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segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Seis acidentes elétricos por dia: por que o Brasil ainda ignora os riscos da energia?

Fios expostos, sobrecarga elétrica, instalação inadequada e falta de manutenção são algumas das principais causas. E ainda: Só 27% das casas e demais estabelecimentos têm dispositivo obrigatório por lei que evita choques

Freepik - Acidentes elétricos


A mesma energia que acende a luz da sua casa, carrega o celular e faz o café passar também pode provocar sérios acidentes e até tirar vidas. No Brasil, a eletricidade, tão presente e, muitas vezes, invisível, tem se tornado vilã em um número assustador de acidentes.

O alerta vem do Anuário Estatístico de Acidentes de Origem Elétrica, divulgado pela Abracopel (Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade), que há anos acompanha e chama atenção para os riscos escondidos na rede elétrica. De acordo com a entidade, durante todo 2024, houve um aumento de 11,6% no número de acidentes em comparação ao ano anterior. Ao todo, foram 2.373 ocorrências registradas. O número de mortes subiu de 674 para 759, o que representa um crescimento de 12,6%. Além disso, os incêndios decorrentes de sobrecarga elétrica, que já eram motivo de preocupação, tiveram um aumento alarmante de 23,5%, passando de 963 para 1.205 casos.

E, se por um lado, as pesquisas revelam uma queda de 25,4% nas fatalidades decorrentes de incêndios e uma redução de 35% nos acidentes ligados a raios, tudo aponta para que este ano se apresente de maneira distinta. Afinal, a Abracopel, em sua mais recente investigação, aponta que apenas em janeiro de 2025, o número de incidentes relacionados a choques elétricos e incêndios causados por sobrecarga mais que dobrou em relação ao mesmo mês do ano anterior. Foram 250 registros em todo o território nacional, um impressionante aumento de 140% em apenas 12 meses, em contraste com os 108 casos registrados em janeiro de 2024.

Em síntese, os registros de acidentes e fatalidades por região são os seguintes: Nordeste: 598 acidentes e 287 óbitos (sendo 268 por choque elétrico e 19 por incêndios), com 19 eventos de raios sem vítimas fatais; Sudeste: 592 acidentes e 152 óbitos (141 por choque elétrico, 8 por incêndios e 5 por raios); Centro-Oeste: 320 acidentes e 121 óbitos (104 por choque elétrico, 11 por incêndios e 6 por raios); Sul: 557 acidentes e 150 óbitos (134 por choque elétrico, 9 por incêndios e 7 por raios); Norte: 306 acidentes e 128 óbitos (112 por choque elétrico, 3 por incêndios e 13 por raios).

Em 2024, a classificação das ocorrências elétricas nos estados destaca São Paulo na dianteira com 252 incidentes, seguido de perto pelo Paraná com 216 e Minas Gerais com 184. No que tange aos choques elétricos, São Paulo mantém a liderança, contabilizando 93 ocorrências, enquanto a Bahia apresenta 88, Santa Catarina 83 e Paraná 81. A região Sul, em especial o Paraná, demonstra um aumento alarmante nos acidentes elétricos, o que acende um sinal de alerta sobre a situação na localidade.

Porque o risco de acidentes só aumenta?

No primeiro mês de 2025, o Brasil contabilizou mais de seis acidentes diários relacionados à eletricidade. O Brasil segue registrando um número alarmante de acidentes de origem elétrica. De acordo com o Anuário 2025 da Abracopel, referente ao ano-base 2024, foram contabilizados 2.354 acidentes, o que representa uma média de seis por dia. Do total, 840 casos resultaram em mortes, ou cerca de duas fatalidades diariamente.

Fábio Amaral, CEO da Engerey Painéis Elétricos

“Esses números representam vidas perdidas, histórias interrompidas e famílias devastadas. Estamos diante de uma narrativa triste, que nos desafia a prestar atenção e a agir”, afirma Fábio Amaral, CEO da Engerey Painéis Elétricos.

E por que os acidentes acontecem?
Para Amaral, esses acidentes, em boa parte dos casos, não são obra do acaso. "Estão ligados, principalmente, à falta de manutenção nas instalações elétricas. Entre as principais causas estão instalações malfeitas, falta de manutenção, sobrecarga dos sistemas e uso de materiais de baixa qualidade. Fios expostos, conexões improvisadas e equipamentos sem certificação aumentam o risco. O problema é que muita gente só lembra que energia elétrica é coisa séria depois que o pior acontece".

“Choque elétrico não manda aviso. O perigo está ali, no fio desencapado, na tomada sobrecarregada, no ‘gato’ na instalação... mas como a gente não vê, acaba subestimando”, alerta Amaral.

E o risco é democrático: está dentro das casas, nas empresas, nas ruas, em todo lugar onde há eletricidade. Para Amaral, a escalada de acidentes revela um problema estrutural. “Respeitar as normas de segurança elétrica não é opção, é obrigação. O risco é real e crescente”, afirma.

Amaral destaca a importância do Dispositivo Diferencial Residual (DR), um equipamento que desarma a energia automaticamente em caso de fuga de corrente. Apesar de obrigatório em novas instalações, o DR ainda está ausente em 73% dos lares brasileiros, segundo levantamento do setor. “O DR salva vidas. É um investimento pequeno perto do prejuízo que um acidente pode causar”, diz o CEO da Engerey.

Os dados da Abracopel mostram que o problema não é novo, mas vem piorando.

Veja a evolução das mortes por choque elétrico em janeiro dos últimos seis anos:

Ano

Mortes por choque elétrico

2020

86

2021

72

2022

62

2023

73

2024

61

2025

74 - somente em janeiro de 2025

Nos incêndios por sobrecarga, o salto foi ainda mais agressivo. Em janeiro de 2024, haviam sido 45 casos. Em 2025, o número saltou para 135.

“Esses números não são apenas estatísticas. São vidas interrompidas, famílias afetadas e prejuízos que poderiam ser evitados”, afirma Amaral.

O retrato de 2024

O anuário mais recente da Abracopel, com dados consolidados de 2024, registra 2.354 acidentes elétricos no Brasil. Desse total, 8.741 pessoas morreram desde o início da série histórica, em 2013.

Só em 2024, os incêndios elétricos provocaram 1.186 ocorrências e 50 mortes. Os choques elétricos causaram 1.077 acidentes, com 759 vítimas fatais. Acidentes com raios completam o cenário, com 91 registros e 31 mortes.

Como se proteger?


Além da instalação do DR, especialistas recomendam cuidados básicos:

  • Fazer revisões periódicas na parte elétrica;
  • Contratar profissionais qualificados para um correto dimensionamento das instalações;
  • Não sobrecarregar tomadas;
  • Usar equipamentos certificados;
  • Não improvisar instalações.

“A eletricidade é invisível. O risco não avisa. O cuidado precisa ser constante”, conclui Fábio Amaral.

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