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quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Crédito fácil, vida difícil

A indústria do consignado está quebrando trabalhadores, empresas e a produtividade nacional 

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil


Por Alan Carlos Ordakovski – Advogado Empresarial e especialista em Gestão de Relação do Trabalho.


Em apenas sete meses, a contratação de consignados por trabalhadores brasileiros quase triplicou e os juros já beiram 60% ao ano, cenário que empurra famílias para um ciclo de endividamento crônico, mascarado pela falsa sensação de crédito fácil, barato e “seguro”.

Só que ninguém está contando a outra parte da história:

  1. a) o consignado está corroendo a saúde financeira dos trabalhadores;
  2. b) destruindo a produtividade das empresas; e
  3. c) criando um passivo explosivo dentro das áreas de RH, crédito e cobrança

Como advogado empresarial e estudioso do comportamento financeiro corporativo, afirmo sem hesitar: o consignado virou uma bomba-relógio social e empresarial.

Na matemática cruel do consignado, os números são tão escandalosos quanto silenciosos:

  • Taxas que já chegam a 58% ao ano para determinadas modalidades.
  • Comprometimento médio de 30% a 40% do salário líquido dos trabalhadores endividados.
  • Inadimplência recorde: mais de 72 milhões de brasileiros estão negativados, nada menos o maior número da história.
  • Entre 2023 e 2024, segundo dados apurados pela mídia financeira, houve incremento superior a 40% na busca por consignados apenas para pagar outras dívidas. A clássica “dívida para apagar dívida”.

Isso não é crédito! Isso é erosão de renda disfarçada de solução rápida.

E quando o salário desaparece antes do dia 05, não há produtividade, foco, disciplina ou desempenho que sobreviva.

Ao contrário do que muitos imaginam, o problema do consignado não é apenas do trabalhador.
Ele é, também e cada vez mais, um problema empresarial.

Empresas estão lidando com:

  1. Aumento de faltas, atrasos e afastamentos: Funcionários sufocados por dívida apresentam sinais claros: queda de desempenho, desatenção e adoecimento. E quem paga essa conta? A empresa!
  2. Pressão por adiantamentos, acordos e “empréstimos internos”: setores de RH estão sendo convertidos, informalmente, em agências de socorro financeiro emergencial.
  3. Crescimento da litigiosidade trabalhista: salários corroídos por consignados disparam conflitos, pedidos de rescisão indireta, denúncias e demandas judiciais alegando abusos ou “descontos indevidos”.
    O Judiciário, já abarrotado, virou o confessionário do superendividamento.
  4. Rotatividade crescente: O trabalhador altamente endividado busca saídas desesperadas: troca de emprego por qualquer oferta que prometa “salário maior”, sem análise de carreira.

A empresa perde talento, perde dinheiro e perde previsibilidade. O consignado virou muleta emocional e financeira que impede o trabalhador de evoluir  e impede as empresas de performar. Ele não resolve o problema; ele anestesia o sintoma. O trabalhador entra, silenciosamente, numa espiral: salário, dívida, novo consignado, limite estourado, inadimplência, desespero, queda de performance. Esse ciclo não é individual. É estrutural! É cultura! E é devastador! Tal contexto requer uma postura empresarial mais forte, isso porque as empresas são o único agente que vê o problema antes dele explodir.

As empresas precisam:

  1. Criar políticas claras de prevenção ao superendividamento: Sim, isso é cultura organizacional. E cultura protege as relações de trabalho e consequentemente o clima e os resultados corporativos.
  2. Trabalhar educação financeira com autoridade e recorrência: sem paternalismo, sem moralismo. 
  3. Rever políticas internas que incentivam “crédito fácil”: adiantamentos automáticos, antecipações recorrentes e benefícios mal estruturados são gatilhos silenciosos.
  4. Atuar juridicamente de forma estratégica: ora para evitar passivos trabalhistas decorrentes do excesso de consignados, ora para proteger a empresa de alegações de abuso, ora para estruturar políticas mais inteligentes e seguras.

O Consignado Virou um Sintoma de Algo Maior...

O trabalhador está financiando seu próprio custo de vida a juros de país quebrado. E a empresa está absorvendo, sem perceber, a conta oculta dessa fragilidade financeira. Se não enfrentarmos esse tema agora, com dados, coragem e políticas inteligentes, estamos condenando a economia e as relações de trabalho, a um ciclo permanente de baixa produtividade, conflitos e estagnação. Diante de todo esse contexto, é necessário deixar um recado claro e incomodamente necessário: o consignado não é um vilão solitário, mas é, hoje, um dos principais aceleradores do colapso financeiro silencioso do trabalhador brasileiro. E, se nada mudar, será também o próximo grande acelerador de passivos empresariais, conflitos judiciais e queda de competitividade. O Brasil precisa de uma virada cultural. E essa virada começa com a coragem de falar o óbvio. Crédito fácil está destruindo o futuro da nossa força de trabalho, sabotando silenciosamente o crescimento das empresas e contribuindo para o colapso da economia brasileira.


Ordakovski & Tavares Júnior Advogados Associados (OTJ)
Dr. Alan Carlos Ordakovski — Advogado especialista em Direito do Trabalho e Gestão de Contencioso Empresarial.

2 comentários:

  1. O artigo explica de forma clara e objetiva como funciona o crédito consignado privado e as mudanças recentes que tornam essa modalidade mais acessível para trabalhadores do setor privado. A abordagem sobre a redução da burocracia e a possibilidade de taxas mais baixas é bastante relevante, especialmente para quem busca alternativas ao crédito tradicional. Seria interessante, inclusive, aprofundar um pouco mais os cuidados que o trabalhador deve ter antes da contratação, como o impacto no orçamento mensal e situações de demissão. No geral, é um conteúdo informativo e muito útil para quem quer entender melhor esse tipo de crédito.

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  2. O texto aborda de forma contundente os impactos negativos do crédito consignado quando tratado apenas como uma solução rápida para problemas financeiros. A análise vai além dos números e chama a atenção para os efeitos que o endividamento pode ter tanto na vida dos trabalhadores quanto na produtividade e clima organizacional nas empresas. A mensagem sobre a necessidade de educação financeira e políticas internas mais sólidas é um ponto importante que merece reflexão, especialmente num contexto em que o crédito muitas vezes parece ser a única saída imediata. Um artigo que provoca o leitor a pensar criticamente sobre as consequências de decisões financeiras aparentemente simples, mas com grande peso no longo prazo.

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