Um artigo publicado recentemente pela tradicional revista americana The Atlantic sustenta que o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, passou a apresentar características típicas de regimes fascistas.
O texto é assinado pelo jornalista e pesquisador Jonathan Rauch, que argumenta que, embora inicialmente resistisse a usar o termo “fascismo”, a soma de práticas políticas e institucionais observadas ao longo do governo Trump o levou a rever sua posição.
Segundo o autor, o conceito de fascismo é historicamente controverso e possui definições variadas, já que os regimes de Benito Mussolini, Adolf Hitler e Francisco Franco apresentaram diferenças entre si. Ainda assim, Rauch afirma que o conjunto de práticas adotadas pelo atual governo norte-americano revela um padrão político que se aproxima do modelo fascista.
Do “patrimonialismo” ao fascismo
Em análises anteriores, Rauch descrevia o estilo de governo de Trump como patrimonialista — um sistema no qual o líder trata o Estado como extensão de seus interesses pessoais. Essa interpretação também havia sido sugerida por figuras que trabalharam com Trump, como o ex-conselheiro de segurança nacional John Bolton.
No entanto, o autor afirma que, ao longo do último ano, o governo teria evoluído para algo mais ideológico e sistemático. Ele aponta que o fascismo não se define por um único ato, mas por um conjunto de características que, quando observadas em conjunto, formam um padrão político.
Elementos apontados no artigo
O texto enumera diversos aspectos que, segundo o autor, aproximariam o trumpismo do fascismo histórico:
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Destruição de normas democráticas, com ataques recorrentes a adversários, jornalistas e instituições;
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Glorificação da violência, incluindo elogios a ações violentas de apoiadores e linguagem agressiva contra opositores;
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Politização do sistema de justiça, com pressões e investigações direcionadas a adversários políticos;
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Desumanização de opositores e imigrantes, descritos em discursos como “vermes” ou ameaças ao país;
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Expansão de aparato policial e repressivo, com maior atuação de agências federais de imigração;
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Ataques à imprensa, frequentemente classificada por Trump como “inimiga do povo”.
O artigo também cita episódios como o ataque ao Capitólio dos Estados Unidos em 6 de janeiro de 2021, interpretado por muitos analistas como uma tentativa de contestar o resultado das eleições presidenciais de 2020.
Nacionalismo e culto ao líder
Outro ponto destacado é a construção de uma narrativa nacionalista baseada na ideia de um “povo verdadeiro”, semelhante ao conceito de volk presente nos regimes fascistas europeus. Segundo Rauch, essa visão estaria associada a propostas de restrição à cidadania por nascimento e a discursos que privilegiam uma identidade nacional branca e cristã.
O texto também menciona o desenvolvimento de um culto à personalidade em torno do presidente, característica comum em regimes autoritários.
Democracia americana ainda resiste
Apesar das críticas, o autor afirma que os Estados Unidos ainda não se tornaram um regime fascista. Para ele, instituições como o Judiciário, os estados federados e a imprensa continuam funcionando de forma independente.
“Os Estados Unidos se tornaram um Estado híbrido: um líder com tendências fascistas governando sob uma Constituição liberal”, escreve Rauch.
O autor conclui que a utilização do termo “fascismo” não deve ser vista apenas como retórica política, mas como uma tentativa de identificar e compreender um fenômeno político contemporâneo que, segundo ele, representa um risco à democracia liberal.


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