Eleições presidenciais no Egito: divergências profundas sobre as liberdades

Na questão das liberdades e dos direitos humanos, os dois candidatos não estão no mesmo comprimento de onda. Mas ambos defendem a proibição da Irmandade Muçulmana. Por Amira Samir, Al-Ahram.

As eleições presidenciais ocorrem numa situação em que existem ataques às liberdades. Segundo as organizações de defesa dos direitos humanos, as forças da ordem mataram, desde o dia 3 de julho, 12 jornalistas, mais de 1.500 manifestantes e prenderam mais de 15 mil pessoas. O poder provisório proibiu igualmente o Movimento do 6 de Abril, que foi a ponta de lança da revolta contra Hosni Mubarak. Os dirigentes liberais e laicos do 6 de Abril são acusados de “difamação do país” e de conluio com as forças estrangeiras, ao mesmo tempo em que há jornalistas a serem julgados pelas mesmas acusações.
Na sua campanha eleitoral, Abdel-Fattah Al-Sissi insistiu no papel da mídia e na necessidade de encontrar um mecanismo para a troca de informações entre Estado e sociedade. Sissi, que não apresentou programa eleitoral, não falou da liberdade de expressão nem da independência da mídia.
Em contrapartida, exortou os jornalistas a “unificar a voz” e a alterar o discurso sobre as liberdades e a democracia. “Vocês escrevem nos jornais. Nenhuma voz é mais forte do que a liberdade de expressão! O que significa isso? Milhões de egípcios são impedidos de ganhar a vida por causa das manifestações. É um fator de instabilidade”, disse.
Sissi aconselhou os redatores em chefe, quando abordarem uma informação ou assunto sensível, a falarem “ao ouvido de um responsável, em vez de o expor à luz do dia”. A conceção de Sissi parte do princípio que a liberdade irresponsável é contrária aos interesses do Egito e dos cidadãos. O que conta é antes de tudo o interesse dos cidadãos.
Para Alaa Al-Ghatrifi, diretor de redação do jornal Al-Watan, “os objetivos do candidato significam que os média devem aderir a um único ponto de vista. Pedimos mais detalhes sobre este tema”.
Quanto ao único rival de Sissi, prometeu, no discurso de abertura de campanha, realizar a democracia, o desenvolvimento e a liberdade para cada egípcio se ganhar as eleições. “Os egípcios terão direito à liberdade de expressão e de manifestação pacífica. O pão e a liberdade são as duas faces de uma mesma peça”, declarou. Segundo Sabahi, a lei muito controversa que proíbe qualquer manifestação que não seja autorizada pela polícia, assim como a prisão e condenação de jovens da revolução de 25 de janeiro, fazem temer o surgimento de um regime mais autoritário que o de Mubarak.
É assim que o candidato de esquerda se compromete a modificar esta lei e a libertar todos os presos políticos. “A prisão é somente para os terroristas que escolhem a violência”, lançou o candidato.
“Sabahi deixa as rédeas soltas às liberdades. Sissi, pelo contrário, afirma que a lei sobre as manifestações é uma necessidade nesta situação de caos”, analisa Yousri Al-Azabawi, investigador do Centro de Estudos Políticos e Estratégicos (CEPS) do Al-Ahram.
Mas Sissi não fez qualquer alusão às medidas adotadas para impedir as manifestações da oposição. Prometeu que a Irmandade Muçulmana desapareceria. Prometeu erradicar essa organização se for eleito no final de maio. Sabahi prometeu também que a confraria e o seu partido político desapareceriam. “Não existirá no Egito a Irmandade Muçulmana, porque eles são contra a vontade do povo”, afirma. Este tema tornou-se incontornável nos média egípcios e no discurso político. Segundo politólogos, o afastamento da confraria põe um problema. “Como se pode falar de reconciliação quando se erradica ao mesmo tempo uma parte importante do povo? Há uma contradição no discurso dos dois candidatos”, avalia o investigador Yousri Al-Azabawi.
Artigo publicado no site do Al-Ahram semanal.
14 de maio de 2014
Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

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