Por Luiz Roberto Serrano, jornalista e coordenador editorial da Superintendência de Comunicação Social (SCS) da USP
Estive na Venezuela em meados de 1984, acompanhando o presidente do então PMDB, Ulysses Guimarães, em uma viagem organizada pelo empresário e editor Fernando Gasparian, que dirigia a sessão paulista do partido. Era o fim da ditadura no Brasil, e a viagem consistiu em visitas ao presidente venezuelano Jaime Lusinchi, da Ação Democrática, e em um jantar na casa do ex-presidente Carlos Andrés Perez, do mesmo partido – que tinha forte vinculação com a Internacional Socialista europeia. Foi realizada visita, também, ao parlamento venezuelano, onde Ulysses Guimarães discursou e foi distribuído um jornalzinho com notícias sobre o momento político brasileiro (a ditadura se auto extinguiria no ano seguinte) que eu editara.
A viagem tinha como objetivo dar visibilidade a uma possível candidatura de Ulysses Guimarães à Presidência da República nas eleições que, supunha-se, aconteceriam depois do encerramento do regime militar. Como se sabe, as eleições foram indiretas, e o governador de Minhas Gerais, Tancredo Neves, foi o escolhido no Colégio Eleitoral, mas faleceu antes de tomar posse.
Voltando à Venezuela, nessa viagem visitamos também as sedes dos dois partidos que se alternavam no poder, naquele momento democrático do país, a Ação Democrática e o Copei – Comitê de Organização Política Eleitoral Independente, de orientação social-cristã. Nas visitas às sedes dos dois partidos, chamaram-me a atenção as enormes filas que se formavam às suas portas. Eram venezuelanos(as), segundo me informaram, à procura de um passe ou uma recomendação para ter acesso ao sistema de atendimento médico do país ou a algum tipo de serviço que os auxiliasse a aliviar as necessidades de suas vidas simples e pobres. Em contrapartida, também me impressionaram a quantidade de viadutos em Caracas e os grandes automóveis de fabricação norte-americana que rodavam pelas ruas.
Acompanhando os atuais acontecimentos venezuelanos, constato que os rápidos flashes que trouxe daquela viagem no século passado explicam boa parte das tensões na sociedade do país, que possibilitaram a ascensão eleitoral de Hugo Chávez e sua guinada esquerdizante, prosseguida e radicalizada por seu sucessor, agora apeado do poder, Nicolás Maduro.
A recente reeleição de Maduro foi fortemente contestada, e o mandatário não fez qualquer questão de apresentar as atas eleitorais que comprovariam a escolha dos venezuelanos. Simplesmente, tomou posse em mais um mandato. Mas sua vida, que tocava com apoio chinês e russo, começou a se complicar quando Donald Trump voltou ao poder nos EUA no começo do ano passado. Aí começou sua via-crucis.
Entre os argumentos de Trump contra o mandarinato de Maduro, uma parte se concentrou na exportação de drogas para os EUA, em que a participação da Venezuela é muito menor do que a do México e a da Colômbia. Mas no que o presidente norte-americano estava e está de olho, mesmo, é no petróleo venezuelano.
Ainda em dezembro passado, Trump mostrou seu objetivo: obter a devolução de “todo o petróleo, terras e outros ativos que anteriormente roubaram de nós”, os EUA. Referia-se à nacionalização da indústria petrolífera venezuelana, tocada por Chávez, que gerou processos de US$ 600 bilhões em tribunais norte-americanos e internacionais, contra o país e sua estatal, a PDVSA.
Atualmente, apenas a petroleira norte-americana Chevron explora o produto na Venezuela, extraindo cerca de um terço de tudo que sai dos poços no país. No total, a Venezuela produz atualmente algo como um bilhão de barris por dia, bem menos que os três bilhões que já foram extraídos do solo do país no passado.
Tump, em sua campanha eleitoral, bradava nos comícios “drill, drill, drill”, incentivando os norte-americanos a voltar a perfurar em busca de petróleo, na contra-mão das campanhas mundiais contra a poluição da atmosfera, em que o chamado “ouro negro” é um dos vilões – mas tem sobrevivido aos esforços desenvolvidos nas Conferências do Clima (COPs) para bani-lo como insumo energético. O governo dos EUA, é bom lembrar, não participou da COP30, realizada no fim do ano passado em Belém.
Por mais que ao governo de Maduro faltasse legitimidade democrática, nada autorizaria o governo Trump a removê-lo do poder, como o fez, retirando-o do país e levando-o a ser julgado em um tribunal nova-iorquino. É uma atitude que agride todas as convenções de convivência internacional, excetuados os casos de guerra declarada. Os protestos internacionais contra o ato variaram de tom, a favor, contra e mais ou menos, dependendo das relações de cada país com os EUA.
O episódio, que ainda está em curso, com final indefinido, revela a fragilidade das relações internacionais quando envolvem os três poderes que se destacam na comunidade global e os interesses de um dos três países dominantes – EUA, China e, quem diria, Rússia – é contrariado.
Por que preferir o belicismo à ação diplomática, mesmo que esta seja exaustiva? Revela, também, quão frágeis têm sido as instituições globais, tipo ONU e congêneres, para apaziguar interesses conflitantes movidos pelo desejo de prevalecer em disputas internacionais. Ao conflito Rússia x Ucrânia, soma-se agora a imposição da vontade dos EUA sobre a Venezuela, e as demonstrações de força da China no oceano que cerca a ilha de Taiwan, sem falar em outras disputas menores pelo mundo afora.
Na visita à Venezuela, que relatei no começo deste texto, já era possível perceber que aquele momento democrático que o país vivia, tão elogiado pela oposição no Brasil pré-abertura política, vivia sobre pilares socialmente frágeis. A ascensão de Chávez e Maduro comprovou essa fragilidade, não corrigiu as desigualdades econômicas da sociedade suficientemente e lançou mão do autoritarismo como recurso político.
A atual remoção de Maduro, patrocinada pelo governo Trump e sua obsessão pelo “drill drill drill”, indica que o mandatário norte-americano aposta alto na sobrevivência do velho petróleo como combustível predominante, apesar de todas preocupações climáticas que marcam o momento atual. Resta acompanhar quais serão os desdobramentos, no nosso continente, da ação bélica dos EUA sob o signo da reintrodução da Doutrina Monroe – “América para os americanos”.



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