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quarta-feira, 11 de junho de 2025

Letícia veio a Caicó para estudar e morreu pela falta de educação



Letícia veio de João Câmara a Caicó para estudar. Morreu por isso.


Não se trata de um paradoxo moderno, desses que se explicam com fórmulas e estatísticas. Morreu, simplesmente, por falta de educação. Não daquela que se escreve em diplomas, mas daquela que se pratica nos cruzamentos, nos sinais vermelhos, nas calçadas e nas ausências.


A jovem queria ser estilista. Tinha nome de musa e sonhos de linha e tecido. Estudava no IFRN e, não satisfeita, fazia curso técnico, como quem costura o próprio destino com as mãos.


Mas o destino, esse alfaiate cego e apressado, pegou um atalho.


O vídeo — sim, hoje até as tragédias têm arquivo — mostra o que se deu: o mototaxista, ávido, apressado, ignorou o semáforo que, ainda rubro, implorava por um segundo de paciência. Do outro lado, uma moto voava com velocidade de quem pensa que a cidade é pista de vaquejada.


A colisão foi matemática. A consequência, histórica. Letícia, moça de projetos e costuras, saiu dos esboços da moda para os boletins de ocorrência. O hospital, o outro, o maior, o de Natal, não deu conta de salvá-la. Era tarde demais. A educação, como sempre, não chegou a tempo.


Os antigos, quando não tinham sinais, usavam o bom senso. Agora que há sinais, placas, faixas, e até voz de GPS, não se usam mais os olhos. Muito menos a vergonha.


O que é o trânsito, senão um acordo coletivo de civilização? Um pacto de não-agressão entre cavalos de ferro? Mas para isso é preciso regras — e mais que isso, é preciso gente disposta a cumpri-las.


Que ninguém se engane: a morte de Letícia não foi acidente. Foi omissão, hábito, desleixo — tudo isso bem vestido de normalidade. Como quem bebe no sábado e jura que segunda-feira será diferente.


Sejam antigos, senhores. Cumpram horários. Parem no vermelho, andem no verde, respeitem a faixa. A vida não é trio elétrico nem mesa de bar.


Letícia não morreu por estar no lugar errado, mas por viver num tempo em que a pressa vale mais que a prudência e a buzina fala mais alto que o bom senso.


O tecido da vida é fino. E o corte, muitas vezes, é feito sem molde.

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