Por Dr. Guilherme Freire, médico infectologista da Unimed Franca*
Desde o final de 2023, novos registros de casos de vírus Nipah no Sul da Ásia voltaram a circular no noticiário internacional e, como é natural, despertaram apreensão. Trata-se de um vírus com potencial de gravidade elevada, mas isso não significa que estejamos diante de uma nova ameaça global comparável à Covid-19. O Nipah exige vigilância contínua e cooperação internacional, porém não apresenta, hoje, características que indiquem risco real de disseminação em massa.
Identificado pela primeira vez em 1999, na Malásia, o vírus Nipah é classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um patógeno zoonótico emergente, tendo morcegos frugívoros como principal reservatório natural. Segundo a OMS, os surtos registrados até hoje concentram-se majoritariamente em países como Bangladesh, Índia, Malásia e Singapura, geralmente associados a contato com animais infectados ou ao consumo de alimentos contaminados. Ainda de acordo com a OMS, a taxa de letalidade observada varia entre 40% e 75%, dependendo do surto e da capacidade de resposta local. Esses números explicam a atenção da comunidade científica, mas não significam, por si só, alto potencial pandêmico.
O principal fator que limita a expansão global do Nipah está na sua forma de transmissão. Diferentemente de vírus respiratórios altamente contagiosos, como influenza ou SARS-CoV-2, o Nipah não se espalha de maneira eficiente pelo ar. O Centers for Disease Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos, destaca que a transmissão ocorre principalmente por contato direto com secreções de animais infectados, ingestão de alimentos contaminados ou contato próximo e prolongado com pessoas doentes. Não há evidências de transmissão sustentada em larga escala entre humanos, o que reduz significativamente a probabilidade de cadeias extensas de contágio.
Existe a preocução de que todo vírus emergente pode “evoluir” e se tornar mais transmissível, justificando alarme antecipado. Embora mutações façam parte da dinâmica natural dos vírus, até o momento não existem indícios de que o Nipah esteja passando por alterações genéticas que modifiquem seu padrão epidemiológico. Segundo relatórios recentes da OMS, os casos continuam restritos a áreas específicas, com rastreamento de contatos e interrupção precoce das cadeias de transmissão. Vigilância não é sinônimo de pânico. É, na verdade, o mecanismo que impede que cenários piores se concretizem.
Outro ponto que merece ponderação é o impacto da vigilância epidemiológica global construída após a pandemia de Covid-19. Sistemas de alerta precoce, sequenciamento genético mais acessível e comunicação rápida entre países ampliaram consideravelmente a capacidade de detecção de patógenos. Isso faz com que mais casos sejam identificados e noticiados, o que pode gerar a sensação de aumento de ameaças, quando, na prática, o que aumentou foi a transparência e a capacidade de resposta.
A discussão sobre o vírus Nipah deve, portanto, ser pautada por equilíbrio. Reconhecer sua gravidade potencial é necessário. Transformá-lo em símbolo de um novo colapso sanitário global não é. O caminho mais responsável passa por manter sistemas de vigilância fortes, investir em pesquisa e reforçar medidas básicas de prevenção contra doenças infecciosas, sem induzir comportamentos baseados no medo. Informação qualificada protege mais do que alarmismo.
*Dr. Guilherme Freire é referência em infectologia na região de Franca (SP), com sólida experiência em vigilância de doenças infecciosas e atuação clínica na Unimed Franca.


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