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terça-feira, 24 de março de 2026

Bets superam juros e crédito e viram principal motor do endividamento das famílias no Brasil

Estudo aponta que impacto das apostas esportivas é mais que o dobro da soma de juros e expansão do crédito

Foto: Joédson Alves/ Agência Brasil



Um novo estudo realizado pelo IBEVAR em parceria com a FIA Business School sobre o avanço do endividamento das famílias brasileiras revela uma mudança estrutural no perfil das pressões financeiras no país: as apostas esportivas online, popularizadas a partir de 2019, passaram a exercer impacto superior ao dos juros e da oferta de crédito na aceleração da dívida doméstica. 
 
A pesquisa analisou o período entre dezembro de 2011 e dezembro de 2025, com base em dados do Banco Central, IPEA e métricas de interesse capturadas por processamento de linguagem natural em redes sociais. O modelo econométrico de séries temporais controlou os fatores tradicionais — taxa de juros e volume de crédito em relação à renda — e isolou o efeito da entrada das bets no mercado brasileiro. 
 
O resultado é contundente: o coeficiente associado às apostas (0,2255) supera com ampla margem o impacto do crédito sobre a renda (0,0440) e dos juros ao consumidor (0,0709). Mesmo somados, os efeitos de crédito e juros não alcançam o peso atribuído à expansão das apostas. Segundo o estudo, o impacto das bets é quase o dobro da soma dos dois fatores tradicionais — podendo ser ainda maior, já que parte do efeito dos juros já está embutido na dinâmica do crédito. 
 
Para Claudio Felisoni, Presidente do IBEVAR e Professor da FIA Business School: “Ao longo do período analisado, observou-se uma leve tendência de desaceleração no crescimento do endividamento. No entanto, após a entrada das apostas esportivas — legalizadas em 2018 e amplamente difundidas a partir de 2019, antes da regulamentação definitiva em 2023 — a dinâmica da dívida ganha novo impulso”. 
 
O avanço das apostas no Brasil segue trajetória semelhante à observada nos Estados Unidos após a decisão da Suprema Corte que liberou o mercado em 2018. Estudos norte-americanos apontam que a legalização provocou aumento rápido e persistente no volume apostado, redução da poupança e queda nos investimentos financeiros. Em média, cada US$ 1 gasto em apostas reduziu quase US$ 1 em investimentos no mercado financeiro, com queda de cerca de 14% nos aportes líquidos em corretoras. 
 
Os efeitos negativos se concentram sobretudo em famílias financeiramente vulneráveis: aumento do endividamento no cartão de crédito, redução do crédito disponível, menor pagamento de faturas e maior uso de cheque especial. O padrão sugere deslocamento de recursos de atividades produtivas e poupança de longo prazo para apostas de retorno esperado negativo. 

No Brasil, os dados indicam fenômeno semelhante. Embora juros elevados e expansão do crédito continuem sendo determinantes importantes, a disseminação das apostas esportivas surge como um novo vetor estrutural de pressão sobre as finanças das famílias. 
 
"A conclusão do estudo é clara: o crescimento acelerado do mercado de bets não é apenas uma questão regulatória ou tributária — trata-se de um fator macroeconômico com potencial de ampliar a vulnerabilidade financeira e pressionar o endividamento doméstico no médio e longo prazo”, comenta Felisoni. 
 
Diante desse cenário, o debate sobre os custos econômicos e sociais da expansão das apostas ganha nova dimensão. O que parecia apenas uma nova fronteira de arrecadação pode estar se consolidando como um dos principais motores da fragilidade financeira das famílias brasileiras. 

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