Desintegra-se o Estado fantoche no Iraque

O avanço dos militantes do Estado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL), a tomada de Mossul e de Tikrit e a debandada do exército iraquiano, com o seu espetáculo de uniformes e equipamentos deixados à beira da estrada, mostram o falhanço de Washington no seu afã de manter um protetorado em Bagdá. Os republicanos e os democratas já se culpam mutuamente. 

Por Alejandro Nadal

A realidade é que desde que Washington decidiu a invasão de 2003 sabia-se que a desintegração do Iraque era uma questão de tempo. Os Estados Unidos gastaram 20 bilhões de dólares para construir um exército que se tem desintegrado perante o EIIL. Não há dúvida, hoje o mapa no médio oriente está a ser redesenhado.
O EIIL nasce na guerra da Síria. Inicialmente tem um vínculo forte com a al-Qaeda mas desde 2013 rompeu com esta organização e adquiriu a sua própria identidade: o seu líder Abu Bakr al-Baghdadi pôde articular um amplo movimento de cerca de 10 mil militantes que compartilham o objetivo de estabelecer um Estado islâmico na Síria e partes do Iraque. As fronteiras desta nova entidade política nada teriam que ver com as nítidas retas dos acordos Sykes-Picot. O traço das fronteiras ignorou os critérios culturais, demográficos e orográficos, o que explica as perfeitas linhas retas que traçaram os senhores Sykes e Picot. O Iraque ficou como uma aglomeração de pouca consistência entre três comunidades instaladas em diferentes partes do seu território, curdos no norte, sunitas no centro e a maioria xiita no centro e sul. Essa mistura explosiva foi contida por diversos governos autoritários, incluindo o de Saddam Hussein. A invasão norte americana de 2003 rompeu o domínio da minoria sunita e abriu oportunidades de vingança para a maioria xiita. O atual ‘presidente’ Nouri al Maliki aqueceu os ânimos com a sua retórica anti-sunita. Em 1916, os embaixadores de Inglaterra e França, sir Mark Sykes e François Georges-Picot, respetivamente, assinaram um acordo secreto que dividia em zonas de influência e protetorados quase todo o médio oriente. A primeira guerra mundial estava em pleno vapor mas adivinhava-se o desmembramento do império otomano e essas duas potências coloniais não queriam desperdiçar a oportunidade. O acordo Sykes-Picot colocou a Síria e o Líbano (e uma faixa que chegaria até a cidade de Mossul e a fronteira com o que mais tarde seria o Irã) na zona de influência de França. Os ingleses ficariam com um enorme território que abarca as fronteiras atuais da Jordânia e Iraque.
O mais grave é a perspectiva de uma guerra sectária de grande magnitude. Face à ofensiva do EIIL, entende-se o apelo das autoridades religiosas à população xiita para que esta tome armas e se defenda. Mas isto pode desembocar numa guerra civil e em massacres bem maiores do que aqueles que se seguiram à invasão norte americana. Esse é o verdadeiro legado tóxico da invasão norte americana do Iraque em 2003. Como afetará tudo isto a economia mundial? Até agora, o impacto não tem sido muito importante. Mas tudo pode mudar se o conflito produzir um desajuste na produção petrolífera no Iraque. Nesse caso, as correias de transmissão atuariam de maneira direta e o golpe não ajudaria aos investimentos, crescimento e redução do desemprego. É ainda muito cedo para saber com certeza o que ocorrerá. Para os Estados Unidos, o colapso do Iraque não poderia vir em pior momento. Ao longo de todo o médio oriente os focos vermelhos acendem-se. No Egito continua a flutuar na atmosfera um cheiro a golpe de estado. Na Síria a guerra perdura, sempre com a ameaça de transbordar para o Líbano. Israel mantém a sua ocupação dos territórios palestinos e uma postura belicista. No Afeganistão subsiste outro estado fantoche a ponto de desmoronar-se. Atualmente, o EIIL ocupa 35 por cento do território do Iraque e controla uma boa parte dos seus campos e poços petroleiros. No entanto, muitos desses poços não estão a funcionar há muito tempo e a maior parte da produção iraquiana de petróleo encontra-se nos campos do sul do país, fora do alcance do EIIL. Resta perceber se o EIIL pode ou deseja chegar a tomar Bagdá. As suas linhas de abastecimento alongar-se-iam perigosamente. Além disso, é muito provável que o peso conjunto de unidades armadas iranianas e da população xiita seja demasiado para os militantes do EIIL. Mas para além desta fase do conflito, uma coisa é verdadeira: graças às ações do EIIL e do colapso da autoridade da al-Maliki, a fronteira entre a Síria e o Iraque nunca será o que foi. Num alarde propagandista, há alguns dias, militantes do EIIL destruíram uma parte da fronteira entre a Síria e o Iraque. A brecha aberta com um trator permitiu a passagem de uma caravana de hummers abandonados pelas forças iraquianas em plena fuga. Os líderes do EIIL sabem fazer a sua propaganda: o simbolismo indicaria que sua organização é capaz de romper com a herança do colonialismo e redesenhar o mapa no médio oriente.

Sobre o/a autor(a)

      Alejandro Nadal
      Economista, professor em El Colegio do México.

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