Willian Barbosa Sales Thiago Silveira
Willian Barbosa Sales*
A sucessão de casos recentes de maus‑tratos e morte de animais de companhia no Brasil — registrados em estados como Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo, Paraná e Distrito Federal — não pode ser tratada como uma coleção de tragédias isoladas. À luz da ciência, trata‑se de um fenômeno social recorrente, mensurável e profundamente conectado ao modo como o país lida com a vida, a justiça e a desigualdade.
O Modelo dos Cinco Domínios do Bem‑Estar Animal, referência internacional, deixa isso claro. Nutrição, ambiente, saúde, interações comportamentais e estado mental formam um sistema integrado. Em episódios de espancamento, enforcamento, disparos de arma de fogo ou abandono extremo, todos esses domínios são violados simultaneamente. Não se trata de opinião, mas de um enquadramento técnico consolidado na literatura científica.
A violência ganha ainda maior gravidade quando se reconhece que cães e gatos integram famílias multiespécie. Esses animais participam de vínculos afetivos, rotinas e identidades coletivas. Quando um cão comunitário é morto ou um animal doméstico é torturado, o dano extrapola o indivíduo não humano e atinge laços familiares, redes de cuidado e a própria coesão social.
É preciso, contudo, ampliar o olhar. À luz dos Cinco Domínios, práticas socialmente naturalizadas também configuram maus‑tratos: submeter animais a ambientes superlotados, como shoppings e eventos, expô‑los a passeios em horários de calor intenso, transportá‑los em carrinhos de bebê que restringem movimento e comportamento natural, ou oferecer alimentos ultraprocessados destinados a humanos. Essas condutas comprometem o domínio ambiental, limitam interações comportamentais, afetam saúde e nutrição e culminam em estados mentais negativos, como estresse e desconforto. Maus‑tratos não se resumem à violência explícita; incluem escolhas cotidianas incompatíveis com as necessidades biológicas da espécie.
Sob o paradigma da Saúde Única (One Health/One Welfare), maus‑tratos a animais funcionam como marcadores de adoecimento social, frequentemente associados à violência interpessoal, à negligência institucional e à falha de políticas públicas integradas. O crescimento exponencial desses crimes, somado a respostas penais frágeis, evidencia o peso dos determinantes sociais — desigualdade, impunidade e ausência de articulação entre justiça, saúde e proteção animal.
Proteger animais não é sentimentalismo nem pauta menor. É compromisso ético, sanitário e civilizatório. A forma como um país trata seus animais revela, sem filtros, o grau de humanidade que está disposto a sustentar.
*Willian Barbosa Sales é Biólogo, Doutor em Saúde e Meio Ambiente e Coordenador dos cursos de Pós-graduação área da saúde do Centro Universitário Internacional UNINTER.


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