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domingo, 15 de março de 2026

O Coringa e a política do caos



Ontem assisti ao filme Coringa: Delírio a Dois, sequência cinematográfica que aprofunda a análise psicológica de um dos vilões mais complexos do universo do Batman. Mais do que uma história em quadrinhos adaptada ao cinema, o filme é um estudo sobre ressentimento, paranoia e a construção social do caos. Diante dos acontecimentos recentes no cenário internacional, tornou-se inevitável traçar um paralelo político: a figura do Coringa parece encontrar eco simbólico na trajetória de Donald Trump.


Durante décadas, os Estados Unidos cultivaram a imagem de guardiões da ordem internacional liberal, apresentando-se como a nação mais civilizada e defensora das instituições globais criadas no pós-Segunda Guerra Mundial. Contudo, a política externa recente tem colocado em xeque esses próprios fundamentos. Ao tensionar alianças históricas, desacreditar organismos multilaterais e relativizar compromissos diplomáticos, o país contribui para um cenário global de insegurança crescente, marcado pelo rearmamento militar e pela reedição de rivalidades geopolíticas que muitos julgavam superadas.


Quando surgiu como candidato republicano em 2015, Trump construiu sua narrativa política sobre o isolamento estratégico: prometia retirar os Estados Unidos de conflitos externos, priorizar problemas internos e reduzir a participação em instituições internacionais. O discurso encontrava eco em uma sociedade cansada de guerras longínquas e crises econômicas recorrentes.


Entretanto, o que se observa posteriormente é uma inflexão paradoxal. Em vez do isolacionismo prometido, emerge uma postura frequentemente intervencionista e confrontacional, acompanhada de ataques ao sistema de livre comércio que historicamente beneficiou a própria hegemonia americana. Nesse movimento, abre-se espaço para que a China consolide sua posição como principal potência comercial global, ocupando lacunas deixadas pela retração diplomática norte-americana.


Trump transforma-se, assim, numa figura política marcada por um efeito inverso: muitas das causas que combate acabam fortalecidas por suas próprias ações. Ao se opor às energias renováveis, estimula investimentos internacionais nessas fontes; ao elevar tensões com países adversários, reforça alianças alternativas e acelera rearranjos geopolíticos. É uma espécie de Rei Midas às avessas — aquilo em que toca não se converte em ouro, mas em instabilidade.


O risco maior não reside apenas nas políticas concretas, mas na lógica psicológica do legado. Líderes que percebem o fim de seu ciclo político frequentemente buscam inscrever seu nome na história por meio de gestos grandiosos, ainda que disruptivos. Quando essa busca se combina com polarização extrema e ressentimento político, o resultado pode ser profundamente perigoso para a ordem internacional.


A história demonstra que momentos de crise global costumam ser catalisados menos por forças estruturais inevitáveis e mais por decisões humanas específicas. Comparações históricas devem sempre ser feitas com cautela, mas servem como alerta: lideranças movidas por ressentimento, personalismo e desejo de redenção histórica já conduziram o mundo a tragédias profundas.


Talvez seja essa a verdadeira mensagem simbólica evocada pelo Coringa: o caos raramente surge de forma espontânea. Ele nasce quando instituições se fragilizam, quando o espetáculo substitui a razão política e quando a sociedade passa a confundir ruptura com solução. Nesse ponto, cinema e realidade deixam de ser apenas metáforas — e passam a dialogar perigosamente.

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