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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

O que as paisagens dizem sobre quem somos?

Divulgação/ Gabriela Gazola Brandão


*Gabriela Gazola Brandão


Paisagens não são cenários a serem observados. Tampouco meros suportes físicos inertes sobre os quais existimos. Paisagens são vivas, têm cheiro, som, tato, gosto, emoção, memória – e nos afetam muito mais do que costumamos supor.  

Somos seres situados, ou seja, existimos em algum lugar: nossa existência física é, necessariamente, atrelada a um espaço geográfico, a uma paisagem. Deste fato decorrem diversas implicações, uma vez que somos influenciados pelos lugares que habitamos, pelas paisagens que habitamos. Não se trata de determinismo com causa e efeito diretos, gerais e previstos, uma vez que cada ser é único, apresentando particularidades de comportamentos e fisiologia que diversificam as respostas às experiências semelhantes. Trata-se de influências que se tornam íntimas e próprias daquelas existências, o que fica bastante evidente se ilustrarmos a questão com casos de povos que habitam geografias extremas no que diz respeito ao clima, por exemplo. Pensemos nos esquimós que habitam o Círculo Polar Ártico e seu mundo-vivido. Os tipos e ritmos das atividades desenvolvidas em um dia e ao longo de um ano, a alimentação, os costumes, a natureza das relações sociais, as edificações, o transporte – todo um modo de vida e uma existência diretamente relacionados com aquela geografia, em resposta a ela, construídos a partir dela. 

Ou ainda, mais perto de nós, considere as seguintes paisagens: urbanas metropolitanas, litorâneas, rurais de montanha. Quais as dinâmicas do cotidiano das pessoas que habitam cada uma delas? Qual a natureza das possibilidades para ações triviais como deslocar-se todos os dias para o trabalho ou para comprar algo? Onde e como se dão os encontros e os desencontros? Onde e como acontece o relacionar-se com o espaço vivido, com a paisagem, com o outro – as relações sociais? Que elementos visuais, olfativos, sonoros, táteis, afetivos, fazem parte do dia a dia dessas pessoas? De que são permeadas suas experiências, e, portanto, suas existências? As possibilidades de interação a que somos convidados são distintas entre si conforme onde nos situemos. 

Assim, nossas ações, comportamentos, modos de nos relacionarmos, hábitos, afetos e, portanto, nossa identidade, são afetados e construídos a partir do que nos oferece a paisagem que habitamos. Ampliando para um grupo social que habita o mesmo cenário, temos elementos que compõem a cultura local, a identidade de grupos sociais, o senso de pertencimento.  

Proponho, aqui, uma reflexão para o leitor: como as paisagens que você habita te constroem? 


*Gabriela Gazola Brandão é arquiteta e urbanista pela UFMG, pesquisadora associada ao GHUM (Grupo de Pesquisa Geografia Humanista Cultural) e autora do livro “Ser-Terra: paisagens do café” 


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