Diante do aumento das tensões no Oriente Médio e da possibilidade de um ataque conjunto de Estados Unidos e Israel ao Irã, somado ao precedente da remoção de Nicolás Maduro do poder na Venezuela, João Alfredo Lopes Nyegray, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), alerta para um possível efeito sistêmico na ordem internacional.
Segundo o professor, o debate não se limita ao evento militar em si, mas às consequências estruturais para o sistema internacional. “Quando grandes potências recorrem ao uso da força sem autorização clara de mecanismos multilaterais, o impacto vai além do teatro de operações. A mensagem transmitida ao restante do mundo é que as normas podem ser relativizadas conforme o poder do ator envolvido”, afirma Nyegray.
De acordo com o professor da PUCPR, esse tipo de movimento pode gerar um efeito indireto perigoso: países com disputas territoriais latentes ou agendas revisionistas podem interpretar essas ações como um enfraquecimento prático das barreiras jurídicas e políticas que historicamente limitam o uso da força entre Estados soberanos. “Não se trata de um ‘sinal verde’ explícito, mas de uma erosão gradual da percepção de custo político. Em ambientes de competição estratégica, percepções são determinantes”, destaca.
O professor ressalta que a ordem internacional pós-1945 foi construída sobre a premissa de que o uso da força seria exceção e não instrumento rotineiro de política externa. “Se a força volta a ser normalizada como ferramenta de negociação, entramos em um cenário de maior imprevisibilidade estratégica. Estados passam a investir mais em dissuasão própria, inclusive militar, porque percebem menor confiabilidade nas instituições multilaterais”, explica.
No campo econômico, Nyegray aponta que os efeitos não se restringem ao preço do petróleo. “Conflitos dessa natureza elevam prêmio de risco global, pressionam cadeias logísticas, encarecem seguros marítimos e impactam decisões de investimento. A consequência é uma fragmentação econômica ainda mais acentuada, com aumento do custo de capital para mercados emergentes”.
Para o professor, ainda existem freios institucionais relevantes - como interdependência econômica, alianças regionais e mecanismos diplomáticos -, que dificultam uma liberalização total do uso da força. Contudo, ele alerta que a repetição de precedentes pode alterar cálculos estratégicos no médio prazo. “Geopolítica é, em grande medida, gestão de expectativas. Se a percepção global for de que as normas são flexíveis para alguns e rígidas para outros, o sistema tende a se tornar mais volátil e menos previsível. E volatilidade sistêmica tem custos econômicos e políticos que ultrapassam qualquer fronteira regional”, conclui.



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