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quarta-feira, 11 de março de 2026

Alguém lamenta o fim de um homem sem corpo?

"Um corpo para Jaime", romance publicado por Luiza Fariello, narra a fragilidade das relações virtuais e a solidão da vida contemporânea

Divulgação / Editora Patuá


Jaime precisa morrer, mas não tem um corpo. Viver assim não é tão impossível quanto parece: basta buscar ajuda da inteligência artificial, publicar algumas fotos periódicas nas redes sociais, manter interações constantes no Whatsapp e construir uma boa história para conquistar um espaço no mundo. Em Um corpo para Jaime, romance escrito por Luiza Fariello, um dos protagonistas existe apenas no meio digital e desafia o conceito de humanidade ao se relacionar com as pessoas por meio da tecnologia.

Ele é um homem bem-sucedido, executivo de uma empresa de investimentos e está se preparando para trabalhar na Alemanha. Nascido no interior de Goiás, em uma família humilde, alcançou o topo da carreira depois de muito esforço. Mudou-se para a capital na adolescência, trabalhou como office-boy e, aos poucos, traçou uma carreira sólida. Costuma ser discreto sobre a vida pessoal, principalmente em relação à ex-mulher e à filha que vivem em outro estado. Apesar de contido sobre esse passado, abastece seu perfil nas redes sociais com imagens de viagens e textos sobre conquistas.

O problema é que Jaime é uma invenção de Mariano, um trabalhador que sempre teve dificuldades de se inserir na sociedade. Desde a infância, enfrentou situações desconfortáveis devido ao seu corpo e mantinha uma certa inabilidade em se comunicar com os outros. Sua rotina atual tampouco abre espaço para uma vida mais comunitária, porque ele mora em uma quitinete, passa a maior parte do tempo no trabalho e parece não encontrar o seu lugar em uma cidade que se faz, para ele, de grandes distâncias.

O que inicia somente como um passatempo começa a ganhar um lugar central na vida de Mariano. Através de Jaime, ele se apaixona por Olga e até é convidado a fazer uma apresentação online para debater sobre seu trabalho. Todas essas ações, que rompem as fronteiras entre o real e o imaginário, convidam o leitor a questionar sobre a solidão contemporânea e a virtualização dos relacionamentos.

Mariano começou a pensar nessas questões complexas cerca de oito meses depois de ter criado Jaime. No dia em que Jaime nasceu, um dia sem graça e sem vento em Brasília, Mariano não imaginava o quanto poderia ser complicado o processo de se desfazer dele. Aliás, nem imaginava como Jaime poderia ser importante. Apenas supunha entrar em uma vida nova, uma vida na qual se escolhesse o caminho e as conjunturas a serem vividas e compartilhadas, não essa vida pálida que mastigava há anos sem sentir o gosto. (Um corpo para Jaime, p. 12 e 13)

Com uma narrativa que mistura suspense, ironia e romance, a trama levanta debates profundos sobre a modernidade líquida de Zygmunt Bauman e os impactos da socialização no meio digital. “A solidão do personagem Mariano não é só dele, mas de todos, na medida em que estamos vivenciando uma época de individualismo exacerbado em que pouco se enxerga o outro, principalmente aquele que não se encaixa nos padrões reforçados pelas redes sociais”, explica a autora.

Autora de dois livros de contos, Luiza Fariello estreia no romance com esta publicação que conta com recomendação de Luiz Ruffato, autor de obras como “Inferno provisório” e “Eles eram muitos cavalos”. Ele afirma: "Li Um corpo para Jaime e gostei muito. Primeiro, da premissa: um sujeito medíocre — como somos a maioria das pessoas — vivendo uma vida medíocre e que, inconformado, resolveu tornar-se protagonista de uma história alheia. A narrativa é muito bem conduzida, misturando romance social, romance policial, romance de suspense e com toques de humor negro”.

FICHA TÉCNICA

Título: Um corpo para Jaime
Autora: Luiza Fariello
Editora: Patuá
ISBN: 978-65-281-0296-9
Páginas: 172
Preço: R$ 60 (físico)
Onde encontrarEditora Patuá

Sobre a autoraLuiza Fariello é professora de Língua Portuguesa da rede pública do Distrito Federal e doutoranda em Literatura na Universidade de Brasília (UnB), onde pesquisa sobre metodologias para ensino de poesia em sala de aula. Formada em Jornalismo, ela deixou a capital paulista por Brasília há 15 anos e hoje trabalha com o sonho de formar mais leitores no país. É autora do livro de contos “Essa palavra eu não falo”, semifinalista do Prêmio Oceanos (2022) e finalista do Prêmio Candango de Literatura (2022), e “Hoje, Deserto” (2024), finalista do Prêmio Candango de Literatura (2025), ambos publicados pela Editora Patuá. Um corpo para Jaime (2026) marca sua estreia no romance.

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