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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Câmara de Caicó assalta população da cidade nos embalos do Carnaval



Não direi que foi surpresa, pois há muito as surpresas me abandonaram. Antes, direi que foi conforme o costume, esse venerando hábito das instituições pátrias de engendrar resoluções ao crepúsculo, quando a atenção pública se distrai em folguedos ou repouso. Pois bem, a Câmara Municipal de Caicó, sempre ciosa de seus interesses, cuidou de votar um projeto de lei que lhes era sobremaneira proveitoso. Ocorreu o feito no dia inaugural do Carnaval, e, para evitar olhos inoportunos, ajustou-se o horário da sessão. Já o fizeram outrora, recordo-me bem: em 2020, enquanto a pandemia encerrava o ano com suas sombras, ali estavam os vereadores, diligentes, votando o aumento dos próprios estipêndios. Desta feita, o tributo à esperteza veio na forma de um auxílio-alimentação de R$ 1.500,00, quantia módica para quem já havia elevado sua remuneração de R$ 8.000,00 para R$ 11.900,00.


O Carnaval é a face suprema do subdesenvolvimento brasileiro, trata-se de uma turba da Idade Média trazida pelo colonizador português como entrudo e que ganhou uma dimensão absurda no Brasil do Século XX em razão de o país não ter escola e nas circunstâncias de a maioria da população do país ter sido marginalizada política e economicamente, não havia evolução intelectual e acesso à cultura. Hoje mesmo o IBGE divulgou números assustadores, menos de 20% da população brasileira possui formação superior, já o número de pessoas sem instrução ou sem concluir o ensino fundamental ainda a tinge 35%.


Geralmente as críticas ao Carnaval são moralistas, entretanto o problema não é que as pessoas transem, imagina tabu sexual depois de Freud, o problema é que as pessoas sejam burras. E manter as pessoas burras é o grande projeto da oligarquia política do Centrão. Portanto, temos aqui a simbiose da ação da Câmara de Caicó no momento em que o Município despende muito dinheiro público para fazer o carnaval. Trios elétricos e paredões de som são coisas de burros, criem-se boas escolas e nunca mais verás nenhum dessas aberrações de terceiro mundo.


A Câmara age, pois, com a astúcia de sempre: lança o decreto enquanto a turba se embriaga e as marchinhas sufocam os discursos. Dever-se-ia esperar indignação, protestos, vozes erguidas contra o despautério? Quem conhece o Brasil, e eu o conheço, sabe que não. Aqui, o povo só se organiza em bloco de Carnaval. Que ironia! A esquerda festiva, tão dada a enxergar revoluções na cadência do samba, talvez devesse perceber que a verdadeira revolução não se faz em desfiles, mas nas carteiras escolares. No dia em que o Brasil tiver escolas, talvez não tenha mais Carnaval — nem vereadores a decidir, entre um confete e outro, o destino dos cofres públicos.

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