Câmara Cascudo pela autoestima do Brasil




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Temos errado imensamente quando se trata de intelectualizar nossa nação, refiro-me ao período que compreende os últimos trinta anos. A escrita intelectual envenenada pela crítica simplista nos rendeu um discurso-dialético conduzido ao senso comum do deboche raso e generalizado sobre  a imagem de Brasil. Não fora o início da baixa-estima, quem não viu falar no complexo de vira-latas, imortalizado por Nelson Rodrigues em sua coluna de jornal às vésperas da Copa do Mundo de 1958?, por sinal seria a primeira a ganharmos. O complexo de vira-latas é maior e mais significativo  do que se imagina. No Brasil, tão arraigado na crítica marxista, redundando no simplismo da história como uma mera coexistência entre opressores e oprimidos, sem cultura, saber, artes ou literatura, sentir-se o pior dos países no concerto das nações torna-se o cerne do discurso de qualquer orador de botequim ou de faculdade. Somos incapazes, nada presta, não sabemos fazer nada e os políticos são ruins e ladrões, como se qualquer nação necessitasse de políticos...

“Uma nação que habitualmente pense mal de si mesma acabará por merecer o conceito de si que anteformou. Envenena-se mentalmente.” (Fernando Pessoa)


Sumiram-nos os poetas nacionalmente reconhecidos, não se tem um literato nacional, as crônicas de jornal, patrimônio nosso desde Machado de Assis, murcharam, a música brasileira vive seu momento “se a evolução for certa perderemos nossos ouvidos”. Quanto crescemos nos tempos de Manuel Bandeira, Gilberto Freyre, e Villa-Lobos. Depois veio Drummond, Guimarães Rosa e Pixinguinha.

Mas quero mesmo é falar da obra que foi a minha grande descoberta nos finais da graduação em Direito, ao que já tive a oportunidade de falar num artigo intitulado “O encontro com a obra de Luís da Câmara Cascudo”. Câmara Cascudo era tão brasileiro que seu primeiro livro chama-se Alma Patrícia. Crítica literária em torno de autores da terra natal, o Rio Grande do Norte. Diferentes de nossas pesquisas e Trabalhos de conclusão de curso, com títulos enormes, distante da rua em que se vive e repleto de citações, o modelo de pesquisa cascudiano é o entorno, agregado da erudição clássica.

Existem no Rio Grande do Norte dois castelos construídos por particulares: o Castelo Di Bivar em Carnaúba dos Dantas, e o Castelo Zé dos Montes no município de Sítio Novo. Ambas construções datam de fins do Século XX. Nunca houve castelos no Rio Grande do Norte, como foram na Europa Medieval, unidades de poder e de proteção feudal. Esses construtores de castelos nos sertões do Nordeste apenas deram forma ao imaginário sertanejo, repleto de castelos e princesas e príncipes encantados. A presença do Castelo na cultura medieval europeia transpôs-se para os sertões do Nordeste. Testemunhamos a estória de que a Gruta da Caridade, uma caverna localizada na Zona Rural de Caicó/RN se desencantada fosse tronar-se-ia num Castelo.

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Castelo Di Bivar em Carnaúba dos Dantas/RN

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Castelo Zé dos Montes em Sítio Novo/RN


Interior do Gruta da Caridade em Caicó/RN


Câmara Cascudo descreveu em abundância essa presença simbiótica do milenar no contemporâneo. Das histórias da Cavalaria andante nas estórias dos sertões. Do céu sertanejo concebido nos moldes de Dante Alighieri numa população desprovida da leitura. Narrativas de amores heroicos como a da Princesa Magalona para fazer inspirar e as facécias de Malasartes para alegrar as noites enluaradas do sertão. Um escritor em abundância, desprovido da intenção de justificar concepções de mundos irreais previamente grudadas nos interesses do ser e que se utilizam da argumentação apenas para a autojustificativa. Como muitos acadêmicos, primeiro serviçais de alguma militância, depois se utilizando de toda a sua capacidade intelectual para encontrar justificativas para sua crença e para poder ser um dos governantes da humanidade.

A pesquisa cascudiana ficou ao serviço do Brasil, pela sua autoestima. Não havia intenções de caluniar a nação para finalidades de tiranizá-la. Doou a vida para registrar o imaginário do povo, concluiu uma obra imortal que sempre que se quiser, um estudante ou alguém do século XXII, saber qual a origem do homem brasileiro enquanto indivíduo dotado de cultura e não como uma estatística de governo, poder-se-á folhear as páginas de seus belíssimos volumes e terá, então, o leitor de todas as épocas por vir, um retrato fiel e desinteressado do homem real que construiu essa magnífica nação, tão caluniada, que fala a língua de Camões e conserva na memória os costumes de todos os povos.



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