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quarta-feira, 8 de abril de 2026

Cinema brasileiro se beneficia de políticas de investimentos fortalecidas nas últimas duas décadas

Indicações internacionais evidenciam o fortalecimento da produção nacional, resultado de políticas públicas e da ampliação da formação profissional no setor



Por Susana Oliveira no Jornal da USP


Capitaneado por produções como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, o cinema brasileiro voltou a chamar a atenção do público e da crítica internacional com participações em grandes festivais e premiações, como o Academy Awards e o Festival de Cannes. Esse movimento levanta a discussão sobre o papel dos investimentos no fortalecimento do audiovisual nacional. O reconhecimento, no entanto, não surgiu de forma repentina. Segundo o professor Rubens Arnaldo Rewald, do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, a visibilidade atual é resultado de um processo iniciado há cerca de duas décadas, com políticas públicas voltadas ao fortalecimento do setor audiovisual.

“Isso é fruto de uma política de investimentos no setor audiovisual que vem sendo construída nos últimos 20 anos, principalmente nos primeiros governos de Luiz Inácio Lula da Silva. Nesse período foi criado o Fundo Setorial do Audiovisual, um mecanismo muito robusto de produção e financiamento”, explica.

De acordo com o professor, esses investimentos não se limitaram apenas à produção de filmes, mas buscaram fortalecer toda a cadeia do audiovisual. “Havia investimentos em desenvolvimento de projetos, núcleos criativos, produção, finalização, distribuição e licenciamento, pensando em toda a cadeia audiovisual, que é muito complexa.”

Outro aspecto importante desse processo foi a descentralização da produção cinematográfica no País. “Houve uma política de descentralização que fortaleceu produções regionais, principalmente em Estados como Pernambuco, Bahia e Minas Gerais. Isso permitiu que cineastas de diversas regiões tivessem a possibilidade de filmar um, dois ou três filmes”, diz.

Qualidade artística e técnica
Para Rewald, a ampliação da produção é um fator decisivo para o avanço da qualidade artística e técnica do cinema nacional. “A qualidade de uma cinematografia só advém da quantidade. Quando você tem continuidade de produção, os profissionais conseguem desenvolver melhor o seu trabalho e aprimorar os filmes tecnicamente, dramaticamente e artisticamente.”

Ele também destaca que o crescimento do número de cursos de Cinema no Brasil contribuiu para a formação de novos profissionais e para a consolidação do setor. “Hoje, praticamente todo Estado tem cursos de Cinema, tanto públicos quanto privados. Isso ajudou a formar uma nova geração de profissionais, porque o cinema é uma arte coletiva. Não é só o diretor: você precisa de roteirista, produtor, fotógrafo, técnico de som, montador. Todos são fundamentais.” Para se ter uma ideia, dados do Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual (Forcine) mostram que em 2004 havia 35 cursos de Cinema e Audiovisual no Brasil, e que em 2024 esse número saltou para 210. 

Apesar do momento de visibilidade internacional, o professor aponta que o setor ainda enfrenta desafios internos importantes. “Estamos vivendo uma situação um pouco contraditória. Por um lado, há uma euforia pela visibilidade e pelos prêmios internacionais. Por outro, o setor produtivo enfrenta desorganização e concentração, com muitas pequenas e médias produtoras em dificuldade.”

Entre os principais desafios está a regulação das plataformas de streaming no País. Segundo Rewald, a ausência de regras claras para esse mercado limita o fortalecimento da indústria audiovisual brasileira. “As plataformas abriram oportunidades de produção, mas o sistema atual é nocivo à indústria audiovisual brasileira. É fundamental que haja uma regulação do Vídeo sob Demanda, mais conhecido como VOD, que ajude a fortalecer o setor.”

Ele ressalta ainda que, além do financiamento da produção, é essencial investir na distribuição e na divulgação das obras. “Não adianta apenas produzir o filme. É preciso também ter recursos para distribuí-lo e promovê-lo. O investimento em marketing é fundamental para que o filme tenha visibilidade no mercado nacional e internacional.”

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