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quarta-feira, 4 de março de 2026

Mundo pode até criar vacina em cem dias, mas falha no acesso, diz líder de entidade sobre preparação para pandemias

Aurélia Nguyen afirma que desigualdade, lacunas de financiamento e falta de capacidade produtiva regional mantêm planeta vulnerável



A próxima pandemia pode encontrar a ciência pronta, mas não necessariamente um sistema global preparado para o enfrentamento. Para Aurélia Nguyen, vice-CEO da Coalition for Epidemic Preparedness Innovations, a CEPI, o mundo avançou significativamente na velocidade de geração de tecnologia após a covid-19, mas continua frágil em financiamento e equidade. “O mundo está mais preparado em alguns aspectos, porque aprendemos com a covid-19. Mas, em muitos sentidos, ainda está despreparado”, afirma.

O principal aprendizado foi a capacidade de desenvolver vacinas em tempo recorde. “Conseguimos, como comunidade global, em 326 dias”, afirma. Agora, a meta é ainda mais ambiciosa. “Queremos fazer isso em cem dias, desde o momento em que se identifica o patógeno até o dia em que se tem uma vacina.” Segundo ela, isso só é possível com esforço coordenado entre pesquisadores, governos e países parceiros. Mas a aposta depende de coordenação internacional e de redes integradas de pesquisa, regulação e produção, diz. A CEPI trabalha para distribuir essa capacidade pelo mundo, reduzindo a dependência de poucos polos industriais.

Aurélia concedeu esta entrevista na Alemanha, durante sua participação no Regulation & Investment - Frankfurt 2026, evento organizado pelo Dinter em parceria com a Universidade Goethe de Frankfurt am Main.

Desigualdade como vulnerabilidade

Se a ciência acelerou, o acesso ficou para trás. Segundo a pesquisadora, a covid-19 escancarou a assimetria entre países. “Houve enorme desigualdade na forma como os países conseguiram acesso às vacinas à medida que eram produzidas.” Para ela, o problema não é apenas moral, mas estratégico. “Essas ameaças virais podem surgir a qualquer momento e em qualquer lugar”, alerta. Um mundo desigual é também menos seguro.

A resposta, diz, passa por diversificação geográfica. “É realmente importante ter capacidade de desenvolver e fabricar vacinas em escala em todas as regiões do mundo.” Redes de manufatura, laboratórios e agências reguladoras precisam estar distribuídas para que cada região seja resiliente quando a próxima crise surgir. A meta é que cada região tenha capacidade própria de reação, e não dependa exclusivamente de exportações em momentos de escassez.

Convencer governos a investir em prevenção fora de um contexto emergencial é o desafio político central. Nguyen reconhece que há prioridades concorrentes, mas argumenta com números. “O custo da inação supera em muito o custo do investimento.” Segundo dados citados por ela, o impacto econômico da covid-19 chegou a US$ 14 trilhões. Em comparação, o Fundo Monetário Internacional estimou um custo anualizado de US$ 700 bilhões para economias que não investem em preparação para epidemias e pandemias. “É um enorme retorno sobre investimento para um custo relativamente limitado”, afirma.

A própria estrutura da CEPI revela a estratégia adotada. “O C em CEPI significa coalizão”, diz Nguyen. “A coalizão é deliberada porque nenhum ator, isoladamente, consegue enfrentar ameaças virais que podem surgir a qualquer momento e em qualquer lugar.”

O modelo reúne governos, instituições de pesquisa, investidores e indústria farmacêutica para compartilhar risco e capacidade técnica. “Assim, conseguimos responder melhor.”

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