A QUEDA DO REGIME DO IRÃ SERIA A GLÓRIA DA HUMANIDADE - Blog A CRÍTICA

"Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados." (Millôr Fernandes)

Últimas

Post Top Ad

terça-feira, 17 de junho de 2025

A QUEDA DO REGIME DO IRÃ SERIA A GLÓRIA DA HUMANIDADE



Poucas nações possuem raízes tão profundas na história da humanidade quanto o Irã, antiga Pérsia — terra dos arianos, dos poetas, dos impérios e dos sábios. Desde a Antiguidade, os gregos viam na Pérsia não apenas o rival bélico, mas uma civilização refinada, herdeira de Ciro, o Grande, e de Dario, cujo Império Aquemênida, no século VI a.C., estendia-se da Índia até as margens do Egeu. Um império não apenas militar, mas tolerante, multicultural, organizador — tão grandioso que inspirou Alexandre, o Macedônio, a abraçar seus costumes depois de o conquistar.


Entretanto, a terra de Zaratustra, de Avicena e de Omar Khayyám, está hoje prisioneira de um regime que representa a antítese de seu legado histórico. Desde a Revolução Islâmica de 1979, que depôs a monarquia modernizante de Reza Pahlavi, o Irã passou a ser governado por uma teocracia xiita liderada pelo Aiatolá Khomeini e hoje perpetuada por seu sucessor, o Aiatolá Ali Khamenei. Esse modelo teocrático instaurou um regime de vigilância, opressão e isolamento — um anacronismo político e moral que mutila o espírito de um povo outrora brilhante.


A história universal já testemunhou os horrores das religiões quando se transformam em regimes. A lição da Inquisição na Europa, dos Estados Papais, da Guerra dos Trinta Anos, ou mesmo do califado do Daesh, mostra que quando o dogma toma o lugar da razão, o humano retrocede à barbárie. Aristóteles, em sua Política, já advertia que o melhor regime é aquele em que o governo visa o bem comum, não a imposição de uma verdade absoluta. A religião, quando alçada ao trono do Estado, tende a converter sua mensagem espiritual em aparato de dominação.

Entrada das ruínas de Persépolis, no Irã


No caso iraniano, o que se vê é um totalitarismo clerical que reduziu as mulheres à submissão legal e existencial. O caso de Mahsa Amini, jovem morta sob custódia da “polícia da moralidade” por supostamente não portar o hijab de forma adequada, tornou-se símbolo do que Hannah Arendt chamou de “banalidade do mal”: o aparato estatal automatizado na repressão cotidiana, sob o véu de uma suposta pureza religiosa.


A opressão da mulher no Irã não é uma questão cultural — é uma tragédia histórica. A mulher persa, que no passado podia ascender ao trono como Atossa, filha de Ciro, ou compor poesia mística como Rābiʿa al-ʿAdawiyya, foi reduzida a uma sombra ambulante. Os gritos de liberdade que ecoam hoje nas ruas de Teerã, Ispaã e Shiraz — "Zan, Zendegui, Azadi" (Mulher, Vida, Liberdade) — são a voz universal da dignidade humana contra a tirania.


A queda do regime dos aiatolás, portanto, não seria uma questão geopolítica meramente. Seria um salto moral da humanidade. A libertação do Irã significaria a reconciliação de uma das civilizações mais antigas do mundo com os valores do humanismo, da ciência, da liberdade e da igualdade.


Zaratustra, o profeta do bem pensar, bem falar e bem agir, teria vergonha do uso de seu legado para justificar a repressão. Ibn Sina (Avicena), cujo pensamento influenciou tanto o Islã quanto a Escolástica cristã, não encontraria lugar em um Irã onde a filosofia é suspeita e a razão é vigiada.


Nietzsche, leitor de Zaratustra, via na história um eterno retorno das forças criadoras contra os poderes decadentes. A juventude iraniana, conectada ao mundo pela internet, educada apesar da censura, rebelde apesar do medo, talvez represente essa força dionisíaca que abalará as colunas do regime. Pois não há aparato que resista indefinidamente ao espírito que clama por liberdade.


O Ocidente não deve ver a queda do regime iraniano como mera oportunidade estratégica, mas como imperativo ético. A Pérsia, a verdadeira, não pertence aos aiatolás. Pertence à humanidade. É preciso desejar que, um dia, Teerã volte a ser o centro de um renascimento civilizacional, onde turistas, estudiosos e peregrinos da cultura possam, sem medo, contemplar as ruínas de Persépolis como se contempla uma promessa: a de que nenhuma escuridão é eterna.


Em nome de Mahsa Amini. Em nome de todas as mulheres. Em nome da liberdade de consciência. Que caia o aiatolá. Que renasça a Pérsia.


Referências e inspirações:


  • Heródoto, Histórias

  • Aristóteles, Política

  • Hannah Arendt, Origens do Totalitarismo

  • Friedrich Nietzsche, Assim Falou Zaratustra

  • Isaiah Berlin, Duas Liberdades

  • Bernard Lewis, The Crisis of Islam

  • Ramin Jahanbegloo, The Disobedient Indian (e outros ensaios sobre o Irã)

  • Documentário Nasrin (2020), sobre a ativista iraniana Nasrin Sotoudeh

  • Relatórios da Anistia Internacional sobre repressão no Irã pós-2022

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Post Bottom Ad

Pages