Confesso ao leitor — que talvez já venha prevenido contra mim — que observo com certa melancolia um fenômeno moderno: nunca se falou tanto em inteligência, e raramente se pensou tão pouco. Antigamente, para parecer sábio, o sujeito comprava livros; hoje basta escolher um lado. É mais econômico, embora infinitamente menos proveitoso.
Não ignoro que os tempos mudam. Mudam as modas, mudam os chapéus e, sobretudo, mudam as certezas. O que me intriga é a facilidade com que parte da sociedade brasileira passou a acreditar que a inteligência reside em declarar-se de esquerda ou de direita, como se o espírito humano pudesse caber numa etiqueta, dessas que se colam em malas de viagem para evitar extravios.
Um dos legados mais curiosos da recente agitação política foi este: muitos passaram a sentir-se lúcidos apenas por pertencerem a uma trincheira ideológica. Não importa ler, duvidar ou refletir; basta alinhar-se. A convicção substituiu o raciocínio, e o grito tomou o lugar da argumentação.
Ora, esquerda e direita — permitam-me dizê-lo com a modéstia dos que desconfiam das certezas absolutas — nunca foram virtudes. São posições, circunstâncias, convenções históricas. Elevá-las à condição de essência moral equivale a confundir o mapa com o território. O sujeito deixa de pensar para representar um papel.
Recordo aqui o filósofo italiano Norberto Bobbio, homem paciente diante das ideias humanas, que gastou considerável esforço tentando distinguir esquerda de direita. E não o fez por capricho, mas porque a própria realidade insistia em embaralhar os conceitos. Aquilo que ontem era conservador hoje se apresenta progressista; o folclore brasileiro, que há um século repousava tranquilamente no colo da direita, encontrou depois abrigo entre os afetos da esquerda. As ideias, como os homens, mudam de endereço.
Entretanto, pesquisas recentes indicam que cresce o número de brasileiros que se definem por esses rótulos. É curioso: quanto mais complexa a sociedade se torna, maior parece o desejo de simplificá-la. Classificar substitui compreender; escolher um lado dispensa o trabalho incômodo de pensar.
Talvez seja nostalgia minha — defeito comum aos cronistas — mas houve tempo em que a ambição intelectual exigia algum esforço físico: ir à livraria, abrir um volume, suportar páginas inteiras sem emojis nem aplausos instantâneos. O livro não confirmava o leitor; contrariava-o. E nisso residia sua utilidade.
Hoje, porém, muitos preferem a confortável inteligência de grupo, onde ninguém precisa duvidar, apenas repetir. A esquerda absolve os seus; a direita também. E assim ambos se encontram, não na sabedoria, mas na mesma preguiça intelectual.
Se me perguntarem, portanto, onde está a virtude, responderei sem hesitação: não à esquerda nem à direita, mas na cabeça — esse território pouco frequentado, onde o estudo, a ética e a ciência ainda exigem silêncio, paciência e alguma coragem.
E suspeito, caro leitor, que enquanto houver mais opiniões do que leituras, continuaremos a discutir lados, quando o verdadeiro problema sempre foi a ausência de profundidade. Afinal, escolher um lado é fácil; difícil é pensar sem muletas.



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