Uma chuva esplêndida caiu sobre Caicó na manhã desta terça-feira. Sem raios, sem ventania, apenas água em grande volume — dessas que deveriam ser bênção no sertão. Ainda assim, bastaram poucos minutos para que a cidade voltasse a exibir cenas recorrentes de centros urbanos sem planejamento: ruas alagadas, água invadindo residências e transtornos que não se explicam apenas pelo clima, mas sobretudo pela ausência de infraestrutura adequada.
O episódio escancara um problema estrutural que se agrava a cada ciclo eleitoral. Com a farra das emendas parlamentares, prefeitos do interior transformaram o orçamento público em vitrine política. Multiplicam-se obras de curto prazo, pensadas mais para fotografia de inauguração do que para funcionalidade urbana. O resultado é um urbanismo de ocasião, caro, ineficiente e, muitas vezes, danoso.
Os números do Orçamento da União ajudam a compreender esse cenário. Para 2026, o Congresso destinou 10% a menos de recursos via emendas para a educação, enquanto ampliou em 57% a previsão de despesas indicadas por deputados e senadores para a área da assistência social, que vai desde a entrega de refeições até o custeio de unidades de acolhimento de usuários de álcool e drogas. Também chama atenção o aumento de 16,4% das verbas voltadas ao urbanismo, frequentemente aplicadas na construção de vias, reformas cosméticas e “revitalizações” de praças públicas — intervenções que rendem visibilidade política imediata, mas raramente resolvem problemas estruturais.
Em Caicó, tornou-se quase um ritual: inaugura-se uma praça às vésperas de um grande evento. No ano passado, às portas da tradicional Festa de Sant’Ana, a Prefeitura derrubou árvores e cobriu de cimento uma área lateral da Catedral, patrimônio histórico e símbolo religioso da cidade. O nivelamento artificial ignorou critérios básicos de drenagem urbana, bloqueou o escoamento natural das águas e, como consequência direta, provocou o alagamento da igreja.
O erro é duplo. Primeiro, técnico: em uma cidade tórrida como Caicó, impermeabilizar o solo com cimento é apostar contra o clima e contra a lógica ambiental. Segundo, administrativo e patrimonial: a obra eleitoreira não apenas desperdiçou recursos públicos, como causou danos a um bem histórico, exigindo agora a remoção da intervenção recém-inaugurada.
No fim das contas, a chuva apenas revelou o que já estava mal feito. Não se trata de fenômeno natural extraordinário, mas de planejamento urbano precário, orientado por interesses eleitorais imediatos. Enquanto o poder público insistir em confundir urbanismo com maquiagem e gestão com propaganda, Caicó continuará a se afogar — mesmo quando a chuva vem mansa, sem trovões.



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