Conviver com a seca

Os processos de desertificação constituem um dos mais graves impactos que sofre a caatinga e para combater esta realidade, a implantação de unidades de conservação integrais e efetivas é bastante relevante. Mas por ser a alternativa mais difícil e onerosa, não é a única estratégia que vem sendo utilizada.
Artigo de Roberto Naime
Caatinga

caatinga é um bioma brasileiro embora pareça estranho assim ser denominada. O indivíduo que habita na caatinga tem que se tornar um agente que presta um serviço ambiental ao preservar e se integrar a este bioma como uma própria estratégia de convivência com a seca.
Como assevera Francisco Campelo, secretário nacional de combate à desertificação, não é lícito pensar que se chega no Alasca, ou na Groenlândia ou local equivalente e se pense em combater a neve. Assim como a seca não pode ser combatida. Se deve buscar uma integração com o bioma como forma de atenuar os eventos climáticos. Não existem receitas, mas narrar algumas experiências pode ser didático e inspirador.
O substrato forrageiro que pode ser empregado, exige ainda maior luminosidade e por isso a extração madeireira que pode se incorporar na matriz energética como biomassa, nem sempre pode ser vista como predatória ou não preservacionista. A recuperação de água em cisternas para utilização em períodos de baixa pluviosidade é outra técnica milenar que pode ser utilizada. É muito comum e bem-aceita pelo gado e assemelhados o uso extensivo de uma planta chamada “palma” e que une características cactáceas de retenção de água com saborosidade de forrageiras comuns.
Construir escadarias em arcos nos cursos de água, de pedras que são fechadas naturalmente e permitem reter água que devido a elevação da pressão pode ser armazenada em aquíferos freáticos subterrâneos e outra ação que exige baixos investimentos e pode trazer resultados muito satisfatórios. Estes procedimentos podem ser muito ampliados com projeções de pequenos barramentos ou poços horizontais para facilitar armazenamento subterrâneo, onde as taxas de evapotranspiração da água são muito menores.
O bioma da caatinga que deriva da denominação indígena de “mata de coloração esbranquiçada” que se confunde com a extrema luminosidade derivada da alta taxa de insolação, tem um imenso potencial para permitir um manejo integrado onde auxilie o indivíduo humano nas suas condições de sobrevivência em condições que inegavelmente são complicadas e com alto grau de adversidade.
A biodiversidade vegetal da caatinga pode amparar em estágios muito mais desenvolvidos, atividades econômicas que se vinculem a produção para os ramos farmacêutico, cosmético e também para os setores de química e alimentos. A caatinga é um bioma exclusivamente brasileiro, que segundo dados do Ministério do Meio Ambiente ocupa cerca de 11% do território do país. É muito grande sua biodiversidade e é o bioma de clima semiárido com maior diversidade no mundo.
É cada vez mais relevante a produção de produtos não madeireiros na região, produzindo alimentos, bebidas, cosméticos a partir de fitoterápicos, biojóias, acessórios diversos, tapeçarias, mobiliários e outros variados artesanatos, em projetos desenvolvidos e apoiados por organizações não governamentais desde a criação da Bodega de Produtos Sustentáveis do Bioma Caatinga, mais conhecida como Bodega da Caatinga.
Os processos de desertificação constituem um dos mais graves impactos que sofre a caatinga e para combater esta realidade, a implantação de unidades de conservação integrais e efetivas é bastante relevante. Mas por ser a alternativa mais difícil e onerosa, não é a única estratégia que vem sendo utilizada.
Tanto quanto a disseminação de técnicas de manejo e realização de serviços ambientais que podem atenuar para os habitantes do semiárido as condições adversas em que vivem, além de perpetuar de forma mais eficiente o bioma e melhorar as condições de qualidade ambiental e qualidade de vida de todas as populações da região. Que constituem um agrupamento de pessoas com a menor renda e a menor qualidade de vida em todos os aspectos que se considere, em todo o país.
Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Publicado no Portal EcoDebate, 07/04/2015

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