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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A carne está livre o ano inteiro: o Carnaval tornou-se obsoleto



O Carnaval foi, em sua origem, um rito de passagem típico de sociedades tradicionais. Inserido no calendário cristão, marcava o limiar entre o excesso e a contenção, entre a carne e a penitência, antes dos quarenta dias da Quaresma. No Brasil do século XX, porém, essa festa foi progressivamente apropriada como instrumento de propaganda política,  espetáculo de massas e, no Século XXI vitrine identitária. Hoje, esvaziado de seu sentido simbólico original, tornou-se sobretudo um grande negócio — financiado pelo consumo excessivo de álcool, pelo patrocínio das chamadas bets de apostas eletrônicas e por uma indústria que transforma folia em produto.


O que resta é um evento que já não se sustenta como tradição espiritual nem como expressão cultural espontânea. O Carnaval converteu-se em engrenagem econômica e plataforma política. Prefeituras disputam blocos, patrocinadores disputam visibilidade, artistas disputam contratos. A retórica ideológica — ora à esquerda, ora à direita — serve apenas como verniz. No fundo, trata-se de mercado e poder.


O Brasil, que ainda convive com graves déficits educacionais, parece confortável em investir energia simbólica no desfile das escolas de samba enquanto falha em consolidar escolas de excelência científica. Não se trata de negar a criatividade popular ou a potência estética do samba. O problema é a desproporção: celebramos o espetáculo como prova de grandeza nacional, enquanto permanecemos periféricos na produção tecnológica e no domínio do conhecimento avançado. Confundimos visibilidade midiática com relevância civilizatória.


Há também um anacronismo moral evidente. O Carnaval tradicional pressupunha um ciclo: excessos antes da contenção; festa antes do jejum; carne antes da renúncia. Mas em uma sociedade que já dessacralizou a sexualidade, relativizou o jejum e praticamente esqueceu a Quaresma, a lógica ritual perdeu coerência. Quem ainda observa os quarenta dias de penitência? Quem estrutura a vida pelo calendário litúrgico? Se a carne está liberada o ano inteiro, o que exatamente o Carnaval antecede?


Quando o rito perde seu fundamento simbólico, resta o entretenimento — e, muitas vezes, a desordem. O que deveria ser celebração cultural transforma-se, não raramente, em transtorno urbano: cidades bloqueadas, serviços públicos sobrecarregados, ruas convertidas em sanitários improvisados, juventude exposta precocemente ao álcool e a outras drogas. 


Tudo indica que o Carnaval, como fenômeno cultural estruturante, acabou. O que sobrevive é uma indústria de entretenimento sazonal e uma ferramenta política conveniente. Talvez seja hora de amadurecer culturalmente: preservar as reminiscências artísticas que têm valor histórico e estético, sem transformá-las em dogma identitário nem em desculpa para a irresponsabilidade coletiva.


Uma nação demonstra grandeza não pelo volume de seu som, mas pela qualidade de suas instituições, de sua educação e de sua produção intelectual. Enquanto insistirmos em confundir espetáculo com civilização, continuaremos a celebrar a superfície e a negligenciar a substância.

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