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segunda-feira, 23 de março de 2026

As quatro estações do ano em Caicó



Aprendi na escola — e não ouso contestar a ciência, que tem o defeito de estar quase sempre certa — que o planeta Terra possui quatro estações, organizadas com disciplina quase militar em torno do Sol. Primavera, verão, outono e inverno desfilavam nos livros didáticos como damas europeias, vestidas conforme o clima de Paris ou de Londres, lugares onde as folhas caem com elegância e a neve possui reputação literária.


O Natal, por exemplo, chegava-nos carregado de trenós, pinheiros e barbas brancas, embora o termômetro brasileiro insistisse em apontar quarenta graus à sombra, quando havia sombra. Papai Noel, em Caicó, sempre me pareceu um homem corajoso ou inconsequente — talvez ambas as coisas — por usar lã em pleno mês de dezembro.


Nunca torci pelo Flamengo nem pelo Corinthians. Não por antipatia; apenas porque o coração, quando nasce no sertão, cria raízes teimosas. Sempre fui América, América potiguar, escolha que me ensinou desde cedo a virtude filosófica da resistência. Não sou inimigo da globalização — palavra grande para fenômeno antigo — mas confesso certa simpatia pelas coisas que sabem o nome das ruas onde nasceram.


Se houvesse uma educação verdadeiramente regional, ensinar-se-ia nas escolas que Caicó também possui estações do ano, embora reduzidas a uma só, com discretas variações de humor, como certos políticos ou certos parentes.


De dezembro a março, temos o verão-verão, que é o verão em estado puro, sem metáforas nem concessões. O sol comparece diariamente, pontual como funcionário público em dia de fiscalização. Uma vez vi lançarem a moda verão em Caicó neste período...


De março a novembro, ocorre o verão com mato verde e aguaceiros, estação caracterizada pela esperança. Chove às vezes — nunca o suficiente para satisfazer o agricultor, mas o bastante para renovar conversas e promessas. A paisagem se veste de verde por alguns dias, como quem experimenta roupa nova antes de devolvê-la ao cabide da seca.


Entre junho e setembro instala-se o verão levemente nublado, fenômeno que os moradores observam com desconfiança científica, pois nuvens no sertão são sempre suspeitas de falsa propaganda.


Por fim, de setembro a dezembro chega o célebre verão BRO-BRÓ, estação que não consta nos tratados de geografia, talvez por pudor acadêmico. É o verão em sua versão filosófica extrema, uma espécie de ensaio geral do inferno, onde até o vento parece sair do forno e o cidadão caminha pelas ruas com a dignidade resignada dos mártires.


Assim se organizam as estações de Caicó: não pela inclinação da Terra, mas pela inclinação da paciência humana.


E talvez esteja aí uma lição que os livros não ensinaram: o mundo é redondo, mas cada lugar gira à sua própria maneira. Enquanto o hemisfério norte coleciona flocos de neve, nós colecionamos histórias sobre o calor — e sobrevivemos a ele com humor, que é, afinal, a única sombra permanente do sertanejo.

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