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quarta-feira, 18 de março de 2026

O trauma que só se revela depois: violência sexual na infância e adolescência pode marcar por décadas

Com mais de 74 mil vítimas registradas em um ano no Brasil — a maioria crianças e adolescentes — especialistas alertam que o impacto psíquico do abuso muitas vezes só se torna compreensível muito tempo depois



O Brasil registrou 74.930 vítimas de estupro em 2022, o maior número da série histórica, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Isso significa mais de 200 casos por dia. Em 61% das ocorrências, as vítimas tinham até 13 anos, o que caracteriza estupro de vulnerável. O levantamento também indica que cerca de 70% dos crimes ocorrem dentro da própria casa e que, na maior parte das vezes, o autor é alguém conhecido ou próximo da família. 

Mais do que números, esses dados revelam a proximidade da violência e a vulnerabilidade das relações em que ela se inscreve. Nos últimos meses, episódios envolvendo jovens, incluindo situações cometidas em grupo, reacenderam o debate público sobre os fatores sociais e psíquicos que atravessam esse tipo de crime. 

Durante a CPI do Crime Organizado, a juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, chamou atenção para o fato de que atos particularmente violentos — como estupros virtuais, tortura de animais e homicídios — têm sido cometidos por adolescentes provenientes de contextos socioeconômicos favorecidos, com acesso a boas escolas e presença familiar. 

Segundo ela, nesses casos, a violência pode aparecer como uma forma trágica e equivocada de expressar necessidades legítimas não atendidas. A principal delas seria a necessidade de conexão humana — de vínculo, de afeto, de ser visto e de se sentir importante. 

Nesse contexto, comunidades extremistas e determinados ambientes digitais passam a funcionar como espaços de pertencimento, nos quais esses jovens são recrutados, encontrando validação — lugares em que são vistos, valorizados e onde, muitas vezes, a dor deles importa. 

O dado revela uma questão mais ampla: a fragilidade de vínculos familiares, bem como falhas nas experiências de afeto e pertencimento. 

Frequentemente, esses acontecimentos são analisados a partir do momento do abuso. No entanto, seus efeitos psíquicos não se limitam ao episódio em si. 

Para a psicanalista Camila Camaratta, o trauma muitas vezes se instala justamente naquilo que não pôde ser compreendido, nomeado ou simbolizado no momento em que ocorreu. “A violência sexual contra crianças e adolescentes costuma ser pensada a partir do ato em si. No entanto, do ponto de vista psíquico, o trauma não se reduz ao acontecimento.” 

Segundo ela, não é incomum que a própria vítima leve tempo para reconhecer o que aconteceu. “Em situações traumáticas, a experiência pode surgir primeiro como estranhamento difuso, dúvida ou mesmo irrealidade. Quando uma adolescente escreve a alguém dizendo que ‘acha’ que foi estuprada, isso revela algo essencial sobre o funcionamento do trauma: o psiquismo ainda está tentando compreender uma experiência que o excede.” 

Há experiências em que o sujeito é submetido prematuramente, antes de poder vivenciá-las.

Do ponto de vista psíquico, o trauma frequentemente se constitui quando algo acontece cedo demais — ou de forma abrupta demais — para que o sujeito disponha de recursos simbólicos para elaborar o vivido. 

A vivência pode permanecer, então, como um núcleo estranho na vida psíquica, reaparecendo posteriormente sob diferentes formas: crises de angústia, dificuldades nas relações afetivas, conflitos com o próprio corpo ou perturbações da vida emocional. 

Em muitos casos, os efeitos do trauma tornam-se mais visíveis apenas anos depois, quando o psiquismo finalmente encontra condições para, então, se aproximar daquilo que antes era impossível de lembrar e pensar. 

Além da dimensão individual, episódios recentes também chamam atenção para uma dimensão social inquietante. 

Casos envolvendo agressões coletivas praticadas por adolescentes têm provocado debate entre pesquisadores sobre a dinâmica psicológica dos grupos e sobre como determinados contextos sociais podem favorecer a escalada da brutalidade. 

Em situações de grupo, os limites podem se enfraquecer e o comportamento passa a ser influenciado pela identificação com os outros membros do coletivo. Em determinadas circunstâncias, o grupo pode funcionar como um espaço de validação e pertencimento, no qual o sujeito se sente autorizado a agir a partir do coletivo. 

Como já indicava Sigmund Freud em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), o funcionamento em grupo pode produzir uma regressão psíquica, com enfraquecimento dos limites e diluição da responsabilidade individual. 

Outro elemento apontado por especialistas está relacionado às transformações culturais que atravessam a sexualidade contemporânea. A curiosidade sexual sempre acompanhou a adolescência. O que mudou, nas últimas décadas, foi o ambiente em que essa curiosidade se desenvolve. 

Antes da internet, o acesso à pornografia existia, mas era mais restrito e episódico. Hoje, com smartphones e plataformas digitais, o contato tornou-se praticamente ilimitado. 

Pesquisas internacionais indicam que muitos jovens entram em contato com pornografia por volta dos 11 ou 12 anos, frequentemente de forma acidental, antes mesmo de desenvolverem uma compreensão sobre sexualidade. 

Quando uma imagem sexual explícita se impõe ao olhar de uma criança que não a buscou e que ainda não dispõe de recursos psíquicos para compreendê-la, essa experiência pode adquirir um caráter intrusivo. 

“A sexualidade aparece primeiro como imagem, antes de aparecer como pergunta.” 

Nesse contexto, muitos adolescentes passam a entrar em contato com a sexualidade mais por meio de conteúdos digitais do que através da relação com o outro. 

“A pornografia contemporânea frequentemente apresenta a sexualidade como performance, espetáculo violento ou mesmo como exercício de poder e submissão, e não como experiência de reciprocidade.” 

Esse cenário também se cruza com fenômenos culturais recentes presentes em determinados ambientes digitais frequentados por adolescentes e jovens adultos. 

Comunidades conhecidas como machosfera e movimentos associados ao universo das chamadas red pills difundem narrativas em que as relações entre homens e mulheres são interpretadas a partir de uma lógica de competição, dominação ou ressentimento. 

Quando essas narrativas encontram jovens ainda em processo de construção da identidade masculina, podem reforçar imaginários em que o corpo feminino deixa de ser reconhecido como sujeito de desejo e passa a ser tratado como objeto de validação entre pares. 

Articuladas às dinâmicas de grupo — tão intensas na adolescência — essas formas de representação podem favorecer a emergência de violências particularmente brutais. Nesses contextos, o outro deixa de ser percebido como sujeito e passa a ser reduzido a objeto. 

A agressão coletiva revela, assim, não apenas o trauma da vítima, mas também fraturas profundas na forma como certos grupos reconhecem — ou deixam de reconhecer — os limites do corpo e da dignidade do outro. 

Ainda assim, o trauma não determina necessariamente o destino psíquico de uma vida. 

Entre o acontecimento traumático e a história de alguém existe sempre a possibilidade de elaboração. 

Quando aquilo que foi vivido encontra escuta, reconhecimento e palavras, algo pode começar a ser simbolizado e integrado à história do sujeito. 

O trauma não é apenas o que aconteceu — é também aquilo que, por muito tempo, não pôde ser dito.

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