Recentemente, a Anvisa intensificou o monitoramento de possíveis casos raros de pancreatite aguda relacionados a medicamentos dessa classe
O uso de medicamentos injetáveis para perda de peso, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”, tem crescido nos últimos meses. Apesar da popularidade nas redes sociais e da procura crescente, especialistas alertam que esses fármacos não devem ser utilizados por conta própria ou com finalidade exclusivamente estética.
Segundo Vinicius Lira da Câmara, endocrinologista e professor da Universidade Potiguar (UnP), integrante da Inspirali, Ecossistema que atua na gestão de 15 escolas médicas em diversas regiões do Brasil, o próprio termo popular pode levar a uma interpretação equivocada sobre o tratamento. “Passa a ideia de algo simples, como se fosse um recurso estético para qualquer pessoa que queira perder alguns quilos. E não é isso. Estamos falando de medicamentos desenvolvidos para tratar doenças metabólicas”, explica.
Esses medicamentos atuam imitando hormônios produzidos pelo intestino, principalmente o GLP-1 e, em alguns casos, também o GIP. Entre os efeitos estão o aumento da sensação de saciedade, a redução do apetite, o retardo do esvaziamento do estômago e a melhora do controle da glicose no sangue.
Por isso, são indicados principalmente para pessoas com obesidade ou para pacientes com sobrepeso associado a doenças como diabetes tipo 2, hipertensão e apneia do sono, além de indivíduos com diabetes que precisam melhorar o controle glicêmico. O endocrinologista destaca ainda que o uso dessas medicações não deve ser alvo de julgamento ou discriminação, já que a obesidade é reconhecida pela medicina como uma doença crônica e multifatorial.
“Assim como ocorre em outras doenças, o tratamento da obesidade pode envolver diferentes abordagens, incluindo o uso de medicamentos. Não se trata de vaidade, mas de cuidado com a saúde”, reforça o professor, ressaltando que essas medicações devem ser prescritas e acompanhadas por médico, dentro de uma estratégia de tratamento bem definida.
Pancreatite aguda
Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reforçou o monitoramento de possíveis casos raros de pancreatite aguda associados a medicamentos dessa classe. De acordo com o endocrinologista, esse tipo de comunicado faz parte do sistema de farmacovigilância, responsável por acompanhar continuamente a segurança dos medicamentos após sua liberação para uso.
A pancreatite aguda é uma inflamação súbita do pâncreas, órgão responsável pela produção de enzimas digestivas e hormônios importantes, como a insulina. O quadro costuma se manifestar com dor abdominal intensa e persistente, geralmente localizada na parte superior do abdome, podendo irradiar para as costas, além de náuseas, vômitos e mal-estar.
“O alerta é importante para que médicos e pacientes estejam atentos. Se houver dor abdominal intensa e persistente, é fundamental procurar atendimento médico. Caso haja suspeita de pancreatite, o medicamento deve ser suspenso imediatamente até avaliação médica”, orienta Vinicius.
Outro ponto de atenção é o uso indiscriminado desses medicamentos, especialmente quando adquiridos sem prescrição médica ou por vias informais, como internet ou comércio irregular. “O problema não está no medicamento em si, mas no uso sem indicação clínica, sem acompanhamento médico e com aquisição por fontes duvidosas. Em medicina, o contexto faz toda a diferença”, afirma.
Segundo o especialista, o tratamento com esse tipo de medicação exige avaliação médica completa, incluindo cálculo do índice de massa corporal (IMC), investigação de doenças associadas, análise do histórico do paciente e exames laboratoriais. “São medicamentos seguros quando bem indicados, mas não são para todo mundo. Precisam sempre de avaliação médica individualizada, considerando riscos, benefícios e características de cada paciente”, conclui.


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