições é incentivá-las a não entrar na indústria pornográfica, presumivelmente porque o ofício de profissional da pornografia é digno de reprovação. Por quê? O que faz que o trabalho de uma atriz pornô seja menos digno do que o desempenhado por um padeiro, coveiro, professor de filosofia ou padre? Penso haver aqui um caso de racionalização de preconceitos. Além disso, o argumento negligencia um fator importante: pode ser que, tal como a atriz Mônica Mattos, a maioria das mulheres do ramo façam o que fazem porque assim escolheram. 2
E da mesma forma que as mulheres podem procurar a pornografia por razões econômicas, podem se dedicar ao estimulante ofício de atendentes do McDonald’s (não deixa de ser um fato curioso não haver um argumento sobre as mulheres e o McDonald’s). Devemos apoiar as mulheres porque os interesses delas em uma vida plena, realizada e feliz contam. Possibilitar a ascensão social nada tem a ver com a pornografia em particular.


Aluízio Couto
Ensaio realizado no âmbito da disciplina electiva sobre liberdade de expressão leccionada por Desidério Murcho na UFOP em 2012.

Notas

  1. Cf. The Telegraph. Algumas estatísticas relacionadas à pornografia e respectivas fontes primárias podem ser achadas no seguinte endereço: http://internet-filter-review.toptenreviews.com/internet-pornography-statistics.html↩︎
  2. A entrevista de Mônica Mattos em que ela afirma que é atriz pornô porque assim o quis livremente foi dada ao apresentador Jô Soares e está no seguinte endereço: http://www.youtube.com/watch?v=OTjOtQiyric↩︎

Referências

  • Cristaldo, Janer. (1973) O paraíso Sexual Democrata. Rio de Janeiro: Editora Americana.
  • MacKinnon, Catharine (1987) “Not a Moral Issue”, in Feminism Unmodified. Cambridge, MA: Harvard University Press, pp. 146–162.
  • MacKinnon, Catharine (1987) “Francis Biddle’s Sister: Pornography, Civil Rights and Speech”, in Feminism Unmodified. Cambridge, MA: Harvard University Press, pp. 163–197.
  • Mill, John Stuart (1859) Sobre a Liberdade. Trad. de Pedro Madeira. Lisboa: Edições 70, 2006.
  • Warburton, Nigel (2009) Liberdade de Expressão: Uma Breve Introdução. Trad. de Vítor Guerreiro. Lisboa: Gradiva, 2015.
  • West, Caroline (2012) “Pornografia e Censura”, trad. de Desidério Murcho. Crítica, 31 de Maio de 2016.

A Concentração De CO2 Ultrapassou Definitivamente As 400 Ppm

Artigo De José Eustáquio Diniz Alves

Curva de Keeling: médias mensais e tendência anual de concentração de CO2

A concentração de gases de efeito estufa (GEE) ultrapassou o limiar de 400 partes por milhão e atingiu um perigoso ponto de não retorno. Nos 800 mil anos antes da revolução industrial a concentração de CO2 na atmosfera ficou abaixo de 280 partes por milhão (ppm). Ou seja, em cada um milhão de moléculas de ar no planeta, havia menos de 280 do principal gás de efeito estufa. As medições com base no estudo do gelo, mostram que em 1860 a concentração atingiu 290 ppm. Em 1900 estava em 295 ppm. Chegou a 300 ppm em 1920 e atingiu 310 ppm em 1950.
Em 1958, Charles Keeling, instalou no alto do vulcão Mauna Loa o primeiro equipamento para medir as concentrações de CO2 na atmosfera. A pesquisa tinha como objetivo comprovar a tese de um professor dele de que o CO2 produzido por atividades humanas estava se acumulando progressivamente no ar e aquecendo o planeta. A partir de uma série de dados mensais da concentração de CO2, Charles elaborou um dos gráficos mais famosos da história climática, a chamada curva de Keeling (como mostrado na figura acima).
Com base nos dados do laboratório de Mauna Loa, constata-se que a concentração de CO2 na atmosfera, na média mensal, chegou a 399,76 partes por milhão (ppm) em maio de 2013 e só ultrapassou a barreira de 400 ppm no ano seguinte. Em abril de 2014 a concentração de CO2 ficou em 401,34 ppm, passou para 401,88 ppm em maio e caiu para 401,20 ppm em junho de 2014. Mas como a concentração segue um padrão sazonal, ao longo do ano, com os picos acontecendo no mês de maio e os vales acontecendo nos meses de setembro, a média anual de 2014 foi de 398,61 ppm.
Em 2015, a marca das 400 ppm foi ultrapassada em 8 dos 12 meses, sendo fevereiro (400,28), março (401,54), abril (403,28), maio (403,96), junho (402,80), julho (401,31), novembro (400,16) e dezembro (401,85). Na média anual, 2015 foi o primeiro ano a ultrapassar a barreira simbólica e marcou a cifra de 400,83 ppm.
O ano de 2016 vai ser o primeiro a ultrapassar a marca de 400 ppm em todos os meses e em todas as semanas. Somente no dia 29 de agosto a concentração de CO2 ficou abaixo da marca histórica e marcou 399,46 ppm. Nos demais 364 dias do ano a concentração se manteve acima de 400 ppm, com o recorde no dia 10 de abril com 409,34 ppm. A semana de 10 a 16 de abri teve a marca recorde semanal de 408,69 ppm e o mês de maio de 2016 teve o recorde mensal de 407,7 ppm. Houve queda nos meses seguintes e o mês de agosto teve média de 402,25 ppm.
Nos primeiros dias de setembro a concentração de CO2 ficou em 400,98 ppm. Na semana de 5 a 11 de setembro ficou em 400,97 ppm. Na última semana de setembro a concentração ficou em 400,72 ppm, a menor média semanal do ano. Na média de setembro de 2016, a concentração atingiu 401,03 ppm, o nível mensal mais baixo para o ano de 2016.

médias diárias, semanais e mensais de concentração de CO2

No mês de outubro a concentração mensal voltou a subir e atingiu a média mensal de 401,57 ppm. Foi o primeiro mês de outubro com concentração acima de 400 ppm. Seguindo as tendências sazonais, a concentração de CO2 deve subir até maio de 2017, quando, provavelmente, deve ultrapassar a marca de 410 ppm. O que mostra que o mundo está indo para uma situação perigosa e sem precedentes pelo menos nos últimos 800 mil anos.
Quanto mais sobe a Curva de Keeling, mais aumenta o aquecimento global e mais rápido acontece o degelo do Ártico, da Groenlândia, da Antártica e dos glaciares. Tudo isto provoca a elevação do nível dos oceanos que pode ficar, em um futuro não muito distante, de 6 a 9 metros acima da média do século XIX. O excesso de dióxido de carbono também provoca acidificação dos solos e das águas. Assim, o aquecimento global, gerado pela emissão de gases de efeito estufa (GEE) passa a ser a maior ameaça para a continuidade do processo civilizatório e a permanência da vida na Terra tal como evoluiu nas últimas dezenas de milhões de anos.

Dióxido de Carbono ultrapassa definitivamente as 400 partes por milhão

Ultrapassar o limite de 350 ppm já é um grande risco. Ir além de 410 ppm é um risco muito maior, pois o Planeta pode repetir a temperatura do período Eemiano, que terminou a 115 mil anos atrás, quando a temperatura estava cerca de 2º C acima da média do século XX e havia muito menos gelo e o mar estava entre 6 e 9 metros acima dos níveis atuais. Para evitar uma catástrofe, o mundo vai ter não só que zerar as emissões, mas também sequestrar carbono para reduzir o efeito estufa.
Infelizmente, a eleição de Donald Trump para a presidência dos EUA deve agravar os problemas ambientais, enfraquecer o Acordo de Paris e deve aumentar as emissões de CO2, já que ele pretende incentivar o crescimento econômico e a indústria fóssil. A consultoria em inovação Lux Research, de Boston, projeta que os EUA devem emitir 3,4 bilhões de toneladas adicionais de CO2 caso Trump governe o país por oito anos e coloque em práticas os seus planos econômicos.
Artigo de Tobias Friedrich et. al., publicado na revista Science (09/11/2016) sugere que o clima da Terra poderia ser mais sensível aos gases de efeito estufa do que se pensava. Usando novo valor para a sensibilidade do clima à alta na concentração de CO2 na atmosfera, chegou-se ao cenário de que a alta na temperatura média global poderia variar de 4,8 a 7,4 graus Celsius em 2100 na comparação com os níveis pré-industriais. Se a temperatura da Terra subir nesses níveis, o aquecimento global poderia transformar o Planeta em um inferno.
O mundo corre perigo. O efeito estufa trará custos enormes e as sociedades podem não estar preparadas para pagar o alto preço de limpar no futuro a sujeira feita no passado e no presente. No ritmo atual, as gerações futuras vão receber uma herança maldita, que pode provocar uma significativa mobilidade social e ambiental descendente.
Referências:
Tobias Friedrich, Axel Timmermann, Michelle Tigchelaar, Oliver Elison Timm and Andrey Ganopolski.Nonlinear climate sensitivity and its implications for future greenhouse warming.
Science Advances, Vol. 2, no. 11, e1501923, 09 Nov 2016


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, 16/11/2016