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| Foto: Gabriel Lyon/MDS |
Constituída de modo relativamente isolado, a atrevida nação brasileira que se formou nos sertões semiáridos do hoje chamado Nordeste caracterizou-se, historicamente, por uma forte rigidez de costumes e por uma profunda desconexão com o mundo exterior. Tratava-se de uma sociedade assentada na autossuficiência, na economia de subsistência e na baixa circulação monetária. O dinheiro tinha importância limitada, não apenas por escassez material, mas porque as relações sociais e produtivas se organizavam muito mais pela troca direta, pela reciprocidade e pelos vínculos pessoais do que por contratos impessoais mediados pelo mercado.
Não é simples viver na área da caatinga. A mata cinzenta, aparentemente hostil, quase não oferece frutos espontâneos; a vida ali estabelecida exigiu permanente e intensa intervenção humana. A civilização do sertão foi construída a golpes de resistência e adaptação. Apesar da imagem recorrente da fome e das chamadas “secas”, a região chegou a estabelecer, como observou Josué de Castro, uma das melhores bases nutricionais do Brasil nos primeiros séculos após a ocupação portuguesa, com dieta relativamente equilibrada, baseada na pecuária, no milho, no feijão e na mandioca. A narrativa exclusivamente miserabilista apaga a complexidade histórica de um território que, embora vulnerável às irregularidades climáticas, desenvolveu soluções próprias de sobrevivência.
Diferentemente das zonas da cana-de-açúcar e, posteriormente, do café, onde a grande plantation escravista estruturou a economia e a sociedade, a escravidão teve menor centralidade no sertão. Ali prevaleceu um sistema mais próximo de uma ordem senhorial descentralizada, fundada no grande latifúndio pecuarista e em relações de dependência pessoal. As trocas de favores, o compadrio e a proteção oferecida pelo proprietário substituíam, muitas vezes, a mediação do Estado e do mercado. Não se tratava de feudalismo no sentido clássico europeu, mas de uma ordem patriarcal e hierárquica em que a lealdade pessoal era mais relevante que a mobilidade econômica.
A mentalidade forjada nesse ambiente encontrou grandes dificuldades para transitar às relações liberais baseadas na individualidade, no cálculo racional e na centralidade do dinheiro. A inovação era frequentemente vista com desconfiança, e a difusão científica encontrava barreiras culturais e estruturais. Intelectualmente, consolidou-se ao longo do século XX uma imagem cristalizada do Nordeste como região presa ao passado, quase imune à mudança histórica. Como argumenta Durval Muniz de Albuquerque Jr., o “Nordeste” foi também uma invenção discursiva, construída por narrativas que o fixaram como espaço da seca, da tradição imutável e da carência estrutural. Essa representação contribuiu para naturalizar o atraso e reduzir a região a uma identidade estática.
O Bolsa Família, concebido como política de transferência direta de renda, dialoga, paradoxalmente, com fundamentos teóricos associados ao imposto de renda negativo formulado por Milton Friedman, expoente da chamada Escola de Chicago e da tradição liberal que enfatiza a eficiência das transferências monetárias em vez da intervenção estatal indireta. Ao garantir renda mínima às famílias pobres, o programa criou uma ampla massa de novos consumidores e inseriu de maneira mais profunda a região na dinâmica capitalista. A circulação monetária intensificou-se, o comércio expandiu-se e o consumo deixou de ser evento excepcional para tornar-se rotina. Desfez-se, gradualmente, a mentalidade segundo a qual as coisas deveriam permanecer “como sempre foram”, substituída por uma ética de mobilidade social e de busca por melhoria material. Ao contrário do argumento de que produziria acomodação, o programa reduziu a dependência de favores pessoais e enfraqueceu a lógica da esmola, ao transformar o benefício em direito institucionalizado.
Nesse contexto, emergiu uma significativa onda empreendedora. As economias das cidades do interior nordestino passaram a se ancorar cada vez mais no comércio e em uma vasta rede de pequenos negócios — salões de beleza, oficinas, mercearias, confecções, serviços domésticos especializados — muitas vezes instalados no próprio domicílio ou em pequenas lojas. O aumento da renda circulante estimulou mercados locais e fortaleceu cadeias produtivas regionais. Curiosamente, no Brasil, ideias associadas ao liberalismo econômico — como a transferência direta de renda para dinamizar o mercado — foram implementadas por partidos situados à esquerda do espectro político. O resultado foi uma transformação silenciosa: ao garantir o mínimo, ampliou-se o espaço para o risco, para o consumo e para a iniciativa individual, reforçando as bases do próprio capitalismo na região historicamente mais marcada pela economia da escassez.



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