Por Octavio Tristan Morato, Gerente de Projetos da Portal Telemedicina*
A relação entre meio ambiente e saúde deixou de ser um debate conceitual para se tornar uma evidência concreta do nosso tempo, e ignorar essa conexão é uma das maiores falhas das políticas públicas contemporâneas. A degradação ambiental não ameaça apenas florestas, rios ou espécies isoladamente, ela se traduz em adoecimento humano, aprofundamento das desigualdades sociais e sobrecarga crônica dos sistemas de saúde. Rios poluídos, solos empobrecidos por modelos agrícolas intensivos, a perda de biodiversidade, o aumento das temperaturas e até a dificuldade de locomoção causada pela seca de rios, sobretudo em regiões dependentes do transporte fluvial, são exemplos concretos de como a degradação ambiental afeta diretamente a saúde das populações. Em um país como o Brasil, marcado por assimetrias territoriais profundas, tratar a crise ambiental como um tema secundário significa aceitar que populações inteiras continuem pagando com a própria saúde o preço de decisões econômicas de curto prazo.
Os dados globais deixam claro que essa não é uma opinião ideológica, mas uma constatação sustentada por números alarmantes. Segundo o relatório Environmental Health, da Organização Mundial da Saúde, publicado em 2024, cerca de 25% das mortes no mundo estão associadas a fatores ambientais evitáveis. O Global Environmental Outlook, da Organização das Nações Unidas, atualizado no mesmo ano, estima que mais de 13 milhões de pessoas morrem anualmente em decorrência direta de riscos ambientais. Esses números revelam algo incontornável: estamos diante de um modelo de desenvolvimento que transforma o meio ambiente em um determinante estrutural de morte precoce, e não agir sobre isso equivale a aceitar a perda evitável de milhões de vidas.
Entre os fatores ambientais, a poluição do ar se impõe como o exemplo mais evidente de como a degradação se converte em doença. De acordo com o relatório Estado da Saúde Ambiental Global, da OMS, aproximadamente 7 milhões de mortes por ano são atribuídas à má qualidade do ar, enquanto cerca de 90% da população mundial respira níveis de poluentes acima do considerado seguro, com dados consolidados até 2024. O Brasil contribui de forma significativa para esse cenário ao permitir que o desmatamento e as queimadas sigam alimentando a emissão de material particulado e gases tóxicos. Estudos da Fundação Oswaldo Cruz demonstram que a exposição prolongada à fumaça aumenta internações por doenças respiratórias e cardiovasculares, o que significa que a destruição ambiental não apenas adoece, mas gera custos permanentes para o sistema de saúde.
A dinâmica recente do desmatamento na Amazônia reforça esse raciocínio. Dados do PRODES, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, indicam que entre agosto de 2024 e julho de 2025 foram desmatados 5.796 km² na Amazônia Legal, mesmo com uma queda de 11,08% em relação ao período anterior. Essa redução, embora positiva, não altera o fato de que o volume de floresta suprimida segue alto o suficiente para sustentar ciclos recorrentes de queimadas. O resultado é a deterioração da qualidade do ar em regiões que extrapolam a Amazônia, ampliando a exposição da população a poluentes e convertendo o desmatamento em um vetor indireto, porém consistente, de mortes evitáveis.
Os impactos do desmatamento vão além da poluição atmosférica e atingem de forma direta o campo das doenças infecciosas, o que reforça minha convicção de que saúde e meio ambiente são inseparáveis. Pesquisas publicadas na revista The Lancet Planetary Health indicam que áreas recém-desmatadas apresentam maior incidência de malária devido à alteração do habitat do mosquito transmissor. No Brasil, mais de 99% dos casos da doença concentram-se na Amazônia Legal, segundo dados do Ministério da Saúde, justamente onde a abertura de estradas e a degradação ambiental ampliam o contato humano com vetores. Isso evidencia que o desmatamento vai além da destruição ambiental, ao alterar padrões de risco à saúde e aumentar a exposição de comunidades vulneráveis a doenças que poderiam ser prevenidas.
Diante desse conjunto de evidências, a saúde se tornou o termômetro mais sensível da crise ambiental. O aumento das temperaturas médias, a piora da qualidade do ar e a perda de cobertura florestal alimentam a expansão de doenças respiratórias, cardiovasculares e transmitidas por vetores. Ignorar essa correlação significa aceitar políticas reativas, caras e ineficientes, em vez de investir em prevenção. Proteger florestas, reduzir emissões e controlar o desmatamento não são escolhas ideológicas, mas estratégias concretas de promoção da saúde, redução de mortes evitáveis e enfrentamento das desigualdades. Cuidar do meio ambiente é, de forma inequívoca, cuidar das pessoas.
Cuidar da saúde, portanto, não pode ser reduzido à dependência exclusiva de tecnologias modernas, medicamentos farmacêuticos ou ações reativas às doenças já instaladas. É indispensável priorizar a prevenção e refletir criticamente sobre hábitos de vida cada vez mais nocivos, como o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados, o agravamento do sofrimento mental, o isolamento urbano, a falta de exposição ao sol e o afastamento do contato cotidiano com a natureza. Ao adotar estilos de vida mais conectados aos territórios naturais, promovemos não apenas melhores condições de saúde física e mental, mas também fortalecemos a preservação ambiental, criando um ciclo virtuoso entre bem-estar humano e equilíbrio ecológico.
Proteger florestas, reduzir emissões e controlar o desmatamento não são escolhas ideológicas, mas estratégias concretas de promoção da saúde, redução de mortes evitáveis e enfrentamento das desigualdades. Cuidar do meio ambiente é, de forma inequívoca, cuidar das pessoas.
*Octavio Morato é empreendedor e empresário, com sólida formação em Engenharia Civil e pós-graduação em Administração de Empresas, especializado em inovação XR/VR, projetos complexos no setor da saúde e iniciativas de impacto social.


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