A indústria do consignado está quebrando trabalhadores, empresas e a produtividade nacional
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| Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil |
Por Alan Carlos Ordakovski – Advogado Empresarial e especialista em Gestão de Relação do Trabalho.
Em apenas sete meses, a contratação de consignados por trabalhadores brasileiros quase triplicou e os juros já beiram 60% ao ano, cenário que empurra famílias para um ciclo de endividamento crônico, mascarado pela falsa sensação de crédito fácil, barato e “seguro”.
Só que ninguém está contando a outra parte da história:
- a) o consignado está corroendo a saúde financeira dos trabalhadores;
- b) destruindo a produtividade das empresas; e
- c) criando um passivo explosivo dentro das áreas de RH, crédito e cobrança
Como advogado empresarial e estudioso do comportamento financeiro corporativo, afirmo sem hesitar: o consignado virou uma bomba-relógio social e empresarial.
Na matemática cruel do consignado, os números são tão escandalosos quanto silenciosos:
- Taxas que já chegam a 58% ao ano para determinadas modalidades.
- Comprometimento médio de 30% a 40% do salário líquido dos trabalhadores endividados.
- Inadimplência recorde: mais de 72 milhões de brasileiros estão negativados, nada menos o maior número da história.
- Entre 2023 e 2024, segundo dados apurados pela mídia financeira, houve incremento superior a 40% na busca por consignados apenas para pagar outras dívidas. A clássica “dívida para apagar dívida”.
Isso não é crédito! Isso é erosão de renda disfarçada de solução rápida.
E quando o salário desaparece antes do dia 05, não há produtividade, foco, disciplina ou desempenho que sobreviva.
Ao contrário do que muitos imaginam, o problema do consignado não é apenas do trabalhador.
Ele é, também e cada vez mais, um problema empresarial.
Empresas estão lidando com:
- Aumento de faltas, atrasos e afastamentos: Funcionários sufocados por dívida apresentam sinais claros: queda de desempenho, desatenção e adoecimento. E quem paga essa conta? A empresa!
- Pressão por adiantamentos, acordos e “empréstimos internos”: setores de RH estão sendo convertidos, informalmente, em agências de socorro financeiro emergencial.
- Crescimento da litigiosidade trabalhista: salários corroídos por consignados disparam conflitos, pedidos de rescisão indireta, denúncias e demandas judiciais alegando abusos ou “descontos indevidos”.
O Judiciário, já abarrotado, virou o confessionário do superendividamento. - Rotatividade crescente: O trabalhador altamente endividado busca saídas desesperadas: troca de emprego por qualquer oferta que prometa “salário maior”, sem análise de carreira.
A empresa perde talento, perde dinheiro e perde previsibilidade. O consignado virou muleta emocional e financeira que impede o trabalhador de evoluir e impede as empresas de performar. Ele não resolve o problema; ele anestesia o sintoma. O trabalhador entra, silenciosamente, numa espiral: salário, dívida, novo consignado, limite estourado, inadimplência, desespero, queda de performance. Esse ciclo não é individual. É estrutural! É cultura! E é devastador! Tal contexto requer uma postura empresarial mais forte, isso porque as empresas são o único agente que vê o problema antes dele explodir.
As empresas precisam:
- Criar políticas claras de prevenção ao superendividamento: Sim, isso é cultura organizacional. E cultura protege as relações de trabalho e consequentemente o clima e os resultados corporativos.
- Trabalhar educação financeira com autoridade e recorrência: sem paternalismo, sem moralismo.
- Rever políticas internas que incentivam “crédito fácil”: adiantamentos automáticos, antecipações recorrentes e benefícios mal estruturados são gatilhos silenciosos.
- Atuar juridicamente de forma estratégica: ora para evitar passivos trabalhistas decorrentes do excesso de consignados, ora para proteger a empresa de alegações de abuso, ora para estruturar políticas mais inteligentes e seguras.
O Consignado Virou um Sintoma de Algo Maior...
O trabalhador está financiando seu próprio custo de vida a juros de país quebrado. E a empresa está absorvendo, sem perceber, a conta oculta dessa fragilidade financeira. Se não enfrentarmos esse tema agora, com dados, coragem e políticas inteligentes, estamos condenando a economia e as relações de trabalho, a um ciclo permanente de baixa produtividade, conflitos e estagnação. Diante de todo esse contexto, é necessário deixar um recado claro e incomodamente necessário: o consignado não é um vilão solitário, mas é, hoje, um dos principais aceleradores do colapso financeiro silencioso do trabalhador brasileiro. E, se nada mudar, será também o próximo grande acelerador de passivos empresariais, conflitos judiciais e queda de competitividade. O Brasil precisa de uma virada cultural. E essa virada começa com a coragem de falar o óbvio. Crédito fácil está destruindo o futuro da nossa força de trabalho, sabotando silenciosamente o crescimento das empresas e contribuindo para o colapso da economia brasileira.
Ordakovski & Tavares Júnior Advogados Associados (OTJ)
Dr. Alan Carlos Ordakovski — Advogado especialista em Direito do Trabalho e Gestão de Contencioso Empresarial.



O artigo explica de forma clara e objetiva como funciona o crédito consignado privado e as mudanças recentes que tornam essa modalidade mais acessível para trabalhadores do setor privado. A abordagem sobre a redução da burocracia e a possibilidade de taxas mais baixas é bastante relevante, especialmente para quem busca alternativas ao crédito tradicional. Seria interessante, inclusive, aprofundar um pouco mais os cuidados que o trabalhador deve ter antes da contratação, como o impacto no orçamento mensal e situações de demissão. No geral, é um conteúdo informativo e muito útil para quem quer entender melhor esse tipo de crédito.
ResponderExcluirO texto aborda de forma contundente os impactos negativos do crédito consignado quando tratado apenas como uma solução rápida para problemas financeiros. A análise vai além dos números e chama a atenção para os efeitos que o endividamento pode ter tanto na vida dos trabalhadores quanto na produtividade e clima organizacional nas empresas. A mensagem sobre a necessidade de educação financeira e políticas internas mais sólidas é um ponto importante que merece reflexão, especialmente num contexto em que o crédito muitas vezes parece ser a única saída imediata. Um artigo que provoca o leitor a pensar criticamente sobre as consequências de decisões financeiras aparentemente simples, mas com grande peso no longo prazo.
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