| Tânia Rego/Agência Brasil |
Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) revelam um cenário de dualidade para o brasileiro em fevereiro de 2026. Se por um lado a cesta básica subiu em 14 das 27 capitais, com altas expressivas no Nordeste, como em Natal (3,52%) e João Pessoa (2,03%), por outro, o comprometimento do salário mínimo com a alimentação caiu de 51% para 46% em um ano.
Apesar da aparente contradição entre a alta dos alimentos em diversas capitais e a redução do peso da cesta básica sobre o salário mínimo, economistas e especialistas em mercado de trabalho apontam que a aparência pode ser explicada por fatores combinados, como a recuperação gradual da renda, reajustes salariais acima da inflação em determinados períodos e oscilações regionais nos preços dos alimentos. Para compreender os impactos reais desses números no poder de compra das famílias e nas desigualdades regionais, a reportagem reuniu dois especialistas, que analisaram os efeitos econômicos e sociais desse cenário e os desafios para os próximos meses.
Juliana Franco, de economia EAD da UniCesumar
1. O comprometimento de 46% do salário com comida ainda é considerado um patamar de insegurança alimentar?
Sim, um comprometimento de 46% da renda apenas com alimentos básicos é considerado um peso muito grande no orçamento familiar, especialmente para as famílias de baixa renda. Para efeito de comparação, o ideal em países desenvolvidos é que esse peso não ultrapasse 15%, e um patamar saudável seria de até 20%. Isso garantiria que sobrasse dinheiro para outros itens essenciais como moradia, saúde, educação e vestuário.
Segundo o Dieese, para cobrir todas as necessidades básicas e manter o gasto com alimentação em no máximo 20%, o salário mínimo no Brasil deveria ser em torno de R$ 7.146,00, um valor pelo menos quatro vezes maior que o atual.
2. Por que capitais do Nordeste, como Natal e João Pessoa, registraram as maiores altas percentuais este mês?
Capitais como Natal e João Pessoa registraram as maiores altas percentuais porque houve uma variação de preços mais acentuada nos principais itens que compõem a cesta básica nessas regiões. Produtos agrícolas como feijão e tomate, que têm um grande peso na inflação de alimentos e costumam apresentar maior oscilação de preço, foram os principais responsáveis.
Além disso, outros fatores que impactam o aumento são os custos logísticos mais elevados na região e questões relacionadas ao abastecimento
3. O que explica a queda de 5% no comprometimento da renda em relação a 2025, mesmo com a cesta subindo em 14 capitais agora? Foi o reajuste do salário mínimo que superou a inflação dos alimentos?
A queda de aproximadamente 5% no comprometimento da renda com alimentação em relação a 2024, mesmo com o aumento do preço da cesta básica em várias capitais, é explicada pelo reajuste do salário mínimo ter sido superior à inflação.
A inflação de 2025 foi de 4,26%, enquanto o reajuste do salário mínimo foi de 6,3%. Esse ganho real no salário mínimo fez com que, na prática, o peso da alimentação no orçamento diminuísse, ainda que o cenário continue exigindo atenção.


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