Há revoluções que mudam governos; outras, que alteram fronteiras; e existem as mais discretas — aquelas que salvam a convivência humana sem que a História lhes dedique uma linha. Refiro-me, com a solenidade que o tema merece, à revolução do desodorante spray.
No interior do Nordeste — falo de um tempo que se encerrou há uns vinte anos, embora ainda resista na memória como fotografia sépia — o calor sempre uma instituição mais estável que a República. O banho, entretanto, não gozava da mesma estabilidade. Não por desprezo filosófico ao asseio, mas por uma hierarquia prática das urgências: primeiro o feijão, depois a virtude; primeiro o pão, depois o perfume.
As sandálias — quase sempre da marca universal que atende pelo nome de Havaianas — custavam um real e, ainda assim, exigiam longevidade de patriarca bíblico. Pregos substituíam milagres. O sabonete, esse luxo aromático, rendia-se ao sabão bruto, cuja espuma tinha mais caráter que fragrância. E o desodorante, quando não comparecia sob a forma elegante do “leite de rosas”, apresentava-se em versão cítrica: limão espremido com fé e resignação.
Quanto aos dentes, eram companheiros provisórios. Perdê-los não era tragédia, mas rito de passagem. A dor de dente equivalia a uma iniciação filosófica: ensinava mais sobre a finitude do que qualquer tratado. Para a higiene bucal, havia a raspa de juá — remédio e metáfora de uma civilização que fazia do improviso a sua ciência.
Curiosamente, muitos poetas populares evocam esse quadro com ternura épica, como se a carência fosse medalha e a fome, paisagem turística. Exaltam a casa de taipa, o cangaceiro e a penúria com o mesmo fervor com que outros celebram palácios. É possível que a saudade, essa grande romancista, lhes retoque as misérias com filtro dourado.
Mas voltemos ao fato histórico.
Era réveillon de 2003, na pacata Florânia. A igreja estava tão cheia que os fiéis disputavam espaço com os próprios pecados. Coube-nos a honra estratégica de permanecer à porta, sob a torre, onde o vento circulava com moderação cristã.
Foi então que se posicionou ao nosso lado uma senhora de presença física inquestionável e aroma igualmente afirmativo. Chamemos o fenômeno de “suvaqueira nuclear”, não por crueldade, mas por precisão científica. O desodorante spray — esse agente civilizatório — ainda não se popularizara por aquelas bandas; só o faria alguns anos depois, trazendo consigo a promessa de paz olfativa.
Ali, entre o incenso litúrgico e a evidência axilar, compreendi que o progresso não se mede apenas por índices econômicos. Há avanços que se infiltram pela axila e transformam a sociabilidade. A industrialização do aerosol foi, ouso dizer, mais eficaz que muitos discursos parlamentares.
Se a missa tivesse conservado a duração épica dos tempos do padre Cortez — três horas de eternidade e meia — este cronista não estaria aqui a narrar o episódio. Teria sido vencido não pela fé, mas pela atmosfera.
Assim, quando alguém falar das grandes revoluções do século, lembrem-se desta, silenciosa e perfumada. A História pode ignorá-la; os narizes, jamais.



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