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quinta-feira, 12 de março de 2026

O "paradoxo da gôndola": cesta sobe em 14 capitais, mas compromete menos do salário em 2026

Tânia Rego/Agência Brasil


Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) revelam um cenário de dualidade para o brasileiro em fevereiro de 2026. Se por um lado a cesta básica subiu em 14 das 27 capitais, com altas expressivas no Nordeste, como em Natal (3,52%) e João Pessoa (2,03%), por outro, o comprometimento do salário mínimo com a alimentação caiu de 51% para 46% em um ano.


Apesar da aparente contradição entre a alta dos alimentos em diversas capitais e a redução do peso da cesta básica sobre o salário mínimo, economistas e especialistas em mercado de trabalho apontam que a aparência pode ser explicada por fatores combinados, como a recuperação gradual da renda, reajustes salariais acima da inflação em determinados períodos e oscilações regionais nos preços dos alimentos. Para compreender os impactos reais desses números no poder de compra das famílias e nas desigualdades regionais, a reportagem reuniu dois especialistas, que analisaram os efeitos econômicos e sociais desse cenário e os desafios para os próximos meses.


Juliana Franco, de economia EAD da UniCesumar


1. O comprometimento de 46% do salário com comida ainda é considerado um patamar de insegurança alimentar?

Sim, um comprometimento de 46% da renda apenas com alimentos básicos é considerado um peso muito grande no orçamento familiar, especialmente para as famílias de baixa renda. Para efeito de comparação, o ideal em países desenvolvidos é que esse peso não ultrapasse 15%, e um patamar saudável seria de até 20%. Isso garantiria que sobrasse dinheiro para outros itens essenciais como moradia, saúde, educação e vestuário.

Segundo o Dieese, para cobrir todas as necessidades básicas e manter o gasto com alimentação em no máximo 20%, o salário mínimo no Brasil deveria ser em torno de R$ 7.146,00, um valor pelo menos quatro vezes maior que o atual.

2. Por que capitais do Nordeste, como Natal e João Pessoa, registraram as maiores altas percentuais este mês?

Capitais como Natal e João Pessoa registraram as maiores altas percentuais porque houve uma variação de preços mais acentuada nos principais itens que compõem a cesta básica nessas regiões. Produtos agrícolas como feijão e tomate, que têm um grande peso na inflação de alimentos e costumam apresentar maior oscilação de preço, foram os principais responsáveis.

Além disso, outros fatores que impactam o aumento são os custos logísticos mais elevados na região e questões relacionadas ao abastecimento

3. O que explica a queda de 5% no comprometimento da renda em relação a 2025, mesmo com a cesta subindo em 14 capitais agora? Foi o reajuste do salário mínimo que superou a inflação dos alimentos?

A queda de aproximadamente 5% no comprometimento da renda com alimentação em relação a 2024, mesmo com o aumento do preço da cesta básica em várias capitais, é explicada pelo reajuste do salário mínimo ter sido superior à inflação.

A inflação de 2025 foi de 4,26%, enquanto o reajuste do salário mínimo foi de 6,3%. Esse ganho real no salário mínimo fez com que, na prática, o peso da alimentação no orçamento diminuísse, ainda que o cenário continue exigindo atenção.


Renato Castro, coordenador de Nutrição EAD da UniCesumar

1. Com o trabalhador comprometendo quase metade do salário com o básico, quais "superalimentos" baratos podem substituir itens que encareceram (como carnes ou laticínios)?

A composição mínima da cesta básica deve incluir cereais (arroz, macarrão, fubá, farinha de mandioca, farinha de trigo..), leguminosas (feijões e similares), raízes e tubérculos (mandioca, inhame, etc..), verduras e legumes, frutas e leite e derivados e carnes e ovos.  Para driblar o comprometimento   salarial   com   uma   das   necessidades   básicas   do   ser   humano   que   é   a alimentação, o trabalhador deve buscar fazer substituições inteligentes. Para onerar menos o orçamento familiar o trabalhador deve buscar substituir no caso das carnes (proteína) que acaba tendo um maior custo, por ovos ou carne de frango ou suína que tem excelentes teores proteicos e proteína de excelente qualidade. No caso das frutas, verduras e legumes, raízes e tubérculos optar por aqueles que estão na safra que tem custo reduzido e melhor teores nutritivos. Em relação as leguminosas substituir o feijão carioca pelo feijão preto que sempre é uma das variedades de menor  custo e  excelente  teor nutritivo. Para  os cereais alternar entre arroz, macarrão, fubá (polenta), quirera de milho é uma estratégia para minimizar os gastos. 

2. Como   planejar uma marmita  semanal  que   custe   menos   de   R$   15,00   por   dia, respeitando os itens da cesta básica?

Vou exemplificar aqui uma marmita para o almoço de segunda a sexta-feira respeitando os princípios   da   segurança   alimentar   e   as   Leis   da  Alimentação.   Cardápio   variado,   colorido, respeitando o calendário de safras, com opções de proteínas (prato principal) mais acessíveis para que não ultrapssse os R$ 15,00 por marmita. 



Uma   outra   forma   de   reduzir   os   custos   coma   alimentação   é   lançar   mão   de   técnicas   de aproveitamento integral doa alimentos. Passar a usar as partes não convencionais dos alimentos na alimentação cotidiana (cascas, talos, folhas, sementes e aparas de alimentos que tem uma riqueza nutritiva incrível.

Indico aqui um manual de receitas de com base no aproveitamento integral de alimentos da Prefeitura   do   Rio   de   Janeiro   que   pode   ser   acessado   gratuitamente   de   forma  digital   em https://subpav.org/aps/uploads/publico/repositorio/Prefeitura_CadernosPromoc%CC%A7a%CC%83oSau%CC%81de_Receitas_Online_v2.pdf

3. Existe algum item da  cesta   que pode ser cortado  sem   prejuízo à saúde se o orçamento apertar demais? 

Pensando no conceito de segurança alimentar, que consiste no acesso permanente a alimentos em  quantidade   adequada   para  suprir  as   necessidades,  livres  de   contaminantes,  de  forma permanente e sem comprometer as demais necessidades humanas nenhum alimento pode ser excluso, porém, substituídos. Substituir, por exemplo alimentos entressafras, que são mais caros e tem menores teores nutritivos, por aquelas da safra que tem menor custo e maiores teores nutritivos. Outra forma de substituir os alimentos da cesta básica de maiores custos por outros de menor preço é buscar fazer as aquisições em sacolões, feiras livres, aproveitando o momento da xepa, implementar horta domiciliar, verificar se no bairro onde reside tem horta comunitária e se os Ceasas da sua cidade ou domicílio tem algum dia dedicado a vendas no varejo. 

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