Rentabilidade da dívida europeia cai para níveis historicamente baixos

O rendimento dos títulos de dívida pública encontram-se nos mínimos históricos dos últimos 225 anos para a Espanha e 270 anos para a França. Os títulos espanhóis a dez anos estão abaixo do rendimento equivalente dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Por Marco Antonio Moreno
O rendimento dos títulos de dívida pública encontram-se nos mínimos históricos dos últimos 225 anos para a Espanha
As medidas do "dinheiro barato" adotadas por Mario Draghi desde que assumiu a chefia do Banco Central Europeu (BCE) expandiram as assimetrias da zona euro, gerando novas bolhas. Enquanto o desemprego e o crescimento se mantiveram débeis desde 2012, a euforia bolsista dos mercados financeiros propagou um aumento contínuo dos índices e uma inusitada confiança na dívida pública. Nos últimos dois anos, o rendimento dos títulos de dívida pública apenas têm descido e hoje encontram-se nos mínimos históricos dos últimos 225 anos para a Espanha e 270 anos para a França.
As taxas de juro dos títulos de dívida soberana encontram-se tão baixos, que os títulos espanhóis a dez anos se encontram abaixo do rendimento equivalente dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, considerados “os mais seguros do planeta”. A evolução da dívida espanhola é surpreendente quando se observa numa perspetiva de longo prazo. Parecem longínquos os tempos em que os títulos de dívida espanhóis a 10 anos tocavam os 7 por cento, mas isso foi apenas há dois anos. Hoje a Espanha tem o rendimento mais baixo desde 1789, o ano da Revolução Francesa, com 2,502 por cento. Para a França, os rendimentos a 10 anos atingiram os 1,654 por cento, um mínimo histórico para toda a série de dados que remontam a 1746, como se observa no gráfico seguinte feito pelo estratega do Deutsche Bank, Jim Reid. Isto é algo que não tem precedentes.
As medidas de flexibilização quantitativa tomadas por Mario Draghi não impulsionaram a economia da zona euro e, nesta quarta-feira 11 de junho, o Banco Mundial corrigiu em baixa a estimativa de crescimento para a economia global de 3,2% para 2,8 por cento, enquanto o crescimento europeu foi revisto de 1,6% para 1,1 por cento. O BCE não só fracassou no seu impulso ao crescimento como também na sua luta contra a deflação ao estilo japonês e hoje a Europa sofre o perigo latente de uma queda sistémica dos preços. No entanto, isto não constitui nenhum obstáculo para que a euforia bolsista continue a alentar a criação de bolhas especulativas. Pode-se provocar uma nova crise mal uma pequena viragem nas taxas de juro leve a manada a dar meia volta.
Investimento de risco zero?
A política monetária “flexível” do BCE tem estimulado a compra de títulos de dívida soberana de Espanha e Itália como se se tratassem de um investimento de risco zero em países potencialmente solventes. Mas a realidade é muito diferente. Ainda que os rendimentos dos títulos de dívida soberana pareçam ter o melhor dos cenários de há vários séculos, as sombras latentes não demorarão a minar a confiança e a pôr pressão na realidade. Não há "risco zero" como indica o mercado. A voragem do sistema financeiro continua a apelar ao jogo de casino, demonstrando que os mercados não têm memória.
Os rendimentos italianos das últimas semanas só são comparáveis com um breve período de 1945 na longa série de dados que remonta a 1808. Apesar de a Itália “não existir" em 1808, os estrategas do Deutsche Bank juntaram várias séries de dados de Nápoles com dados das duas Sicilias e da Itália moderna para conhecer o custo financeiro dos empréstimos que os governos da península requereram.
O dinheiro barato pode ser uma bênção para os países europeus com fortes montantes de dívida para refinanciar. A Espanha conta com 102 bilhões de euros em títulos que se vencem este ano e 132 bilhões de euros que vencem no próximo ano. O calendário de pagamentos da Itália é de 217 bilhões de euros este ano e 248 bilhões de euros em 2015. A 2,5 por cento os títulos espanhóis e italianos pagam menos de metade em juros do que pagavam há dois anos. Este foi o lado bom de Mario Draghi com a sua promessa de defender o euro custe o que custar. O lado mau é a pressão que exercerão os investidores quando se enfrentarem as consequências do dinheiro barato e forem exigidos maiores retornos e reformas económicas. Da mão dos investidores pendem os grandes riscos que podem levar a um novo tsunami financeiro.
Nunca os níveis de risco foram tão desprezados como agora e quer-se fazer crer que estamos no melhor dos mundos possíveis. (...) É o mesmo truque do ano 2007 quando foram negadas as enormes bolhas dos mercados financeiros. A história repete-se. Mas desta vez não será como comédia.
Mais informação - Deutsche Bank
Artigo de Marco Antonio Moreno, publicado em El Blog Salmón. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

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