Publicou Jean-Jacques Rousseau o seu famoso Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens, onde sustentou — com aquela gravidade que só os filósofos e os defuntos possuem — que o grande infortúnio da humanidade é pensar. Pensar, veja o leitor, não no sentido de calcular a conta do armazém, mas no de saber que se vive e, pior ainda, que se há de morrer.
Se o homem ignorasse a própria condição, seria talvez tão feliz quanto uma abóbora no pé. Mas como não ignora, sofre. Eis a tragédia.
Já Voltaire, que tinha mais gosto pela vela acesa do que pela sombra da caverna, preferia os confortos da civilização às virtudes imaginárias do estado natural. Entre a choupana filosófica e o salão iluminado, escolheu o salão — e não o censuro. Ninguém recusa um bom sofá por amor à coerência.
No Brasil, os portugueses fizeram-nos o obséquio — ou a violência, conforme o humor do historiador — de nos arrancar de uma idade remota e precipitar-nos no teatro da história europeia. Saltamos milênios em um empurrão. Não sei se foi progresso; sei que foi vertigem.
Hoje, quando se cochicha sobre guerras mundiais com a mesma leviandade com que se comenta a tabela do campeonato, e quando surgem governantes que parecem saídos de um pesadelo mal digerido do século passado, dou-me a reflexões menos heroicas: penso nos supermercados.
Sim, nos supermercados. Ria, leitor, se quiser.
Ali está o arroz que não plantei, o feijão verde que desafia o outubro seco do semiárido, a carne que não precisei arrancar do boi à força de marreta. A civilização — essa senhora tão difamada — poupa-nos da luta direta com a fome. Há nisso uma poesia modesta, mas decisiva: a poesia da prateleira abastecida.
Espero, confesso, que qualquer guerra futura aguarde ao menos o fim da Copa. O futebol é a única guerra tolerável: inútil, é verdade, mas incruenta — salvo uma canela sacrificada na conquista simbólica do território adversário. Nada que um bom emplastro não resolva.
Mas não me iludo. Os supermercados, como todas as instituições humanas, são mortais. Um dia poderão ser apenas lembrança, como as carruagens ou as polcas. E nós, se escaparmos às bombas e às loucuras dos homens sérios, talvez descubramos que a civilização era menos supérflua do que supúnhamos.
Rousseau dirá que pensar foi a nossa perdição. Eu acrescentaria, com a modéstia de quem já viu algumas ironias do destino: não pensar também costuma ser.



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