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domingo, 8 de março de 2026

Minha amiga, a chuva

Marcelino Vieira - Embrapa Semiárido


Confesso, sem grande cerimônia, que poucas coisas neste mundo me fazem tão bem quanto a chuva. Há quem prefira o sol claro, disciplinado e regular; eu, porém, inclino-me à chuva, que chega sem pedir licença, como uma velha amiga que bate à porta apenas para lembrar que ainda existimos.


Um poeta — desses que tiveram a elegância de multiplicar a própria alma em heterônimos — escreveu certa vez que, por vezes, basta ouvir passar o vento para justificar o nascimento. Pois digo, com modesta convicção, que tomar um banho de chuva fria cumpre função semelhante. Sempre que a água do céu me surpreende, sinto que a existência, essa grande questão filosófica, encontra ao menos uma breve justificativa.


Talvez seja efeito de haver nascido no semiárido. Não que o nascimento seja escolha nossa — ninguém consulta o recém-nascido sobre latitude ou clima —, mas acontece que certos lugares moldam o espírito como o oleiro molda o barro. E o semiárido, convenhamos, é um professor severo. Ensina-nos a olhar para o céu com mais atenção do que os habitantes de regiões onde a chuva é rotina banal.


Há, entretanto, um curioso preconceito contra nós, filhos dessas terras secas. Alguns nos olham como se tivéssemos cometido a imprudência de nascer onde nascemos. A estupidez humana, como se sabe, é fenômeno mais abundante que a água por aqui. E, para ser justo, também contribuímos um pouco para isso com a eterna cantilena da seca, repetida como se fosse destino metafísico.


Mas há outro modo de viver o semiárido. Em vez de esperar a chuva como quem espera um milagre tardio, podemos tratá-la como visitante ilustre. Vivemos tranquilos no seco; quando ela chega, abrimos as portas da alma e da casa. Alguns se escondem; eu, pelo contrário, saio. Deixo-me molhar. Caminho pelas ruas, pelos campos, e me pergunto — com sincero espanto — como pode ser tão fria, tão limpa, essa água caída do céu sobre uma terra tão quente.


Há momentos em que a primeira chuva, depois da longa estação de poeira, parece realizar um pequeno prodígio: lava o mundo. As árvores respiram, o chão muda de cor, o ar se torna quase novo. E nesses instantes penso que talvez exista uma certa poesia secreta nesses sertões admiráveis do Brasil — poesia que só se revela a quem tem paciência de esperar pela chuva.


E eu, que espero.

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