A decisão da Anvisa de ampliar a indicação da vacina Arexvy marca uma inflexão importante na forma como o sistema de saúde passa a encarar o VSR: não apenas como uma infecção sazonal, mas como um fator associado a desfechos clínicos mais amplos e graves, especialmente em adultos e populações com maior risco1.
Até recentemente, o foco da vacinação contra o VSR estava concentrado em pessoas com 60 anos ou mais.
Com a nova decisão, a indicação passa a incluir adultos a partir de 18 anos. A ampliação foi sustentada por estudos de imunogenicidade que demonstraram resposta imune adequada também em públicos mais jovens. O vírus é uma causa relevante de infecções respiratórias ao longo da vida e pode levar a quadros mais graves, como bronquiolite, pneumonia e agravamento de doenças respiratórias crônicas, com impacto clínico importante em adultos e maior risco de hospitalização em grupos mais vulneráveis.
“Essa decisão reflete um avanço na compreensão do VSR. Hoje sabemos que ele não se limita ao trato respiratório: pode desencadear ou agravar eventos cardiovasculares e descompensar doenças crônicas. Ampliar a indicação da vacina significa atuar antes que esses desfechos ocorram”, afirma a infectologista e coordenadora em vacinas na Dasa, Maria Isabel de Moraes-Pinto.
Do respiratório ao sistêmico: por que a indicação mudou
A ampliação da indicação ocorre em um contexto de avanço no entendimento sobre o impacto do VSR na saúde adulta. Evidências recentes mostram que a infecção pode ter repercussões além do sistema respiratório e pode desencadear desfechos mais amplos, especialmente em populações mais vulneráveis.
Um estudo de mundo real apresentado na RSVVW’26 — encontro científico internacional dedicado ao vírus sincicial respiratório —, com mais de 2,5 milhões de adultos, mostrou que pessoas vacinadas tiveram redução de 75,6% nas hospitalizações relacionadas ao VSR em comparação com não vacinados².
Os dados também apontam benefícios adicionais, com redução de eventos cardiovasculares adversos, como infarto e AVC, além de menor ocorrência de exacerbações graves de DPOC e crises de asma.
“Quando começamos a observar efeitos além da infecção respiratória, a vacinação passa a ter um papel ainda mais relevante no contexto do envelhecimento populacional. O Brasil está envelhecendo rapidamente, e isso aumenta o número de pessoas mais vulneráveis a complicações infecciosas”, afirma a infectologista Rosana Richtmann, do Delboni e Lavoisier.
Esse cenário ganha ainda mais relevância nos períodos de maior circulação de vírus respiratórios, como outono e inverno, quando há aumento de hospitalizações e agravamento de doenças crônicas em adultos.
Nesse contexto, a medida adotada pela Anvisa se insere como estratégia de antecipação ao risco, com potencial de reduzir internações e evitar a piora do quadro clínico após a infecção. A decisão também acompanha um movimento mais amplo da saúde de aproximar a prevenção da rotina, ao considerar o risco clínico — e não apenas a faixa etária — como critério para intervenção.
“Ampliar a indicação ajuda a reduzir internações e a evitar o efeito cascata que muitas vezes vemos após uma infecção viral — quando o paciente não retorna ao seu estado basal de saúde”, reforça a especialista.
“Prevenção por vacinas hoje, engloba ação preventiva direta sobre a doença em si, mas também indireta como prevenção de outras consequências mais graves. E isso passa por identificar quem está em risco antes do evento acontecer”, conclui.
Referências
1 - BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Anvisa amplia para maiores de 18 anos uso de imunizante que previne bronquiolite. Brasília, 2026. Disponível em: Link. Acesso em: 14 abr. 2026.
2 - GSK. GSK’s Arexvy associated with reductions in certain RSV-related risks including heart attack, stroke and severe flare-ups of COPD and asthma: real-world study shows. 2026. Disponível em: Link. Acesso em: 14 abr. 2026.


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