"A liberdade de imprensa é a permissão de qualquer aleijado bater-se com um professor de esgrima." (Luís da Câmara Cascudo)

Da autonomia em política - Cornelius Castoriadis

A filosofia não é filosofia se não expressa um pensamento autônomo. Que significa autônomo? Isto é autônomo, "que se dá a si mesmo sua lei". Em Filosofia, está claro: dar-se a si mesmo sua lei, quer dizer estabelecer as questões e não aceitar autoridade alguma. Pelo menos a autoridade de seu próprio pensamento prévio.

O poder na era das redes sociais

A comunicação de masas é aquela que tem o potencial de chegar ao conjunto da sociedade e é caracterizada por uma mensagem que vai de um a muitos, com interatividade inexistente ou limitada. Autocomunicação de massas é aquela que vai de muitos para muitos, com interatividade, tempos e espaços variáveis, controláveis.

Hayek contra Keynes: o debate do século

As linhas divisórias que hoje cruzam pensamento econômico devem muito a este debate. Por exemplo, a análise do papel do Estado e da política na gestão econômica depende essencialmente desta polêmica.

O Califado contra o resto do mundo

Quem ganha e quem perde com o novo realinhamento geopolítico no Médio Oriente?

Colapso do petróleo e do sistema financeiro ameaça expropriar os fundos de pensão

Desde os resgates bancários de 2008 houve um debate produtivo sobre a necessidade de mudar o sistema e evitar os monstros bancários "grandes demais para falir", que tiveram que ser resgatados pelos governos.

sábado, 5 de maio de 2018

A aliança China-Índia (Chíndia) e a ascensão do século asiático

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Participação da China e Índia e da soma UE e EUA no PIB Mundial

A China e a Índia são os dois países mais populosos do mundo e os Estados Unidos (EUA) e a União Europeia (UE) são os dois maiores polos econômicos do mundo. Mas esta realidade vai mudar na próxima década. A China e a Índia (Chíndia) vão continuar como os países mais populosos (a Índia vai ultrapassar a China em termos demográficos) e se transformarão, também, no maior polo econômico.
O gráfico acima, com dados do FMI (abril de 2018) em poder de paridade de compra (ppp), mostra que o polo União Europeia (UE) e Estados Unidos (EUA) representavam 51,6% do PIB mundial em 1980, contra apenas 5,2% da Chíndia. Mas esta realidade mudou rapidamente e, em 2017, a dupla UE+EUA tinha apenas 31,8% do PIB mundial e a Chíndia 25,7%. Para 2023, as projeções do FMI apontam para 28,6% de UE+EUA e de 30,3% da Chíndia.
Durante pelo menos dois milênios, a China e a Índia foram responsáveis pela maior parte da economia mundial e ainda, em 1820, representavam cerca de 50% do PIB global. Após o início da Revolução Industrial e do domínio energético e militar, os países ocidentais tomaram a frente no processo de desenvolvimento econômico e passaram a ter um peso crescente no PIB mundial. Nos últimos dois séculos, os dois gigantes demográficos encolheram em termos econômicos e foram suplantados pelos países ocidentais.
Mas houve uma nova reviravolta nas últimas décadas e a China e a Índia voltaram a liderar o crescimento econômico global e devem formar o polo mais forte do PIB mundial já nos anos de 2020. A China saiu na frente e conseguiu dar um salto exponencial depois das reformas feitas por Deng Xiaoping, em 1979. A Índia acelerou o passo a partir dos anos de 1990. O gráfico abaixo, da CNN, mostra alguns dados econômicos e sociodemográficos dos dois países.

dados econômicos e sociodemográficos da China e da Índia

Embora China e Índia representem civilizações antigas e tenham vínculos seculares, nos tempos modernos os dois países enfrentam uma história de relacionamentos complicados. Desde 1950, os dois vizinhos (possuidores de arsenais nucleares) se envolveram em três conflitos militares em regiões fronteiriças em disputa. Outros pontos de discórdia incluem o ardente apoio de Pequim ao Paquistão, um arquirrival da Índia; enquanto o governo de Nova Délhi apoia o Dalai Lama, o líder espiritual tibetano exilado que é considerado um traidor separatista pelo governo chinês.
A competição econômica e estratégica entre a China – um estado de partido único governado pelos comunistas – e a Índia – a maior democracia do mundo – também se intensificou nos últimos anos, pois Pequim começou a expandir sua influência no tradicional quintal da Índia, especialmente com o lançamento do ambicioso plano de comércio global e infraestrutura, conhecido como Iniciativa “One Belt, One Road” (0BOR). Outros movimentos recentes que têm despertado forte suspeita na Índia vão desde o controle de um importante porto em Sri Lanka pela China e a assinatura de acordos comerciais inovadores com o Nepal, além da realização de operações antipirataria no oeste do Oceano Índico.
Mas apesar destas escaramuças, os dois países são tão grandes que seria impossível crescerem de forma autônoma, sendo que uma guerra, ou mesmo uma pequena hostilidade, poderia comprometer as metas individuais de progresso de cada um. Isto é ainda mais verdadeiro neste momento que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, inicial uma guerra comercial e adota o lema de “America First”. Uma união mais efetiva entre os dois gigantes do Oriente poderia mudar de vez o eixo econômico e político do mundo.
Assim, surpreendentemente, enquanto acontecia a esperada cúpula intercoreana entre o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, e o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, no dia 27 de abril de 2018 (quando anunciaram a intenção de retirar todas as armas nucleares da península coreana e assinar um acordo de paz até o fim deste ano) acontecia também uma cúpula entre o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e o presidente chinês, Xi Jinping, na cidade de Wuhan (dias 27 e 28 de abril). Foi a primeira vez que Xi recebeu um primeiro-ministro indiano fora de Pequim.
O encontro a sós, entre os dois, foi seguido de reuniões alargadas, passeio de barco no belo East Lake e um jantar no resort que era um dos favoritos do antigo líder chinês Mao Zedong. Segundo o comunicado, o encontro informal visava “passar em revista os desenvolvimentos nas relações bilaterais numa perspectiva estratégica e de longo prazo”. Narendra Modi vai viajar novamente até à China em junho para participar na conferência que reúne os oitos membros da Organização para a Cooperação de Xangai. Além da China, Rússia e Índia, o grupo inclui os Estados da Ásia Central do Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Uzbequistão e Paquistão.
Isto quer dizer que está em gestação uma aliança para a formação da potência Chíndia, que, por sua vez pretende estreitar os laços com a Rússia e os países da Eurásia. O jornal Times of India publicou um twitter do primeiro-ministro Modi, dizendo: “O Presidente Xi e eu trocaremos pontos de vista sobre uma série de questões de importância bilateral e global. Vamos discutir nossas respectivas visões e prioridades para o desenvolvimento nacional, particularmente no contexto da situação internacional atual e futura”.


Artigo de Fu Xiaoqiang, no jornal ligado ao governo chinês, China Daily (26/04/2018) apresentou o título ilustrativo: “Cúpula pode anunciar ‘Século da Ásia’”. Ele diz que a reunião será um novo marco nas relações China-Índia, infundindo novo vigor nos laços bilaterais e inaugurando uma nova fase de cooperação. “O século da Ásia não virá sem o desenvolvimento da China e da Índia”, disse há 30 anos o ex-líder chinês Deng Xiaoping a Rajiv Gandhi, então primeiro-ministro da Índia. E há 15 anos, Atal Bihari Vajpayee, que era o primeiro-ministro indiano naquele país, enfatizou: “O século 21 se tornará o século da Ásia se a China e a Índia puderem construir um relacionamento estável e duradouro”.
Artigo de Laura Zhou (28/04/2018), no jornal South China Morning Post (SCMP), mostra que o encontro em Wuhan serviu para que Xi Jinping e Narendra Modi iniciassem um trabalho conjunto para melhorar a comunicação militar para evitar a repetição de conflitos ao longo de uma fronteira compartilhada de cerca de 3.500 quilômetros. O presidente chinês e o primeiro-ministro indiano enfatizaram que as duas nações devem trabalhar para aprofundar a confiança mútua e defender uma economia global aberta, apoiando um sistema comercial multilateral – uma crítica velada às ações comerciais protecionistas do presidente dos EUA, Donald Trump. O artigo cita a agência estatal Xinhua sobre os desdobramentos da reunião. “No próximo passo, os dois países devem fazer um plano abrangente de cooperação e melhorar ainda mais a comunicação estratégica para permitir a negociação oportuna sobre as grandes questões globais.”
Ou seja, a reunião reforçou a ideia de que a China e a Índia devem ser “bons vizinhos e bons amigos”. Que os dois países são o motor do crescimento econômico e devem investir mais na cooperação bilateral. China e Índia já fazem parte do grupo BRICS. Mas um relacionamento bilateral mais estreito é uma novidade. Além disto, a união da China e da Índia com a Rússia (RIC) pode formar um triângulo estratégico que aceleraria o fim da hegemonia Ocidental e o início da hegemonia do Oriente.
Segundo projeções da consultoria PwC, que atualiza anualmente as suas projeções sobre a economia internacional e o desempenho dos principais países no relatório “The World in 2050”, o eixo da economia global vai se deslocar para a Ásia. Em 2016, medido em poder de paridade de compra (ppp), os quatro maiores países eram China, com um PIB de US$ 21,3 trilhões, EUA com US$ 18,6 trilhões, Índia com US$ 8,7 trilhões e Japão com US$ 4,9 trilhões. Esta ordem vai se manter até 2030. Porém, em 2050 a China ampliará a diferença e terá um PIB de US$ 58,5 trilhões, a Índia assumirá a segunda colocação com US$ 44,1 trilhões, os EUA cairão para o terceiro lugar com PIB de US$ 34,1 trilhões e a Indonésia ocupará a quarta colocação com US$ 10,5 trilhões.
O gráfico abaixo mostra que o Brasil que estava em 7º lugar em 2016, com PIB de US$ 3,1 trilhões deve passar para o oito lugar em 2030 e subir para o quinto lugar em 2050, com PIB de US$ 7,5 trilhões. Entre os 32 países da lista abaixo, os dois últimos lugares são ocupados atualmente por Bangladesh e Vietnã. Porém, Bangladesh que estava em 31º lugar, em 2016, com PIB de US$ 0,63 trilhão, deve passar para o 23º lugar com PIB de US$ 3,1 trilhões em 2050. Mas o maior avanço deve acontecer com o Vietnã que estava em último lugar na lista de 32 países em 2016, com PIB de US$ 0,60 trilhão e deve saltar para 20º lugar em 2050, com PIB de US$ 3,2 trilhões.
Das 25 maiores economias em 2050, 13 estarão na Ásia. Mas o que chama mais a atenção é que a economia da China e da Índia (Chíndia) será 3 vezes maior do que a economia dos EUA em 2050. A economia conjunta de Rússia, Índia e China (RIC) será pouco menor do que o conjunto das outras 29 maiores economias (que inclui os países do G7: EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá).

o ranking do PIB das 32 maiores economias do mundo

Indubitavelmente, os países mais dinâmicos do mundo estão na Eurásia e a China e seus aliados se preparam para colocar em prática um grande plano de infraestrutura (OBOR) para aumentar a produtividade e a integração destes países. Se o século XIX foi do Reino Unido e o século XX foi dos EUA, o século XXI será da China, da Índia (da Rússia) e da Ásia, com destaque para as duas primeiras (e com grande peso dos regimes autoritários e autocráticos).
Parece que a preponderância da Ocidentalização vai ser superada pela ascensão do século asiático e pela Orientalização do mundo. O certo é que o centro dinâmico das novas tendências globais deve passar pela fortaleza da Chíndia. O encontro informal entre o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e o presidente chinês, Xi Jinping, na cidade de Wuhan, em 27 e 28 de abril, foi apenas mais um passo na direção do fortalecimento da região do sol nascente e do enfraquecimento relativo da região do sol poente.
Referências:
ALVES, JED. A retomada histórica das economias da China e da Índia, Ecodebate, 02/10/2017

Steven Jiang. Friday’s other big summit: Why the Modi-Xi meeting matters, CNN, April 26, 2018

Laura Zhou. China, India agree to improve military communication for border peace. South China Morning Post (SCMP), 28 April, 2018


José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 04/05/2018

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Cientistas querem sequenciar DNA de toda a vida na Terra

Projeto pretende sequenciar o genoma de 1,5 milhão de espécies de plantas, animais, fungos e outros organismos eucariontes.
Consórcio com participação da FAPESP quer sequenciar o DNA de toda a vida na Terra
(foto: Andreas Weith / Wikimedia)
Elton Alisson  |  Agência FAPESP – Estima-se que existam na Terra entre 10 milhões e 15 milhões de espécies eucarióticas, como plantas, animais, fungos e outros organismos cujas células têm um núcleo que abriga seu DNA cromossômico. Mas apenas 14% deles (2,3 milhões) são conhecidos e menos de 0,1% (15 mil) tiveram seu DNA sequenciado completamente.
O conhecimento dessa pequena fração da biodiversidade terrestre resultou em enormes avanços na agricultura, medicina e indústrias baseadas em biotecnologia, além de melhorias nas estratégias para conservação de espécies ameaçadas de extinção, avaliam pesquisadores da área.
A fim de preencher a enorme lacuna no conhecimento e explorar o potencial científico, econômico, social e ambiental da biodiversidade eucariótica terrestre, um consórcio internacional pretende sequenciar, catalogar e caracterizar o genoma de todas as espécies eucarióticas da Terra ao longo de 10 anos.
Os objetivos e os desafios da iniciativa, denominada Projeto BioGenoma da Terra (EBP, na sigla em inglês), foram descritos em um artigo publicado nesta segunda-feira (23/04) na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), da Academia Norte-Americana de Ciências.
O projeto terá participação da FAPESP no âmbito dos programas de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade (BIOTA) e de Pesquisa em eScience e Data Science.
“A participação da FAPESP no Projeto BioGenoma da Terra abre para pesquisadores no Estado de São Paulo a possibilidade de participarem em um dos projetos de pesquisa mais ousados da atualidade. Além disso, sendo o Brasil um dos países mais biodiversos, os objetivos podem contribuir de forma muito destacada para o país”, disse Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP.
O projeto é considerado um dos mais ambiciosos da história da biologia e, na avaliação de seus coordenadores, só será possível realizá-lo agora em razão dos avanços na tecnologia de sequenciamento genômico, computação de alto desempenho, armazenamento de dados e bioinformática e da queda de custo do sequenciamento de genoma. E, além disso, da valorização dos biobancos – locais que armazenam a biodiversidade de forma catalogada, como museus, herbários e centros de coleção de culturas.
Com o custo atual de US$ 1 mil para sequenciar o genoma de um vertebrado de tamanho médio caindo, será possível sequenciar, ao custo aproximado de US$ 4,7 bilhões, o genoma de todo o 1,5 milhão de espécies conhecidas de eucariotos. E também de entre 10 e 15 milhões de espécies desconhecidas – a maioria deles organismos unicelulares, insetos e pequenos animais nos oceanos –, estimam os coordenadores do projeto.
O custo, que inclui gastos com instrumentos de sequenciamento, coletas de amostras, armazenamento, análise, visualização e disseminação de dados e gerenciamento de projetos, é comparável ao investido no Projeto Genoma Humano, iniciado em 1990 e concluído em 2003, que custou US$ 4,8 bilhões.
Os investimentos no Projeto Genoma Humano tiveram enormes impactos não apenas na medicina humana, mas também na medicina veterinária, biociência agrícola, biotecnologia, ciência ambiental, energia renovável, ciência forense e na biotecnologia industrial. Um relatório de 2013 do Battelle Memorial Institute estimou o benefício financeiro do projeto para a economia dos Estados Unidos em cerca de US$ 1 trilhão.
Após a conclusão do Projeto Genoma Humano, muitos organismos de importância biomédica, agrícola e industrial tiveram seus genomas sequenciados. E, em 2015, um grupo de pesquisadores das universidades da Califórnia em Davis e de Illinois e do Instituto Smithsonian, nos Estados Unidos, organizou uma reunião com representantes de universidades, instituições de pesquisa e agências de fomento de diferentes países – que deu origem ao Projeto BioGenoma da Terra – em que decidiram que um projeto ainda mais ambicioso era necessário: sequenciar o DNA de toda a vida complexa na Terra.
O professor de evolução e ecologia na Universidade da Califórnia em Davis e presidente do grupo de trabalho que originou o projeto, Harris Lewin, estima que os impactos econômicos do projeto BioGenoma da Terra poderão ser semelhantes ou até mesmo superar os do Projeto Genoma Humano. Com a diferença de que serão distribuídos globalmente e, principalmente, para países em desenvolvimento, como o Brasil, que detém grande parte da biodiversidade mundial, ponderou.
“O Projeto BioGenoma da Terra lançará as bases científicas para uma nova bioeconomia que tem o potencial de trazer soluções inovadoras para problemas de saúde, ambientais, econômicos e sociais para pessoas em todo o mundo, especialmente em países subdesenvolvidos que possuem ativos de biodiversidade significativos”, disse Lewin em comunicado à imprensa.
Em agosto de 2017, com o objetivo de envolver a comunidade científica brasileira no projeto, a FAPESP e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) organizaram o Workshop Biodiversity and Biobank. Realizado no auditório da FAPESP, o evento contou com a presença de Lewin e de pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos.
Participaram do workshop curadores de diversas coleções biológicas brasileiras, que se reuniram com representantes do EBP e da Global Genome Biodiversity Network para discutir necessidades e entraves para a participação brasileira nessas iniciativas (leia mais em: http://agencia.fapesp.br/26121).
Potenciais impactos
Na avaliação dos coordenadores do EBP, os resultados do sequenciamento do genoma de todas as espécies eucarióticas existentes na Terra possibilitarão o desenvolvimento de melhores ferramentas de conservação de espécies e ecossistemas ameaçados – particularmente aqueles afetados pelas mudanças climáticas – e de preservação e melhoria de serviços ecossistêmicos.
O Índice Planeta Vivo – que mede as tendências da diversidade biológica da Terra – indica que entre 1970 e 2017 ocorreu um declínio de 58% das populações de vertebrados do planeta, e a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) estima que entre 23 mil e 80 mil espécies pesquisadas hoje estão se aproximando da extinção.
Estima-se que até 50% das espécies podem se extinguir até 2050, principalmente devido ao uso intensivo de recursos naturais, destacam os autores do artigo.
“O Projeto BioGenoma da Terra nos dará uma visão sobre a história e a diversidade da vida e nos ajudará a entender melhor como conservá-la”, disse Gene Robinson, diretor do Instituto de Biologia Genômica da Universidade de Illinois e copresidente do grupo de trabalho que deu origem ao projeto.
O grupo de trabalho também avalia que o projeto será essencial para o desenvolvimento de novos medicamentos para doenças infecciosas e hereditárias, bem como para a criação de novos combustíveis biológicos sintéticos e fontes de alimentos para a população humana, que deve atingir 9,6 bilhões de pessoas até 2050.
“Estamos no meio do sexto grande evento de extinção da vida em nosso planeta, que não só ameaça as espécies selvagens, mas também representa um perigo para a oferta global de alimentos”, ressaltam os autores do artigo na PNAS.
A fim de atingir os objetivos de sequenciar o genoma da biodiversidade eucariótica da Terra e disponibilizar as informações em um repositório digital aberto, o projeto está estabelecendo uma série de parcerias com grupos de cientistas que trabalham com diferentes grupos de organismos. Entre eles, o Global Genome Biodiversity Network, o Vertebrate Genomes Project, o Plant Genome Projects e o 5000 Insect Genomes Project.
Alguns dos principais desafios do projeto serão coordenar essas iniciativas de sequenciamento genômico em andamento, desenvolver uma estratégia global para coleta e preservação adequada de exemplares para permitir a produção de conjuntos de genomas de alta qualidade e criar ferramentas de computação que possibilitem interpretar as sequências genômicas armazenadas. E, sobretudo, disponibilizá-las de modo organizado para a comunidade científica e para a sociedade.
“O sequenciamento do genoma dos organismos talvez represente a etapa mais fácil do projeto. Os maiores desafios serão ter amostras de material com a qualidade necessária e ferramentas que possibilitem interpretar a enorme quantidade de dados que serão gerados”, disse Marie-Anne Van Sluys, professora do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), que integra o grupo de trabalho que coordena do projeto.
Os pesquisadores estimam que o sequenciamento do genoma dos organismos deverá exigir cerca de 1 exabyte (1 bilhão de gigabytes) de capacidade de armazenamento digital e gerará desafios e oportunidades para o desenvolvimento de algoritmos computacionais que possibilitem visualizar, comparar e entender a conexão das sequências do genoma com a evolução dos organismos e com os ecossistemas. Além disso, poderá dar origem a novas tecnologias para coleta de amostras utilizando drones e veículos terrestres e aquáticos autônomos equipados com câmeras de alta resolução.
“O projeto representa uma oportunidade para nós, pesquisadores no Brasil, de criar e inovar não só em sequenciamento de genoma, mas também em análise e visualização de dados, coleta, preservação de amostras e diversos outros fatores”, avaliou Sluys.
O artigo Earth BioGenome Project: Sequencing life for the future of life (doi: 10.1073/pnas.1720115115), de Lewin e outros, pode ser lido por assinantes da revista PNAS em www.pnas.org/cgi/doi/10.1073/pnas.1720115115.
 

Desafios da Nação reúne propostas para o crescimento sustentado

Publicação gratuita lista caminhos para a promoção do desenvolvimento por meio do aumento da produtividade. 
(imagem: Ipea)

Agência FAPESP – O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) lançou o projeto Desafios da Nação, que tem como foco a promoção do desenvolvimento nacional por meio da elevação da produtividade.
Segundo o Ipea, o projeto contempla quatro objetivos convergentes: assegurar o aumento contínuo da renda real por habitante; promover a plena inclusão social; desenvolver e absorver tecnologias estruturantes; e promover em todas as áreas socioeconômicas e estruturais a produtividade e a competitividade dos fatores de produção.
“Trata-se de um trabalho com um único objetivo que unifica todos os demais considerados importantes: triplicar a produtividade dos fatores de produção em uma geração”, disse Ernesto Lozardo, presidente do Ipea.
Segundo o instituto, os estudos que serviram de base ao projeto estimam que é factível prever a recuperação dos níveis de investimentos privados para cerca de 3% ao ano; elevar a taxa de produtividade de 0,5% ao ano para 1,5% ao ano e a taxa de crescimento para em torno de 3% ao ano, no período de uma geração.
As propostas contidas no projeto vão subsidiar a elaboração do Plano Plurianual (PPA) e partem da premissa de realização das reformas fiscal, trabalhista, previdenciária e tributária. Ao Ipea, em conjunto com equipes do Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão, cabe o papel de monitorar a implementação das medidas propostas.
A publicação contém proposições relativas a 16 grandes áreas: crescimento econômico, regime fiscal, mercado de trabalho, reforma da previdência, reforma tributária, financiamento do desenvolvimento, educação básica, educação superior, saúde, risco regulatório, modelo de concessão, pesquisa e inovação, petróleo e gás, energias renováveis, inserção internacional e sustentabilidade.
O projeto ressalta a importância da oferta de postos de trabalho mais qualificados. As recomendações para a melhoria da educação básica passam pelo aprimoramento das bases curriculares, tornando-as mais flexíveis e adaptáveis, pela mudança na formação dos docentes e revisão de sua carreira e pelo acompanhamento e avaliação de iniciativas locais bem-sucedidas. O ensino técnico também deve ser mais flexível e próximo das necessidades do mercado de trabalho.
Para a educação superior, recomenda-se avaliar a viabilidade de implementação, no Brasil, do chamado "modelo de Bolonha", que consiste de três ciclos distintos de formação: cursos vocacionais e preparatórios para graus universitários, formação profissional e estudos avançados. Pesquisa e Inovação foram igualmente analisadas. Dentre as propostas, estão a possibilidade da celebração de acordos de cooperação e de remuneração adicional ao docente com características empreendedoras, além da ampliação do investimento público em pesquisa e desenvolvimento orientado a resultados.
Desafios da Nação destaca que há grande potencial para aceleração do crescimento econômico a partir de reformas fiscais que envolvam mudanças no sistema tributário e no padrão de despesas públicas, mantendo o equilíbrio orçamentário.
Ao todo, a publicação envolveu 40 pesquisadores do Ipea e 37 pesquisadores externos, com a realização de 32 oficinas temáticas sobre os temas trabalhados e 36 artigos de apoio.
Desafios da Nação está disponível para download gratuito, acompanhada de dois volumes com artigos de apoio.

Marx ainda é relevante?

No aniversário de 200 anos do nascimento de Karl Marx em 5 de maio de 1818, não é absurdo sugerir que suas previsões foram falsificadas, suas teorias desacreditadas e suas ideias tornadas obsoletas. Então, por que devemos nos importar com seu legado no século XXI?

PETER SINGER

Vintage stamp with German creator of communism Karl Marx


MELBOURNE - Desde 1949, quando os comunistas de Mao Zedong triunfaram na guerra civil da China, até o colapso do Muro de Berlim, 40 anos depois, o significado histórico de Karl Marx era insuperável. Quase quatro em cada dez pessoas da Terra viviam sob governos que se diziam marxistas e, em muitos outros países, o marxismo era a ideologia dominante da esquerda, enquanto as políticas da direita eram frequentemente baseadas em como combater o marxismo.

Uma vez que o comunismo entrou em colapso na União Soviética e seus satélites, no entanto, a influência de Marx despencou. No aniversário de 200 anos do nascimento de Marx em 5 de maio de 1818, não é absurdo sugerir que suas previsões foram falsificadas, suas teorias desacreditadas e suas ideias tornadas obsoletas. Então, por que devemos nos importar com seu legado no século XXI?

A reputação de Marx foi severamente prejudicada pelas atrocidades cometidas por regimes que se diziam marxistas, embora não haja evidências de que o próprio Marx tenha apoiado tais crimes. Mas o comunismo entrou em colapso em grande parte porque, como praticado no bloco soviético e na China sob Mao, não conseguiu proporcionar às pessoas um padrão de vida que pudesse competir com o da maioria das pessoas nas economias capitalistas.

Essas falhas não refletem falhas na representação de Marx do comunismo, porque Marx nunca a descreveu: ele não mostrou o menor interesse nos detalhes de como uma sociedade comunista funcionaria. Em vez disso, os fracassos do comunismo apontam para uma falha mais profunda: a falsa visão de Marx sobre a natureza humana.

Não há, pensou Marx, uma natureza humana inerente ou biológica. A essência humana é, ele escreveu em suas Teses sobre Feuerbach, "o conjunto das relações sociais". Segue-se que, se você muda as relações sociais - por exemplo, mudando a base econômica da sociedade e abolindo a relação entre capitalista e trabalhador - as pessoas na nova sociedade serão muito diferentes do que eram no capitalismo.

Marx não chegou a essa convicção através de estudos detalhados da natureza humana sob diferentes sistemas econômicos. Era, antes, uma aplicação da visão de Hegel da história. Segundo Hegel, o objetivo da história é a liberação do espírito humano, que ocorrerá quando todos entendermos que somos parte de uma mente humana universal. Marx transformou esse relato “idealista” em um “materialista”, no qual a força motriz da história é a satisfação de nossas necessidades materiais, e a liberação é alcançada pela luta de classes. A classe trabalhadora será o meio para a libertação universal, porque é a negação da propriedade privada e, portanto, dará início à propriedade coletiva dos meios de produção.

Uma vez que os trabalhadores possuíssem coletivamente os meios de produção, pensou Marx, as "fontes da riqueza cooperativa" fluiriam mais abundantemente do que as da riqueza privada - tão abundantemente, de fato, que a distribuição deixaria de ser um problema. É por isso que ele não viu necessidade de entrar em detalhes sobre como a renda ou os bens seriam distribuídos. Na verdade, quando Marx leu uma plataforma proposta para uma fusão de dois partidos socialistas alemães, ele descreveu frases como "distribuição justa" e "direito igual" como "lixo verbal obsoleto". Eles pertenciam, ele pensou, a uma era de escassez que a revolução terminaria.

A União Soviética provou que abolir a propriedade privada dos meios de produção não altera a natureza humana. A maioria dos humanos, em vez de se dedicar ao bem comum, continua a buscar poder, privilégio e luxo para si e para aqueles próximos a eles. Ironicamente, a mais clara demonstração de que as fontes da riqueza privada fluem mais abundantemente do que as da riqueza coletiva pode ser vista na história de um grande país que ainda proclama sua adesão ao marxismo.

Sob Mao, a maioria dos chineses vivia na pobreza. A economia da China começou a crescer rapidamente somente depois de 1978, quando o sucessor de Mao, Deng Xiaoping (que proclamava que “não importa se um gato é preto ou branco, contanto que pegue ratos”) permitiu que empresas privadas fossem estabelecidas. As reformas de Deng acabaram tirando 800 milhões de pessoas da pobreza extrema, mas também criaram uma sociedade com maior desigualdade de renda do que qualquer país europeu (e muito maior do que os Estados Unidos). Embora a China ainda afirme que está construindo “socialismo com características chinesas”, não é fácil ver o que é socialista, quanto mais marxista, sobre sua economia.

Se a China não é mais significativamente influenciada pelo pensamento de Marx, podemos concluir que na política, como na economia, ele é de fato irrelevante. No entanto, sua influência intelectual permanece. Sua teoria materialista da história, de forma atenuada, tornou-se parte de nossa compreensão das forças que determinam a direção da sociedade humana. Nós não temos que acreditar que, como Marx disse uma vez incautamente, o moinho de mão nos dá uma sociedade com senhores feudais, e o moinho a vapor uma sociedade com capitalistas industriais. Em outros escritos, Marx sugeriu uma visão mais complexa, na qual há interação entre todos os aspectos da sociedade.

O aspecto mais importante da visão de Marx da história é negativo: a evolução de ideias, religiões e instituições políticas não é independente das ferramentas que usamos para satisfazer nossas necessidades, nem das estruturas econômicas que organizamos em torno dessas ferramentas e dos interesses financeiros. Eles criam. Se isso parece óbvio demais para ser declarado, é porque internalizamos essa visão. Nesse sentido, somos todos marxistas agora.

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Peter Singer é professor de Bioética na Universidade de Princeton, professor Laureado da Escola de Estudos Históricos e Filosóficos da Universidade de Melbourne e fundador da organização sem fins lucrativos The Life You Can Save. 


quinta-feira, 3 de maio de 2018

Cai o número de pessoas ocupadas e com carteira assinada no Brasil em 2018

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Todo ser humano tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições
justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego”
Artigo 23 da Declaração Universal dos Direitos Humanos (10/12/1948)

(1) - Cai o número de pessoas ocupadas e com carteira assinada no Brasil em 2018

O Brasil, carente de trabalho, oficialmente, já saiu da recessão desde o último trimestre de 2016. Porém, nunca houve uma “recuperação” econômica tão fraca e uma crise do mercado de trabalho tão profunda. Enquanto os bancos e o mercado financeiro projetam um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2,5% a 3% em 2018, os dados sobre as condições de emprego são preocupantemente ruins.
Os últimos dados da PNAD Contínua do IBGE, divulgados na sexta-feira antes do 1º de maio (dia do trabalhador), mostram que a taxa de desocupação no trimestre móvel de janeiro a março de 2018 foi de 13,1%, significando que o desemprego aberto atingiu 13,7 milhões de trabalhadores. Se considerarmos a taxa composta de subutilização da força de trabalho (medida mais ampla do desperdício do potencial produtivo do país) o percentual foi de 23,6% no 4º trimestre de 2017, representando o desperdício do potencial de 26,4 milhões de pessoas aptas a trabalhar. Ainda não foi divulgada a taxa composta para o primeiro trimestre de 2018, mas com toda a certeza o número de pessoas desempregadas e desalentadas deve ultrapassar 27 milhões de trabalhadores. Este alto volume de pessoas não vão ter acesso ao direito humano básico que é ter uma ocupação para se auto sustentar.
Na série da PNADC que começou em 2012, o recorde de pessoas ocupadas foi de 92,9 milhões de pessoas no quarto trimestre de 2014. De lá para cá, este número caiu, chegou a 92,1 milhões no quarto trimestre de 2017 e diminuiu para 90,6 milhões no primeiro trimestre de 2018. Esta queda no número da força de trabalho ocupada é ainda mais preocupante quando se considera que a população total do país passou de 199,2 milhões de habitantes em 2012 para 209,2 milhões em 2018. Assim, a taxa de ocupação que chegou ao pico de 57% em 2014 caiu para 53,6% no primeiro trimestre de 2018, conforme mostra o gráfico acima.
Outro dado que demonstra a fragilidade do mercado de trabalho e representa uma perda de direitos de proteção social é a queda do número de empregos com carteira assinada, que estava em 36,9 milhões no segundo trimestre de 2014 e caiu para 32,9 milhões no primeiro trimestre de 2018, conforme mostra o gráfico abaixo. A recessão fez o Brasil perde quase 4 milhões de empregos com carteira assinada nos últimos 4 anos. Nunca o país teve uma perda tão grande e tão rápida do emprego formal e sem perspectiva de melhora no curto e no médio prazo.

(2) - Cai o número de pessoas ocupadas e com carteira assinada no Brasil em 2018

A situação do mercado de trabalho é tão grave que até mesmo o emprego sem carteira assinada está em crise. O gráfico abaixo mostra que havia 11,3 milhões de pessoas de 14 anos ou mais de idade, empregadas no setor privado sem carteira de trabalho assinada, no pico de 2012 e este número caiu para 9,7 milhões no primeiro trimestre de 2016. O emprego informal cresceu para 10,7 milhões no primeiro trimestre de 2018, mas é um número menor do que em 2012.
Ou seja, até mesmo a recuperação do emprego precário e sem proteção social tem sido lenta e não voltou ao nível pré-crise 2014-2016. Portanto, o Brasil não tem conseguindo criar empregos – nem formais e nem informais – suficientes para absorver toda a força de trabalho em idade produtiva. Com a crise fiscal e as baixas taxas de poupança/investimento e altos níveis de endividamento o Brasil fica preso na armadilha do desemprego. Com o intenso e precoce processo de desindustrialização, as jovens gerações – uma parte daqueles que foram às ruas em junho de 2013 – são as mais prejudicadas.
Somente com empregos produtivos há geração de riqueza, base para se garantir o progresso de qualquer país. Com a falta de oportunidades decentes no mercado de trabalho, o Brasil está criando uma geração perdida, pois cresce o número de desempregados e o número dos chamados nem-nem-nem (jovens que nem estudam, nem trabalham e nem procuram emprego). Uma juventude sem perspectiva de melhoria de vida é presa fácil para o crime, engrossando as estatísticas dos atores e das vítimas da violência.

(3) - Cai o número de pessoas ocupadas e com carteira assinada no Brasil em 2018

Sem trabalho o Brasil não tem futuro. O país vive o seu melhor momento do bônus demográfico. Nunca houve tantas pessoas em idade de trabalhar no país. Mas o desperdício representado pelo alto nível de desemprego e a baixa taxa de ocupação (além da baixa proporção de emprego formal) é o mesmo que jogar fora nossa janela de oportunidade e manter a população brasileira eternamente presa na armadilha da renda média.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 02/05/2018