Pesquisa mostrou que adoção de medidas simples e sem custo diminuiu em 18,5% a incidência geral de sepse tardia em prematuros de muito baixo peso atendidos em centros conveniados à Rede Brasileira de Pesquisas Neonatais
Resposta inflamatória desregulada e exagerada do organismo a uma infecção, a sepse é a principal causa de morte entre recém-nascidos prematuros de muito baixo peso ao nascer. Nos casos que envolvem bebês que vêm ao mundo pesando menos de 1.500 gramas, a sepse pode ocorrer associada a fatores ambientais, a chamada sepse tardia.
Ao nascer, o prematuro apresenta sistema imunológico imaturo e precisa de dispositivos de manutenção da vida, como ventilação mecânica e acesso venoso central para nutrição, o que aumenta sua vulnerabilidade à infecção. Mesmo essenciais, esses dispositivos podem ser uma porta para a entrada de agentes infecciosos.
Desde 1997, a Rede Brasileira de Pesquisas Neonatais reúne pesquisadores de centros universitários de referência com o objetivo de coletar dados sobre esses bebês prematuros de muito baixo peso e estabelecer estratégias para melhorar a assistência oferecida nas UTIs Neonatais. E a sepse tardia tem sido um ponto de enfrentamento deste grupo de cientistas, uma vez que pode ser evitada por meio de mudanças nas práticas assistenciais.
Em 2009, um grupo de trabalho foi destacado para acompanhar os principais fatores associados a essa condição nos centros médicos que fazem parte da Rede, pois na época um em cada quatro bebês apresentava sepse tardia. O índice chegou a 30% em 2020, quando surgiu a iniciativa de um projeto de intervenção.
Integrantes desse grupo de trabalho, as docentes Ligia Maria Suppo de Souza Rugolo e Maria Regina Bentlin, da Faculdade de Medicina do câmpus de Botucatu da Unesp, foram designadas pela Rede para coordenar o Projeto “DownLOS”. LOS (Late Onset Sepsis) é a sigla em inglês para a sepse tardia. Contando com a adesão de 12 centros no período entre 2021 e 2023, o projeto propôs mudanças que resultaram em uma queda na incidência de sepse tardia em 67% das unidades participantes. A redução geral da incidência foi de 18,5%.
Dentre as práticas que favorecem a incidência da sepse tardia, as pesquisadoras identificaram o uso de antibióticos nas primeiras 48 horas de vida em bebês sem infecção; as complicações relacionadas ao cateter venoso central, utilizado para administração de medicamentos e nutrição dos prematuros; e o início tardio da utilização do leite materno para a nutrição dos prematuros.
“Usar antibiótico precocemente em recém-nascidos prematuros leva a uma disbiose, ou seja, causa alterações na flora intestinal e favorece infecções. Percebemos que esse era um ponto muito sensível na Rede”, explica Bentlin. “E o outro ponto era a alimentação. Alimentar o bebê com o leite da mãe precocemente é a melhor estratégia. E a gente percebeu que havia um atraso nos nossos centros. Quando eu priorizo a nutrição a partir do leite materno, eu também consigo remover mais cedo o catéter vascular e reduzir suas complicações”, completa a pesquisadora.
Durante o estudo entre 2021 e 2023, foram incluídos os recém-nascidos prematuros com idade gestacional entre 22 e 36 semanas, pesando entre 400 e 1.499 gramas, sem malformações e internados na UTI Neonatal por mais de 72 horas, um total de 1993 bebês.
Entre as práticas, os centros envolvidos deveriam reduzir as complicações relacionadas aos cateteres centrais, suspender os antibióticos em bebês não infectados em até 48 horas, incentivar a extração de leite materno para início da alimentação nas primeiras 24 horas de vida e alimentação completa, sem necessidade de acesso venoso e nutrição por via endovenosa, até o décimo primeiro dia de vida.
Metade dos centros atingiu metas individuais estabelecidas e dois terços registraram redução na ocorrência de sepse tardia. Isso contribuiu para uma diminuição geral na incidência de sepse de 18,5%. Para Rugolo, os grandes destaques do projeto foram as metas adaptáveis à realidade de cada centro e o constante diálogo entre a equipe de pesquisa e as unidades participantes por meio de reuniões de avaliação.
“Nessas reuniões periódicas, sempre tivemos o cuidado, ao receber os dados dos centros, de compilar e fazer apresentações dos resultados de forma anonimizada”, explica a docente. “Cada centro sabia a sua sigla, mas a gente podia discutir sem nenhum constrangimento. E essa troca de experiências foi muito enriquecedora”, relata.


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