Segundo o mestre Luís da Câmara Cascudo — autoridade que não se discute sem perigo de ridículo — deu-se, na grande seca de 1898, um episódio digno de nota, não pela novidade, mas pela franqueza com que um homem resolveu tratar o sobrenatural.
A estiagem era longa, insistente e malcriada. A terra abrira fendas, o gado emagrecera até virar argumento filosófico, e as rezas já não subiam ao céu com a mesma convicção de antes. Foi então que um fazendeiro da zona rural de Caicó, homem de pouca paciência e muita convivência com a adversidade, “pegou ar” — expressão que, no sertão, equivale a uma declaração de guerra.
Entrou no seu oratório doméstico, abriu a porta com a intimidade de quem entra na própria cozinha e dirigiu-se aos santos não com súplica, mas com aviso prévio. Disse-lhes, em tom claro e sem metáforas:
— Se não chover daqui pra amanhã, quem for de pau vai pro fogo e quem for de barro vai pro porrete.
Não houve ladainha, nem promessa, nem voto de castidade futura. Houve apenas um prazo. O céu, ao que parece, entendeu a gravidade da situação — ou, quem sabe, apenas se compadeceu da ameaça material.
Naquela mesma noite, choveu para lascar. Chuva grossa, dessas que fazem barulho no telhado e dão razão ao agricultor. O chão bebeu, a esperança ressuscitou, e os santos permaneceram ilesos, cada qual em seu lugar, salvos não pela fé, mas pela eficácia do ultimato.
Dizem que o fazendeiro, satisfeito, nada comentou no dia seguinte. Afinal, o acordo fora cumprido. E no sertão, como se sabe, até os santos entendem que promessa é promessa — mas prazo é prazo.



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